quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

LIXO NOSSO DE CADA DIA




Eugênio Giovenardi, escritor, acadêmico do IHG/DF e membro do ICOMOS. (Publicado no Correio Brasiliense, 26.12.2016)

O sistema econômico mundial de produção-consumo-produção fundamenta seu lucro e eficácia no aumento da população consumidora. Não é comum querer comprar três relógios Rolex. Porém, qualquer pessoa precisa de água e comida todos os dias. O crescimento da população, além das necessidades essenciais de sobrevivência, vem cercado de estímulos cada dia mais diversificados para seu conforto com bens úteis e inúteis, de curta duração. Essa imensa gama de bens de consumo alimenta a usina autossustentável de fabricação de lixo líquido e sólido. O lixo seja talvez um dos itens que não entram no planejamento urbano e parece não ter sido preocupação na maioria dos projetos de engenharia e arquitetura urbana do Distrito Federal.
Com o crescimento da população e consequentemente do consumo de bens industrializados, a tendência é que o lixo aumente na mesma ou em maior proporção com a entrada no comércio de produtos com obsolescência programada. Produtos que duravam 10 a 20 anos, hoje são descartados em poucos meses.
As ações dirigidas ao lixo têm um sentido curativo e não preventivo. Uma ação preventiva e inteligente buscaria minimizar a produção de lixo liquido, orgânico ou sólido. No entanto, as ações curativas, mais dispendiosas do que as preventivas, se arrastam em demorados projetos sanitários da administração pública com a construção de galpões de reciclagem e aterros sanitários.  Corre-se atrás do lixo, e apenas a uma parte dele. Espera-se que a água suja ou usada chegue aos córregos ou ao Lago Paranoá para tomar medidas de purificação e devolvê-la aos cidadãos. Grande parte dos projetos de esgotamento de águas pluviais é proposta depois de inundações, desmoronamentos, destruição de casas e mortes de cidadãos. Projetos de captação de águas pluviais e reflorestamento de áreas comuns são, até hoje, exceções.
Ian McHarg (1920-2001), planejador e arquiteto urbanista de projetos de base ecológica, professor da Universidade da Pensilvânia, foi um dos principais críticos do consumo dos bens físicos no mundo. Contratado, em 1971, para projetar a construção de Woodlands New Town, para uma população de 50 mil habitantes, no estudo prévio, determinou os “requisitos de desempenho para a manutenção dos valores sociais representados pelo ambiente natural”. Dentre eles: “o cuidado com nascentes e perigo de enchentes; riscos para a vida e saúde, ocasionados pela ação humana e relacionados com a qualidade da água, recarga de aquíferos, perfuração de poços artesianos e solos inadequados para despejo de dejetos”. A expansão de Brasília parece não só desconhecer, como ignorar esses valores sociais do urbanismo, essenciais para a convivência dos cidadãos.
Todos os dias, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) do Distrito Federal recolhe das ruas 2,7 mil toneladas de lixo. Desse total, apenas 1,2 mil recebem tratamento. Segundo o SLU, as 900 toneladas serão despejadas no Aterro de Samambaia recém-liberado para receber os rejeitos não reaproveitáveis. Quantos milhões de reais foram investidos nessas 900 toneladas que, em troca, emitirão chorume que fatalmente contaminará o solo, o ambiente respirável, os cursos de água e os aquíferos interiores.
Esse acúmulo de lixo não aproveitável, é acrescido de toneladas de lixo espalhadas pelas quadras do Plano Piloto e cidades satélites ou às margens das rodovias, como se observa entre Taguatinga e Ceilândia. São fonte permanente de poluição ambiental e difusão de bactérias que afetam as águas, as árvores e as pessoas. Esses dados são ainda mais preocupantes se considerarmos que boa parte desse lixo é jogada no Lixão da Estrutural, o maior lixão a céu aberto em operação na América Latina. Desse Lixão depende a sobrevivência diária de mil catadores e suas famílias em condições insalubres e degradantes
Os resíduos sólidos, como sucata de automóveis, computadores, aparelhos celulares e eletrodomésticos, ainda aguardam o cumprimento da legislação específica pela indústria, comércio e administração pública. O advento da TV digital, que entrou em vigor em Brasília no dia 26 de outubro passado, produziu efeitos imediatos com o aparecimento de carcaças de televisores à beira de estradas do DF. Na BR-060, entre os KM 1 e 9, nas margens de Samambaia, há 21 pontos de acúmulo de lixo diversificado, a céu aberto, originado de residências, escolas, indústrias, lojas comerciais e da construção civil.
É de se desejar que ações administrativas mais eficientes na classificação e tratamento do lixo expressem a grandeza de uma cidade que é Patrimônio Cultural da Humanidade.

