quarta-feira, 30 de outubro de 2019

HUMANIFESTO


HUMANIFESTO -
REALIDADE E MUDANÇAS CLIMÁTICAS  -

Há mais de 40 anos acompanho a regeneração vegetal de 70 hectares do bioma cerrado, convivo com velhas árvores cheias de histórias milenares, extasio-me com miríades de flores e frutos. Esta experiência me entusiasma a comprometer meus contemporâneos a conhecer e compreender a natureza e o planeta que nos abriga. Escrevi, nos últimos anos, diversos livros que expressam a generosa e também a desastrosa relação da espécie humana com a natureza e a biodiversidade.
Este HUMANIFESTO é uma voz singela que se une à de milhares de escritores, artistas e cientistas na proteção dos elementos essenciais – árvores e água – que sustentam todas as vidas no planeta verde.
Estamos rodeados de realidade. Falta-nos, porém, a percepção dessa realidade. Ela parece zombar de nossa cegueira e sonambulismo diante dos fatos. Vivemos numa época em que a cegueira humana, causada pelo imediatismo consumista, impede de reconhecer a realidade das mudanças climáticas, das alterações físicas provocadas por fenômenos naturais e agravados pela múltipla ação trópica da espécie humana (urbanização, indústria, produção de alimentos). A contaminação espacial e planetária do solo e da água por elementos químicos e orgânicos e pela superexploração e devastação das riquezas naturais afetam a vida humana e a biodiversidade do planeta. As mudanças climáticas são irreversíveis. As que aconteceram há bilhões de anos, as que estão acontecendo e as que virão nas próximas décadas, ou nos séculos seguintes, fazem parte da história cósmica.
Alguns aspectos que auxiliam a percepção da realidade:

1     O espaço físico do planeta Terra é limitado. 70%, água e 30%, terra. A espécie humana, no ano 1800, desfrutava de 19 hectares per capita. Em 2019, o espaço por habitante se reduziu a 2,7 hectares. Nesse espaço de 20.700 metros quadrados, cabe a casa, o automóvel, a rodovia, o estacionamento, o aeroporto, a estação ferroviária, a rodoviária, as árvores, os pássaros, a horta, a água, a pluralidade de animais domésticos e os campos de cereais e frutas.

       A população humana se espalhou por todas as regiões do planeta arrastando consigo bilhões de animais domesticados que consomem grande parte dos cereais produzidos. A sobrevivência da espécie humana conquistou maior longevidade e a reprodução continua crescendo de maneira persistente. A ONU indica um crescimento de 2.2% da população global, alcançando, em 2100, 11 bilhões de habitantes no planeta. O impacto sobre a natureza, sobre o solo, sobre a água, mesmo com todos os cuidados técnicos possíveis, afeta globalmente o planeta. O consumo dos bens limitados, a extinção de florestas, e consequentemente de seus hóspedes, a queima de combustível fóssil, o uso de pesticidas, a contaminação dos rios e do ar tendem a aumentar com o crescimento do consumo de bens pela população mundial. A extinção indiscriminada da biodiversidade trará consequências desastrosas para a saúde dos seres vivos.

    A distribuição da água (3% de água doce do planeta) por pessoa reduziu-se de 5,2 bilhões de litros por habitante, em 1800, para 700 milhões de litros/hab, em 2019. Rios e lagos secaram em várias regiões do planeta. Milhares de nascentes foram soterrados pela urbanização e pela produção de alimentos. Os agrotóxicos e antibióticos contaminaram a maior parte das águas superficiais. Grande quantidade de lixo polui solo, rios e oceanos. Algumas geleiras, cujo degelo formava rios para irrigação na agricultura, diminuem seu volume e, em poucas décadas, extensas regiões não serão mais adequadas à produção de alimentos. Além do mais, as chuvas irregulares e os fenômenos naturais extremos estão causando perdas materiais e de vidas no campo e nas cidades.

         Pouco sabemos da origem da vida no planeta e da espécie humana e, menos ainda, do destino da vida e do universo. Tudo o que a ciência nos diz é que o universo existe há bilhões e bilhões de anos e que estamos rodando no espaço. As pesquisas científicas para conhecer o universo requerem grandes somas de dinheiro, cujos resultados práticos beneficiam a própria ciência e não atendem às necessidades da vida cotidiana de quase metade da espécie humana.

         A poluição sólida, líquida, aérea, dos rios, dos oceanos e do solo é uma realidade explícita, visível e de difícil controle, em razão da intensa produção de alimentos e do crescimento gigantesco da urbanização, cobrindo áreas de proteção ambiental. Pássaros, peixes, animais da selva, florestas e pessoas estão contaminadas. Sobrevivem as bactérias, fungos e vírus para cooperar na extinção de milhões de espécies vivas.


6    Embora o uso de aparatos tecnológicos mecânicos e da eletrônica seja de uso massivo, o domínio e o controle da tecnologia estão em mãos de poucos anônimos que decidem como e quando usá-la. A tecnologia reflete também o poder da minoria sobre a maioria.

