segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

VIDUTOS DESNECESSÁRIOS

O princípio da discussão democrática participativa foi abolido, nos últimos anos, no Brasil. Decisões são tomadas para agradar o crescimento do PIB. Obras são levantadas afrontando as necessidades básicas de comunidades. Não importa que a natureza seja agredida. Paga-se a multa que servirá para outras obras igualmente depredadoras do ambiente. Assim aconteceu no vilarejo Engenho das Lajes.
Esta carta foi enviada e publicada no Correio Braziliense em 21 de dezembro de 2009.
Senhor Redator,

"Como promotor voluntário da preservação ambiental da região em que se produziu o desastre ambiental sobre o Ribeirão Engenho das Lajes, deixando cinco mil moradores sem água, desejo complementar as informações da reportagem do Correio Brasiliense (17.12.2009). Os habitantes da Agrovila Engenho das Lajes há muitos anos vem solicitando aos sucessivos governos uma passarela simples para evitar atropelamentos na BR 060 que corta o vilarejo ao meio. Em vez da passarela, de saneamento básico e de asfaltamento das ruas do Engenho das Lajes, muito menos caros, para espanto da comunidade, começou-se a construir um monstruoso e injustificável viaduto.Os custos dos crimes ambientais também entram na conta do PIB?"

domingo, 27 de dezembro de 2009

ORÇAMENTO BARRIGUDO

A chefe da delegação brasileira para a COP15, composta de 720 convidados, avisou aos países ricos que “sem dinheiro não sai acordo”. O ponto importante não era a disposição de refrear o uso indiscriminado de equipamentos requeridos pelo crescimento econômico com a finalidade de diminuir a emissão de gases de efeito estufa, ou CO2. O olho da ministra e, provavelmente, de grande parte dos países pobres e emergentes – todos pertencentes ao capitalismo de mercado ou de Estado − estava no volume de dinheiro ao alcance da mão. Qualquer soma acima do milhão, a experiência e os fatos atestam, foge ao controle e vaza entre as mãos e vestimentas dos executores.
O forte argumento das discussões de âmbito internacional é que o maior poluidor são sempre os outros, os países ricos. Estados Unidos em primeiro lugar. Os países pobres se põem na posição de garis obrigados por profissão a limpar a sujeira produzida pela displicência dos ricos.
Estamos diante de um dilema: os ricos sujam porque têm dinheiro, os pobres sujam porque não têm. Os ricos têm dinheiro para sujar. Os pobres não têm dinheiro para limpar. Ambos, ricos e pobres, dizem que não podem parar de sujar.
Os legisladores brasileiros acabaram de aprovar um gordo orçamento na casa do trilhão de reais para gastar em 2010.
O conjunto automotriz – indústria e comércio − investirá bilhões para produzir CO2. Quantos bilhões para limpar a atmosfera?
A aviação nacional e internacional − empresários e passageiros − espalhará bilhões para sujar a atmosfera. Quantos para limpá-la?
Os desmatadores da Amazônia e do Cerrado enterrarão bilhões para dizimar biomas e reduzir a biodiversidade. Quantos bilhões serão desembolsados para tirar essas regiões do coma induzido?
A indústria imobiliária arrasará bosques, secará mananciais, desertificará amplas regiões, roubará espaços necessários ao movimento dos fenômenos naturais, causará inundações nas cidades. Quantos bilhões creditará à limpeza?
O governo estimula obras bilionárias que facilitam a emissão de CO2 de forma irracional e descontrolada. Quantos bilhões realmente aplicará para limpar a sujeira produzida?
Os bancos oficiais e privados lucrarão bilhões para incentivar o consumo predador e muitas vezes desnecessário, anestesiando a consciência ecológica e ambiental de milhões de clientes. Quantos bilhões, além da publicidade das boas intenções, se dirigem a limpar a sujeira provocada?
A população que se expande é incentivada pelos governos, pelos donos da economia e pela mídia a gastar bilhões. Reduzem-se impostos, abrem-se as carteiras de crédito, diminuem-se os juros, alargam-se os prazos, distribui-se dinheiro aos que não podem ou não sabem produzir. Fecha-se, assim, o ciclo da irracionalidade ecológica. Consumir mais para produzir mais, rumo ao infinito. Produzimos lixo a custo alto e reclamamos da falta de dinheiro para varrer os detritos e entulhos que deixamos pelo caminho.
A lista é longa e enfadonha pelo fato de não se produzir sem sujar. Quem, em todas as esferas da economia e do governo pensa seriamente na aplicação de seus trilhões? Nem o Presidente, nem seus ministros, nem os legisladores acordaram para a (ir)responsabilidade política de estímulo à sujeita ambiental acumulada. Nem pensaram que antes de exigir dinheiro suplementar alheio para perder-se em maracutaias e mensalões é preciso usar a prata da casa em ações que possam sujar cada vez menos. O custo da limpeza será, então, muito menor.

EUFORIA GERAL

Economistas, sociólogos, jornalistas, adesistas de várias categorias, repetidores de índices e indicadores, analistas políticos, investidores do comércio varejista e da indústria automotriz e eletrônica preveem para 2010 perspectivas otimistas de bem estar econômico.
Daqui de minha janela, vejo o Brasil separado em dois blocos. Um, com ricos, mais ricos, riquíssimos. Para estes, qualquer situação que se apresente, em 2010, lhes será favorável. Encherão restaurantes, bares, shoppings, aviões, carros luxuosos. Outro, com famintos, miseráveis, pobres, menos pobres, consumidores de eletrônica barata e quinquilharias chinesas e os quase ricos, endividados em créditos perpétuos de prestações geradas por cartões de fidelidade.
A desigualdade entre os dois blocos é observada e medida pelo critério do mais que nada. Trata-se de diminuir a desigualdade intrínseca dos subgrupos. O faminto de hoje se iguala ao menos faminto de amanhã. Nada a ver com o rico de hoje e o mais rico de amanhã.
As comparações entre os avanços do quase rico endividado são mais alentadoras para o otimismo geral. Os menos pobres usam celular com o mesmo sinal do riquíssimo. A tecnologia do fim iguala a todos, separados pela tecnologia dos meios. Os brasileiros usam 170 milhões de celulares com ou sem necessidade.
Em alguns setores é possível diminuir a desigualdade de acesso a serviços. É inimaginável levantar uma torre de repetição para uma elite privilegiada nem estender uma linha de trem só para famintos. Onde a desigualdade aparece entre riquíssimos e quase ricos é na escola, na aprendizagem, na amplitude dos conhecimentos, na compreensão do universo, nas relações de convivência, nos privilégios e na discriminação.
É lento o processo de desaceleração da desigualdade nos serviços de saúde, de habitação, de lazer, de trabalho criativo. Por isso, é mais fácil ser otimista analisando-se a economia em números grossos, apelando para os milhões, bilhões, trilhões. A aritmética rasteira não consegue seguir essas cifras, mas elas produzem euforia e otimismo generalizado saídos da geladeira, do celular, do computador e do carro zero. São esses alguns dos méritos do Bolsa Família que diminui o número de famintos e miseráveis, alivia as tensões dos menos pobres sem afetar a velocidade de enriquecimento dos mais ricos.
É evidente que não se constroi uma sociedade igualitária apenas eliminando a fome e apaziguando a consciência coletiva com o mais que nada. É necessário perguntar-se por que um país dito celeiro do mundo comporta 60 milhões de pessoas com fome? Caminhando pelas ruas, viajando em trens, visitando museus em países que, há mais de duzentos anos, se ocupam e preocupam com os direitos concretos de seus cidadãos, é quase impossível distinguir pela vestimenta, pelas atitudes e expressão lingüística a que classe social pertencem as pessoas. A informação essencial, o conhecimento básico plural, as atitudes sociais e relacionais indicam uma linha constante de igualdade e independência, de soberania individual sem a subserviência do dominado político.
Aqui, onde a sociedade demora no estágio da fome, da pobreza e dos rendimentos infra-humanos do trabalho quase escravo vê-se, de um lance, quem é miserável, pobre, quase rico pela via artificial das dívidas e quem pertence à pequena camada de ricos sem falar dos riquíssimos.
Não se denunciam pobres apenas pela vestimenta e pelo andar, Sua desigualdade é compacta e precede a pessoa que a afeta. Sua atitude de submissão, de defesa, de imploração, seu olhar vazio, sua amargura crônica, seu linguajar, sua ignorância básica e atávica, envolta em superstições danosas e insuperáveis o denunciam. A desigualdade tem que ser superada por cima, não por baixo. Não é aproximando o miserável do pobre ou o pobre do menos pobre que se supera a desigualdade. É pondo barreiras éticas por cima, sem medo de ferir a livre iniciativa ou o enriquecimento sem limites.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A SEREIA DE COPENHAGUE - I -

Não vi nem ouvi, durante os 15 dias da COP15, notícias da quantidade de emissões de CO2 descarregada na atmosfera pela multidão concentrada em Copenhague. Não sou especialista em aquecimento climático nem estatístico de emissões de gases-estufa. Apenas um curioso ouvinte dos sábios e anjos que baixaram aos pés da Sereia.
O vaivém das discussões, o alarme dos que fogem do naufrágio de suas ilhas e terras, o choro dos governantes de países cronicamente pobres, economicamente emergentes, mentalmente subdesenvolvidos e a teimosia dos donos de economias dominantes criaram o ambiente de confusão, de perplexidade e do fracasso das negociações.
No interior do magnífico salão Bella Center, negociou-se o preço do clima e barganhou-se o grau de aquecimento do planeta. Perderam-se na definição e fixação de números e percentuais para expressar o poder dos que não pretendem atacar as causas do desastre ecológico e ambiental em curso e, ao mesmo tempo, as veleidades dos que desejam e batalham para entrar no clube dos grandes poluidores do planeta, devastadores da natureza e carrascos da humanidade.
Os atores invisíveis da COP15 orientaram, dominaram e pressionaram os visíveis − quase duas centenas de governantes de países ricos e pobres. Todos os governantes, sem exceção, e seus negociadores mantinham um olho nos objetivos estabelecidos pelos organizadores e outro nos financiadores do evento, donos da multifária economia mundial: da indústria, do comércio e de bancos.
Esse dúbio comportamento gerou a impressão lamentável de que uns não podiam ou não queriam decepcionar outros. A tática escolhida foi a guerra de números e metas. Uns com base no passado inamovível, outros, no futuro volátil e incerto. Os países ricos que exauriram a natureza com altos índices de emissões destrutivas, estimulados pela doutrina insensata do crescimento infinito e do consumismo obsessivo como indicador de “qualidade de vida”, não pretendem sacrificar seu ritmo de expansão e de enriquecimento para continuar ditando ordens ao mundo.
Os paises pobres são astuciosos. Arrancaram aplausos culpando os ricos pelos erros do passado e pelas ações desastrosas do presente. Salvo exceções, pouco divulgadas, os países ditos emergentes, fingem querer, mas sem compromissos sérios nem atos concretos, de promover de forma diferente o uso das riquezas naturais. Os governos dos países pobres aprenderam a ornar seus programas de crescimento econômico, copiados aos dos países ricos, com o termo “sustentabilidade” por determinação do Banco Mundial. Sustentável significa ampliar a capacidade per capita de consumo para cima e para os lados, incentivando a indústria, derramando créditos e dívidas, aliviando taxas e impostos. A população incauta é incentivada a caminhar na direção do luxo enquanto outros já estão no patamar do superluxo.
As medidas tomadas e executadas para deter a crise que se abateu sobre o crescimento econômico infinito não se destinam a diminuir sua velocidade e avanço. São contraditórias a tudo o que se proclamou nos discursos emocionados e pontuados de bravatas de alguns líderes mundiais.
Em resumo, o que se ouviu é que todos querem chegar ao mesmo ponto com números diferentes: os ricos não pretendem ser menos ricos e os pobres não querem barreiras que os impeçam de alcançar o mesmo estágio dos ricos com os mesmos meios e as mesmas catástrofes. Não se percebeu quais os argumentos que orientaram a vasta delegação brasileira de 720 convidados porque o princípio da discussão democrática foi abolido no Brasil. Há centenas de vozes esparsas, mas o condutor é incessível. Alguém decide, no círculo restrito de seu gabinete, e vem cá fora, com cara de mágico, nos encher de intermináveis e esdrúxulas explicações, tirando coelhos do chapéu ou espetando caixões vazios.
O que temos, no Brasil, é um processo autoritário e fascista de informação que atende aos interesses do grupo de economistas e políticos que domina o núcleo central das decisões. Os noticiários centram sua ênfase nas taxas de juros do Banco Central, não nas dos bancos oficiais e privados; na gangorra irritante das bolsas do país e do mundo; nos índices de consumo do varejo e sua consequência na indústria de eletrodomésticos, indústria automotriz e indústria imobiliária. Um astucioso acompanhamento estatístico gera indicadores favoráveis e otimistas para esconder a verdadeira realidade da economia fora da pequena área.
O reles, o comum, o secundário, o menos importante para nossos governantes, em escala ascendente – municipal, estadual e federal − é a devastação sistemática e implacável da natureza.
Na Amazônia já derrubamos o suficiente com a ajuda incontrolada dos grandes grupos da bovinocultura, da soja, do cacau e do café, da mineração e das hidrelétricas. Damo-nos, agora, o luxo de cometer bravatas com números altos, pois já alcançamos o topo da destruição. Contentamo-nos com a preservação de 50% da floresta, isto é, continuaremos a dizimá-la a uma velocidade condizente com a leniência das ordens oficiais e personalizadas.
A Mata Atlântica é uma reminiscência de floresta cercada de desertos rurais e urbanos por todos os lados. O Pampa está coberto de soja e inundado pelas águas da chuva que não encontram mais os antigos bosques. O Nordeste, há tempos, saiu dos programas de recuperação racional e se dessedenta com cisternas caseiras e o imprevisível efeito da transposição do Rio São Francisco. O Cerrado, no vasto Planalto Central, invadido por hordas migratórias e populações sem rumo, está sendo pisoteado pela bovinocultura, pela soja e pela cana do etanol, pela urbanização desertificadora, pondo em risco o berço de nossas águas e o verde de nossas florestas.