15.12.2016



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

POR QUE OUSO DIZER




Cedo ao impulso de dizer, sem presunção, que dediquei mais de quarenta anos à preservação da vida vegetal e animal, do ambiente e das águas, na biocomunidade do Sítio das Neves, área de cerrado no Planalto Central.
Quem e quantos, no Distrito Federal e no Brasil, realizam ações concretas que propiciem a regeneração de um bioma ou parte dele?
Quem e quantos desenvolveram um sistema planejado de recuperação de áreas degradadas com proteção de espécies nativas originais?
Quem e quantos se preocupam com a captação de águas da chuva para recarga dos aquíferos e fortalecimento de nascentes, numa bacia hídrica integral, com barragens em todos os canais de esgotamento?
Quem e quantos podem exibir resultados ao longo de 40 anos? Alegro-me de ser um deles.
Infelizmente, não possuo informações sobre tantos ecologistas que, como eu, compreenderam os equívocos do crescimento econômico destruidor da natureza. Gostaria de nominá-los para me alegrar com sua presença quase invisível e silenciosa.
Sei que há bons exemplos nos quintais urbanos de paisagismo e cuidados para integração de fauna e flora. Que há estímulos do governo para pequenos grupos de agricultores, estimulando-os a gastar menos água no processo produtivo, depois de verem esgotadas as nascentes e a terra.
Quem do PV ou ONGs ambientais têm projetos ou planos ou programas em desenvolvimento que sejam rumos a seguir?
Ibama, Fundação Chico Mendes, Ibram, Sema, Ministério do Meio Ambiente, além de atos políticos e legais, quais iniciativas poderiam indicar como exemplo possível de somar-se aos que se dedicam à proteção ambiental? Ou chegaremos sempre depois que a lama e as inundações aumentam a indignação e a tristeza dos vivos ou o lamento pelos mortos?
O Sítio das Neves, no Distrito Federal, é uma iniciativa cidadã, particular, sem ajuda do erário público nem da orientação governamental. É um investimento para o futuro ambiental do Planalto Central.
Meu trabalho garante 700.000 litros de água diária, à noite, , graças ao orvalho que se acumula sobre a vegetação do Sítio.
Liberei estes 70 hectares, pouco mais de um milésimo da área do DF, da especulação imobiliária e do primitivo e irracional processo de produção de alimentos.
Garanto água limpa e abundante, que brota de nascentes e alimenta córregos para as próximas décadas, se as queimadas, os poços tubulares ou artesianos não esgotarem os aquíferos da região.
Tenho a oferecer uma universidade vegetal a estudiosos, a amantes da natureza, a cidadãos que desejam preservar o que temos de essencial no país: árvores e água.
Passados quarenta anos de experiência e atos de preservação, posso, com segurança, aconselhar governos a criarem milhões de empregos verdes ao longo de rios, ao redor de mananciais e às margens de milhares de quilômetros de rodovias para proteger mais de 500 cidades anualmente vítimas de alagamentos.