7      As decisões financeiras para a produção de bens e consumo estão concentradas em bancos centrais de países dominantes e de empresas de capital multinacional a dominar todos os pregões das principais bolsas de transferência de valores de muitos contribuintes de países subdesenvolvidos às mãos de poucos acumuladores de benefícios e lucros descabidos. A desigualdade pode ser configurada em três patamares: os que sobrevivem com um dólar por dia; os que vivem com 10 dólares por dia; os que vivem fartamente com 100 dólares por dia. No patamar de um dólar por dia, estão os analfabetos, as baixas remunerações de trabalho e seus ocupantes usam as poucas oportunidades para chegar aos dez dólares. As oportunidades crescem mais velozmente nos patamares superiores. A velocidade no primeiro patamar é, figuradamente, de um km/h para alcançar à de dez km/h, e esta acelera para chegar próxima ao patamar de 100 km/h.

8    O desenvolvimento, a pedagogia e a metodologia da cultura e da educação se apoderaram da espécie humana em todos os países para subsidiar e compartilhar mítica e ilusoriamente os benefícios oferecidos pela guerra econômica e pela aventura do consumo de bens necessários e supérfluos. Gera-se uma identidade igualitária falsa estimulando o acesso de ricos e pobres aos mesmos shoppings e supermercados. A inversão dos patamares por meio de políticas de redistribuição das oportunidades é possível com investimentos prioritários no patamar inferior. O aumento de oportunidades, de produção e consumo com o crescimento persistente da população dependerá também das mudanças climáticas cujos fenômenos extremos afetam o planeta de maneira irregular e imprevisível.

As reações diante da real probabilidade de extinção em massa de espécies vivas se fazem por grupos minoritários, disseminados no planeta, com um novo olhar sobre a natureza, sobre a vida e a biodiversidade. As energias politicas das administrações públicas do Estado não se dirigem convincentemente para as reais consequências desastrosas sobre a população. Produzir e consumir são o binômio das prioridades econômicas dos gestores públicos.
        
 Gritos revolucionários para proteção e defesa de mananciais, de biomas, de bosques e florestas se espalham ainda imprecisos e pouco ouvidos, especialmente em apoio a sistemas e processos de regeneração lenta de áreas degradadas e da biodiversidade. Percebe-se claramente, na ação humana sobre a natureza, que o tempo da destruição de vidas é curto e o da regeneração da biodiversidade é pacientemente longo. O conceito de regeneração se estende para outras atividades além da recomposição vegetal de uma área. A regeneração é lenta também para ações e procedimentos que visam a reorganizar o tecido social, as decisões econômicas e a mudança de políticas públicas. A regeneração da economia, diante de erros estruturais, de finanças combalidas, de consumo incontrolável, das normas de convivência humana, das relações do homo sapiens com a natureza é lenta e requer muitas décadas para reconquistar o equilíbrio rompido.

11)         A realidade é que grande parte das florestas originais foi destruída. Com a extinção de florestas, com a desertificação generalizada pela produção de alimentos, pela urbanização e pela superpopulação mundial persistente, as evidências indicam impacto crescente sobre todos os biomas e especialmente sobre o acesso à água. Cada dia mais a recarga dos aquíferos e as nascentes de rios dependem da irregularidade das chuvas.

12)     O decrescimento econômico, rumo ao crescimento zero do uso e consumo de bens oferecidos pelo planeta, requer igualmente reduzir a zero o crescimento da população humana. Infelizmente, o crescimento da população, nos moldes atuais, conduz ao aumento de parte da reprodução animal, estimulada e domesticada. A redução de rebanhos bovinos, ovinos, porcinos, muares e cavalares e de espaços ocupados na produção de cereais e fibras cederia lugar às florestas e à pluralidade de vidas nos campos e nas selvas.

13)         O que a espécie humana pode e faz é consumir e eliminar o passado do planeta que a abriga. Como destruímos o passado do planeta? Eliminamos mananciais que irrigavam amplas áreas em todos os biomas. Arrasamos montanhas para desentranhar carvão, óleo das pedras para queimá-lo, ouro, prata, diamantes para transformá-los em mercadoria provocadora de guerras insensatas, pobreza, fome, desigualdade entre os integrantes da mesma espécie humana. Cortamos e queimamos árvores garantidoras da paz ambiental e dos cursos de água. Falsificamos a história do planeta e seus feitos ocorridos ao longo de bilhões de anos. Deixaremos um planeta arrasado, sem passado, para nossos descendentes.

14)         A queima dos fósseis – óleo das pedras – petróleo – que é senão a destruição do milenar passado do planeta? A eliminação gradativa e segura de imensas jazidas do passado planetário foi estatuída pela espécie humana como fator de progresso e felicidade para seu exclusivo benefício. Vivemos à custa do riquíssimo passado e do depauperado presente do planeta sem prever o futuro dos que nele sobreviverão. Esta constatação foi um tremendo tapa no meu rosto ao saber que bilhões de anos foram necessários para conformar o presente-passado com inimagináveis perspectivas futuras.

15)         O clamor de crianças e jovens, em defesa da vida e da biodiversidade no planeta, reforça a esperança de se tomarem decisões sensatas no campo econômico, politico, social e cultural adequadas às novas gerações que viverão nas décadas e nos séculos vindouros.