A SEREIA DE COPENHAGUE II

Se a humanidade não desenvolveu tecnologia eficiente e adequada para deter o processo natural de aquecimento do planeta e estimulado pela ação humana discutido em Copenhague, sem acordo de números e metas, é possível atuar em muitas outras frentes com medidas simples e inteligentes.
A humanidade vem se adaptando e resistindo às modificações climáticas há milênios. Parece que entramos na era do secamento, aquecimento e desertificação do planeta e, ao mesmo tempo, de inundações surpreendentes e fora de controle. A era das contradições climáticas do ponto de vista da prática cotidiana. A destruição da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, do Nordeste, do Pampa foi causada pela mão explícita do homem. Se tem a ver com o derretimento das geleiras é o que a ciência investiga e indícios fortes levam a concluir que a pegada ecológica da humanidade avança perigosamente. Mas o que não permite dúvidas é a ação humana devastadora na exploração das riquezas naturais para abastecer e garantir a sobrevivência de quase 7 bilhões de pessoas, sem contar os bilhões de animais e outros seres vivos que integram distintos rebanhos e florestas a serviço do homem.
Se a tecnologia que temos, sem falar na falta de vontade política adormecida para assegurar a sobrevivência da biodiversidade em condições inclementes, não se revela suficiente para evitar ou deter o aquecimento do planeta, a razão do homem pode, pelo menos, perceber que as inundações e a desertificação nos campos e nas cidades são obra de sua mão.
Que foi fazer em Copenhague nossa delegação de 720 negociadores? Não se propunha a COP15 diminuir as emissões de CO2? Os números apresentados não visavam a isso? Como acreditar que esses números não escondam uma sutil hipocrisia e não passem de uma quixotesca aventura contra moinhos de vento?
Não foi aqui, no Brasil, que se estimulou a venda e a compra de automóveis de tecnologia suja com isenção de impostos, créditos fartos, baratos e estendidos?
Não foi aqui, no Brasil, que o Presidente da República se empenhou pessoalmente como marqueteiro do consumo insano para salvar as indústrias e os bancos, adiantando salários, devolvendo antecipadamente impostos com sacrifício do Tesouro Nacional?
Não é aqui, no Brasil, que, há um ano, as jazidas do pré-sal para farta queima de óleo fóssil e poluidor está na ordem do dia?
Não é aqui, no Brasil, que a devastação da natureza e desertificação rural e urbana submergem milhares de cidadãos em centenas de cidades, entre elas São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro?
Não se pode esperar que propostas venham de Copenhague para salvar nossa insensatez na perseguição do crescimento econômico voraz e insaciável, baseado no consumo compulsivo, insensatamente estimulado. Nas se pode esperar de nenhuma parte nem na aguardada descida de anjos se o Ministério do Meio Ambiente, o IBAMA, O IBRAM de Brasília e todas as secretarias de meio ambiente dos estados não forem capazes de propor à discussão democrática nacional um sistema simples e moderno de educação ecológica e ambiental.
Começaríamos por apoiar dezenas de escolas que timidamente, sem os recursos bilionários prometidos em Copenhague, estimulam seus alunos a amar e respeitar plantas e animais e a proteger nossas águas. Eliminaríamos o espetáculo degradante e humilhante de jogar lixo tóxico ao longo das rodovias, nas ruas e praças de nossas cidades. Veríamos eliminados os estragos que as inundações anuais e recorrentes trazem a milhares de famílias se restituíssemos às margens dos rios suas antigas florestas. Empregaríamos a inteligência da água para captá-la no período chuvoso nas matas de cabeceira, com a reflorestação das nascentes.
E passaríamos a discutir o modelo de crescimento econômico predatório que nos é imposto e substituí-lo gradativamente por uma administração da riqueza natural sem desperdícios, sem a obsessão do consumo insaciável, na medida em que todos possam desfrutar do conforto material.
As mudanças necessárias na ação humana capazes de construir um mundo diferente, mesmo que as transformações climáticas façam parte de ciclos e de eras cósmicas, foram sussurradas pela Sereia de Copenhague, mas os governantes de 192 países taparam os ouvidos.
Voltaram todos para seus países a cuidar das taxas de juros, da derrama do crédito, das bolsas de valores, da cotação do dólar, dos índices de inflação, das metas do PIB, embalados por programas de aceleração do crescimento econômico infinito e insustentável.
Nossa representação visível, em Copenhague, parece que não sabia do que estava falando. Ou então, engoliremos a contragosto a bomba que a chefe de nossa missão ecológica, empregando a tática de experta guerrilheira, jogou de surpresa sobre as 192 nações estupefatas: “O meio ambiente é, sem dúvida, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável do mundo e do Brasil”.
Não há bravata de oferta de bilhões de dólares brasileiros aos ricos e aos pobres que oculte o fracasso de nossos esforços mentais para compreendermos uma verdade singela: não é o planeta que precisa de nós. Nós é que precisamos dele.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A REAL E PRESIDENCIAL SOCIOLOGIA

O Presidente da República é legítimo representante da cultura popular iletrada, do linguajar rural espontâneo, periférico, entre o curral, a casa de tolerância e o boteco à beira da estrada.
Expressa singular desprezo pela leitura e pelos modos educados de falar às pessoas, cidadãos do país. Ele conclui, em sua filosofia realista, que a maioria dos cidadãos só compreende a linguagem dos estábulos, da marafonagem, do bêbado excitado ou do valentão de rua.
Minha diarista pouco lê e menos escreve, porque no Maranhão, onde nasceu, não havia escolas há vinte anos. O tempo comeu sua oportunidade infantil de estudar. Comunica-se aos pedaços, mutila palavras, come terminações e esses, mas nunca usa palavras chulas que se dizem em rodas menores pela força da raiva, da intimidade, do hábito ou da cachaça.
Nunca precisei usá-las para que ela entendesse ou percebesse alguma circunstância desafortunada no serviço da casa ou nas relações humanas. Nem mesmo ao falar do comportamento público do Presidente me ocorreu defini-lo e a seus comparsas de governo com palavras que ele brindou ao povo do Maranhão. Creio que os termos corrupto, mentiroso, hipócrita definem suficientemente o comportamento de grande parte dos homens públicos que governam o país na hora atual. Asco e repulsa são sentimentos inevitáveis diante da atuação desses atores.
Um presidente pode ser popular, querido, respeitado sem ser grosseiro, falastrão, burlesco, desmedido, quixotesco, dado a bravatas.
A febre, o delírio do poder avilta o cérebro, embota a percepção, transforma a fantasia em realidade e eleva a demência ao trono de verdade inquestionável e única.

O SAPATEIRO DA RUA 13

Para chegar ao quarto alugado, na rua 13, número 26, passava pela porta sempre aberta da sapataria do senhor Berti. Um cheiro de cola e couro inundava o metro quadrado de calçada. Respirava aquele odor com nostalgia de coisas antigas, quase no limite do desaparecimento. Olhava discretamente para dentro. Um corredor de alguns metros, um balcão desalinhado, crivado de furos produzidos por pregos e tachas, uma lâmpada focando a banca onde o velho sapateiro sentava para os reparos em sapatos, sandálias e botas. Ao passar diante da porta, vez por outra, coincidia ouvir marteladas que certamente enterravam tachas e pregos nos tacos dos calçados em reparo.
Bolsista do governo francês, estudante com orçamento apertado, quilômetros a pé, metrô quando estritamente necessário para atravessar Paris, minha única botina pedia reparos para viver mais uma temporada. Tinha 32 anos, solteiro, educado na escola antimatrimonial cujos princípios começavam a ruir. Pouco tempo depois, abandonei aquelas aulas.
Entrei na sapataria do Berti. Bom papo. Bonachão. Depois de várias visitas e longas conversas, soube que havia passado dos sessenta. Olhava-me com uma ponta de inveja paternal, disposto a me dar conselhos. Achava-me um pouco mais jovem do que de fato era. Seu sotaque puxava ao italiano e, na intimidade conquistada, migrávamos do francês para nosso idioma de origem.
Berti, em sua longa vida matrimonial, viúvo havia dois anos, acumulou sabedoria prática e um variado estoque de conselhos. Iluminou-se com ocasião de orientar minha inexperiência de solteiro e escolheu duas recomendações que constituíam, segundo ele, a base de um casamento estável e, possivelmente, feliz.
− Sexo e conversa, afirmou Berti, convencido, sério e balançando a cabeça afirmativamente.
Abriu levemente os braços à italiana, apertou os lábios para cima e me olhou com um sorriso de anjo de Rafael.
− E a mesa?
Perguntei pensando na macarronada dominical do casal.
− Comer, sem sexo e conversa, engorda.
Na segunda-feira, voltei à sapataria. Berti embrulhou minhas botinas em folhas do Le Figaro dominical. Não cobrou pelo reparo e lembrou-me o sábio conselho para usá-lo no futuro:
− Sexo e conversa.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

DIVAGAÇÕES SOBRE A MERDA

Depois de oito anos de governo, a nova elite política, saída da esquerda socialista, percebeu que o povo está na merda.
Por que o boquirroto da presidência do maior país da América Latina percebeu, no Maranhão, que o povo está na merda?
Por que no Maranhão, terra dos Saneys? E o José Sarney não sabia da merda que cobria a cidade de São Luis na chegada do visitante? E de quem seria aquela merda toda? Por que a família Sarney quis receber o grande chefe com merda explicita?
Lá, encontrou-se com Roseana Sarney. Dilma estava ao lado dela e dele, na janela do chiqueiro governamental, coberto de azulejos. Com intenso desejo de vomitar, sussurrou ao ouvido do chefe:
− Sinto cheiro de merda, presidente. Será que ela pisou nos excrementos que eu vi no elevador?
− Tem cloaca por aqui, completou o chefe, em voz alta e alegre gargalhada. Mas estou vendo é merda mesmo lá embaixo.
− É o povo dela, disse a dama de peruca.
− E o que é que essa gente está fazendo na merda? Quem é que pôs essa merda toda ali?
− Eles vieram te receber e aplaudir. Não esqueça que você tem 83% de aprovação. Essa gente está acostumada a pisar na merda que nem sente mais o cheiro.
− Não é possível tanta merda junta. Eu sempre ouvi dizer que este país é uma merda e que nunca se fez tanta merda neste país como no nosso governo.
Roseana, a governadora da merda, ficou calada.
− Dilma, minha querida, você está linda com essa peruca cor de fogo. O Maranhão está uma grande merda. Eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra. Onde é que vamos pôr essa merda?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

ACENDEDOR DE ESTRELAS

No curto tempo de uma existência, o mais sábio é edificar, na medida do possível, um paraíso terrestre e desfrutar dele.
A natureza é bela por toda a parte.
As árvores me esperam com danças de suas ramadas, todas as manhãs, em frente à janela de meu esconderijo.
As flores que suportaram pacientemente a escuridão da noite me alegram ao romper do dia.
O sabiá e o bem-te-vi me despertam com desinibida sinfonia.
A chuva mansa, molhando tudo, rega também as raízes da esperança no mais profundo da alma.
O raio e o trovão se esparramam pelo espaço infinito, derramando luz e sons e assustando as estrelas por trás das nuvens carrancudas.
Ele queria ser um acendedor de estrelas para enfeitar certas noites tenebrosamente escuras e desesperantes.
Acenderia uma a uma, dependuraria sobre a curva do horizonte, no topo da nuvem passageira, em cima da vaga grossa do mar, no pico do rochedo.
Ele queria recolher as lágrimas do choro de todas as saudades e de todas as felicidades que a humanidade registrou para dessedentar-se.
É preciso... é preciso, dizia, delatar os sorrisos ocultos, revelar a palavra que se escondeu na arca do pensamento, manifestar o desejo secreto do beijo e do abraço.
Tocar é preciso essas músicas caladas nas partituras e abrir os pianos, dedilhar as harpas, fazer vibrar os arcos tesos de amores secretos.
A vida é o único alimento da vida.
Não há outra vida a não ser a vida.
É preciso... é preciso juntar as vidas, ouvir estrelas e flores, plantas e pássaros e os vagidos dos nascimentos tímidos.
Ele queria que o fio da vida unisse todos os caminhantes como o acendedor de estrelas as junta de noite no firmamento a piscar os olhos e a seduzir as almas ao gozo da existência.
É uma só a vida, curta e efêmera, devorando-se lentamente, apagando-se ao nascer de um novo dia.
Outras noites, outras noites hão de vir, iluminadas pelas mesmas estrelas.
Ele andou pela vida acendendo estrelas.
É preciso sair à noite para vê-las.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

