segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CARTA A LULA



CARO LULA,

Votei teu nome, em 2002, para presidente da república, na esperança de construirmos um país menos desigual e sem medo de ser feliz.
Lula, tu mexeste com o Brasil. Mexeste com o mundo. Ainda hoje, parte do Brasil reconhece o muito que fizeste. E meio mundo ainda acredita que es o cara.
Guarda esse troféu.  É teu, caro torneiro. É pessoal e intransferível. Poucos brasileiros o conseguiram.
Ouço, leio e vejo que pretendes voltar à presidência do país. Antes da decisão, lembro-te um provérbio chinês: NUNCA VOLTES AO LUGAR ONDE FOSTE FELIZ.
Esse lugar mudou, Lula. Não existe mais.
Aceite com orgulho, no meio dos revezes, o patrimônio cívico que construíste. Não voltes ao lugar que já não existe.

11.12.2017

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

BRASÍLIA DA HUMANIDADE

(Foto, Eugênio Giovenardi: Brasília bucólica, SQS 406 Comercial)
Caro Lúcio Costa,
Escrevo-te 30 depois. Brasília continua sendo Patrimônio Cultural da Humanidade. Título sempre festejado e ameaçado.
Há os apaixonados por Brasília que ressaltam a grandiosidade, organização, a tranquilidade, a beleza e a diversidade generosa.
Há os que a detestam, a exploram, a desconfiguram. O teu gênio criativo nos contaminou. Abrimos grandes avenidas, no espírito da monumentalidade, para nossos milhares de automóveis e seus estacionamentos em vez de transporte público. Reduzimos a escala bucólica. Não aguentamos os largos espaços “vazios”. Arrasamos as nascentes e enfrentamos o racionamento de água, outrora cristalina.
Aqueles 500 mil felizardos, previstos para morar na capital do país, multiplicaram a escala residencial para abrigar, hoje, 3 milhões espalhados em 33 subBrasílias. Criamos, com imaginação gregária, a cultura dos puxadinhos.
Caro Lúcio Costa, nada embaça tua genialidade. O Planalto Central embala com orgulho o Patrimônio Cultural da Humanidade.
Mais que prédios, monumentos, ipês floridos, os que recebemos teu impulso criativo – crianças, jovens e velhos – somos o patrimônio humano, afetivo e sentimental de Brasília.

7.12.2017

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

FINLÂNDIA, 100 ANOS

(Foto, Eugênio Giovenardi83, Prédio de Escola Pública Primária, Töölö, Helsinque, onde minha mulher, Hilkka Mäki cursou o ensino fundamental)

FINLÂNDIA 100 ANOS DE INDEPENDÊNCIA

A mão e o idealismo político de Lenin ajudaram a tenacidade dos finlandeses a consagrar sua independência em 1917. Conheço a Finlândia desde maio de 1968 e casei-me com Hilkka Mäki, jornalista finlandesa, em 1969.
Impressionou-me a informação de que a Finlândia, depois de ser dominada pela União Soviética, e resistido durante anos de guerra, havia pago toda sua dívida externa.
Mais me comovem os 150 anos do programa educativo que estabelece educação gratuita para TODOS, com a mesma qualidade e eficiência ministrada por professores com nível de doutorado.
Visitei a Finlândia mais de 30 vezes, em companhia de Hilkka. Minha filha Aino Alexandra, minhas netas Luiza e Laura e eu pudemos constatar o que significa educação. Ao ver o comportamento das pessoas, na rua, no bonde, nos parques, nos teatros percebe-se que a educação não é apenas uma prioridade. Ela transparece como prioridade na construção das escolas e ateliês de primeira grandeza, na rede de bibliotecas públicas e na formação de professores que fazem jus a sua remuneração.