12.7.2014

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

ÁGUA NOSSA DE CADA DIA


( Artigo publicado no Correio Braziliense, em 25.11.2016) 
Eugênio Giovenardi, ecossociólogo, autor de UMA OBRA EM VERDE, entre outros

As mudanças climáticas bateram à nossa porta não sem avisos prévios. Antes do Clube de Roma, 1972, escritores russos, como Anton Tchekhov (1870-1904), ou franceses, como Marguerite Yourcenar (1903-1987), advertiram a espécie humana sobre o desmatamento, a poluição de rios e o esgotamento dos ecossistemas. O desrespeito à ecologia e a indiferença com o ambiente se agravaram com o crescimento exponencial da população humana nas seis primeiras décadas de 1900.
A intensidade do uso dos bens naturais limitados para a sobrevivência e a reprodução de todas as espécies vivas do planeta, incluído o homo sapiens, depende essencialmente do número de bocas. Os bens essenciais são água e alimentos. Uma pessoa precisa, por dia, de 110 litros de água, segundo a Organização Mundial da Saúde e ao redor de 1 kg de comida. Um bovino, que oferece carne ou leite, ingere 30 kg de comida por dia e consome 15 mil litros de água para converter esses alimentos em um kg de carne. E são necessários mil litros de água para se obter da vaca um litro de leite.
Para produzir um quilo de arroz, um pivô central precisa tirar do subsolo 2.500 litros de água sem a responsabilidade de os repor. Água para produzir alimentos é apenas o ponto de partida para todos os demais usos que dela faz a espécie humana.
Divulga-se que Brasília foi projetada para uma população ideal de 500 mil habitantes. O consumo mínimo de água por dia desses habitantes seria de 55 milhões de litros de água e 500 mil kg de comida. A população atual, 55 anos depois, chega a três milhões. A quantidade de comida passou de 500 mil para três milhões de kg e o consumo de água, de 55 para 330 milhões de litros/dia. 
Esse consumo de água se refere apenas à reposição diária por pessoa, sem contar os diferentes usos de água que vão da limpeza urbana à lavagem de carros, nas quadras e superquadras de Brasília, regadio de jardins ou para a indústria, o comércio e a produção de alimentos.
Esse consumo direto de água visível é multiplicado pelo consumo de água invisível em forma de energia elétrica. Segundo especialistas em geração de energia hidrelétrica, para produzir um KW são necessários 6.600 litros de água. O consumo médio de energia por pessoa/dia é de 3 KW, que requerem 19.800 litros de água. Tudo somado, só a população atual de Brasília requer, para seu conforto diário, 198,3 bilhões de litros de água. Não temos toda essa água no DF. E, a cada ano, ao redor de 60 mil novos habitantes se somam à população do DF, equivalente ao tamanho do bairro Vicente Pires. Não é de estranhar que as grandes represas do país estejam com baixos níveis de água. Cabe inculcar na população esta mensagem permanente: para poupar água, apague a luz.    
Esses dados relativos ao aumento da população e suas necessidades diversificadas, ampliadas pelo estimulo ao consumo desmedido de bens úteis e inúteis são os elementos básicos a determinar uma inteligente gestão econômica da água.
No Distrito Federal, há, pelo menos, seis órgãos públicos responsáveis pela gestão da água, mas atuam como rodas soltas segundo suas competências institucionais. A dissintonia institucional permite que representantes de empresas de perfuração de poços artesianos, sem temor da fiscalização, revelem sua autonomia de decisão a potenciais clientes: “Não precisa falar com ninguém. Isso não é fiscalizado. Todo mundo faz assim” (CB, 5.11.2016)
Por outro lado, a população não tomou consciência da gravidade das consequências das mudanças climáticas. E uma delas é a irregularidade das chuvas. A única fonte perene de abastecimento de água e recarga das nascentes é a chuva. Uma das medidas administrativas essenciais dos órgãos públicos, com autoridade gerencial e a participação da população, é planejar e executar sistemas diferenciados de captação e armazenamento de águas da chuva.
Em épocas de escassez, discute-se a elevação do preço da água. Ameaça-se com racionamento. Obriga-se a individualização dos hidrômetros. Recomendam-se projetos de reuso da água e outros truques. Essas medidas, ainda que necessárias, são subsidiárias e não estimulam na população comportamentos de longo prazo nem aumentam o volume das represas e rios.
Urgente, diante da irregularidade das chuvas, é a captação de águas pluviais, no campo e nas cidades, e de múltiplas formas. A captação para recarga dos aquíferos, como solução ecológica e permanente, se faz, como em Tóquio, com galerias de reserva. Reforça-se com arborização intensa, metro a metro, generosa proteção de nascentes, olhos d‘água e com a desimpermeabilização das cidades.
Dada a importância do berço das águas, é de extrema responsabilidade dos administradores atentar para o limite da capacidade de suporte do DF quanto ao crescimento explosivo da população e a consequente pressão sobre os aquíferos superficiais e subterrâneos.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