24.10.2019


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

PINGOS NOS IIS



PINGOS NOS IIS

Nossos antepassados pisaram terras da atual América do Norte há 30.000 anos. Na Amazônia, que se estende sobre Colômbia, Venezuela, Peru, Equador, Bolívia e Brasil há sinais migratórios de 20.000 anos. Eles nos deixaram como herança a Amazônia.
Para invadir essas terras, limpas e sadias, há apenas 500 anos, portugueses e espanhóis, munidos de alguns trabucos, traziam nas bagagens outro conjunto de armas letais, como a varíola, o vírus da gripe e a gonorreia. Registros históricos recentemente divulgados por JB Fressoz et C Bonneuil - The Anthropocene and the Global Invironmental  CrisisRethinking modernity in a new epoch (Press Book. Seuil, Paris, 2017), relatam que, em algumas dezenas de anos, foram mortos, pelos exploradores, ao redor de 50 milhões de ameríndios, com sua cultura.
Para compreender as atrocidades que portugueses e espanhóis católicos praticaram para “limpar a área de seus habitantes” sugiro que se leiam as denúncias de Fray Bartolomé de las Casas (1474-1566): Brevísima relación de la destrucción de las Índias Occidentales - 1552.
Avancemos no tempo. A colonização da Amazônia, na década de 1970, com as vilas agrícolas da Reforma Agrária, levou ao fracasso milhares de famílias. Em lugar desses habitantes da transamazônica, madeireiros, mineradores, bovinocultores, sojicultores, arrozeiros, em geral conduzidos por testas de ferro, inauguraram a nova fase de exploração da Amazônia denominada “agronegócio de exportação”. Seus verdadeiros donos, nacionais e internacionais, vivem em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Miami, Suíça, Ilhas Cayman.
Essa nova fase de exploração agrícola capitalista inaugurou também o ciclo anual de queimadas que data de 50 a 70 anos. Não é verdade, portanto, que sempre houve queimadas na Amazônia, com exceção de eventos esporádicos que possam ter ocorrido há milhares ou milhões de anos. A fonte de ignição, como raios, só é possível durante a época chuvosa. Nesse caso, o bombeiro é a própria chuva. Outras fontes de fogo são produzidas pelo explorador (fonte antrópica), como fósforos, isqueiros ou cigarros. O material combustível é abundante e pode ter um grande aliado nas condições climáticas do período de estiagem.
A sorte da Amazônia está lançada: aculturação ou morte de povos nativos, desmatamento, fogo, exploração sistemática de todas as riquezas naturais, poluição das águas, cujos efeitos agravarão o aquecimento global.
O crescimento econômico concentrador de capital e garantidor da desigualdade social é um tema que desafia a espécie humana e o futuro do HOMO SAPIENS.
Felizmente, as novas gerações estão dando gritos de alerta em todos os países do planeta.   
 5.9.2019

terça-feira, 27 de agosto de 2019

AMOZÔNIA

AMAZÔNIA

A Amazônia está sendo abatida e desentranhada, no Brasil, por brasileiros, no Peru, por peruanos, no Equador, por equatorianos, na Colômbia, por colombianos e na Bolívia, por bolivianos. As empresas estrangeiras copartícipes da insensatez econômica estão, nessas áreas, com a anuência de seus governos.
O desmatamento, o fogo e a mineração são o começo da degeneração orgânica do bioma, pela perda quase definitiva da biodiversidade,, garantia da vida na floresta. Milhares de vidas são mortas pelo desmatamento e pelo fogo ou expulsas de seu habitat e de sua alimentação.
O ponto essencial dessa expulsão e dessa destruição gradativa do bioma é o tempo necessário à regeneração da biodiversidade estimado em centenas de anos mesmo com reflorestamento.
É lamentável e indignante que o chefe do governo brasileiro e seus principais colaboradores insistam em ignorar os efeitos de decisões antiecológicas e antinaturais que se contrapõem às leis físicas e à racionalidade no uso dos bens da natureza.
A África, a Ásia, a Europa, nos últimos 20 mil anos, trilharam esse caminho de terra arrasada com produção de alimentos, mineração e crescimento da população. Por que temos nós que repetir essa experiência que leva ao precipício?
Insisto: o tempo de regeneração da biodiversidade vegetal e animal é o ponto crucial do desmatamento e do fogo. Levará centenas de anos para se recompor – parcialmente, porque milhares de espécies foram extintas.
As novas gerações do Homo sapiens, se forem ouvidas, certamente encontrarão soluções que nós não soubemos lhes oferecer.
27.8.2019

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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

JAZIDA ANTROPOLÓGICA DE ATAPUERCA



(Fotos: 1) Ritual de sepultamento neandertal. 2) minha mão impressa na parede de pedra de Atapuerca,

