quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

NO MEU TEMPO


Quanto tempo tem o tempo para eu ter tempo de viver meu tempo, dando tempo ao tempo?
Tempo para pensar no tempo dos que não têm tempo e dos que perdem o tempo em passatempos.
Quanto tempo teve o tempo para juntar todos os tempos no meu tempo?
São tantos os tempos, que eu tenho tempo de dividir o tempo em muitos tempos.
Foi preciso incontável tempo para o tempo pôr, ao mesmo tempo e num só tempo, a lágrima e o sorriso, a liberdade e a servidão, a mentira e a verdade, a desgraça e a felicidade, a vida e a morte.
Passou o tempo, o tempo voa, não há mais tempo, perdeu-se o tempo em recolher migalhas para outros tempos.
Basta-me o tempo que ainda tenho para trazer os tempos de ontem aos tempos de hoje sem me inquietar com o tempo que fará amanhã.
Para ter mais tempos, somo o tempo das árvores, dos pássaros, dos bichos, das pedras do caminho, o tempo de Aldebarã, o tempo das galáxias para antecipar o tempo inesgotável da eternidade que é a soma infinita de todos os tempos.
Não há mau tempo, há apenas maus em todos os tempos e o bom tempo é uma dádiva a quem reserva seu tempo para ter tempo de viver o tempo sem medo de perder tempo.
O tempo é o resumo do ontem, do hoje e do depois, por isso, não corro contra o tempo para que o tempo me seja favorável.
Vivo meu tempo sem ter tempo de dizer que não tenho tempo.
Tenho tempo e o tempo me tem.
Não sei por quanto tempo.
Só o tempo dirá.


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DETALHES DA CULTURA NA SEXTA POTÊNCIA


Foto: O lixo voa com urubus.

No chão, na sarjeta, na calçada,
sobre os gramados,
pela janela do carro ou do ônibus,
o cidadão joga o toco de cigarro,
o papel do bombom,
o copo do cafezinho,
o saco plástico do biscoito,
a garrafa de água vazia
ou a lata de cerveja,
a casca de fruta ou o caroço,
a pazinha do picolé
ou a caixinha de sorvete.
Tem certeza de que o melhor lugar
para depositar o entulho da reforma da casa,
o lixo depois da pescaria
ou do camping
é à beira da estrada.
Fala alto em qualquer lugar,
em qualquer hora do dia ou da noite
com ou sem celular,
na fila do banco
ou à mesa do restaurante.
Transforma bares em feira livre
ou praça de comércio.
Assiste ao filme
ou ouve a Nona Sinfonia de Beethoven,
na Sala Villa Lobos do Teatro Nacional,
recebendo e enviando
mensagens pelo celular.
Desfila pelo Teatro,
no meio da peça,
aclamado pelos olhares atônitos da plateia.
O cidadão brasileiro
reclama de tudo e de todos.
Tem opinião segura
sobre qualquer assunto.
Tem extrema dificuldade
para dizer que não sabe.
Mente por impulso,
se não descaradamente.
É um pedinte nato.
Pede com a mão,
pede com o olhar,
com palavras comoventes
e mentiras óbvias.
Tem orgulho de ser brasileiro
porque o Brasil é exemplo para o mundo.
Tem a música mais fascinante,
a dança mais africana
e os pobres mais felizes.
Tudo o mais é secundário.
As cadeias superlotadas
e os hospitais de luxo,
ambos são para a minoria.
O cidadão comum pertence à galera
em qualquer situação.
O cidadão brasileiro
aprecia multidão nas praças,
nas manifestações,
nos estádios,
nas procissões.
É isto a democracia.
Adora enterros
e chora pela morte da mãe do guarda.
Sua fé sem limites
o torna privilegiado de um milagre
entre centenas de mortos.
O olho de Deus só vê a ele
no meio da multidão.