POPULAÇÃO E ÁGUA

(Foto: Eugênio Giovenardi, Sítio das Neves, Barragem de captação e armazenamento)

(Informação enviada ao MPDFT) 
O Distrito Federal, como parte do berço das águas, nos últimos anos, apresenta permanente escassez hídrica pelas próprias condições geológicas e geográficas. A vegetação nativa, com experiência de milhões de anos, sabe controlar o uso da água para sua sobrevivência e reprodução. A fauna, em condições normais de seu habitat, também encontra água para se dessedentar. A espécie humana, em acampamentos urbanos ou rurais para produzir os alimentos do cotidiano, consome água para satisfazer a inúmeras necessidades, além da sobrevivência e da reprodução. O acesso à água vai da coleta direta na fonte ou no rio, sob a forma de aqueduto como o romano, aos encanamentos modernos que retiram o líquido de imensas represas.
Uma das informações fundamentais para estabelecer estratégias e táticas de administração do fornecimento e uso de água é o número de pessoas que buscam esse serviço público.
O uso da água nas cidades e na agricultura se destina a inúmeras atividades cada uma delas com suas características de necessidade, de importância, de urgência, de intensidade e de tempo. Uma das formas de controle do uso da água é o hidrômetro controlado por um órgão de administração pública, instalado em residências particulares, condomínios, edifícios comerciais, industriais e de prestação de serviços à população, além do uso da água para limpeza e regadio de áreas verdes. As águas retiradas de poços artesianos estão atualmente fora de controle por deficiência da fiscalização e aplicação de normas de outorga.

Para o controle e gestão do fornecimento da água há que se considerar: a) o potencial de vazão de uma região para atender a todas as formas de vida de um bioma e de seus ecossistemas; b) o regime normal e a irregularidade de chuvas; c) o impacto do crescimento da população humana, a urbanização, o aumento dos rebanhos (bovinos, ovinos, caprinos, muares, avícolas, caninos e felinos) que convivem no mesmo espaço, a ampliação das áreas de produção agrícola com o consequente desmatamento e uso de águas subterrâneas; d) o despejo de milhares de metros cúbicos, por hora,  aos córregos, rios e lagos, de água potável usada.
Uma simples aritmética da água fornece dados suficientes para o planejamento global do potencial hídrico, da administração do fornecimento e controle do uso individual e coletivo.
O consumo individual visível de água pela população do DF (2,9 milhões), atendo-se à média informada pela Caesb (180 l por pessoa), é de 522 mil metros cúbicos por dia. Qual  é o volume de vazão diário no DF?
O crescimento da população humana e o da população animal agregada, não é comparável ao da população vegetal. O aumento dos dois primeiros grupos é diário e, consequentemente, o consumo de água. A oferta natural de água não acompanha o aumento da demanda. 
Atendo-se apenas à população humana, verificam-se 125 nascimentos por dia no DF, agregando ao consumo um volume diário de 22 metros cúbicos e consequente despejo. Ao final do ano, a população do DF aumentou em 45 mil novos habitantes. Somam-se os vinte mil imigrantes que aportam ao DF, a cada ano, e tem-se 65 mil habitantes a mais, equivalente à população do bairro Núcleo Bandeirante. A pressão sobre a água é crescente e constante. Em dois anos, o DF terá 135 mil novos habitantes com o mesmo potencial hídrico.
Não bastasse essa pressão sobre os aquíferos limpos, nos damos ao luxo de despejar 22 mil metros cúbicos por hora ou 362 metros cúbicos por minuto, no Lago Paranoá e córregos do Distrito Federal.
O uso invisível da água é determinado pelo consumo de energia hidrelétrica. Cada pessoa consome, em média, 3KW por dia. Segundo especialistas em geração de energia hidrelétrica, para gerar um KW se necessitam 6.660 litros de água. O consumo de energia per capita eleva o consumo diário de água para 19.980 litros. Esse volume, multiplicado pela população do DF, demonstra por que as represas do país estão abaixo dos níveis projetados (DF: 2.900.000 x 19.980: BRASIL: 206 milhões x 19.980).
Qual a solução estratégica que se impõe diante da escassez de água?
Captação e detenção de águas pluviais. A mais eficiente forma de captação é o reflorestamento intenso que, além de favorecer a recarga dos aquíferos, evita assoreamento dos rios, melhora a umidade do ar e traz de volta pássaros, aves e animais nativos. Outros modos de captação devem ser instalados nos prédios urbanos e em galerias subterrâneas na cidade, a exemplo de Tóquio, com a mesma tecnologia com a qual se abrem estacionamentos subterrâneos ou túneis de metrô.
Por que a captação? A precipitação pluvial no DF alcança mais de 1.500mm no período chuvoso, o que significa 1.500 litros por metro quadrado, ou 87 milhões de metros cúbicos que escorrem para os rios.
A captação das águas pluviais é uma medida administrativa de planejamento imprescindível e urgente para enfrentar as dificuldades futuras de abastecimento hídrico à população do DF.