PRESENTE SEM PASSADO

A melhor e a mais eficaz arma protetora da psique brasileira é a capacidade inata e bem cultivada de esquecer os acontecimentos do dia anterior.
É com esta astúcia do esquecimento que se resolve facilmente qualquer dificuldade no presente. O passado é morto. O ontem não mais existe.
As águas levaram os móveis e a casa. Há de se começar tudo de novo. Brutal realismo. E quase sempre no mesmo lugar e da mesma forma. O presente é o imediato, o agora. Há que se acreditar logo, sem olhar para trás. Muito menos para frente. O futuro é hoje. Seu peso é o dia a dia. Chora-se e ri-se hoje. As lágrimas ou o prazer de ontem fugiram da alma e dão lugar a outras tristezas e possíveis alegrias.
Decepções e esperanças nascem e morrem num giro diário do sol. Carpe diem. Um dia é suficiente para chorar as mágoas e gozar das malícias e astúcias. A noite varre em silêncio e na escuridão a história da alma.
É com esta arma do esquecimento que os políticos contam. Eles também suprimem o passado e trazem para o hoje novas esperanças, ambições, desejos e tentações que cabem no presente. Nem o poder político nem o povo brasileiro gastam mais de um dia do ano para administrar túmulos. E se for preciso chorar o passado, as lágrimas serão no presente, com outro sabor, com lembranças difusas e até com a sagaz mentira dos sentimentos que dão ao hoje o que faltou ao ontem.
E o passado surge como enorme e fantástica mentira. As pessoas não disseram o que afirmaram e não realizaram o que fizeram. Desaparecem nomes e fatos. Despem-se da importância que se lhes dava e apequenam-se diante da grandeza da mentira presente. Tudo pode ser dito e feito de outra maneira para que apareça no presente como fato novo, revestido de esperança sob a qual se esconde a mentira em forma de verdade incontestável.

EXCLUSÃO EXCLUSIVA

Economistas, sociólogos e, principalmente, políticos profissionais, apesar dos múltiplos programas e pacotes propostos, sabem que eliminar as desigualdades sociais no regime capitalista é utopia. Cada analista justifica e dá boas razões para esse fracasso anunciado. Convencionou-se adotar a estratégia, continuada ao infinito, de contentar-se com a gradativa e lenta diminuição da desigualdade. A estatística é chamada a comprovar sua redução à medida que grupos dessa população desigual adquiram geladeira, celular, máquina de lavar, TV, o que supõe dinheiro ou crédito bancário.
Os economistas conhecem bem essa tática de enriquecimento por meio de dívidas permanentes. Psicólogos e médicos acodem pelo outro lado, acalmando ansiedades, frustrações, úlceras e dores de cabeça, quando não suicídios.
A desigualdade é combatida em consonância à inclusão social. São dois termos casados e de difícil definição. Igualdade não é exatamente o oposto de desigualdade. Por serem desiguais, dois objetos ou duas pessoas podem não ser contraditórios. Por outro lado, nem todos querem ser incluídos num quadro de igualdade pintado por sociólogos ou políticos.
Ultimamente, o conceito de desigualdade e exclusão vem sendo fomentado de modo especial pela indústria imobiliária com técnicas e métodos de propaganda e publicidade visual ilusionista.
Os ricos propõem como alvo da grandeza social e da felicidade pessoal a desigualdade e a exclusão. Os bairros residenciais oferecidos aos que têm dinheiro e crédito farto são exclusivos para seus moradores, nada semelhantes aos bairros da periferia nos quais entra e sai quem quer. “As vias que levam ao bairro residencial exclusivo possuem estrutura comercial de conveniência, o que facilita ainda mais a vida dos moradores”.
É, portanto, um bairro sustentável, isto é, seus habitantes têm dinheiro suficiente para sustentá-lo e garantir sua exclusão do resto da cidade. Essa premeditada e conquistada exclusão é protegida por portarias de segurança com controle de acesso. Um excluído se submete a identificar-se a um funcionário que não mora no bairro de máxima segurança. “O perímetro é fechado com sensores contra invasões, reforçados por ronda motorizada 24 horas, além das câmaras de segurança”. A liberdade de ir e vir é assegurada e bisbilhotada por olheiros atentos e pagos para garantir a total exclusão.
Nossa sociedade, não capturada pelas estatísticas, baseia-se na desigualdade e defende a exclusão, confinando seus adeptos em campos de concentração de serviços e facilidades, privilégio de que só gozam os que se sentem excluídos do comum dos mortais e, em consequência, orgulhosamente desiguais.
A desigualdade concebida por sociólogos, economistas, políticos profissionais, e medida por estatísticos, está confinada na comparação entre miseráveis e pobres, entre mais pobres e menos pobres, entre os famintos e os que, hoje, podem comprar carne e biscoito recheado. A distância entre os que se excluem voluntariamente da sociedade e os condenados à exclusão pela força do regime capitalista de distribuição de oportunidades, mede-se em quilômetros facilmente vencidos por velozes carros individuais.
Logo mais, a desigualdade será medida entre os que não têm e os que podem ter um panetone no Natal. O panetone natalino e pré-eleitoral será um dos ingredientes da inclusão social assegurada pelos meios tradicionais da bem urdida corrupção moral e pecuniária, despudoradamente imprescindível para o funcionamento da máquina política e administrativa das empresas, das cidades, dos estados e da República.

VELHACARIA E ASTÚCIA

Estupefatos, no primeiro momento, diante de imagens de pacotes de dinheiro saídos do nada, passando às mãos de servidores públicos e enfiados em bolsos, bolsas e meias, perguntam-se muitos cidadãos como é possível que isto se repita de forma descarada.
Já ia longe e esquecido o mensalão petista, o peessedebista, as maletas entupidas de dólares e os maços de reais escondidos na cueca de um deputado. É de se lembrar que alguns desses personagens, outrora, pertenceram a grupos revolucionários, dispostos a implantar um regime socialista ético e democrático. Eles chegaram ao poder e revelaram-se hábeis comediantes de circo.
Funciona, neste país grande, rico e atrasado, uma escola aberta onde se aprende e se ensina astúcia, artimanha, dissimulação, hipocrisia, malícia, manha, trapaça, velhacaria. Essa rede de conhecimentos práticos da vida cotidiana sustenta nossa organização social, construída ao longo de cinco séculos. Não é apenas com a apropriação do dinheiro público. No trânsito, nas escolas, nas universidades, nos edifícios residenciais, no trato com a natureza, na invasão de terras públicas as artimanhas encontram justificativas legais, jurídicas, políticas e administrativas.
A adaptação a esses comportamentos se faz tão naturalmente que já não se percebe a gravidade das violações às leis que foram promulgadas com a certeza de que não impediriam as manhas do cidadão. Os exemplos oferecidos exibem o contrário proposto na lei.
Dessa escola leniente e mole derivam os gingados da capoeira, o samba sarcástico do carnaval de rua, a pizza de finas ervas e, hoje, o panetone. O escândalo diante de um espetáculo de pacotes de dinheiro enfiado em meias, em bolsos, bolsas e cuecas tem o mesmo efeito de um gol da seleção brasileira ou de um bolo na cara de um palhaço de circo.
A realidade da velhacaria praticada por graduados servidores da nação brasileira é tão espalhafatosa e cínica que se torna inacreditável. Por isso, as imagens são mostradas centenas de vezes para se acreditar na sagacidade e na esperteza habilidosa dos comediantes públicos. Tão inacreditável que o primeiro mandatário do Brasil, ausente do grande circo, afirmou com a mesma argúcia do prestidigitador que “as imagens não falam por si”. Frase sibelina que remete aos arúspices romanos.
As lições diárias e intensas dessa escola aberta à população incauta têm a virtude de não ferir a ética profunda do cidadão. Ele toma a leviandade e a mentira como atitudes normais. A dignidade moral foi soterrada sob o princípio egocêntrico do tirar proveito e vantagem de qualquer situação. A informação que chega ao cidadão escorre pela superfície. Nossas escolas ensinam a ler, não ensinam a pensar. De cada cem possíveis leitores, apenas seis leem jornais. Os outros noventa e quatro os usam para fazer pacotes. Os milhões que assistem à TV riem dos palhaços e desligam o aparelho ao término da exibição.
Os comediantes públicos, impunes e orgulhosos de suas trapaças, contentes com o riso anônimo, armam novamente o circo na praça, pintam o rosto, divertem a plateia e convidam os eleitores a aplaudi-los. E eles os aplaudem.
Em 2010, eles voltarão com a mesma peça na certeza de que ninguém se lembra de tê-la visto. A nossa organização social circense nutre o político comediante, o servidor corrupto, o cidadão passivo e o eleitor manhoso movido pelo impulso do riso cordial e agradecido diante da pizza ou do panetone.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CAUSAS E SINTOMAS

Numa época de pensamento único, cuja essência é o consumismo desvairado e compulsivo, excitado pelos títeres do poder político e econômico, a palavra é usada na contramão da razão.
É preciso, pois, compreender a nova lógica do raciocínio e voltar aos peripatéticos da antiga Grécia ou aos sarcásticos sofistas para quem um bípede implume poderia ser eventualmente um homem. Mais comum é a mentira se transmudar em ordem.
Eis alguns resultados do exercício intelectual da razão de alguns políticos, economistas e estatísticos atuais em que os meios se transformam em causas e os sintomas produzem remédios.
− o casamento é a causa do divórcio.
− o orçamento é a causa da corrupção.
− a água é a causa da sede.
− o banco é a causa do assalto.
− o sexo é a causa do crescimento populacional.
− a arma é a causa do assassinato.
− a uva é a causa da bebedeira.
− o sapato é a causa do calo.
− a vida é a causa da morte.
− a corda é a causa do suicídio.
− o policial é a causa da prisão.
− o político é a causa do voto.
− a lei é a causa da transgressão.
− o rio é a causa do afogamento.
Essa lógica invertida sustenta grande parte das soluções propostas a resolver dificuldades que o cidadão enfrenta no trânsito, no emprego, na fila do hospital, no convívio social e nas relações com ambiente que o rodeia.
Não é de estranhar que aumentem e se intensifiquem os surtos de esquizofrenia administrativa de nossos governantes, submetendo a sociedade a decisões equivocadas na ânsia de comprovar a lógica utilizada.