JAZIDA ANTROPOLÓGICA DE ATAPUERCA


Em 2013, tomei conhecimento do livro EL SELLO INDELEBLE de Juan Luis Arsuega e do psicólogo e neurocientista Martín-Loeches. Obtive, nessa obra, informações sobre a jazida antropológica de Atapuerca marcada pela presença de Neandertais e pelo provável convívio com o homo sapiens. Fascinou-me, durante a leitura, a possibilidade de conhecer a jazida e conhecer as aventuras existenciais dos neandertais.
Seis anos depois, a oportunidade se apresentou com a preciosa ajuda de um amigo colombiano, Pedro Eugenio Lopes Salasar, professor de economia da Universidade de Extremadura, Badajoz, no sul da Espanha.
No dia dois de agosto de 2019, cheguei a Badajoz, via Lisboa. Nosso destino seria a cidade de Burgos, a 630 km ao norte da Espanha. A jazida paleontológica de Atapuerca dista 15 quilômetros desse centro urbano  de 170.000 habitantes.
Atapuerca é nome formado por duas palavras: Ata, em basco significa PORTA, Puerca também significa PORTA = PORTA A PORTA, isto é, podia-se entrar e sair por ambos lados.
Atapuerca é a maior jazida de restos e vestígios paleontológicos do planeta por sua extensão geográfica e pelo número de objetos que contam a história pregressa de 190.000 anos. Parece ter sido, por condições geográficas, um ponto de chegada da mobilidade migratória.
A jazida de Atapuerca foi descoberta em 1974, num corte de montanha feito por uma mineradora inglesa que interrompeu seu trabalho por questões políticas entre Espanha e Inglaterra. As escavações revelaram restos e vestígios culturais de uma civilização que viveu ali há 190.000 anos.
O Homo sapiens, vindo de algum lugar do planeta, surpreendeu, nessa área, um grupo organizado de neandertais. Esses hominídeos já haviam descoberto técnicas para produzir faíscas e fogo. Fabricavam objetos e instrumentos de pedra lascada para uso doméstico e flechas para caça e defesa. Extraiam tintas derivadas da raspagem de pedras coloridas para tatuagens, e compunham colares de búzios para ornamentar-se em suas celebrações e rituais de sepultamento.
 O fogo lhes permitiu derreter metais, além de aquecer-se e cozinhar alimentos. A alimentação básica dos neandertais era o peixe abundante do rio Alarzón que ficava a 800 metros de seu abrigo.
A jazida de Atapuerca é formada de três covas, numa extensão de aproximadamente 1.000 metros e cinquenta de profundidade. Nessas covas também escondiam-se animais. A presença de Neandertais obrigou os bichos a procurarem outros abrigos. Com a desocupação das covas, centenas de anos depois, esses espaços voltaram a ser ocupados por morcegos, ursos, bisões e outros animais.
A idade geológica da jazida, formada de camadas superpostas pelo movimento das ondas e retirada do mar, está calculada em 1.300.000 anos. A ocupação dessa área data de apenas 190.000 anos.
O deslocamento desses grupos de neandertais, de 20 ou 30 membros, incluindo a prole, baseava-se em três condições essenciais: a) abrigo para defender-se de animais famintos, refugiar-se da chuva, dos raios e das mutações do clima; b) abundante comida; c) água.
Nessas planícies cercadas de montanhas, os neandertais encontraram os três elementos básicos mencionados. Caça e pesca eram as duas condições de subsistência e reprodução.
A 800 metros das grutas passava o rio Alarzón que lhes dava peixes em abundância e água. Passados 190.000 anos, o rio foi secando e se afastando do local. Hoje está a 8 km da jazida de Atapuerca.
A desidratação do planeta é lenta, mas constante. Há apenas 60 anos, a área, onde está o Distrito Federal, oferecia milhares de nascentes e centenas de córregos dos quais aparece uma vaga linha de vegetação e um leito seco. O superpovoamento de uma área é o princípio da desertificação provocada pela necessária produção de alimentos e pela crescente urbanização.

ETAPAS DA VISITAÇÃO AO COMPLEXO ANTROPOLÓGICO E PALEONTOLÓGICO DE ATAPUERCA.

-        Primeira etapa: Centro Arqueológico Experimental de ATAPUERCA

Há poucos quilômetros das covas, no Centro Arqueológico se reproduzem, com demonstração feita por antropólogos, fatos culturais, como a preparação de instrumentos de pedra sílex. São apresentados arcos e flechas, tendas habitacionais de peles, sinais rupestres, figuras de animais da região pintadas nas paredes das grutas, sombras de mãos gravadas com jatos de tinta (expray por sopro de tinta sobre a mão).  Mostram-se formas de sepultamento, objetos de decoração pessoal como colares de sementes, de búzios ou dentes de animais, técnicas de produzir faíscas e fogo, casas primitivas de pedra ou madeira com telhado de ramos de arbustos.

- Segunda etapa, jazida formada por três covas.

Nessas covas se encontraram restos e vestígios, ossadas de animais, de neandertais e Homo sapiens, volumosas deposições de morcegos que habitaram as covas durante mais de 30 anos.
Há informações sobre o acasalamento compatível do Homo sapiens e neandertais, fato que indica o compartilhamento persistente do DNA entre os diferentes grupos de hominídeos.