23.11.2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CASO TRIUNFO

(Foto: Eugênio Giovenardi)

Esta solicitação foi enviada ao MPDFT em razão de a Triunfo não ter respondido as mensagens que enviei à Ouvidoria da empresa.

Dra. LUCIANA MEDEIROS COSTA
Promotora de Justiça 

Desde 1974 acompanho a recuperação de uma área desertificada de Cerrado, de 70 hectares, na BR-060 km 26 (BSB/GOI), lado esquerdo. Ao longo de 42 anos, observo o retorno das águas das duas nascentes quase extintas, graças à captação e detenção de águas pluviais, mediante pequenas barragens construídas nos canais de esgotamento, conhecidos como grotas.
Com a duplicação da citada rodovia, o DNIT concedeu à empresa Triunfo o contrato de manutenção, limpeza e socorro.
A área que está sob minha responsabilidade limita com a rodovia numa extensão de 850 metros de frente. Nessa extensão, a área de domínio do DNIT é de 50 metros. Por alguma razão, caminhoneiros e condutores de automóveis usam descarregar o lixo orgânico e plásticos entre o km 26,5 ao Km 27.
Procurei o Ponto 01 da Triunfo que está localizado no km 23 da BR-060 e solicitei que a empresa tomasse alguma medida para recolher o lixo dessa área em razão da proteção de nascentes e por ser uma área de Proteção Ambiental Permanente.
Orientaram-me que solicitasse uma ordem de serviço à Ouvidoria da empresa, em Goiânia. Assim o fiz por várias vezes, via e-mail, explicando as razões e solicitando ao senhor Leonardo Moura esse serviço. O primeiro contato foi feito no dia 6 de agosto e o último, no dia 25 de setembro. Sequer tive resposta a meus e-mails. Tentei comunicar-me com um departamento do DNIT e fui informado que o assunto deveria se resolver com a Triunfo.
Saliento que a conformação geográfica da área favorece, com o advento das chuvas, o arrasto do lixo e da poluição para as nascentes que se localizam próximas à rodovia.
Quero salientar que não se trata de causa individual. Proteção de nascentes é de interesse público e água limpa é condição básica de saúde.
Diante do não atendimento da Triunfo, para proteger as nascentes, obriguei-me a contratar a roçagem da área, recolher parte do lixo orgânico e transportá-lo até a Agrovila Engenho das Lajes, a 4 km.
Nessa mesma rodovia, à margem esquerda, em frente a Samambaia, desde o km 1 ao Km 9, há, permanentemente, ao redor de 20 pontos de acúmulo de lixo variado: plásticos, papel, vidros, garrafas plásticas, entulho de construção, peças descartadas de oficinas e latas de óleo lubrificante, restos orgânicos.
Minha sugestão ao Ibram, por anos consecutivos, foi a de construir pequenos abrigos cobertos, ao longo da rodovia, em distâncias a serem determinadas, com orientação aos usuários para que depositem o lixo nesses locais.
Outras placas educativas informariam aos usuários sobre a proteção de nascentes ao longo da rodovia.
Creio que deveria ser obrigação da Triunfo, constante de contrato de concessão, o reflorestamento de rodovias para captação do dióxido de carbono emitido pelos milhares de carros que transitam semanalmente por essa rodovia.
Contato com a Triunfo:
Agradeço o apoio do MPDFT
Eugênio Giovenardi



terça-feira, 25 de outubro de 2016

UMA FAZENDA DIFERENTE



UM SISTEMA DIFERENTE
DE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
É POSSÍVEL.