TRÂNSITO DE BÁRBAROS

Estamos à beira da avenida, Montemor e eu, tentando atravessar para o outro lado.
No volante do automóvel, a pessoa – homem ou mulher, jovem ou idoso – está prestes a liberar o saco de maldades, frustrações, decepções, ambições, desejos inconscientes de dominação, atitudes insolentes e instintos assassinos.
A limitação do espaço, a vontade de ser o primeiro da fila por ter sido preterido em casa ou no trabalho, a necessidade compulsiva de chegar antes de outro qualquer, a ânsia de assegurar para si o estreito campo da faixa, a pressão do tempo que o acicata, tudo concorre para que o irracional se sobreponha ao bom senso. A afoiteza sobrepuja a prudência, o egoísmo se impõe à educação solidária.
O acesso a uma avenida de alta velocidade é como experimentar a sensação de cair num rio coalhado de piranhas e jacarés. A fúria está no ar, no fluxo de flechas que ameaçam o incauto e estraçalham o ânimo do transeunte.
A rua se transforma num campo de batalha. O condutor é invisível. A importância visível está no carro, intermediário do poder. Os tanques velozes avançam contra o inimigo putativo que se dirige na mesma direção. Guerra do trânsito que deixa mais de 40 mil mortes no curso fugidio do ano. Mutilados saem dos hospitais em cadeira de rodas. Mutilada, plégica e tetraplégica está a alma das pessoas no fim do dia. Entram na própria casa de muletas, estilhaçadas pelo ruído dos motores, pelo chiado dos pneus, cobertos pela fuligem da fumaça. Irreconhecíveis.
Potência do motor é orgulho do condutor que se lança em velocidade louca, expõe a prepotência do espírito. A máquina esconde sob a lataria as fragilidades e as impotências invencíveis do condutor fora do carro.
A barbárie humana sobre rodas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

AS PEDRAS DE ROMA

Está em Brasília o novo romance deste blogueiro.
Pode ser encontrado na Livraria Cultura, na Livraria Cotidiano ou pelo e-mail
eugeniogiovenardi@gmail.com


O ROMANCE

A eleição dos papas, à época do Renascimento, era um negócio de famílias. Comprava-se, apostava-se e ganhava-se. Preservava-se a fortuna familiar que se consolidaria com parte da riqueza acumulada pelo Estado do Vaticano. Era um dos requisitos para manter-se no poder.
O florentino Giovanni de Medici (1475-1521) assume o poder no Vaticano. Agnóstico, humanista, interessa-se mais pela arte e literatura do que pela prática da religião. Convive com Rafael, Michelangelo, Machiavelli. Condena Lutero por razões de Estado
A compilação da teologia, a proclamação de verdades inquestionáveis em forma de dogmas, o código canônico que determina condutas e sanções, a moral que vacila ao sabor das épocas, conservadora ou liberal, são ações que exigem organização, burocracia, dinheiro, estratégias, governo.
Pela primeira vez, na literatura ficcional brasileira, se revela o código de pagamento de fianças para obter a absolvição antecipada de crimes, conhecido como venda de indulgências. Parte do dinheiro foi empregado na construção da Catedral de São Pedro, em Roma. Entre outros:
Art. I − O eclesiástico que incorrer em pecado carnal, seja com monjas, primas, sobrinhas, afilhadas, ou com outra mulher qualquer, será absolvido, mediante pagamento às arcas papais, de 67 libras ouro e 12 soldos.
Art. V − .Os sacerdotes que quiserem viver em concubinato com suas parentas pagarão 76 libras e 1 soldo.
Art. XXXIII − Os eunucos que quiserem entrar para as Ordens sacras pagarão a quantidade de 310 libras e 15 soldos.
As pedras (de Roma) simbolizam a perenidade, a resistência, a dureza sobre as quais repousam edifícios. Que pedras são essas que suportam o peso das ambições humanas políticas e religiosas? Entre a astúcia, a sorte, a força, a autoridade, a firmeza da ambição, o fascínio do poder e da riqueza, a vaidade, o prazer da mesa e da cama, a arte das cores e a da guerra, a animalidade cruel do homem-lobo, qual dessas pedras é mais consistente para manter o poder de um papa? Sobre quais colunas de mármore se sustenta a sociedade humana e o poder que a dirige e domina?

O AUTOR

EUGÊNIO GIOVENARDI – Nasceu no município de Casca, no Rio Grande do Sul, em 28 de junho de 1934 e reside em Brasília desde 1972. É sociólogo, filósofo e escritor. Licenciado em Ciências Sociais, pós-graduado pela Universidade de Paris, Ecole Pratique de Hautes Etudes; na França (1969) e, na Inglaterra, pela Loughborough University of Technology (1972).

Escreveu, até o momento, as seguintes obras:

AS PEDRAS DE ROMA (romance histórico) maisQnada editora, Porto Alegre, 2009.

O HOMEM PROIBIDO (romance) Editora Movimento, Porto Alegre, 2009. 2ª. Edição revista do primeiro romance Os Filhos do Cardeal, de 1997;

A SAGA DE UM SÍTIO (novela) Editora LGE, Brasília, 2007;

O RETORNO DAS ÁGUAS (ensaio ecológico) edição bilíngüe (português/espanhol), Editora SER, Brasília, 2005;

SOLITÁRIOS NO PARAÍSO (poesia e prosa) Editora Movimento, Porto Alegre, 2004;

VENTOS DA ALMA (poesia) Editora SER, Brasília, 2003;

OS POBRES DO CAMPO (ensaio) Editora Tomo, Porto Alegre, 2003;

EM NOME DO SANGUE (romance) Editora Movimento, Porto Alegre, 2002. Ganhador do Prêmio Açorianos de Literatura 2003. Traduzido para o finlandês, Editora LIKE, Helsinque, Finlândia, 2005 e livro de bolso em 2006.

POEMAS IRREGULARES (poesia) Paralelo 15, Brasília, 1998;

RAIO DA MENTIRA

O raio da mentira ou a mentira do raio?
O presidente não sabia de nada. Estava dividindo com alguns executivos o futuro dinheiro do pré-sal. Alguém entrou na sala e o avisou que 18 estados do Brasil estavam no escuro.
- Lobão, gritou o Lula, vá lá e diga que um raio caiu em cima de duas ou três torres no Paraná.
Lobão, que é Ministro de Minas e Energia, afilhado político do Sarney, que é quem governa o Brasil com o pseudônimo de Luiz Inácio, inventou de supetão que “causas atmosféricas de alto nível, fortes ventos e chuvas, precedidas de raios fulminantes cortaram o fluxo da energia elétrica”.
Doutoradas em astúcia, velhacaria e malandragem política, algumas autoridades levam a sério e com absoluta competência o uso do cinismo e da mentira para pisotear a inteligência de 190 milhões de brasileiros.
No dia seguinte, ficaram discutindo a intensidade do negrume dos apagões nacionais e patrióticos operados em nome da oitava potência econômica. Um dos apagões foi tão vulgar a ponto de ser classificado pela dama-de-peruca como “barbeiragem”. E prometeu que o próximo apagão, dada a malha quilométrica de redes de distribuição, atingirá todos os estados do país e, de quebra, o Paraguai.
É preciso informar ao Lobão e à dama-de-peruca que quando cai um raio numa árvore, numa torre de energia elétrica ou na cabeça de uma pessoa é possível constatar o efeito de seu alto nível de potência.
Depois de os meteorologistas terem afirmado que os raios da mentira não caíram em nenhuma torre, o Lobão concluiu inteligentemente:
− Mas podiam ter caído. Não se fala mais nisso. O apagão é página virada.
Mas o que o Lobão quis nos fazer crer é que as 18 turbinas de Itaipu são dotadas de um potentíssimo radar e de uma inteligência atmosférica capaz de prever a incidência de raios, ventos e tempestades e desligar-se antes mesmo que eles se precipitem contra as torres gêmeas do Paraná e São Paulo. Desligaram-se preventivamente.
Lobão e toda a camarilha que governa este imenso Brasil sabem que nossa memória é curta e somos dados a curtir no bar da esquina a felicidade de esquecer a mentira, a astúcia, a velhacaria e o cinismo por eles praticados no dia anterior.

domingo, 25 de outubro de 2009

O JUDAS DO LULA

Meu caro Pedro de Montemor, você não estava aqui quando o senhor Lula se excedeu na fala. Ultimamente, sua qualidade de boquirroto político surpreende a cada dia. O senhor Luiz Inácio não só imagina como tem certeza de que seus assessores mais próximos, a quadrilha de deputados e senadores que o apóiam, as grandes empresas e empresários a quem lhe dá contratos milionários para realização de obras, são tão belos e inocentes quanto os anjinhos de Rafael Sanzio.
Houve tempos, no século passado, em que ele afirmava haver “300 picaretas” no Congresso e que o senador Sarney era o “maior grileiro do Maranhão”. Apelava ao Tribunal de Contas da União para acabar com a farra às custas do orçamento e debelar a ladroeira pública.
Hoje, (não ria de mim) acha absurdo que o TCU fiscalize as obras impecáveis do PAC, sigla desagregada nas rodas íntimas da presidência como “programa de ajuda aos companheiros”. Em seu governo, a inocência, a pureza e a honestidade do enriquecimento estão acima de qualquer suspeita e de qualquer instituição pública que pretenda fiscalizar em favor do bem comum.
Faz poucos dias, invocou a autoridade de Jesus Cristo. Já o havia feito antes, há dois ou três anos, com menos arrogância, comparando-se ao Messias que veio para salvar o Brasil. Desta vez, sentiu-se ofendido da acusação infundada de ter levado para seu círculo administrativo e político a pior equipe de raposas políticas que vem atacando o galinheiro nacional todas as noites durante cinquenta anos. Mas todos eles têm historia e não podem ser tratados como homens comuns.
Em resposta a essas agressões, disse o senhor Luiz Inácio, depois de uma celebração política, que se Jesus Cristo viesse a ser presidente da Palestina teria que fazer aliança com Judas. Como é que ele sabe disso? Mas o que intriga os poucos que ouviram seu desabafo ético é saber quem é o Judas deste governo. Judas, segundo a lenda, era um dos doze que andavam com Jesus para cima e para baixo e lhe havia sido confiada a chave do cofre onde se guardavam as dracmas.
Com muita prudência lhe submeto algumas especulações. Será o Mantega? O Meireles? A Rousseff? (com esse nome!) O Zé Dirceu? O Palocci? O Genro? A Salviati? O Marco Aurélio? O Sarney? O Collor? Eis a delicada questão que ficou no ar. Eis a dúvida que paira sobre esses apóstolos que descobriram o Brasil em 2003 e inventaram a boa nova da roda redonda para multiplicar as moedas de ouro na ciranda financeira.
Quando a turba toda que comeu os pães e os peixes mandar para a cruz o senhor Luiz Inácio, aparecerá o Judas em todo o esplendor de sua traição.

NÓS, BRASILEIROS

O brasileiro típico é sonegador de informações e de impostos, atrasa o aluguel, a conta da água, da luz e do condomínio. Não sabe o que é horário porque amanhã é outro dia. Se não é pressionado não faz. Sem polícia por perto, a lei não existe. Mente sempre que surge oportunidade, enrola o credor para não pagar, quer tudo gratuito, dinheiro sem trabalhar.
Enche os estádios e quer que seu time sempre ganhe de goleada. Para ele, vice-campeão e nada é a mesma coisa. Acha que torcer para seu time é um cansativo trabalho que merece entrada gratuita, pipoca e cerveja de graça.
Endivida-se acima da capacidade de pagar, gasta mais do que ganha, assina contrato sem ler, dá cheque sem provisão, espera sempre a ajuda de Deus para se sair bem de enrascadas que aprontou. Acusa o governo pelas dificuldades pessoais, pela chuva, pela enchente, pela seca e pelo engarrafamento no trânsito.
O brasileiro pobre gosta do luxo. Prefere as dificuldades da pobreza às vicissitudes da riqueza, Apieda-se do rico quando perde fortunas na roleta, mas se a enchente levar seus moveis e a casa junto diz ao repórter que o jeito é começar tudo de novo e que Deus há de ajudar.
Estaciona sobre a calçada, ultrapassa pela direita ou pelo acostamento. Fura fila com a maior cara de pau. Pego em alguma contravenção, dirá automaticamente que não sabia, ninguém foi à casa dele para informá-lo. Não lê jornal, não ouve noticiário de rádio ou TV, exceto futebol, novela e pegadinhas do Faustão. Não lê placas de trânsito, toma vaga de idoso ou de deficiente sem perceber e alega que tem pressa, é uma emergência.
Quer que a polícia prenda o filho dos outros e que o ladrão roube o vizinho. Está sempre pronto a subornar a polícia e a polícia a extorquir o cidadão. O ladrão rouba o banco e os que o prendem roubam o ladrão.
Joga lixo no chão. Latas e garrafas voam pela janela do carro ou do ônibus. Dirá que não foi ele, não viu, não sabe quem foi e tem raiva de quem sabe. É o Lula escrito e cuspido. Mente e gosta de ouvir mentiras. Acredita nas mentiras oficiais, extraoficiais, políticas e econômicas e não acredita quando lhe dizem a verdade. Rebate a mentira com outra. Todo brasileiro mente, do Presidente da República ao gari, do senador ao eleitor, do empresário ao sindicalizado, do patrão ao operário, do vigário ao coroinha, do bispo ao crente, da madame à empregada. Todos sabem que um mente ao outro porque a mentira se converteu em ordem.
Fala alto no restaurante, no celular, na rua, na sala de concerto, no cinema. Adora uma corrupçãozinha e a acha normal porque é pratica pelos de cima, do meio e de baixo. Faz negócios por baixo do pano, gruda-se no rico e no político para tirar vantagens pessoais.
O brasileiro não tem má fé, age retamente e as maracutaias as faz de caso pensado, sem segundas intenções. A falta de seriedade é de seu caráter meigo e cordial. É esse comportamento relaxado e irresponsável que o mundo admira e torna o Brasil o melhor dos mundos para se viver. Aqui temos as melhores e mais bem urdidas leis, mas raras são as que pegam. O mundo as copia, cumpre, as elogia e só não sabe fazer com elas o que nós inteligentemente realizamos. Eles as observam e o brasileiro passa o dia atrás do jeitinho para burlá-las.
Os brasileiros das Olimpíadas somos nós, campeões da Copa do Mundo de Futebol. Temos vocação para os extremos. Somos uma Belafra –Bélgica e Biafra – campeões da desigualdade e exportadores do bolsa família, sutil estratégia para movimentar o consumo em nome do combate à pobreza. O brasileiro é cheio de esperança, não desiste nunca e tem certeza que tudo se arranja e, no fim, tudo vai dar certo porque Deus é brasileiro, corta o bolo da festa e reparte alegremente a pizza.
Por isso, numa hora destas, olhando para as Olimpíadas de 2016, com lágrimas nos olhos e samba no pé, o carioca, cercado de 220 milhões de cidadãos astutos, se ajoelha ao pé do Corcovado e clama com voz embargada:
− Eu me orgulho de ser brasileiro.