- Terceira etapa, Museu Antropológico e Paleontológico, na cidade de Burgos.

O Museu apresenta uma réplica impressionante e comovedora das covas em que se recolheram os objetos com a reconstrução de figuras hominídeas e seus objetos de uso.
Livraria especializada oferece documentos e livros, além de lembranças próprias dos achados antropológicos e paleontológicos.


CADEIA EVOLUTIVA

Quatro grupos contribuíram para completar a evolução hominídea consubstanciada no homo sapiens.
Os Predecessores (antropopítecos - primatas), os Heidelbergensis (500.000 anos - Alemanha), os Neandertais (190.000 anos) e, finalmente, Homo Sapiens.
Extintos os três primeiros grupos, culminou-se a evolução hominídea com a exclusiva sobrevivência do Homo sapiens há aproximadamente 40 ou 50 mil anos.
O desaparecimento dos neandertais pode ter sido causado pela supremacia do Homo sapiens que trazia novas armas, germes, bactérias transmissíveis e aço para fabricação de ferramentas mais eficazes.
As atividades de caça e pesca continuaram como garantia da sobrevivência e reprodução, porém, de maneira mais ordenada e cooperativa. A abundância de comida e água provocou um aumento gradativo da população. Novas áreas e novos espaços foram sendo ocupados, inclusive com a travessia de rios e braços de mar para alcançar ilhas e marcar territórios.
As florestas ofereceram madeira para a construção de abrigos mais sólidos e permanentes, em substituição às cavernas e moradias de pedra. A domesticação de animais, fruteiras e cereais data de aproximadamente 15 mil anos o que permitiu a formação de assentamentos e a redução do nomadismo.
O sedentarismo estimulou a agricultura e a expansão de vilarejos com número progressivo de famílias, embrião da organização social. Normas de convivência se estabeleceram. As estações do ano suscitaram celebrações. A explosão da primavera, as colheitas abundantes eram motivos de alegria e festa. O medo e o respeito ao desconhecido culminaram na crença supersticiosa em seres poderosos e invisíveis, com poder de punir ou premiar.
As cerimônias de sepultamento de membros do grupo eram praticadas por neandertais. Mais tarde, a memória dos antepassados foi esculpida em pedra ou pintada em murais.
 Saliente-se que a espécie humana – Homo sapiens – tornou-se o único ser vivo a usar o fogo, fabricar armas, servir-se da roda, escrever livros, voar pelo espaço. É o único e exclusivo ser vivo a tomar decisões sobre as condições de vida no planeta. É o risco de ser o ditador absoluto com presença em todas as regiões da Terra. O Homo sapiens não encontra ou enfrenta oposição externa a ele, além das leis físicas. A disputa é interna e se orienta pela força, pela energia, pela capacidade de disputar o poder e assenhorear-se dos meios que utiliza para seus fins compartilhando invenções com diferentes grupos humanos ao redor do planeta.
A sobrevivência ou a extinção do Homo sapiens dependem de sua prudência e racionalidade na tomada de decisões frente às leis físicas e aos bens essenciais oferecidos pelo planeta para alimentação, suprimento de água e conforto.


OBSERVAÇOES:

·       O canibalismo pode ter sido uma prática de defesa entre grupos para proteger-se contra novos ocupantes que vinham em busca de comida.
·       O sangue de animais e as gorduras eram utilizados na pintura rupestre ou tatuagens.
·       Pelos e cabelos de animais transformavam-se em pincéis e as peles os vestiam no inverno.
·       De ossos de tíbia ou fêmur derivavam ferramentas pequenas Carnes eram comidas cruas antes da descoberta da faísca.
·       As carnes eram cortadas com facas de pedra sílex em forma de triângulo.
·       Um sistema de comunicação entre grupos vizinhos era usado rodando-se com rapidez uma vara que trazia um objeto plano preso à corda. O deslocamento do ar produz um som audível a três quilômetros. Gera, ao mesmo tempo, um som musical com várias graduações.
·       A extinção dos neandertais é nebulosa. A chegada do Homo sapiens trouxe novas armas de ataque e defesa, germes e doenças desconhecidas e ferramentas obtidas da fusão de metais, como ferro e cobre, com uso de carvão mineral. (Jared Diamond, Armas, germes e aço)
·       Os dinossauros viveram há 60 milhões de anos antes do Homo sapiens.
·       Os primatas, que nos deram origem, viveram durante mais de 65 milhões de anos em florestas. As árvores garantiram sua sobrevivência.



PÓS-HISTÓRIA HUMANA

Transcrevo mensagem que os arqueólogos e paleontólogos homo sapiens deixaram aos visitantes de Atapuerca.
Pode ser útil aos que pretendem marcar sua passagem pelo planeta Terra.


El Yacimiento del Yacimiento del Centro Arqueológico Experimental de ATAPUERCA

En el año 22.019, cuando usted ya sea yacimiento y un equipo de alienígenas explore la Tierra, en esse verano constante que evaporará los océanos, y descubra un fragmento de su cráneo y reconstruya un clon como usted, incluso, con la misma consciência que tiene hoy, y usted sea el único exemplo vivo de homo sapiens en el universo  ?cómo usted explicará entonces a esos seres casi transparentes, cual es el legado más importante de la civilización humana?