Visitei, há dias, a Fazenda Recreio, parte sediada no Distrito Federal e parte no estado de Goiás. A área de 1.700 hectares integra um surpreendentemente belo e majestoso contorno geográfico do Planalto Central. A Fazenda Recreio abriga 70 mil árvores plantadas tecnicamente em fileiras na direção leste/oeste (eucalipto, mogno africano, acácia, entre outras), consorciadas com pastagens que se beneficiam da sombra e da água retida pelo sistema radicular. As nascentes de água estão protegidas por matas nativas conservadas e por plantio de árvores, formando um sistema hídrico inteligente, solidificado pelo Córrego Cachoeirinha que atravessa a Fazenda e pelo Rio São Bartolomeu a correr pela divisa.
Uma lagoa natural resiste aos meses de estiagem, dessedenta e alimenta um plantel de vacas prenhes e reúne centenas de garças brancas, tuiuiús, marrecos e um sem número de pássaros.
Um lago artificial de cinco hectares (50 mil metros2, aproximadamente, 20,0 bilhões de litros) abastece a fazenda por roda d’água, corta a monotonia das coxilhas, enche de graça o ambiente e atrai bichos, como as capivaras, que ali se multiplicam a seu bel-prazer.
A Fazenda Recreio hospeda 1.500 cabeças de gado que pastejam parcialmente sob as árvores que reflorestaram grande parte da área. Desperta a atenção do visitante um cuidadoso consórcio: árvores, água, pasto e sombra que determinam um diferente sistema de produção de alimentos, de respeito à vida nativa, que mantêm o sentido essencialmente ecológico da atividade produtiva.
A pergunta, ao analisar os modelos de produção agrícola e industrial, é: quando um sistema de produção é ecológico? A meu ver, a resposta está no equilíbrio entre a oferta e o uso de ingredientes naturais de um bioma, especialmente terra e água. O equilíbrio entre oferta e uso dos elementos necessários à atividade produtiva é o ponto crucial para garantir o ritmo natural da regeneração do bioma e da biota.
O critério ecológico, então, a ser usado para avaliar um sistema produtivo – ou ecologia da produção - é o equilíbrio entre a oferta e o uso dos elementos naturais de um bioma e não o lucro ou os benefícios auferidos da atividade econômica exploratória derivados da gestão eficiente ou competitiva dos agentes administrativos. A intenção, a atitude e as ações para o uso dos elementos com o fim de manter o equilíbrio e garantir a regeneração ecológica de um bioma diferem das técnicas de exploração degenerativa para obter benefícios econômicos, de curto ou longo termo, compartilhados ou distribuídos a uma população. Os fins não justificam os meios.
Alguns dados serão de utilidade para discutir o sistema de equilíbrio ecológico da Fazenda Recreio, podendo-se aplicar a outras atividades agrícolas.
Plantio sistemático de árvores. Além da vegetação nativa ao longo dos cursos de água e capões dispersos na área, houve um acréscimo, até o presente, de 70.000 árvores de diferentes espécies: ipês, mogno, pau-ferro, acácias, eucaliptos, entre outras.