MITO DO DESENVOLVIMENTO RURAL

Leio na Folha de São Paulo (11.10.2009) a opinião do ministro do MDA, Guilherme Cassel, sobre Um novo modelo de desenvolvimento rural. Depois de apresentar alguns números extraídos do IBGE e cuspir percentuais a esmo, sem esmiuçá-los, consegue iludir-se com esse novo modelo: “O Censo Agropecuário 2006 mostra que está em curso uma nova dinâmica social e produtiva no campo brasileiro. Uma dinâmica em que pequenos e médios produtores viraram sinônimo de qualidade de vida”.
Qualidade de vida é um chavão estéril. É o uso de expressões cunhadas que nada significam. Utilizo os números que o senhor. Cassel oferece aos leitores para entender sua pífia conclusão. O ministro não se utilizou dos principais dados do Censo relativos à educação que revelam as causas do desastre desse modelo de desenvolvimento rural. Informa ele que a agricultura familiar emprega 75% da mão de obra no campo, incluindo todos os familiares, característica desse sistema produtivo. A Agricultura Familiar responde por 38% do valor (não diz se é bruto ou líquido) da produção. O valor anual é de R$54,4 bilhões. Ao mesmo tempo, nos informa que existem 4,3 milhões de estabelecimentos de Agricultura Familiar.
Ora, o resultado econômico anual de cada estabelecimento é de R$12 mil, aproximadamente, pouco mais de R$1.000 por mês, divididos entre os cinco, sete ou mais membros da família. Este resultado final da nova dinâmica social e produtiva alcança a estupenda soma de R$170 mensais por pessoa ou R$5 per capita/dia dependendo no numero de familiares e agregados.
Pedro de Montemor, ao lhe mostrar esse dado, assegurou-me que se trata apenas de uma ironia fina do senhor Ministro que ganha, num mês, sentado em sala climatizada, o que o agricultor familiar consegue no ano. Mas esse êxito do agricultor se denomina qualidade de vida. Se o campo contasse com boas escolas não haveria quase 40% de analfabetos que não podem ler as provocantes opiniões do ministro sobre sua qualidade de vida. E se todos tivessem água encanada, canalização de esgoto e casas confortáveis, os cinco reais por pessoa seriam aceitáveis no começo do século passado.
Na cidade, uma diarista brasiliense recebe entre 40 e 80 reais por oito horas de trabalho. Os trabalhadores rurais, no Distrito Federal, não trabalham por menos de R$ 20,00. Talvez seja por isso que, cansados de migrar para as cidades grandes, os pequenos agricultores migram para o Bolsa Família. Seria melhor que o senhor Cassel defendesse os agricultores da semiescravidão a que o sistema produtivo do novo capitalismo petista os está submetendo por meio de endividamento impagável, denominado crédito rural, base do novo modelo de desenvolvimento rural, sinônimo de “qualidade de vida”..

terça-feira, 20 de outubro de 2009

SETOR NOROESTE

“Dizer que o Noroeste é o primeiro bairro ecológico é apenas um elemento de marketing,” afirmam em artigo minucioso o coordenador do Setor Noroeste Paulo Zimbres e o professor da UnB Geraldo Nogueira Batista. O grosso caderno de publicidade, propaganda e marketing com 24 páginas do Correio Brasiliense (18.10.2009) vai além da afirmação dos arquitetos.
Assisti a conferências, discussões e seminários sobre a conveniência do adensamento urbano da capital. Participei de reuniões específicas sobre o Setor Noroeste, li entrevistas de autoridades governamentais, empresários e políticos em defesa da expansão e do crescimento de Brasília. Reiteradamente, cita-se em apoio ao novo setor, e só a ele, o relatório do Dr. Lúcio Costa – Brasília Revisitada. Parece que, nesse relatório, não há outro item importante à exceção da proposta da área noroeste para expansão da cidade.
Atrevo-me a afirmar que se as demais propostas e recomendações contidas no Brasília Revisitada tivessem sido tratadas com o mesmo emprenho governamental, o mesmo dinheiro, a mesma capacidade de engenheiros e arquitetos do projeto Noroeste, a diligência da Câmara Legislativa, a firmeza dos órgãos ambientais e a celeridade dos tribunais de justiça, Brasília teria um rosto melhor cuidado. Não seria essa terra de ninguém onde cada um faz o que bem entende, do puxadinho aos quiosques, das ocupações irregulares aos gabaritos de 30 andares.
Um bairro ecológico se caracteriza pela capacidade da natureza em repor com a mesma velocidade e intensidade a riqueza natural explorada e consumida pelos habitantes que ocupam uma área de terra. No cômputo desses habitantes não figura apenas o homem. Ele será, ali, minoria. Levará consigo poderosos artefatos que competirão com a maioria dos habitantes originais da área, atacados minuto a minuto pelo exacerbado consumo do homem. Água. Os 40 mil moradores tirarão dali 14 milhões de litros diários para uso direto. Milhares de árvores, plantas e arbustos com volume hídrico apreciável serão erradicados e deslocados para outras áreas. Pássaros e milhões de insetos compõem o equilíbrio biológico e ambiental. “Alguns” indígenas absurdamente considerados invasores das terras brasileiras, ali radicados, terão que buscar outro espaço para sobreviver.
O fato de serem instaladas facilidades do progresso e novos artifícios para o conforto humano não caracteriza ipso facto o estado ecológico do bairro. A solução técnica, por mais acabada e defensável, não é necessariamente ecológica. A arte e a beleza paisagística podem ser uma estética maquilagem se não equacionarem o equilíbrio entre a oferta e o consumo da riqueza natural. A impermeabilização do solo com a construção de edifícios, avenidas, ciclovias, exigirá cuidados especiais para garantir a infiltração de águas pluviais e assegurar a recarga dos mananciais e aquíferos subterrâneos da área, sob o risco de secamento das bacias do Bananal e do Paranoá.
Chegará o marketing às cabeças dos novos moradores ou produzirá apenas efeitos imobiliários, status social e enriquecimento de construtores?
Cientes da moleza de nossas instituições e da presença constante de interesses secundários, os autores de FRUTO DE MUITAS CABEÇAS esperam que as flexibilidades anunciadas não desviem nem corrompam a “proposta tão esmeradamente desenvolvida”. Águas Claras e centenas de condomínios irregulares sobre a frágil área do Cerrado são fatídicos exemplos que gritam mais alto contra a insensatez do crescimento que impõe impagáveis custos ambientais na conta do conforto urbano desejado e da saúde humana ameaçada.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

BIOGRAFIA DO AUTOR DO ROMANCE

AS PEDRAS DE ROMA

EUGÊNIO GIOVENARDI

O grande marco da expressão literária do escritor Eugênio Giovenardi, reside na trilogia iniciada com o romance Os Filhos do Cardeal de 1997, atualizado e revisto com o nome O Homem Proibido de 2009, tendo continuidade com o romance Em Nome do Sangue de 2002 e fechada com o romance histórico As Pedras de Roma de 2009.

Em seu primeiro romance Os Filhos do Cardeal, o autor procura mostrar a luta entre o que ele foi, o que era e o que queria ser. Uma esgrima entre o frei Leonardo de Módena (nome dado pela ordem a qual pertencia aos 25 anos de idade) e o seu nome verdadeiro, ou seja, uma pessoa escondida, que estava na clandestinidade, um esquizofrênico literalmente. Fatos que demoraram mais de 20 anos para serem assimilados e tornarem-se neste livro. Um livro de um apóstata. O livro todo é uma luta pela libertação, contra todas as amarras. Pois ele, segundo filho de uma família de nove irmãos, é levado aos dez anos para o seminário da ordem dos Capuchinhos.

No início dos anos 60, alguns frades, entre eles o já ordenado frei Leonardo de Módena, são escolhidos para a formação em universidades laicas. O sociólogo formado pela UFRGS, o frei, é expulso de Porto Alegre por Dom Vicente Scherer e segue para realizar o curso de pós-graduação na Universidade de Paris. Ali, abandona a ordem e a Igreja, sem se submeter aos processos canônicos, tomando o caminho da apostasia em pleno maio de 68, na Revolução Estudantil francesa, quando todas as pessoas saiam para dizer não para alguma coisa ou sim para outra. Nesse movimento ele se integrou e ficou esperando a imprevisibilidade da vida acontecer, que de fato aconteceu.

Estes relatos abaixo, refletem a intensidade e a pujância do trabalho literário de Eugênio com sua obra Os filhos do cardeal

“Os filhos do cardeal, é um relato realista e pungente da experiência pessoal de uma criança ingênua que é envolvida inadvertidamente num mundo religioso cheio de preconceitos, distorções espirituais, autoritarismo, opressões que acabam por constituir um regime repressor que perturba o crescimento natural da pessoa.” ISABEL MARIA VIEIRA, psicanalista

“Este es un libro de fe. Fe en si mismo ante un destino por cumplir. Este relato alcanza momentos de intensidad ejemplares. Se lee como una novela que no nos importa a veces si es verdad lo que acontece. El personaje de LOS HIJOS DEL CARDENAL logra dar un paso hacia una libertad que constituye la plenitud vital, el ejercicio de su libre albedrío. Giovenardi logró un magnífico libro. Hermosa lectura universal.” VIRGILIO LOPEZ LEMUS, poeta e ensaísta cubano

Tendo muito ainda a dizer, o segundo livro Em Nome do Sangue, aproveitou a história de um frade conhecido seu. Neste livro o autor desejou mostrar a hipocrisia estrutural da Igreja, que ao condenar o homossexualismo, condenar as mulheres, vive cercada de dogmas, que não abrem sequer a possibilidade de uma discussão dialética sobre a possibilidade de que um dogma não ser tão irremediável a inteligência humana. Essa degradação da inteligência humana é o que levou o autor a mostrar esse mosaico que se transformou as Igrejas de hoje.

Com este livro o autor foi agraciado com Prêmio Açorianos de Literatura, concedido pela Prefeitura de Porto Alegre no ano de 2003, como melhor Romance.

Agora em 2009, será lançado o livro As pedras de Roma, um romance histórico ambientado no século XVI da era cristã, que narra à vida de Giovanni de Médici, mais conhecido como papa Leão X. Revelando os pensamentos ocultos do Soberano Pontífice. O romance entremeia relatos confidenciais de um humanista agnóstico que se expõe como homem, no posto eventual de papa. É o homem atrás da cortina do inquestionável poder religioso. É um relato transparente de como se fala, se comenta e se vive o papado na Renascença.

As pedras de Roma sobre as quais, segundo promessa evangélica, se fundaria um novo império, escurecidas sob o peso dos séculos, acompanharam o esplendor da arte e das letras. Os pensamentos cotidianos e as confidências de um papa agnóstico, retratam momentos e memórias, na forma de quadros e pinturas dependurados nas paredes do tempo. Como numa pintura, a ficção imita e recria a realidade, empresta-lhe vida nova. Quadros, memórias, imagens permanecem além da vida curta do homem passageiro.

O romance se baseia em fragmentos da vida do primeiro papa florentino, irrequieto, indeciso, mecenas da arte e da literatura. Mostrando que a linguagem assim como os fatos, revelam que o passado ainda se faz presente.

EUGÊNIO PEDRO GIOVENARDI - Nasceu no município de Casca, colônia italiana, no Rio Grande do Sul, em 28 de junho de 1934 e reside em Brasília desde 1972. É teólogo, sociólogo, filósofo e escritor. Licenciado em Ciências Sociais, pós-graduado em Desenvolvimento de Cooperativas e Grupos Associativos, pela Université de Paris, Ecole Pratique de Hautes Etudes; na França, e em Desenvolvimento Econômico, na Inglaterra, pela Loughborough University of Technology. Desempenhou no Brasil várias funções técnicas relacionadas ao fomento do cooperativismo e à capacitação de técnicos e produtores em assentamentos rurais. Como consultor da OIT (Organização Internacional do Trabalho), foi diretor e formulador de projetos de erradicação da pobreza em Países Andinos e América Central.