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

CRIANÇA DA NOVA ECONOMIA



Lembro-me da longínqua infância, meus oito anos. Sentados à mesa, disputávamos, os cinco irmãos, a parte da galinha assada que jazia na travessa. A gravidez de minha mãe anunciava outro competidor na batalha da distribuição de asas e coxas, e um lugar à mesa. Nossos parcos presentes, ao nascer, eram fraldas de pano costuradas na velha Singer e, mais adiante, uma boneca de pano para as meninas, umas bolinhas de gude para os meninos. Um cabo de vassoura servia de cavalo xucro. Éramos crianças econômicas. Tínhamos casa, roupa, calçado e comida. Íamos à escola com a mesma devoção obrigatória de ouvir missa aos domingos. Os meninos mais avançados e modernos se distinguiam por ter um canivete de duas lâminas.
Meu sonho, aos nove anos, era ter um par de botas para as lides da Charqueada e montar a cavalo. Tudo o mais era dádiva da natureza. A água vinha do poço, puxada no balde. A caldeira do fogão a lenha esquentava a água do banho. O galinheiro abastecia de ovos a cozinha e a panela do risoto. A horta e o pomar nos brindavam com frutas e legumes frescos.
Nos tempos modernos, a criança nasce exigindo do poder publico 200 litros/dia de água encanada, luz elétrica e coleta de lixo. Previne a comunidade, antes da chegada, para recolher fraldas, chocalhos, mamadeiras, pijamas, penduricalhos de música no berço. Anuncia, aos berros, que precisará de um automóvel, um celular, um laptop, um tablet, uma bicicleta, uma excursão a Disney, uma prancha de surf.
Hoje, a criança nasce consumidora voraz para tornar-se milionária com emprego garantido na câmara ou no senado, na Petrobrás, no Tribunal de Contas ou na Receita Federal. Seus amiguinhos de infância estão na telinha da TV cujos nomes ela aprende já aos doze meses. Sai da TV e entra do Facebook, no Orkut, no Twitter, fala com todo o mundo, conhece todos os segredos e fofocas, sabe que Luiza esteve no Canadá. O cidadão atual é um eleitor virtual. Mora num país é virtual. Os governos são virtuais. A antiga verdade é virtual. Apenas as mentiras são reais transformadas em virtudes.

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EXTRAVAGÂNCIAS DIÁRIAS

São tantas as provocações no embate diário das extravagâncias humanas que um cronista se perde no tiroteio. Há cenas divertidas como a gangorra do sai-não-sai de ministros ou a surpreendente notícia de que Luiza esteve no Canadá.
Há cenas trágicas como as mortes na porta de hospitais por não ter o paciente o talão de cheques para garantir a vida. Ou as mortes nas rodovias provocadas por cidadãos bêbados.
Cenas dramáticas de pacientes que esperam a doação de um rim, um fígado ou um coração. Desejam eles a morte de uma criança, de um jovem tresloucado na direção de um automóvel?
De quem seriam estas últimas palavras: em que peito desconhecido palpitará meu coração? Será num corpo de homem ou de mulher? Que diferença fará para o coração? Amará como eu amei?
E o novo portador dirá ao amado ou à amada: eu te amo com a mesma fúria do antigo dono! Como se sentirá o novo anfitrião amando com coração alheio?
Assim como um enxerto modifica a forma da planta e o sabor do fruto, corações de crianças inocentes num corpo adulto podem oferecer alguma esperança à paz mundial e à honestidade pública.
Impossível é passar indiferente diante destes cenários humanos tão recheados de excentricidades onde os palhaços vestidos de terno e gravata tomam conta do circo.

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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ÁGUA EM 2040 NO DF

Vista do Manancial do Pipiripau, Distrito Federal, ameaçado de extinção.

Acompanhei, durante duas horas e meia, no Conselho de Recursos Hídricos, do Distrito Federal, uma detalhada exposição de cenários que antecipam a realidade de oferta de água em 2040. Sobrevoei a plateia com o olhar e concluí que metade dos presentes não estará, nessa data, para comprovar as profecias dos cenários apresentados. E como sobreviverá a outra metade é problema dela.

O expositor impressionou a atenta assistência com números, gráficos, curvas, colunas em variadas cores. As imagens apareciam e desapareciam, magicamente, mostrando que a base da oferta de água dependeria de cenários de crescimento econômico nacional e internacional, acelerado, moderado, retraído. O PIB, evidentemente, será o general a comandar as forças econômicas, os investimentos e o consumo que determinarão maior ou menor oferta de água. A função divina do PIB é transformar toda a obra humana em um percentual.