Retenção de água e evaporação. A população arbórea de 70 mil unidades, agregada ao espaço, cumpre importantes funções durante 24 horas por dia, além da captação de águas da chuva durante o período chamado invernal. Uma árvore do porte das que existem na Fazenda Recreio mantém um volume mínimo diário permanente de água e saudável evaporação de 100 litros, equivalendo a 7 (sete) milhões de litros de água/dia, correspondendo a 27,55 bilhões de litros no ano.
Captação de águas da chuva. Calcula-se que uma área vegetada em toda sua extensão capta e detém até 25% das águas da chuva. A precipitação média, conforme dados da leitura do pluviômetro da Fazenda Recreio, é de 1.200mm ou 1.200 litros de água por m2. O volume de água anual recebido por essa área é de 20,4 bilhões de litros (1.200 X 17.000.000m2), correspondendo a uma média diária de 55,0 milhões de litros ou 3,23 litros por m2. Um quarto do volume total da precipitação, 5,1 bilhões de litros, é retido pelas árvores durante o período chuvoso e pela vegetação de gramíneas que se estende sobre toda a área. As gramíneas formam um colchão espeço e, consorciadas com as plantas, contribuem fortemente para a recarga dos aquíferos. Não menos importantes são os capões e as amplas matas ciliares nativas que, além de captar boa parte da água pluvial, protegem as nascentes, os córregos e o Rio São Bartolomeu.
Boi e água. Cálculos elaborados por especialistas, publicados em revistas e livros, indicam que um quilo de carcaça bovina consome 15.000 litros de água ao longo de seu período de engorde que, nos melhores casos, é de quatro anos. Se esses dados, aceitos pela literatura especializada, podem ser utilizados, um bovino que atinge 400 kg ao longo de quatro (04) anos, terá consumido o equivalente a seis milhões de litros de água, com média anual de 1,5 milhão de litros. O rebanho de 1.500 bois, ao longo dos quatro anos, terá consumido 9,0 bilhões de litros, com média anual de 2,25 bilhões de litros, ou 6,5 milhões de litros dia.
Ao se comparar o volume do líquido retido pelo amplo, e eficiente sistema de captação e detenção de água composto pelo consórcio árvores, gramíneas e mananciais, com o consumo direto e indireto da população bovina manejada com rotação de pastagens, a Fazenda Recreio possui um permanente crédito de água para consumo de todos os hóspedes nativos, vegetais e animais e da população humana encarregada da gestão administrativa. A área, manejada com esse sistema, contribui para a manutenção dos fluxos de água com os excedentes que se infiltram no solo.
Em resumo, não computada a reserva do lago de 50 mil m2, há uma oferta de água diária constituída pelo consórcio árvores, gramíneas, retenção de águas pluviais num volume diário de 62,0 milhões de litros e uma demanda diária da população bovina de 6,5 milhões de litros.
Este ensaio não pretende justificar nem defender o produto boi. Buscou-se estabelecer um critério de equilíbrio ecológico na produção de qualquer alimento baseado no uso racional da água, na capacidade de regeneração do bioma do qual se retiram provisoriamente os elementos necessários à formação ou construção de um produto. O critério deve se aplicar à produção de cana-de-açúcar, à soja, ao milho, ao arroz e aos processos industriais que afetam o bioma na extração de minerais, no processamento e no uso final do produto.
17.9.2016