Eugênio Giovenardi
Badajoz – España
Atapuerca
3.8.2019


segunda-feira, 22 de julho de 2019

CINQUENTA ANOS DE CAMINHADA


CINQUENTA ANOS DE CAMINHADA


Hilkka e eu continuamos na longa caminhada que, hoje, completa  50 anos. Flores e pedras no meio do caminho.
Ficaram pegadas indeléveis para Aino Alexandra e para Luiza e Laura.
A gente imagina que, em cinquenta anos, se pode virar a outra pessoa ao avesso e conhecê-la por dentro. Ninguém vira outra pessoa ao avesso.
A companheira de uma caminhada de cinquenta anos é indevassável. É ontologicamente única, misteriosa, surpreendente. O que está por dentro da pessoa é privado. É inalcançável em sua grandeza.
O segredo da vida é ser livre e não se deixar prender ao longo do caminho.
O eu se esconde no ela. Com astúcia maternal ela guarda o nascituro no tabernáculo sagrado.
O eu e o ela, abrindo caminhos ao andar, dirigem-se a um ponto no infinito. E o infinito não há.
A dimensão humana percebida, que os anos diriam completa, se revela maior diante de manifestações surpreendentes de magnanimidade na convivência do longo andar.
Cinquenta anos, querida Hilkka, são pouco tempo para compreendermos a trama do destino que nos pôs no mesmo caminho sem hora para chegar.
22.7.1969 – HELSINQUE - FINLÂNDIA
22.7.2019 – BRASÍLIA – BRASIL  

quarta-feira, 17 de julho de 2019

CUSTO DA REGENERAÇÃO



CUSTO DA REGENERAÇÃO


Nestes dias, o governo brasileiro discute se mantém ou não o acordo com a Noruega e Alemanha que oferecem alguns bilhões de reais ao Fundo da Amazônia destinados à preservação das florestas originais.
A floresta amazônica, antes de pertencer ao Brasil, à Colômbia e ao Peru, faz parte do planeta Terra, assim como as florestas da Europa, da Ásia e da África devastadas pela espécie humana nos últimos 15 anos.  No Brasil, o contínuo desmatamento da Amazônia empobrecerá o planeta e extinguirá boa parte da biodiversidade necessária à reprodução da vida. Diga-se o mesmo de todos os demais biomas que formam o ambiente natural do planeta.
A preservação da biodiversidade e o lento processo de regeneração, frente à exploração destruidora da espécie humana para a própria sobrevivência, têm um alto custo de reposição e requerem um tempo muito maior ao da destruição. Destrói-se em meia-hora o que a natureza leva anos para regenerar. É comum dizer-se que para cada Real gasto em devastar são necessários cinco ou mais para recompor o tecido da natureza afetada. Entram, então, dois elementos fundamentais no processo de regeneração: custo e tempo.
Como calcular o custo e determinar previamente o tempo, ambos necessários para a lenta regeneração vegetal e recomposição da biodiversidade de um bioma?
Relato, neste documento, minha experiência de 45 anos acompanhando o lento processo de regeneração vegetal e recomposição da biodiversidade de uma área de 70 hectares (700.000 metros quadrados).
Nessas quatro décadas e com o dinheiro invertido, pude conhecer, compreender e colaborar com o processo lento de regeneração. As condições climáticas são determinantes para a regeneração e para empreender ações cooperantes.
Os primeiros dez anos de contato com a área devastada foram de aprendizagem, de observação, de choque de realidade. O ponto crucial, nesse período, foi perceber as reações da biodiversidade frente às decisões culturais e tradicionais da ação humana dirigidas a explorar a oferta da natureza: solo, água, madeiras, aves e animais.
Os resultados catastróficos decorrentes de queimadas, do desmatamento, da introdução de animais vorazes se revelaram na redução da água, na ineficiente infiltração das águas pluviais, na desertificação estrutural da área. Diante desses efeitos nefastos, nos anos seguintes, interrompeu-se essa corrente antiecológica. Impediram-se queimadas com aceiros protetores e pediu-se, para isso, a colaboração de vizinhos. As áreas de possíveis mananciais foram protegidas e consideradas indevassáveis. Um sistema planificado de contenção de águas da chuva foi implantado mediante centenas de barramentos consecutivos nos canais de esgotamento natural e grotas ao longo e largo da área. Retiraram-se os animais domésticos de grande e médio porte (vacas e ovelhas) considerados predadores eficazes da vegetação.
Impedidas as queimadas, e graças ao sistema de contenção de águas pluviais, o período de chuvas sobre a área pacificada fortaleceu, nos primeiros vinte anos, o colchão de gramíneas, multiplicou e expandiu a vegetação.
Auxiliado pelas barragens de contenção, um novo sistema de captação e detenção de águas da chuva se estabeleceu com a expansão da população vegetal.
Passadas mais de quatro décadas, o processo de regeneração vegetal se consolidou. Voltaram os pássaros, aninharam-se e se multiplicaram em mais de uma centena de espécies graças ao aumento da alimentação provinda de frutas, sementes e multiplicidade de insetos. Animais que haviam perdido seu habitat, como gatos selvagens, coelhos, raposas, quatis, saguis, tatupebas, mão-pelada, macaco-prego se refugiaram nas matas ciliares e/ou sobre árvores frutíferas. Tucanos, jacus, curicacas pernoitam sem medo sobre as grandes árvores próximas às casas de moradia e, ao mesmo tempo, compartem a comida de patos e galinhas..
Espécies arbóreas como cajazeiras, jacarandás, jatobás, aroeiras, sucupiras, embiruçus, angicos, mama-de-porca, copaíbas, guapevas, pequizeiros, ingazeiras, jequitibás e outras se agigantaram e deram um ar de floresta especialmente nas partes baixas do Sítio. A formação de húmus resultante do apodrecimento de folhas e gramíneas aumentou e melhorou a oferta alimentar com apreciáveis resultados no desenvolvimento vegetal.
Um passo importante na recuperação regenerativa do bioma é a integração de todos os componentes da biodiversidade, incluído o predador principal – o homo sapiens.
Novas decisões adequadas à regeneração do bioma, novos comportamentos inteligentes e apropriados derivam dessa compreensão da biodiversidade integrada.
Um novo período de paz vegetal, de tranquilidade e silêncio se consolida pela força do armistício que sinaliza o fim da guerra entre o ser humano e a natureza.
Esboça-se um novo olhar sobre a natureza.
O custo da regeneração se compõe de tempo, de compreensão do sistema natural, de colaboração de todos os componentes da biodiversidade, de recursos técnicos, cognitivos e financeiros.
As peças do orçamento aqui apresentado, com as correções de lei, funcionam há quarenta e cinco anos.