Na lógica pibeana, água escassa será mais cara e mais difícil de comprá-la. Daí a necessidade de uma “estratégia de gestão hídrica” consolidada num plano institucional integrado para chegar ao ano 2040 com falta de água, mas bem gerenciada. Esse plano terá o suporte de leis, regulamentos, normas de controle, fiscalização, um forte ingrediente educativo, instituições especializadas, profissionais ligados a redes e satélites para coordenar a guerra da oferta e demanda de água. Hoje, existe uma orquestra institucional tocada por uma dezena de instrumentos desafinados, com partituras incompletas e sem maestro. Todos, porém, querem tocar sua parte institucional sem ouvir os do lado, nem olhar para o maestro e, menos ainda, para as reações da plateia distraída que manda, como na sala Villa Lobos, mensagens pelo Iphone.

Em se tratando de água, sabe-se que a quantidade existente no planeta é a mesma desde milhões de anos. O que varia é o número de consumidores humanos, vegetais e animais. O cenário é simples: temos um volume fixo de água, nem sempre no local desejado, e uma quantidade variável de consumidores. A água disponível no DF, por exemplo, é a mesma de 1960, quando Brasília foi inaugurada, com 140 mil habitantes, e a de 2012, com uma população de 2,6 milhões de pessoas.

Estima-se que, em 2040, haverá uma população humana de 6 milhões. A oferta de água não se altera. Apenas que terá que ser canalizada de muito longe. A projeção do consumo é aritmética. Passa-se de um consumo, hoje, de 520 milhões de litros/dia para 1 bilhão e 200 milhões em 2040 (consumo per capita de 200 litros/dia). Essa demanda é apenas de consumo humano, isto é, o uso diário das pessoas. O comércio, a indústria e a agricultura têm suas demandas setoriais.

A pergunta, então, é: quem vai ficar sem água? Os humanos, os vegetais, os animais? Como reagirão eles à falta de água? Salta aos olhos que o cenário demográfico, nas três dimensões, é mais importante do que cenários macroeconômicos. Populações menores pressionam menos a economia e gasta menos água. Quem se importa com o cenário demográfico em três dimensões?

As taxas de fertilidade humana vêm caindo, mas isto não impede que a população cresça. E, hoje, vive-se alguns anos a mais. Portanto, se gasta mais água. Nos cenários apresentados pelo competente expositor, ficou claro que, em 2040, a água estará escassa e não alcançará democraticamente a todos.

Estranhei que nas medidas aventadas para gerenciar os “recursos hídricos” não se mencionasse a captação de águas da chuva que, atualmente, têm sido abundantes. A civilização Zenú, nos Andes colombianos, alguns séculos antes da imigração europeia à América do Sul, captava as águas nas cheias do rio Madalena, nas áreas planas, por meio de canais em forma de espinha de peixe. Os japoneses recolhem em galerias subterrâneas as imensas águas que caem sobre Tóquio em volume mil vezes superior às que inundam Minas e São Paulo.

Em vez de captação de águas pluviais, os sobreviventes de 2040 terão que preparar-se para o racionamento diário associado ao custo implacável da água. Por essas falhas no planejamento demográfico humano e pelo consequente aumento da população animal destinada a suprir a população de proteína é que será quase impossível deter a invasão da Amazônia e do Cerrado. Em consequência, a expansão de áreas de desertos rurais e urbanos torna ainda mais difícil o suprimento de água.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

OÁSIS PRODUTIVOS



Na vivência de quase quarenta anos, numa área de cerrado original, acumulei experiências úteis tanto para produzir alimentos quanto para preservar a natureza integrando-me nela. O segredo para construir o que chamo de oásis produtivos é alcançar um equilíbrio congruente e previsível das distintas energias e forças da natureza que atuam sobre um espaço físico.

As energias e forças não são lineares. Em consequência, o equilíbrio depende da organização lenta dos diversos elementos que se combinam assimetricamente obedecendo à complexidade e ação constante das leis físicas. Os fenômenos físicos se manifestam incontrolavelmente segundo tempos e regiões. E é para eles que deve apontar a observação permanente, ao longo dos anos.

A tendência do ser humano na luta pela sobrevivência é transformar pragmaticamente a complexidade da manifestação das energias e forças da natureza em linearidade com artifícios técnicos. Essa tentativa torna a linearidade tão ou mais complexa do que a complexidade das forças e energias naturais. Tão complexa que embaraça o caminhar dos humanos em sua busca de soluções técnicas e tecnológicas a problemas por eles criados.

Nessa inversão da canalização de forças e energias naturais reside a origem do desequilíbrio ecológico e ambiental. A forma rudimentar de produção agrícola, na qual o fogo é um auxiliar primitivo e arrasador, ou o uso de alta tecnologia por meio de máquinas, fertilizantes químicos e defensivos tóxicos de efeitos prolongados, ambos produzem desequilíbrios difíceis de corrigir.