Transitando com desenvoltura pelo português, espanhol, francês, inglês e italiano escreveu as seguintes obras:

AS PEDRAS DE ROMA (romance histórico) maisQnada editora, Porto Alegre, 2009;

O HOMEM PROIBIDO (romance) Editora Movimento, Porto Alegre, 2009. Edição revista e atualizada do primeiro romance de Eugênio, Os Filhos do Cardeal;

A SAGA DE UM SÍTIO (novela) Editora LGE, Brasília, 2007;

O RETORNO DAS ÁGUAS (ensaio ecológico) edição bilíngüe (português/espanhol), Editora SER, Brasília, 2005;

SOLITÁRIOS NO PARAÍSO (poesia e prosa) Editora Movimento, Porto Alegre, 2004;

VENTOS DA ALMA (poesia) Editora SER, Brasília, 2003;

OS POBRES DO CAMPO (ensaio) Editora Tomo, Porto Alegre, 2003;

EM NOME DO SANGUE (romance) Editora Movimento, Porto Alegre, Ganhador do Prêmio Açorianos de Literatura, Secretaria de Cultura de Porto Alegre. Traduzido para o finlandês, Editora LIKE, Helsinque, Finlândia, 2005;

POEMAS IRREGULARES (poesia) Paralelo 15, Brasília, 1998;

OS FILHOS DO CARDEAL (romance) Paralelo 15, Brasília, 1997, traduzido para o espanhol (Los Hijos del Cardenal) - publicado em Havana, Cuba em 2000 e para o finlandês (Kielletty Mies, publicado em Helsinque, Finlândia em 2001); a tradução para inglês, Forbidden Man, feita em 2006 aguarda publicação.

MESA TEMÁTICA: Romancistas Históricos e suas Criações Literárias
EVENTO VICULADO A PROGRAMAÇÃO DA 55ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

CONVIDADOS: Eugênio Giovenardi (lançando "As pedras de Roma") e Sérgio Luiz Gallina (lançando "O cavaleiro do Templo II")

PAUTA: Neste encontro os escritores debateram sobre o processo criativo, definição de roteiro e personagens e a dedicação para estudar períodos da História, a base para a fundamentação de um romance histórico.

DATA: 31 de outubro de 2009 - das 17h às 19h

LOCAL: Centro Cultural Érico Veríssimo 4º andar - Sala: "O Retrato" Rua dos Andradas, 1223 - Porto Alegre - RS

APOIO: Câmara Rio-Grandense do Livro

CURADORIA: maisQnada administração cultural

INFORMAÇÕES: EGÍDIO FERRONATTO – FONE: (0**54)3313-6303

NELCIR ANTONIAZZI – FONE: (0**54)9937-6504

Parte superior do formulário

CONVITE LANÇAMENTO DE LIVRO

CONTAMOS COM SUA HONROSA PRESENÇA NO

LANÇAMENTO DO LIVRO

“AS PEDRAS DE ROMA”

“As pedras (de Roma) são pedras simbólicas. Entre a astúcia, a sorte, a força, a autoridade, a firmeza da ambição, o fascínio do poder e da riqueza, a vaidade, o prazer da mesa e da cama, a arte das cores e a da guerra, a animalidade cruel do homem-lobo, qual dessas pedras é mais consistente para manter o poder?”



Data: 04 de novembro de 2009 - Quarta-feira

Local: Livraria Nobel – Shopping Bella Città

Horário: A partir das 19h

Autor: Eugênio Giovenardi

Editora: maisQnada



EDITORA maisQnada LIVRARIA NOBEL PORTO ALEGRE – RS SHOPPING BELLA CITTÀ





ACADEMIA PASSO-FUNDENSE DE LETRAS



LANÇAMENTO: PORTO ALEGRE - RS: 31.10.2009 PASSO FUNDO – RS: 04.11.2009





AS PEDRAS DE ROMA

EUGÊNIO GIOVENARDI

A eleição dos papas, à época do Renascimento, era um negócio de famílias. Comprava-se, apostava-se e ganhava-se. Preservava-se a fortuna familiar que se consolidaria com parte da riqueza acumulada pelo Estado do Vaticano. Era um dos requisitos para manter-se no poder.

O Florentino Giovanni de Medici (1475-1521) assume o poder no Vaticano. Agnóstico, humanista, interessa-se mais pela arte e literatura do que pela prática da religião. Convive com Rafael, Michelangelo, Machiavelli. Condena Lutero por razões de Estado

A compilação da teologia, a proclamação de verdades inquestionáveis em forma de dogmas, o código canônico que determina condutas e sanções, a moral que vacila ao sabor das épocas, conservadora ou liberal, são ações que exigem organização, burocracia, dinheiro, estratégias, governo.

Pela primeira vez, na literatura ficcional brasileira, se revela o código de fianças da venda de indulgências para obter a absolvição antecipada de pecados e crimes. O dinheiro seria empregado na construção da Catedral de São Pedro, em Roma.

Art. I − O eclesiástico que incorrer em pecado carnal, seja com monjas, primas, sobrinhas, afilhadas, ou com outra mulher qualquer, será absolvido, mediante pagamento às arcas papais, de 67 libras ouro e 12 soldos.

Art. V − .Os sacerdotes que quiserem viver em concubinato com suas parentas pagarão 76 libras e 1 soldo.

Art. X − Se o assassino deu morte a dois ou mais homens num mesmo dia, pagará como se tivesse assassinado a um só.

Art. XXXIII − Os eunucos que quiserem entrar para as Ordens sacras pagarão a quantidade de 310 libras e 15 soldos.

As pedras (de Roma) simbolizam a perenidade, a resistência, a dureza sobre as quais repousam edifícios. Que pedras são essas que suportam o peso das ambições humanas políticas e religiosas? São pedras simbólicas. Entre a astúcia, a sorte, a força, a autoridade, a firmeza da ambição, o fascínio do poder e da riqueza, a vaidade, o prazer da mesa e da cama, a arte das cores e a da guerra, a animalidade cruel do homem-lobo, qual dessas pedras é mais consistente para manter o poder de um papa? Sobre quais colunas de mármore se sustenta a sociedade humana e o poder que a dirige e domina?

Eugênio Giovenardi (61) 9981-2807 http://www.eugeObservador.blogspot.com

O AUTOR

EUGÊNIO GIOVENARDI, natural da Cidade de CASCA, RS é sociólogo graduado na UFRGS e Pós-Graduado em Sociologia do Desenvolvimento na Sorbone, Paris. É especialista em Cooperação Agrícola e Organizações Rurais, às quais dedicou 35 anos. Reside em Brasília, DF desde 1972.

Publicou o primeiro romance Os filhos do cardeal (Paralelo 15, 1971), traduzido ao espanhol (Ed. Arte e Literatura, 2000), ao finlandês (Ed. LIKE, 2001). O segundo romance, Em nome do sangue (Ed. Movimento, 2002), ganhou, em 2003, o PRÊMIO AÇORIANOS DE LITERATURA em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Traduzido ao finlandês (Ed. LIKE, 2005), com edição de bolso, em 2006. Outros títulos: Ventos da alma (poesias, Ed. SER, 2002, Os pobres do campo (ensaios, Tomo Editorial, 2003), Solitários no Paraíso (prosa e verso Ed. Movimento, 2003), O retorno das águas (ensaio, Ed. SER, 2005). É colunista do Jornal mensal Ciência e Cultura, desde 2001.

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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

MEGASSALÁRIOS

É comovedora a atenção que certos setores da República dão à justa remuneração de seus funcionários. Cuidam não só dos excelentes salários que recebem – vinte mil reais ou mais − por mês, como das várias aposentadorias adquiridas de poderes distintos. Com esses dignificantes prêmios por inigualáveis serviços prestados ao povo e ao país, nossos personagens ilustres, entre eles os atuais presidentes da Câmara e do Senado, podem gozar do bom e do melhor, sem precisar, no fim do dia, contar as moedas que sobraram depois do jantar no Piantella.
Esse cuidado de pagar bem, não digo 25 mil reais, mas ao redor de 12 ou 15 mil, deveria ser estendido a todos os trabalhadores, do metalúrgico ao gari, do professor da escola primária à empregada doméstica.
Uma das preocupações do presidente da República, dos Ministros da Fazenda e Desenvolvimento Econômico, é a expansão do consumo que, por sua vez, estimula a indústria a produzir mais e mais, engrossando a barriga do PIB ao infinito. Ora, a fórmula para se conseguir o nobre intento do crescimento econômico é o bom salário. Com 15 mil reais no bolso todos os meses os cem milhões de trabalhadores não deixariam uma só geladeira nas lojas, arrebatariam todas as televisões e aparelhos de som, esvaziariam as agências de automóveis, limpariam todas as prateleiras de carnes e vinhos, esgotariam, num só dia, essa miudeza barata produzida na China. Além disso, se extinguiria o déficit habitacional.
Chegaríamos, assim, ao outro lado da pobreza por excesso de consumo. Seríamos pobres por excesso de bens dentro de casa, na rua, no mar e no ar. Não haveria mais estoques, nem oferta, nem competição. Total ausência de produtos. Filas intermináveis de consumidores com dinheiro no bolso diante de lojas e supermercados. Frustração geral.
Expressei essa sugestão a Pedro de Montemor. Criterioso, leitor das peças de Brecht, levou caridosamente seu pensamento aos futuros pobres e infelizes de um sistema econômico igualitário que pagasse os mesmos salários obtidos por ilustres personagens do país: os banqueiros. Não teriam a quem emprestar e, sem cobrança de juros e taxas, iriam à bancarrota.
Por estas últimas razões, as diferenças de salários não só se justificam como se impõem. Parte dos cidadãos pode consumir quanto queira. Outra parte, só o estritamente necessário para que não falte nas gôndolas, nas prateleiras e nos caixas-fortes dos bancos o imprescindível para continuar consumindo, sem perturbar a vida dos funcionários e executivos detentores de magassalários, obviamente merecidos.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

SUPERSAFRA

A França, 544.000 k2, 15 vezes menor que o Brasil, duas vezes maior que o Rio Grande do Sul, pouco menor do que toda a Região Sul, estima colher, neste ano, 70 milhões de toneladas de cereais, mais de um milhão de toneladas por habitante.
Nosso Ministério da Agricultura tem obsessão por supersafras. Em pouco mais de 10 anos, passamos de 90 para 150 milhões de toneladas de grãos. Estimativas nem sempre confiáveis se levadas em conta cifras da CNA, Contag e Federações de Agricultores quando se referem à diminuição da área plantada por falta de crédito ou por força das intempéries regionais: secas ou inundações.
A França sozinha, não a Europa, produz, portanto, mais da metade de nossa supersafra. Trata-se de políticas agrícolas, produtividade, qualidade da semente, fertilidade da terra, uso racional do solo, fertilizantes, defensivos agrícolas? Ou tudo isso?
O orgulho nacionalista e o orgulho do poder se alimentam de grandes números que ao fim e ao cabo não são tão grandes. A menos que para os governantes os números tenham outro significado.
Exportamos excedentes. Quer dizer, é mais fácil buscar dólares com o excedente do que usar a matéria-prima para agregar valor dentro do país. O baixo poder aquisitivo da maioria do povo brasileiro é reforçado com subsídios para consumir o básico, o estritamente necessário para viver.
Ao comparar os números da França com os da supersafra brasileira percebe-se que governo e empresas estão contentes com a mediocridade produtiva.
Ouve-se, com frequência, que o Brasil é o celeiro do mundo, pela sua extensão, pelo clima, pela abundância de água que permitem colher quatro safras anuais.
As riquezas naturais são abundantes e pródigas. Faltam políticas agrícolas, faltam capacidades gerenciais para administrar “uma terra que em se plantando tudo dá” e, em não se plantando, tudo dão.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