            ORÇAMENTO ANUAL - 2018
ITENS
VALOR R$
Administração
19.882,00
Impostos
5.103,00
Limpeza, coleta de lixo
4.860,00
Manutenção/barragens 60h x 20,00 reais

1.200,00
Aceiro anual
2.000,00
Desobstrução/trilhas, córregos.20h x  20,00 reais

400,00
Transporte/combustível
5.760,00
TOTAL
39.305,00
Custo por hectare
559,90

NOTA:O investimento realizado para acompanhar o processo de regeneração e  preservação é de origem particular, sem apoio de órgãos oficiais ou outras fontes.
Área do Sítio – 70 hectares – 700.000 m2
No ano 2018, a área do Sítio recebeu 1.700 mm de chuva, somando 1 bilhão, 190 milhões de litros de água, com aproximadamente 75% retidos na vegetação e barramentos, facilitando a recarga dos aquíferos e consolidando os mananciais.

(Informações mais detalhadas sobre o paciente esforço da natureza em encontrar o tempo de sua regeneração encontram-se em alguns livros que publiquei sobre o tema: A saga de um Sítio, O retorno das águas, As árvores falam, Ecossociologia, Reencontro – o que aprendi da natureza, Uma obra em verde. Ecologia).

quinta-feira, 4 de julho de 2019

AS PEDRAS DE ROMA POR EDMILSON CAMINHA


Nota: Comentários do escritor e crítico literário EDMILSON CAMINHA sobre AS PEDRAS DE ROMA, traduzido para o inglês.



O PAPA QUE NÃO GOSTAVA DE DEUS

Edmílson Caminha

Eugênio Giovenardi é dos poucos brasileiros capazes de escrever um livro com a riqueza humana e a magnitude literária que põem As pedras de Roma (Porto Alegre : MaisQNada, 2009) entre os mais expressivos romances da nossa literatura, nos últimos tempos. Teólogo, filósofo e sociólogo, o autor detém profundo conhecimento da Igreja Católica, a que apela para contar a história impressionante de Giovanni de Medici, feito cardeal com 13 anos de idade, e que governou o Vaticano, como Papa Leão X, de 1513 a 1521, quando se suicida envenenado, aos 45 anos.
Tempo da maior importância na história da humanidade, nele se assistiu ao esplendor da Renascença, à Reforma de Lutero, ao surgimento das grandes nações da Europa, à consolidação de monarquias, à decadência do feudalismo, à perda do poder secular da Igreja, à descoberta de caminhos para o novo mundo ocidental. Matérias valiosas, que, na pena de historiadores acadêmicos, renderiam páginas burocráticas e enfadonhas. Ocorre que Giovenardi, além de grande pesquisador, é escritor admirável, que prima pela elegância do estilo, fluidez da narração e apuro da linguagem. Ideia relativamente comum a romancistas, o texto é de “segunda mão”, pois veio a quem o publica, no caso, de um ex-diretor da Biblioteca Vaticana. São os “Rapporti confidenziali”, lembranças, pensamentos e relatos de Leão X talvez anotados, e guardados, por um anão que lhe prestava serviços. Filho de Lourenço, o Magnífico, de quem viera o gosto das artes, das letras, das ciências, o herdeiro Giovanni cedo se descobre mais voltado para as pompas do mundo que para o despojamento do espírito:

Quando concorro aos ritos, o faço como ator de teatro, com vestuário adequado, movimentando-me como um personagem no palco iluminado. (...) Cardeal adolescente, na pompa do cerimonial, vestido de seda escarlate, portava-me com a dignidade postiça exigida pelo ato litúrgico. Encenava uma peça que reunia o cômico, o trágico e o dramático num estrado suntuosamente decorado, sob os olhares ocultos das divindades e, ao mesmo tempo, dos espectadores encantados. Ainda me seduz a arte do religioso, a poesia do misticismo, embora dele não participe com o entusiasmo de um místico. Sou um homem da terra, não do Olimpo.