A linearidade das práticas produtivas e de ocupação do solo está substituindo gradativa e perigosamente a complexidade da organização natural. Ela impõe agressivos mecanismos na exploração de elementos necessários à produção de alimentos e o uso abusivo de riquezas disponíveis à sobrevivência, ao conforto e à convivência humana.

Para administrar o rompimento da complexidade das forças e energias naturais, a criatividade da inteligência humana recorre a truques e fórmulas técnicas e tecnológicas cada dia mais apuradas sem, no entanto, alcançar o desejado equilíbrio rompido. É palpável o conflito atual entre a filosofia tecnológica de que é possível resolver problemas e situações criadas pelo desequilíbrio no funcionamento complexo das forças e energias naturais e a filosofia ecológica da interdependência de todos os seres vivos em igualdade de condições. Este confronto requer pelo menos a revisão cuidadosa da rota seguida, se não uma corajosa mudança de rumo. Não se trata de uma visão catastrófica em curto prazo e, sim, da impossibilidade de incluir a humanidade inteira, disseminada em distintas regiões do globo, nessa estratégia suicida de contornar o desequilíbrio apenas com alta tecnologia teoricamente democratizada.

A desigualdade dentro de países, de regiões e no contexto global, fruto da desinteligência relativa ao funcionamento das leis naturais, aguça o desequilíbrio e produz o impasse atual em aspectos financeiros, econômicos, políticos e ecoambientais.

A formação de oásis produtivos em pequenos ou grandes espaços físicos, no meio rural ou urbano, pode ser uma forma de minimizar os desequilíbrios ocasionados pela pegada humana. O principio básico assenta na observação cuidadosa do funcionamento, da relação e do comportamento sazonal das energias e forças que compõem a complexidade dos elementos naturais. Água proveniente das chuvas ou de nascentes (mananciais), ventos, luminosidade, altitude (montanhas e vales), variedade da vegetação (frutífera e madeireira), fauna (aves, animais silvestres, insetos), são elementos que, com o ser humano, formam a cadeia de interdependência imprescindível para a continuidade da vida no planeta. O rompimento da corrente de interdependência, seja pelo desmatamento programado para produção agrícola, seja pela construção de barragens e desvio de cursos naturais de água ou pela urbanização não planejada, causa inundações nas cidades, perda irreparável de espécies de vegetação, da fauna e de seres humanos. A recomposição do equilíbrio, nestas circunstâncias, nem sempre é possível, se não impossível.

O desequilíbrio ambiental, muitas vezes não seguido de desequilíbrio ecológico, causado por fenômenos naturais, tem capacidade intrínseca para se recompor ao longo do tempo. Os tempos da natureza nem sempre coincidem com os tempos das necessidades e interesses humanos. Metas impostas para justificar programas políticos e econômicos nem sempre respeitam o tempo necessário para a recomposição do equilíbrio ambiental. Secas e inundações, na maior parte desses eventos, ocorrem em espaços naturais modificados pela mão humana. São denominados equivocadamente “desastres naturais”. Na verdade, são fenômenos naturais conhecidos e previsíveis que se manifestam com forças incontroláveis. Podem alagar planícies, derrubar árvores, matar pessoas e animais, cujas consequências atingem todas as formas de vida em seu caminho. Se este caminho foi, de alguma forma, interrompido pela mão humana, as forças e as energias contidas nos elementos como água e vento encontram situações favoráveis para multiplicar sua velocidade e capacidade destrutiva para arrastar com violência os obstáculos que se lhes antepõem.

Terremotos, vulcões, maremotos, tempestades, tufões, tornados, ventanias ou períodos de seca são fenômenos naturais incontroláveis com os quais as espécies vivas têm que aprender a conviver. A ocupação humana dos espaços de campos e florestas para a produção de alimentos (cereais, animais domésticos) ou para a urbanização provoca a formação de imensos desertos, cenário propício para a manifestação descontrolada dos fenômenos naturais.

As florestas foram substituídas por vegetação rasteira ou por cidades e rodovias, ocasionando mudanças nos cursos dos rios e canais de esgotamento das águas pluviais, na direção e contenção dos ventos. O desconhecimento e a imprevidência dos efeitos e impactos da expansão e da pegada demográfica sobre vales e montanhas recebem em troca a cobrança pelo choque da natureza, suas forças e energias liberadas sobre o ser humano e suas obras.