ASSALTOS, ROUBOS, MORTES

Os noticiários cotidianos de TV, em tempo real, abrem seu jornal com roubos, assaltos, mortes, algumas delas precedidas de torturas. Milhares de câmaras instaladas nos prédios, nos postes, em supermercados, estacionamentos, em telefones celulares captam flagrantes e testemunham os atos cometidos.
Esses mecanismos, parece, não intimidam nem inibem tais tipos de ação. Facilitam, por outro lado, a prisão dos envolvidos, mas não desestimulam as iniciativas nem desvirtuam a tentação, o desejo e a vontade de quem é levado a agir nessa direção.
A presença direta da polícia tampouco é um obstáculo intransponível para evitar roubos cinematográficos. Não raro, esses fatos acontecem a alguns passos de delegacias e postos policiais. A presença ou proximidade da polícia pode até ser um elemento auxiliar para o roubo, pois baixa a guarda, relaxa a atenção dos que confiam nela e não desconfiam do imprevisto e da surpresa. Mais grave é quando a polícia compõe as circunstâncias, faz parte da inteligência da ação ilícita e reparte o botim.
Vale recordar que existem sociedades, em nossa era, onde não se pratica o roubo e não se gastam fortunas em tecnologias eletrônicas ou em polícias armadas para o controle social. Obedecem a um diferente processo social e educativo.
O roubo, a subtração, a apropriação indébita em todos os níveis – da banana aos cofres públicos – apesar de todos os controles, da fiscalização periódica, do policiamento eletrônico, das denúncias e prisões – são sempre e cada dia mais prováveis e reais por duas razões, reforçadas por outras secundárias.
A primeira é a disponibilidade crescente de bens, patrocinados pelo progresso tecnológico e pela acumulação, transformados em sonhos de consumo e ascensão social pela propaganda e publicidade. Está em voga um processo pedagógico avassalador que dá dimensões infinitas ao ter e reduz o ser ao mínimo necessário. Empurra-se a sociedade para a conquista da felicidade primitiva de luta pela sobrevivência dos mais fortes. O crescimento econômico e a criação de necessidades estimuladas são fatores importantes de consumo aberto para todos. O estímulo ao consumo pelo bombardeio intenso da publicidade é infinitamente mais forte do que qualquer mecanismo de policiamento físico ou eletrônico de controle punitivo.
A segunda razão tem origem no operador da ação. É uma decisão formulada por ele em cuja trama está o inconsciente e o consciente, o subliminar e o liminar. Ele é informado incessantemente sobre a existência de bens que estão em algum lugar e é provocado a chegar até eles. Sua vontade de obtê-los, sua coragem, inteligência e determinação se transformam em poder aquisitivo.
Forma-se a lógica sub-reptícia do equilíbrio distributivo: o que está sem uso na mansão milionária ou em lojas finas pode ser transferido para um novo usuário. A lógica é a mesma para a subtração da banana, das joias, do dinheiro do banco ou do erário. O tratamento judicial e policial dos fatos e das pessoas, no Brasil, é que faz a diferença.
O que choca, impressiona e indigna é o ato violento, a tortura e a morte que muitas vezes acompanham um assalto, um roubo ou uma simples subtração. Mata-se por um tênis ou por um saldo bancário. Não há que misturar ideológica e metodologicamente o desemprego, a necessidade, a pobreza, a desigualdade econômica com a eventual violência numa operação de roubo. A diversidade das ocasiões, das oportunidades, dos desejos e das ambições envolve pessoas de distinta formação, educação e categoria social. Exemplos não faltam.
Uma operação empreendida, ainda que armada, é arriscada. É uma guerra. Há um confronto de forças em jogo. Há um tempo a ser cumprido. Há objetos a serem recolhidos. Há resistência na defesa do patrimônio e há imprevistos e distrações. Há momentos, nesse confronto, em que arrombar uma porta ou matar a pessoa estão no mesmo nível de decisão: são obstáculos a superar na consecução do objetivo. O latrocínio, implícito nas circunstâncias de risco, pode não ser premeditado como são alguns atos de eliminação de arquivos vivos por personalidades invisíveis bem situadas na sociedade. O número de mortes em assaltos e roubos é bem menor do que os roubos limpos efetuados por profissionais.
As medidas tradicionais de caráter social ou policial tomadas para inibir, dificultar ou impedir assaltos, roubos, subtrações de qualquer espécie perdem, diante da imensa e crescente disponibilidade de bens ociosos e desnecessários, sua virtude e credibilidade e tornam-se inócuas, ainda que as prisões se encham. Gerar empregos, aumentar ou redistribuir a renda individual, construir casas, abrir escolas e universidades devem fundamentar-se numa pedagogia que abra perspectivas ilimitadas e infinitas ao ser, única forma de dar a justa proporção à necessidade de ter. Nossa sociedade é dirigida pelo princípio pragmático de que é preciso ter para ser.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

TELEFONE CELULAR

O telefone celular incita seus usuários a falar. A maioria dos que o possuem não resiste à vontade de ligar a outro, amigo, cliente, subordinado ou chefe. São poucos os que preferem ficar sozinhos na rua, no ônibus, no metrô.
No ônibus, escutei historias engraçadas, tragédias amorosas, ordens severas a empregados via secretária, ameaças de não voltar para casa, desculpas por atrasos suspeitos, (no momento estou ainda no escritório e chegarei depois das 23 horas). Para onde iria esse ônibus?
Na calçada, encostada a um poste, a moça dizia que depois das 21 horas seria muito tarde. Eram 19 horas. Confirmei no relógio.
Há os que escondem o aparelho no bolso e o microfone na lapela. Caminham falando sozinhos, mostrando com a mão o tamanho de algum objeto ou a altura do edifício em frente do qual se encontram. Outros falam às minhas costas. Olho para trás, pensando que a conversa seria comigo. Eram insultos graves, acompanhados de gestos indecentes. Seria um exímio ator de teatro do absurdo. Andava rapidamente. De repente, parava, olhava para cima, levantava e deixava cair os braços, sacudia a cabeça e gritava para superar o tom do interlocutor em alguma outra rua, ou café, ou banheiro.
Um executivo, prestes a entrar no túnel que o conduziria ao avião, dava ordens terminantes, autoritárias, em tom agressivo, a um subordinado: “Tem que estar pronto até às 12 horas. Me manda o relatório por emêil. Tenho reunião às 14 horas”. Terminou a conversa bruscamente. Olhou para os lados para recolher os efeitos de sua autoridade. Eu pensei no subordinado e no que ele estaria pensando do chefe. Esses pensamentos não estariam no relatório.
A senhora, mais gorda que magra, de óculos escuros, cheia de colares e braceletes, grandes argolas nas orelhas, contestava os argumentos do credor. Recusava-se a pagar o montante e ameaçava a empresa com seu advogado, com o Procon, fecharia a conta fidelidade, devolveria o produto. Eram vários mil reais em jogo, somando o principal, os juros e a mora, que ela repetia com certo orgulho com ênfase na voz. “Dez mil reais”. Aborreceu-se com a resistência do credor e fechou o celular com ruído. Olhou-me e disse: “É incrível. São uns ladrões”.
Às vezes, saio à rua para ouvir histórias interessantes, fuxicos, fofocas, encontros marcados, rompimento de namoro. Em geral, a concorrente está ao lado. No restaurante, em poucos minutos, sabe-se de intimidades e costumes que antigamente eram comunicados no quarto, a dois. Aprecio os e as que falam rindo, gesticulando, olhando ao redor e, principalmente, os e as que gritam para que os outros ouçam seus segredos atrevidos.
Mas há os discretos que se limitam ao sim, sim. Não, não, Ou sim, é, não, não é, sim, foi. Eu ligo, eu ligo. Ciao. Beijos. Outro.

CIDADÃO DO PLANETA TERRA

Pedro de Montemor surpreendeu-me com uma carta escrita há uma semana.
“Tenho uma boa história. Creio que só poderia acontecer aqui. Tomei o ônibus que faz a linha do local onde me hospedo e o Quartier Latin. Sentei-me na única poltrona solitária perto da janela. Na parada seguinte, subiram duas senhoras completamente francesas. Num gesto espontâneo de cidadania, levantei-me e ofereci o lugar. Um delas agradeceu sem sorrir e sentou. Era mais jovem do que eu e ainda bonita.
Logo depois, vagou um assento. Fui ocupá-lo ao lado de um senhor que, levantando-se, me facilitou o acesso. Era dez anos mais velho do que eu, cabelos alvíssimos, a boca repuxada para o lado direito. Mancava de uma perna. Olhou-me, procurou identificar minha origem e para confirmar suas apostas, perguntou-me:
− De que país vem o senhor?
Ocorreu-me de forma fulminante uma resposta singular.
− Sou cidadão do planeta Terra.
Ele se assustou, enrugou a fronte e eu continuei:
− Qualquer pedaço do planeta Terra me dá a sensação de liberdade, de curiosidade e, em todo o caso, o desconhecido é o mesmo, as agruras e os amores são os mesmos. As árvores e as águas em qualquer parte da Terra são minhas amigas e com elas me demoro em longas conversas.
Disse-lhe tudo isso em francês e ele tolerou educadamente as agressões que cometi contra sua língua. Olhou-me com um olhar de 85 anos e esperou que lhe dissesse enfim o nome de um país. Em vez disso:
− Tenho quatrocentos anos de história italiana e mais de 70 em países da América do Sul.
− Que faz em Paris?, perguntou-me, cansado de minha filosofia.
− Vim descansar das agruras e dos amores que atropelam o ser humano em qualquer país. É mais fácil suportar a Terra do que um país.
Não acha você?
Lembranças planetárias.”

O ESPELHO

As vitrinas são do tempo em que não havia internet. Ao longo das calçadas das ruas de Paris, elas desfilam incansavelmente todas as modas, da cabeça aos pés. Muitas mulheres usam a vitrina para arrumar o vestido, pentear o cabelo, competindo com manequins de caras surpresas e outros sorridentes. Proprietários atentos colocaram um verdadeiro espelho, grande, generoso, gentil para essas funções secundárias. Os virtuais clientes passam pelo espelho e, se ouvem um bom conselho, olham a vitrina e entram.
A senhora que ia à minha frente passava dos 70 anos, pequena, magra, guardava sua antiga e conformada feiúra. Caminhava de vagar, sapato raso e uma pasta de couro na mão. Parou diante do espelho. Eu vi seu rosto lá dentro e o espelho não lhe fez nenhuma concessão. Vi seu olhar de desgosto e decepção. Ouvi o que ela disse, resumindo sua conformação mortal:
− C’est ça!
E o disse a si mesma como se estivesse convencendo alguém sobre uma verdade inquestionável. Continuou sua caminhada, indiferente às vitrinas que a convidavam a entrar. Ela seguia remoendo a tese filosófica que o espelho lhe havia exposto com a frieza de Aristóteles e de Cícero sobre o tempo que passa e a arte de envelhecer. O tempo não tem culpa quando o espelho nos diz que os anos passaram e nos levaram consigo.

domingo, 20 de setembro de 2009

FELICIDADE PRIMITIVA

O noticiário da última sexta-feira (18.09.09) foi regado com estatísticas e alimentado com números e porcentagens. Mais crianças na escola – aprendendo menos, segundo outros dados oficiais. Mais computadores, mais celulares, geladeiras, sofás novos na sala, TV’s espalhadas pela casa. Mais empregos com carteira assinada – sem mencionar as demissões constantes em setores importantes agravadas pela dificuldade de utilizar conhecimentos estocados em profissionais acima de 50 anos.
A felicidade primitiva de sair da caverna, escapar de dentes ferozes, esconder-se em choupanas de pedra e sobreviver à inclemência do clima, está sendo recuperada. É uma caminhada humana que iniciou há 10 milhões de anos. Como imaginar, no estágio tecnológico atual, que essa felicidade primitiva não tivesse continuidade?
Todos os números anunciados garantem que essa felicidade primitiva de conquistar, adquirir, sobreviver e orgulhar-se da própria sobrevivência são alentadores e enchem de glória os homens que detêm o poder e se atribuem o mérito das vitórias.
O país foi reduzido politicamente à felicidade primitiva. A estatística faz médias e equilibra os números. Mostra que a felicidade primitiva tem graus, diferenças e desigualdades. Uns são mais felizes que outros nesse patamar primitivo. Minha diarista limpa cinco apartamentos na semana, além de lavar, passar e cozinhar. Conseguiu, com seu trabalho, meu dinheiro e o dos outros quatro, levantar casa em terreno de invasão, que ela denomina barraco. Nele há sofá, TV, som, geladeira, máquina de lavar, freezer. Leva celular na bolsa. Passa quatro horas no trânsito. Levanta às cinco da manhã. Trabalha oito horas diárias. Sua felicidade primitiva está garantida. Orgulha-se de sua força de vontade, habilidade e vitórias sociais. Angustia-se com seus quinze quilos acima do peso ideal. Tem quarenta anos. É praticamente analfabeta. Mal escreve seu nome. Erra na palavra escrita e falada. Não lerá um livro até o fim de seus dias, nem jornal, nem revista, nem irá a teatro ou concerto no Teatro Nacional. Capta notícias pela metade. Acredita nos apresentadores de TV. Tem fé em Deus. Espera três meses para uma consulta de emergência num hospital público. Usa seus conhecimentos práticos, assessorada por detergentes da última propaganda, desinfetantes, bombril e muita água. Sua melhor virtude política é a capacidade de se indignar contra as decisões do governo, mas acaba votando nas promessas que não serão cumpridas. Estimo que haja 150 milhões de brasileiros na mesma situação de minha diarista. O governo do país prefere um povo com tecnologia avançada e mentalidade atrasada.
As autoridades do país mostraram-se contentes, gratificadas e vencedoras com os números, os percentuais e as médias elaboradas pelo sistema estatístico. Uma delas é 1,8 filhos por casal.
Os números atestam, o país vai bem. A empregada doméstica, num curso de alfabetização, entrevistada por um canal de TV tem razão e se alinha com o Presidente da República.
− Por que, perguntou, estudar matemática para limpar a casa de madame e cozinhar o feijão?
A felicidade primitiva do brasileiro está garantida e comprovada por percentuais estatísticos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