A Finlândia tem 187 mil lagos, coberta de pinheiros e bétulas, rebanhos de renas, ursos e lobos, refúgio de gansos, cisnes e patos, mas isso pouco valeria se a educação fundamental não tivesse inculcado nos finlandeses um entranhado respeito pela natureza.

domingo, 3 de dezembro de 2017

POR QUE, EM 2018, OS RESERVATÓRIOS NÃO ALCANÇARÃO 50% DE SUA CAPACIDADE



POR QUE, EM 2018, OS RESERVATÓRIOS

NÃO ALCANÇARÃO 50% DE SUA CAPACIDADE

Ofereço alguns pontos inquietantes que poderiam constar das estratégias da administração pública e das mudanças de atitudes e comportamentos da população para enfrentar a transição hídrica reclamada pela escassez de água no Distrito Federal.
SUPERFÍCIE DOS LAGOS DE RESERVA
A extensão do Descoberto é de 17 km2 = 17 milhões m2. Para saber o volume de chuva sobre a área multiplica-se a quantidade de mm marcado nos pluviômetros pelos metros quadrados da área. Características do Descoberto: mananciais desprotegidos, espaços abertos, devastados, sugados pelos produtores, impermeabilizado pela urbanização.
A extensão do Santa Maria é de 6,1 km2 = 6,1 milhões m2. Mesmo procedimento sugerido acima. O reservatório está inserido no Parque Nacional com 42.389 ha e 28 mil ha de área cercada. – Protegido, favorecido pela captação realizada graças à vegetação.
A do Lago Paranoá é de 42 km2 = 42 milhões m2. Mesmo procedimento. Área aberta, desnuda, desprotegida, impermeabilizada pela urbanização. Recebe enxurradas, lama, lixo das vias e dos córregos.
Capacidade dos reservatórios
O reservatório do DESCOBERTO, DF, inaugurado em 1974, foi projetado para armazenar 102 trilhões de litros de água ou bilhões de m3. Chegou a 5% no mês de novembro/2017 (ou 5 trilhões de litros). O SANTA MARIA foi projetado com capacidade de armazenamento de 58 milhões de m3 ou 58 bilhões de litros. Estava, em novembro/2017 com 22% (ou 12 bilhões de litros). O LAGO PARANOÁ, do qual se retiram 2 e meio milhões de litros/dia, se alimenta, em parte, das águas do Santa Maria, de outros tributários agonizantes e das torneiras do brasiliense. Os obstáculos que podem impedir que os reservatórios alcancem sua capacidade, em 2018, se referem a um conjunto de causas simultâneas e não dialogáveis: fenômenos naturais e atos humanos.
I.  Consequência de fenômenos naturais
Alertas constantes, medições matemáticas e estatísticas reafirmam o avanço das mudanças climáticas com características extremas: aquecimento global e regional, secas prolongadas, irregularidade de chuvas, tempestades, inundações, furacões, agravados com terremotos, erupções vulcânicas e tsunamis. O Brasil está sendo afetado por alguns desses fenômenos estremos. O Nordeste e o Distrito Federal enfrentam escassez de água. A última década nos deu sinais claros de que, por razões climáticas, teríamos dificuldades de acesso à água. Não foram tomadas as precauções a tempo e os efeitos se refletem no racionamento que representa uma restrição ao mal-uso da água.
Circunstâncias geográficas deram ao Planalto Central a função de ser o berço das águas. Pequeninos olhos d’água, ao longo de muitos quilômetros, formam rios ao Sul, ao Norte e ao Nordeste do país. E por ser berço das águas, o Planalto Central é um ambiente geográfico frágil e delicado. A água, criança indefesa desse berço, precisa de cuidados especiais, de atenção, de maternal afeto. O Planalto Central é um bebê no berço das águas e reclama atenção permanente. Quando percebi a degradação do berço das águas do Planalto Central, tornei-me babá do Cerrado
A capacidade de resistência deste berço e deste espaço é limitada. Silêncio, paciência, repouso contrastam com o atropelo e a pressa em ver a criança crescer.
O que está acontecendo no espaço do berço das águas é a invasão, o atropelo, a pressa, o desrespeito à identidade do bioma e seus ecossistemas geradores do DNA geográfico de outras regiões.
II - Causas antropogênicas (geradas pelo homo sapiens)