Trata-se, então, simplesmente, de recuperação de espaços perdidos à invasão descuidada das pessoas em áreas necessárias à manifestação dos fenômenos naturais. A natureza devolve o impacto causado sobre ela com intensidade e força multiplicadas por anos de agressão.

É sensato constatar que a recuperação do equilíbrio perturbado pela manifestação incontrolável dos fenômenos naturais – erupção vulcânica, terremoto, tornado – toma anos ou séculos. E, com a volta do equilíbrio natural, as circunstâncias não serão exatamente as mesmas de outrora. Vidas se perderam, rios mudaram de curso, montanhas deslocaram-se. O equilíbrio reclama uma readaptação das espécies vivas. Um novo ciclo de interdependência se inicia para a continuidade da vida no planeta. Quando a ação dos fenômenos naturais atinge as obras humanas, seja em seus campos de produção de alimentos e exploração das riquezas disponíveis, seja no conjunto cultural de seus agrupamentos urbanos, a recomposição do equilíbrio costuma sugerir inovações, mudança de hábitos, revisão da arquitetura, abandono de locais, deslocamento provisório ou definitivo dos habitantes para áreas mais seguras e/ou reestudo das formas de ocupação do solo.

O descuido com o funcionamento implacável das leis físicas que atinge com mais frequência, hoje, a obra humana, induz à reflexão sobre as relações entre o ser humano e a natureza. Truques, aparentemente inteligentes, com artifícios técnicos ou tecnológicos, pragmáticos e funcionais em busca de resultados imediatos para desfrutar os poucos anos da curta vida nem sempre são aprovados, aceitos e respeitados pela manifestação explosiva dos fenômenos naturais.

As circunstâncias tendem a se agravar quando a displicência desrespeita os espaços necessários à manifestação desses fenômenos naturais, muitos deles previsíveis no tempo e na intensidade. 

Oásis é uma pequena região que conjuga um afloramento de água com fertilidade do solo. A vegetação que se forma ao redor do manancial, ao longo de séculos, fertiliza o solo, favorecendo a prática agrícola em escala reduzida ao oásis. O essencial, portanto, é a água.

São famosos os oásis de Awjila, Ghadames e Kufra, na Líbia, pontos vitais para as rotas Sul/Norte e Leste/Oeste, no deserto. Para esses oásis eram degradados os criminosos do império romano. A previdência dos nômades e caravanas do deserto preserva os oásis durante séculos como garantia de sobrevivência na travessia.

Oásis é sinônimo de esperança, de sobrevivência e de vida. Sua perenidade depende da água, das plantas nativas e da consequente fertilização formando um sistema de interdependência ininterrupta desses elementos. A preservação desse conjunto simples de fatores possibilita o desfrute permanente da ocupação e uso do solo para satisfazer às necessidades humanas. O risco de extinção do oásis consiste em substituir a complexidade natural desses elementos integrados por uma complexidade artificial. Ao invés de adaptar-se com sabedoria à natureza, a aventura humana prefere, muitas vezes, adaptar a natureza a seus interesses com artifícios tecnológicos. Até onde e até quando essa inversão se sustenta é uma questão que pertence ao tempo, aos séculos, aos milênios.

As observações acumuladas nesses quarenta anos, numa pequena ilha de cerrado no Planalto Central, dão-me algumas indicações para sugerir a formação de oásis produtivos no meio rural ou urbano. Ao mencionar oásis produtivos não significa necessariamente cultivar o solo para extrair algum produto.

O elemento essencial e vital da existência e preservação do oásis, vale insistir, é a água. A vida depende dela. Em regiões de chuvas regulares, com duas ou quatro estações, mesmo com incidências de períodos mais secos ou mais chuvosos, o primeiro cuidado será preservar a água. A água não é um bem privado. É um bem público, universal. A preservação de mananciais e cursos de água é de responsabilidade do Estado como gestor do patrimônio comum, e do cidadão como usuário desse bem vital.

Na vida cotidiana, dá-se maior importância ao uso da água e quase nenhuma à sua captação na estação chuvosa ou à preservação dos mananciais nos períodos de estiagem. “Produzir” água é tão importante quanto usá-la e saber poupá-la.

Para a formação de oásis produtivos, entre outras iniciativas de âmbito público e particular, estão a captação de águas pluviais e o plantio ou preservação de árvores nativas da região, adaptadas ao clima e resistentes às condições adversas de seu hábitat.