CIDADE-PARQUE ou PARQUE DA CIDADE

A rainha Maria de Médicis comprou o Palácio de Luxemburgo, em Paris, e as terras circunvizinhas ocupadas por monges e agricultores, no início do século XVII. Guardando a tradição da família florentina, em 1612, convocou naturalistas e arquitetos com o fim de proteger essa vasta área quase selvagem em ambiente de repouso, silêncio e meditação, hoje, conhecido como Jardim de Luxemburgo. Árvores centenárias testemunham a passagem do tempo e sobrevivem às gerações que descansaram à sua sombra.
Lá, como aqui, o olho grande dos construtores não resistiu ao ímpeto de derrubar árvores e pôr em seu lugar edifícios gigantescos como sinal de dominação da natureza. Diante da saga arrasadora de engenheiros e inversionistas da construção, em 1859, uma lei conservacionista refreou o fio do machado e delimitou definitivamente a atual área de 25 hectares para descanso dos parisienses.
Conheço o Jardim de Luxemburgo desde 1967. Mais de quarenta anos e nada mudou no projeto original de ser um ambiente de beleza, arte e grandeza natural. A ninguém se lhe ocorre, hoje, transformá-lo num parque de exposição ou num atalho de circulação de veículos para cortar caminho entre o local de trabalho e a residência do cidadão na era do automóvel. O Jardim não foi invadido com rodas gigantes, play-grounds, bares de música barulhenta ou restaurantes com estacionamentos privativos. Em espaços bem limitados estão quadras de uso infantil, canchas de bocha para idosos ou de esportes leves. A maior parte do Jardim é cortada de alamedas, cadeiras e bancos, um lago repousante, esculturas de escritores, artistas, pensadores, representações da vida cotidiana, de mitos e da história cultural e política da França. Um quiosque para o chá ou o vinho e um discreto restaurante protegido por imensas árvores atraem os frequentadores para o refrigério das tardes quentes ou o aquecimento nos dias de inverno.
É um espaço amplo, com muitos bancos para sentar, pensar e conversar, à beira de um lago. Aberto, acolhedor, generoso, tão grande quanto os desejos e as aspirações do espírito e as sublimes provocações da inteligência do ser humano. Um parque é para estar, passear entre árvores e canteiros de flores para conhecê-las, amá-las e respeitá-las.
Conservar a história urbanística e paisagística de uma cidade é não ter medo de multiplicar espaços amplos, tranquilos, silenciosos onde repousem à noite os sonhos e os amores vividos durante o dia.
É tranqüilizador constatar que ninguém se atreve, contra a história e a consciência cultural dos cidadãos, mudar a destinação do Jardim de Luxemburgo, amputá-lo, introduzir funções outras que não sejam as do repouso artístico e, muito menos, decidir pelo adensamento da construção depredadora.
Conservar é manter as conquistas de nossos antepassados e melhorá-las sem deformá-las. O Parque da Cidade de Brasília poderia se espelhar no Jardim de Luxemburgo e transformá-lo num jardim para pessoas, sem a presença do automóvel.

domingo, 23 de agosto de 2009

MOVIMENTO MARINA SILVA

O movimento Marina Silva Presidente é uma janela da qual se pode olhar o Brasil com nova esperança, tão vasta e resistente quanto a Amazônia. A hora é esta de expressar a inconformidade e sonhar com mais igualdade.
O poder autoritário estabeleceu a verdade linear, a interpretação única: existem pobres no Brasil e há que atendê-los sem abrir caminho para que saiam da pobreza social, moral e mental. Os capachos da estatística oficial enfeitam com números o bolo da festa e anunciam que tantos por cento deixaram os subterrâneos e romperam a linha da pobreza ou da miséria e entraram com o celular e a geladeira para o clube consumista dos centros comerciais da classe A. Tática de fortalecer o grande capital da indústria, do comércio, dos bancos.
Essa linguagem codificada de percentuais satisfaz os de cima e os de baixo. O axioma é simples: pertencer à classe consumidora é ter dignidade, cidadania e identidade, não importa o grau de ignorância, subserviência e conformação. E, assim, o pragmatismo da corrupção se instalou no poder.
O trabalho produtivo que dá à pessoa o sentido vital da criatividade, do pensamento e da crítica se submete ao consumo passivo, estimulado por um subsídio grátis. Esse subsídio não é um veneno social a ser eliminado e, sim, a ser reorientado para curar, pela via do trabalho produtivo, a desigualdade de oportunidades. É o trabalho criativo que estimula e incita as pessoas a vencerem a ignorância e a pensarem a própria existência.

Com Lula,
nos fartamos de ver a árvore,
com Marina Silva,
começaremos a olhar para a floresta.

Induz-me a participar do MMS o fato de ser ele conduzido com espírito livre, acima de partidos políticos, sem eliminá-los, fortalecendo as instituições necessárias.
Animam-me duas razões filosóficas e políticas para agregar-me ao Movimento: reorientar o sentido existencial do consumo de bens vitais, como alimentação saudável e educação, e estimular a produção nesse rumo; incentivar os investimentos públicos e privados da produção agrícola, industrial e tecnológica, induzindo de forma educativa a aproximação dos cidadãos à natureza da qual os seres vivos fazem parte.

EDUCAR PARA PRODUZIR

A miséria, a pobreza e a fome que não permitem à pessoa dedicar-se a outra atividade que não seja procurar comida é uma situação que, aos sensíveis comove e indigna. Aos brutos, endurece.
Dar de comer a quem tem fome é o primeiro passo. Os passos seguintes têm que ser dados logo para que os famintos tenham oportunidade de produzir, ou comprar com seu trabalho, a comida. Essa iniciativa não se consegue sem um melhor conhecimento da própria capacidade adquirido por meio da educação.
Não é apenas incentivando o consumo por meio de um subsídio que se constroi uma sociedade, mesmo dando a alguns milhões um prato diário de comida. É preciso introduzir o conceito de produção engenhosa e o engenho se aperfeiçoa na escola eficiente. O consumo melhora, aumenta, se excita e as indústrias decrescem. O subsídio que se dá ao consumidor repercute nas grandes distribuidoras e bancos que dominam a economia e impõem seus estoques aos incautos. Cria-se a dívida numa ponta e o lucro na outra.
Um olhar crítico e analítico desses programas de incentivo ao consumo, tanto para combater a fome, quanto para comprar automóvel ou geladeira, esbarra num processo seletivo de necessidades.
O Bolsa Família alcança 13 milhões de famílias – 65 milhões de cidadãos. Quantos desses brasileiros passam fome? Ninguém sabe. O critério simplista é o salário reconhecido em carteira de trabalho, confrontado com o número de filhos. A astúcia do brasileiro prevaleceu. Encheu-se a Arca de Noé com toda sorte de espécimes: do faminto ao empresário, vereador, prefeito, professor e outros. Quem não acata esse sistema de publicidade política em nome dos que têm fome, é imbecil e ignorante. Quem o aceita também o é.
O que falta é capacidade local e regional para enfrentar a pobreza, a miséria e a fome. Eis o espaço mole sobre o qual o governo central autoritário se deleita, pinta e borda com o dinheiro público.
Construir, desenterrar, aprimorar capacidades locais participativas e solidárias para vencer os desafios da convivência igualitária de uma sociedade deve constituir o primeiro passo.
A sociedade brasileira se acostumou a aceitar que tudo se decida na esfera maior do poder e gasta o tempo na mesa do bar para contestar, sem êxito, a ditadura administrativa, econômica e política.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O DITADOR DEMOCRÁTICO

Houve uma época em que dezenas de ditadores explícitos governavam pelo mundo afora. Os implícitos, na oposição, esperavam sua vez. Na América do Sul, os ditadores floresciam e abundavam. No Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, Peru, Bolívia, há bem pouco tempo, as ordens emanadas vinham dos quartéis, ditadas por generais e marechais. Usavam um partido político domesticado para ladrar aos intrusos e lamber as botas de quem lhe dava comida e coleira.
O mundo da política foi mudando. Ditadura fechada, ordens verticais, disciplina militar do marcha soldado não se entendem com evolução tecnológica, velocidade da informação, TV, telefone celular, correio eletrônico. A sociedade se encheu de hackers mercenários. Nem a União Soviética nem a China resistiram à investida do Sistema cuja arma atômica é o mercado. O mercado democrático. O mercado tecnológico, industrial, comercial, político, cultural suscitou dezenas de ditadores implícitos que lhe fazem as vontades, o aperfeiçoam e, em nome dele, ditam normas e princípios, e proferem ameaças protegidos pela única verdade que só eles compreendem e detêm. Só os imbecis e os ignorantes não a aceitam.
Cada ditador implícito usa a retórica que mais lhe convém, seja de direita ou de esquerda ou de centro sem alterar a coluna vertical do Sistema divino e religioso do mercado. Sua missão é estimular o crescimento econômico ao infinito, refletido nos números do PIB que a vestal estatística prepara nas noites de orgia matemática.
Para um ditador implícito não importa o número de partidos políticos. Ele tem a receita e a dose para dopá-los. Os favores do poder se fragmentam em nacos compartilhados com os bajuladores de plantão que se embriagam com as honrarias e os honorários e estão dispostos a perder a pele para salvar o ditador.
O ditador dita o que é bom para o pobre e para o rico. O ditador não vê, não ouve e não sabe o que se passa a seu redor. Ditador implícito não assume nenhuma responsabilidade, sequer das idiotices e imbecilidades que vomita ao público boquiaberto.
A pior das ditaduras é a democrática que sustenta um sistema invisível e é ratificada na urna eletrônica. Mas não tenha medo de ser feliz, caro cidadão. A esperança é uma das forças que impulsionam o ser humano a arriscar na bolada da sorte. Também chamada virtude cardeal e não desiste nunca.

VALORES NOVOS

Os políticos, os administradores da coisa pública e os senhores da economia, do lucro, do luxo e do bem estar estatístico vão criando valores novos. Analisam as tendências do consumo, as demandas de uma população que se expande fora de controle em busca do melhor lugar para morar e fazem propostas. Vão na onda linear do consumo, arrancam dinheiro do imposto, das multas autoritárias, das restrições e sacrifícios do povo e o convencem de que é para seu bem, conforto, progresso e modernidade.
Urbanizar intensamente a cidade para atender à pressão de construtoras e ao crescimento da população, ampliar vias para dar passagem aos automóveis são valores novos que arrastam todos os outros. Vamos à W-3, antiga rua do comércio de Brasília. Por ali passará o VLT – Veículo leve sobre trilhos. As centenas de árvores que sombreiam a avenida serão arrancadas, espicaçadas para carvão. Cada árvore é composta ou contém ao redor de 700 litros de água. Essa água invisível está ali diariamente e cumpre sua função de absorver o dióxido de carbono e produzir oxigênio. Umedece o ar e controla o aquecimento produzido pelo asfalto, construções, pessoas e pelo calor de milhares de veículos que diariamente rodam por ali. Estão retirando da W-3, digamos, 100 árvores, ou seja, 70 mil litros de água por dia, ou 70 m3. Água que abasteceria 350 pessoas por dia.
Os planejadores e administradores urbanos apontam soluções lineares, atendendo demandas lineares. Um milhão de carros trafegando no Distrito Federal equivale à ocupação de 6 milhões de metros quadrados de espaço absoluto ou 6 km2, ou 600 hectares. São dimensões a que não se dá valor por falta de aritmética geográfica. E quando Brasília for invadida por 2 milhões de carros? Aprendemos a dar valor à máquina e nos submeter a seus caprichos. Ela é nossa propriedade, patrimônio e pedestal de status. O homem que a governa se obriga a dar-lhe o que ela exige. O homem que fazia história, tornou-se escravo da máquina. A história é feita de alta tecnologia.
No lugar das árvores, isto é, em vez de água, correrá por ali um veículo aquecido, sem eliminar o fluxo de milhares de automóveis e ônibus em altas temperaturas repletos de passageiros que respirarão e aquecerão o ambiente,. Que se fará para substituir a sombra, a umidade e o oxigênio produzidos pelas árvores de hoje, na W-3? Ninguém sabe. Os valores que se extraem da vida natural e orgânica, da comezinha lei da saúde corporal e mental estão sendo substituídos pela fluidez do tráfego, pela imposição da máquina que a estultícia do consumo põe no lugar das pessoas. As coisas das pessoas no lugar delas. Onde pôr os automóveis? Onde pôr os edifícios? São perguntas que orientam os políticos erráticos e os administradores presos a compromisso de construtoras, engenheiros e arquitetos cooptados pelos novos valores do crescimento ordenado da cidade. Onde pôr as pessoas? Em que ambiente e em que circunstâncias de saúde e convivência é mais digno e estimulante assentar o cidadão?
Que acarreta essa inversão das importâncias. Duas situações: maior velocidade dos carros e, não é certo, melhor locomoção de gente com um pouco mais de conforto e, junto a essa ilusão de melhora técnica e modernização, ganha-se uma avenida deserta, lotada de ônibus, veículo sobre trilhos, carros levando um único passageiro, sem árvores, o ar seco, fumaça irritante, ruído, assaltos, roubos, mendicância.
Políticos e administradores de Brasília, assessorados por construtoras, empreiteiras, incorporadoras, engenheiros de trânsito e arquitetos a soldo pensam em linha reta e resolvem os cruzamentos do futuro com semáforos e viadutos.