O consumo de água pela população e todos demais seres vivos do DF é permanente e progressivo, com ou sem chuva. A oferta de água dos mananciais é permanente, mas em volumes descendentes pelas razões que se apontam a seguir.
A primeira causa é o aumento progressivo da população do Distrito Federal e as consequências que dele decorrem. O planejamento da expansão urbana foi atropelado pela ocupação desrespeitosa das áreas de mananciais por parte da administração pública, da ação política eleitoreira, da indústria imobiliária e da própria população premida pelas condições sociais e econômicas. A desigualdade social e econômica gera a desigualdade ambiental e ecológica da população brasiliense.
A deficiência do transporte público induziu o uso do carro individual que, por sua vez, impôs um sistema viário antiecológico e depredador dos ecossistemas. As vias asfaltadas, durante o período chuvoso, funcionam como canais de escoamento da água arrastando terra, lixo, folhas e dejetos contaminantes para os córregos e reservatórios.
A ocupação de áreas de mananciais ou de proteção ambiental permanente é agravada, anualmente por queimadas e desmatamento, e impedem que a infiltração das águas da chuva se faça com eficiência. Obstrução dos fluxos de água, a canalização inadequada e a impermeabilização de áreas de recarga dificultam radicalmente a função precípua da vegetação nativa de captar as águas da chuva nas áreas de mananciais. 
O mal-uso da água pela população se faz na cidade e na agricultura. A água retirada do reservatório e que não retorna à fonte de onde foi extraída é considerada de uso consuntivo ou eliminada. Pode ser reusada, mas não volta à fonte original. Na agricultura, o volume de água de uso consuntivo, isto é, que não volta ao rio ou ao aquífero profundo costuma ser de 50 a 60%. Os processos produtivos devem considerar a reposição da água utilizada mediante técnicas de captação por meio de corredores vegetais e preservação de mananciais. As águas retiradas de poços artesianos não voltam mais às fontes e devem ser consideradas de uso consuntivo – águas eliminadas - e precisam ser rigidamente controladas e fiscalizadas pela administração pública.
Embora viver na cidade seja a tendência universal da espécie humana, a urbanização horizontal e vertical, no DF, é contrária à lógica hídrica desta região. A disponibilidade de água, mesmo durante o período chuvoso, não comporta o atual crescimento da população de 50 a 60 mil habitantes/ano. O aumento da população é acompanhado pela crescente diversidade do uso da água em razão da limpeza urbana, da higiene pessoal, dos hospitais, da alimentação, da indústria e do comércio.
Soluções à vista
A água é uma necessidade de cada dia. Por isso, o cuidado com a água deve ser diário e indefinido no tempo. Integramos a natureza que não tem prazo para acabar e participamos da biodiversidade do bioma no qual ela se manifesta com identidade específica.
É necessário rever a capacidade de suporte do espaço físico em relação ao crescimento da população. Determinar as consequências hídricas para o ecossistema e para a população do DF.
Identificar a área mínima (dois a três hectares) em torno dos mananciais e garantir a formação e consolidação da vegetação nativa capaz de abastecer as nascentes de água.
Adotar nascentes com técnicas de captação de águas da chuva por meio de barragens simples nos canais de esgotamento.
Estabelecer e delimitar zonas ambientais de recarga (ZAL) de aquíferos, como parques, áreas de circulação de animais, refúgio de pássaros ou corredores de segurança florestal.
Disseminar técnicas e práticas do reuso de água para fins de limpeza ou regadio.
Promover e estimular empresas que produzam equipamentos adequados a casas e edifícios para captação de água da chuva, bem como subsídios financeiros para implantação dos artefatos por parte dos interessados.