Prefere os prazeres intelectuais ao exame da teologia:

A especulação teológica não me entusiasma. Aborrece-me gastar o tempo em ouvir discussões sobre teses que escarafuncham as entranhas da divindade. Deixo aos dominicanos e agostinianos a tarefa de provar a verdade da ressurreição de Cristo e sua reencarnação.

Não se ilude quanto aos possíveis méritos com que lhe é dado exercer o poder papal:

Das virtudes que se exigem de um papa, nenhuma delas é mais eficaz do que a sorte. A esperteza política está em manter os efeitos da sorte a seu lado. A virtude do político é ser contraditório. As circunstâncias nos contradizem e nos traem. Aposto nos erros e fracassos alheios mais do que em minhas virtudes.

E chega a questionar, com um amigo poeta, o conhecimento que se possa ter do Criador: “Sinceramente, Bembo, quem conhece Deus? Quem sabe o que ele pensa? Deus não pensa. Pensar é humano. Pensar é desvendar o desconhecido. (...) Se Deus fala por mim não tenho certeza, é suficiente que os outros a tenham.”


Sensível aos prazeres da carne, com a princesa Porzia Dupuy tem um filho, que fará cardeal, e entrega-se na cama a experiências homoeróticas com o cardeal Petrucci:

Fâmulos e serviçais do palácio divertiam-se com as cenas de meus ciúmes, nutridos pelas leviandades de Petrucci. (...) Na festa da colheita das uvas, foi trazido ao castelo desfalecido e bêbado. Recusei-lhe o quarto, desprezei seu arrependimento, assinei um lacônico despacho e o mandei de volta a Roma.

A fazer contraponto com a grandeza de Sumo Pontífice, a fragilidade humana representada pela fístula anal que o atormenta ao longo da vida:

O cardeal Petrucci me untava com unguentos de zinco e essências de sândalo. Tornei-me um peso e um estorvo para seus dias de repouso e suas vaidades. Por isso, aceitei de bom grado que os curativos me fossem feitos por jovens enfermeiros do nosocômio Santa Madalena.

Tão bem escrito é o romance que chegamos a crer na veracidade do diário, como se fora mesmo um documento histórico, por entre personagens como Erasmo de Roterdam, Rafael e Leonardo da Vinci. As reflexões são de tal maneira lúcidas ‒ e surpreendentemente atuais ‒ que lembram o Maquiavel d’O Príncipe, embora reduzido por Leão X a “funcionário ambíguo, humilde e calculista”:

O poder é o laço que une a cabeça do Vaticano ao corpo da Ecclesia. (...) Se um dia for subtraído ao Papa o poder de coroar reis e imperadores, sua autoridade será meramente decorativa. Sua voz será ouvida com respeito, repetida por reis, retransmitida por bispos e cardeais, sem ser obedecida.
A política é a arte de enganar com prestidigitações do possível a obtenção do incerto.
A cristandade precisa mais de poetas do que de padres.
O espiritual e o sensual convivem. Separá-los é querer desunir o corpo da alma. Condenar a vida à morte.
Se todos os cristãos fossem honestos e castos a Igreja de Roma seria pobre como os camponeses.
Ao governar, percebe-se que não necessariamente se tem o poder.
Nada que se diga diante de um copo de vinho, e, principalmente, depois dele, tem caráter sigiloso.
Não há que temer pelo futuro. A história é feita de fatos.
É preferível ter inimigos que acusam a amigos que silenciam.
Equívoco imperdoável é estar no lugar errado com pessoas erradas.
Os teólogos costumam envolver em complexas e belas frases o que não entendem.
Não se chega a segredos de Estado sem uma alcova e lençóis limpos.
Que pode haver de herético em alguma interpretação da Bíblia, ela mesma um amontoado de fatos contraditórios?

Os capítulos, elegantemente titulados em latim, são encimados por imagens reduzidas de quadros famosos, que em outra edição merecem, para que melhor apreciem os leitores, reproduções coloridas, em página inteira. É o cuidado devido ao romance com a excelência deste As pedras de Roma, cuja grandeza nos lembra o primoroso ensaio Amor a Roma, de Afonso Arinos de Melo Franco. Dois livros notáveis, belas homenagens à urbe amada por Goethe como a capital do mundo. Sobre as milenares pedras de Roma, Eugênio Giovenardi faz o Papa Leão X desfilar silencioso à frente do seu purpúreo préstito de cardeais, como símbolo de uma ilusória santidade e da triste pequenez a que todos somos reduzidos pela humana condição.