terça-feira, 18 de outubro de 2016

SUPERPOVOAMENTO E SUPERPOPULAÇÃO

(Publicado no Correi Braziliense em 17.10.2016)

O avanço da superpopulação mundial vem sendo alertado pelo Clube de Roma desde 1972. Biólogos da Finlândia, na década de 1960, sinalizavam que a natureza nórdica já sofria de exaustão diante da exploração intensa de seus bens. As consequências do crescimento da população mundial tornaram-se mais agudas, especialmente para países pobres ou emergentes. Hoje, a pobreza, a fome, a falta de água, o desemprego e as guerras entre países provocam uma nova diáspora. Multidões estão fugindo de seus países e morrendo pelo caminho. O planeta sofre de superpopulação. Mas a superpopulação começa ao nosso lado. Seus efeitos são sentidos em nossas cidades, em nossas ruas, em nossas casas, em nossas florestas e rios, em nossas lavouras.
Quais são as indicações mais visíveis que apontam para a realidade da superpopulação tanto em países ricos quanto em nações pobres? A fome castiga quase um bilhão de pessoas em todos os países do mundo. A dificuldade de acesso diário à água potável sacrifica quase dois bilhões de humanos e milhões de outros seres vivos. O desemprego generalizado atinge países pobres e ricos. Os mortos e os exilados de guerras econômicas e religiosas e os expulsos de suas terras pelas mudanças climáticas compõem um retrato lúgubre da espécie humana.
Mais perto de nós, em quase todas as regiões do país, há sinais incontestes de superpovoamento urbano e indícios claros de superpopulação. Filas diárias às portas de hospitais. Prisões superlotadas. A busca angustiante da casa própria. A falta de creches para liberar as mães trabalhadoras de duas ou três jornadas de trabalho. O inchaço das cidades com sacrifício de áreas verdes. Milhares de famílias em situação de risco ambiental. Ruas entulhadas de carros. Esses acontecimentos do dia a dia parecem não dar ao cidadão perspectiva alguma de mudança.
Tenho comentado com alguns demógrafos sobre o tema da superpopulação. A primeira reação é dar uma resposta estatística. As taxas de crescimento, no Brasil, vêm caindo, reafirmam. Já tivemos, nas décadas de 1950 e 1960, taxas de crescimento de até 5%. Hoje, a taxa média de fecundidade, em nosso país, é de 1,94%. Isto quer dizer que uma mulher, em média, tem 1,94 filho. Não tem um jeito ridículo essa linguagem estatística que amputa parte do filho para dar a ilusão de um decréscimo do ritmo de reprodução? Em que lugar do mundo uma mulher tem um filho e um pedaço de outro?
Por que não falar da realidade da reprodução humana e localizar essa realidade no tempo e no espaço? Seria mais fácil discutir esse tema tabu conhecendo-se as circunstâncias, a cultura, a forma de relacionamento de um povo com a natureza diante da oferta de maiores ou menores condições de sobrevivência. Em que lugar, mulheres têm dois filhos ou nenhum? Em que lugar, mulheres têm quatro filhos? Em que lugares e em que circunstâncias, mulheres têm cinco ou mais filhos?
A média estatística enfraquece a realidade e limita a condução racional de uma política democrática e consciente de controle da natalidade humana, não só em benefício da espécie humana, como também em favor de todas as espécies vivas do planeta tanto vegetais quanto animais que constituem a biodiversidade do planeta. Nenhuma monocultura é desejável para o convívio harmonioso dos seres vivos.
O crescimento descontrolado da espécie humana com múltiplas e variadas necessidades, impõe medidas de sobrevivência para si em detrimento da sobrevivência das demais espécies vivas do planeta das quais depende. Os prenúncios, apesar dos contraceptivos, da urbanização e da tecnologia são de aumento da população para as próximas décadas, sem que se propicie, ao mesmo tempo, o acesso aos bens essenciais a quase metade dela.
Superpopulação não é apenas um fato numérico. É a relação entre o número de pessoas vivas, o complexo conjunto de suas necessidades básicas ou estimuladas e a capacidade das próprias instituições humanas de administrar grandes populações. Essa incapacidade de administrar se agrava com o aumento da população. Parte significativa dela não é igualitariamente atendida. O que se percebe é um atendimento seletivo, parcial e discriminatório mesmo com leis adequadas e vastos programas sociais.
O crescimento da população, no dia a dia, é quase imperceptível. No Distrito Federal, registram-se 125 nascimentos por dia, que somam, ao final do ano, 45 mil novos habitantes, número equivalente à população do Núcleo Bandeirante. Ou seja, nasce uma cidade satélite por ano, no DF, com necessidade de mais água, energia, alimentos, espaço físico, postos de vacinação, serviços médicos, fraldas, berços, roupas, sapatos.

Nesse ritmo, o DF, em dois anos, terá 200 mil habitantes a mais, sem contar os 20 mil imigrantes anuais, segundo a Codeplan. O avanço indiscriminado sobre as últimas áreas verdes e a urbanização descontrolada agravam as dificuldades administrativas e entorpecem a ação governamental. As habilidades institucionais para atender a todas as necessidades da população não crescem no mesmo passo do aumento da população. O limite da capacidade de suporte do DF já foi ultrapassado. Há que se rever a situação presente e prever o que nos espera nos próximos anos. O racionamento de água, neste ano, é um aviso claro de superpovoamento.