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

CHOVE CHUVA BOA

Resultado de imagem para descoberto df

Em doze horas, 29 e 30 de novembro, choveu 60mm ou 60 litros de água por metro quadrado. Informa-se que o Reservatório do Descoberto ganhou dois pontos na régua. Passou de 6 para 8 por cento da capacidade. Desses dois pontos provocados pela enxurrada que correu sobre asfalto e áreas desnudas, quanto é água e quanto é terra, pedra, pau, plástico e dejetos? Teria sido muito mais útil ao reservatório do Descoberto se essa água toda tivesse caído sobre os mananciais que havia nas cabeceiras. Qualquer veranico de 5 dias invalida esses pontos atribuídos à enxurrada que levou água e terra ao reservatório. Não me enganem, que eu não gosto. Quem não tem árvores, não tem água.

sábado, 25 de novembro de 2017

PLANTAR ÁGUA PLANTANDO ÁRVORES




(Foto, Eugênio Giovenardi, barragem-castor de contenção de águas da chuva para recarga no manancial)

O Terceiro Seminário Águas Acima, realizado em março de 2017, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico do DF, com vistas ao Oitavo Fórum Mundial da Água, que acontecerá no mês de março de 2018, em Brasília, lançou o GRITO REVOLUCIONÁRIO DO SÉCULO 21 – PLANTAR ÁRVORES.
No dia da árvore é praxe o governador de turno, rodeado de assessores e fotógrafos, plantar simbolicamente uma muda. Escolas públicas e privadas, organizações ambientais compreenderam a relação entre água e plantas, entre plantas e tempo de crescimento. Sem água não há plantas. Sem plantas não teremos água. As plantas são captadoras e infiltradoras de água da chuva e garantem a vida dos mananciais de onde brotam as nascentes que formam os córregos que enchem os reservatórios. A maior parte dos mananciais do DF está invadida e, mesmo com boas chuvas os reservatórios recebem pouca água. Mais de 40 anos protegendo nascentes e a participação no Programa ADOTE UMA NASCENTE me indicam que, ao redor dos mananciais de onde elas brotam, se deve manter dois a três hectares de vegetação nativa intocável. A recuperação de áreas degradadas pelo desmatamento ou pela urbanização pode levar dez, vinte ou mais anos. As crianças que aprendem a plantar árvores e respeitar os mananciais terão água no presente e no futuro.

 Em março de 2010, no dia Mundial da Água, fui honrado com o primeiro Prêmio criado pela Adasa -  GUARDIÃO DA ÁGUA - pelos benefícios da recuperação das nascentes da Biocomunidade Sítio das Neves.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

EM 56 ANOS


Resultado de imagem para Brasília 
Em 1957, ano da decisão do presidente Juscelino Kubitscheck de construir Brasília, a população local era de 12.700 almas, cerrado espeço, águas cristalinas.
No ano da inauguração, a população já era de 141.720. Quarenta anos depois, no ano 2000, ultrapassamos os 2 milhões. Hoje, a população do DF é de 3 milhões e as cidades vizinhas colaboram com mais 1,5 milhão de pessoas.
Quantos de nós conhecíamos o ecossistema que iria nos acolher? Que ideia tínhamos do bioma Cerrado? O que fizemos nesses 56 anos?
Construímos uma cidade para morar, ser felizes, trabalhar, gerar filhos para a pátria. Avançamos sobre um ecossistema desconhecido. Ignoramos as 11 mil espécies vegetais, com 60 milhões de anos de experiência em guardar água da chuva para sobreviver aos seis meses de seca. Em seu lugar cultivamos soja e trigo irrigados acompanhados de agroquímicos e emissão de gases de efeito estufa com intensa modificação no ecossistema e no espaço geográfico da região.
O Cerrado abriga 5 por cento da biodiversidade do planeta.  Ignoramos as mais de 800 espécies de aves e 200 tipos de mamíferos. Muitos dos que restam estão ameaçados por caçadores, por condutores de automóveis insensíveis, pela urbanização desregrada, pelas técnicas ainda primitivas de produção de alimentos sem preservação dos ecossistemas que nos acolheram.
 Destruímos mais de 60 por cento da vegetação. Arrasamos mananciais que alimentavam centenas de nascentes, dezenas de córregos e ribeirões, hoje agonizantes, mal chegam em nossos esgotados reservatórios.
Há 70 mil anos, ao sair da África, a espécie humana ocupou a Europa e Ásia e mudou, com sua presença, a ecologia do planeta. Há 12 mil anos, com a descoberta da domesticação de grãos e animais milhões de hectares de florestas desapareceram. A população mundial se expandiu graças a abundância de grãos, porcos, cabras, vacas, galinhas. E mais e mais terras foram ocupadas para alimentar bilhões de humanos.
Em 56 seis anos, construímos uma cidade-metrópole, capital da república, Patrimônio Urbanístico da Humanidade, ocupamos o interior do país com todos os sotaques regionais. Elegemos governadores, garantimos a democracia e a ineficiência administrativa na gestão dos elementos essenciais à convivência, como a água, a saúde e o transporte coletivo.
Nesses 56 anos, olhamos para nosso umbigo antropocêntrico e descuidamos do ambiente no qual viverão nossos netos e bisnetos. Os 56 anos pouco nos ensinaram sobre o bioma Cerrado, nem nos acordaram para a variedade de ecossistemas e, de repente, despertamos sem água.
56 anos depois, é hora de acordar a sociedade, comprometer o governo distrital, seus funcionários, a câmara legislativa e mobilizar todos os que vieram ocupar este singular espaço do Planalto Central, feito de silêncio, amplitude, beleza e um imenso céu estrelado.
14.11.2017