Civilizações que antecederam a ocupação europeia da América do Sul, como a Zenu, na Cordilheira Andina da Colômbia, controlaram as cheias do rio Madalena por meio de canais, em forma de espinha de peixe, os quais continham a água e os sedimentos férteis para produzir milho e batas no período seco.

As formas de captação das águas pluviais variam de pequenas barragens (como as que construí em meu Sítio), a grandes galerias no subsolo urbano como em Tóquio. A presença de água na superfície ou a umidade acumulada sob a vegetação impulsionam a diversidade de plantas nativas. Tanto as áreas destinadas à produção de alimentos e à extração controlada de minérios ou as de urbanização precisam ser protegidas por corredores vegetais ou cortinas verdes. Sua função é dupla: captar e guardar parte considerável das águas da chuva e facilitar sua infiltração no solo para recarga dos aquíferos; e transformar carbono em oxigênio. (Uma árvore absorve 2kg de gás carbônico por hora e devolve à atmosfera, no mesmo tempo, 2kg de oxigênio.)

Graças à água, à umidade e aos bosques nativos, estabelecem-se refúgios de pássaros, animais e insetos que encontram alimentação adequada para sua reprodução, assegurando a biodiversidade e a interdependência das espécies vivas. É possível criar condições que garantam equilíbrio aceitável e administrável entre ocupação e utilização do solo, minimizando-se os efeitos mais agressivos da eventual manifestação atípica dos fenômenos naturais.

Em alguns países (Finlândia, Suécia), o equilíbrio entre áreas de ocupação humana, vegetal e animal é garantido com delimitação de espaços para cada um desses agrupamentos. Florestas atravessadas por rodovias e ferrovias, são cercadas por telas para impedir o atropelamento de animais selvagens.

Os oásis produtivos, sejam pequenos ou grandes, sugerem uma nova concepção da ocupação, uso e exploração racional e cuidadosa do solo. Implica tomar em consideração todos os elementos sistêmicos, forças e energias que se combinam para garantir a permanente recomposição do equilíbrio ecoambiental e a relação de interdependência de todos os seres vivos e a própria continuidade da vida no planeta.



Eugênio Giovenardi

domingo, 15 de janeiro de 2012

FELICIDADE VEGETAL


Este pedaço verde de cerrado, que eu chamo de Meu Sítio, enche-me de felicidade vegetal. Estas grandes árvores estendem sobre mim seus galhos formosos, espreguiçam-se para cima e para os lados. Dançam balé ao sopro do vento que passa, beija-as e corre para o sul.
E centenas e centenas de plantas e arbustos, anônimos para mim, trazem-me, em hieróglifos, a história milenar do universo. Elas me contam histórias de mares e vulcões. Um pelotão de bambus disciplinados, eretos, me observa. Todos trazem uma listra verde no corpo amarelo, de cima a baixo.
Um silêncio antigo e sempre novo move-se devagar na sombra espessa destes bosques. Assusta-se ele, aqui e ali, com o pio da jaó, o trinado do sabia, o grito espalhafatoso do joão-de-barro, ou o alerta vigilante do bem-te-vi. Mas, logo volta a se esconder por trás de jatobás, angicos e guapevas.
As árvores me olham, sorriem-me, aceitam-me e me injetam doses longas de felicidade vegetal extraída de seivas clandestinas. É segredo essa felicidade vegetal. É um código que só as árvores decifram. E pedem-me que não dê a senha.
Caminho entre as árvores. Não estou só. Há vidas outras que sugam delas essa felicidade vegetal. As borboletas azuis, em voos desajeitados, mas sublimes, equilibram-se no ar sobre as águas do riacho. Os saguis espicaçam e devoram mangas. Os coatis chupam graciosamente caroços de jaca. Os macacos-prego rompem as duras vagens de jatobá.
A floresta, com milhões de anos de paciência, é um laboratório de energias e variada felicidade. Uma usina de harmonias e melodias, de sinfonias e óperas, de danças e festas.
Nestes bosques, a vida e a morte se abraçam, riem e choram, amanhecem e anoitecem com a mesma despreocupação dos séculos que o tempo engoliu. É dessa milenar felicidade vegetal que é feita a alegria frágil e passageira da alma das pessoas.
Nem sempre me compreendem quando revelo que as árvores têm alma, detêm o código da felicidade, falam e, às vezes, choram.

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