quinta-feira, 24 de novembro de 2016

POPULAÇÃO E ÁGUA

(Foto: Eugênio Giovenardi, Sítio das Neves, Barragem de captação e armazenamento)

(Informação enviada ao MPDFT) 
O Distrito Federal, como parte do berço das águas, nos últimos anos, apresenta permanente escassez hídrica pelas próprias condições geológicas e geográficas. A vegetação nativa, com experiência de milhões de anos, sabe controlar o uso da água para sua sobrevivência e reprodução. A fauna, em condições normais de seu habitat, também encontra água para se dessedentar. A espécie humana, em acampamentos urbanos ou rurais para produzir os alimentos do cotidiano, consome água para satisfazer a inúmeras necessidades, além da sobrevivência e da reprodução. O acesso à água vai da coleta direta na fonte ou no rio, sob a forma de aqueduto como o romano, aos encanamentos modernos que retiram o líquido de imensas represas.
Uma das informações fundamentais para estabelecer estratégias e táticas de administração do fornecimento e uso de água é o número de pessoas que buscam esse serviço público.
O uso da água nas cidades e na agricultura se destina a inúmeras atividades cada uma delas com suas características de necessidade, de importância, de urgência, de intensidade e de tempo. Uma das formas de controle do uso da água é o hidrômetro controlado por um órgão de administração pública, instalado em residências particulares, condomínios, edifícios comerciais, industriais e de prestação de serviços à população, além do uso da água para limpeza e regadio de áreas verdes. As águas retiradas de poços artesianos estão atualmente fora de controle por deficiência da fiscalização e aplicação de normas de outorga.

Para o controle e gestão do fornecimento da água há que se considerar: a) o potencial de vazão de uma região para atender a todas as formas de vida de um bioma e de seus ecossistemas; b) o regime normal e a irregularidade de chuvas; c) o impacto do crescimento da população humana, a urbanização, o aumento dos rebanhos (bovinos, ovinos, caprinos, muares, avícolas, caninos e felinos) que convivem no mesmo espaço, a ampliação das áreas de produção agrícola com o consequente desmatamento e uso de águas subterrâneas; d) o despejo de milhares de metros cúbicos, por hora,  aos córregos, rios e lagos, de água potável usada.
Uma simples aritmética da água fornece dados suficientes para o planejamento global do potencial hídrico, da administração do fornecimento e controle do uso individual e coletivo.
O consumo individual visível de água pela população do DF (2,9 milhões), atendo-se à média informada pela Caesb (180 l por pessoa), é de 522 mil metros cúbicos por dia. Qual  é o volume de vazão diário no DF?
O crescimento da população humana e o da população animal agregada, não é comparável ao da população vegetal. O aumento dos dois primeiros grupos é diário e, consequentemente, o consumo de água. A oferta natural de água não acompanha o aumento da demanda. 
Atendo-se apenas à população humana, verificam-se 125 nascimentos por dia no DF, agregando ao consumo um volume diário de 22 metros cúbicos e consequente despejo. Ao final do ano, a população do DF aumentou em 45 mil novos habitantes. Somam-se os vinte mil imigrantes que aportam ao DF, a cada ano, e tem-se 65 mil habitantes a mais, equivalente à população do bairro Núcleo Bandeirante. A pressão sobre a água é crescente e constante. Em dois anos, o DF terá 135 mil novos habitantes com o mesmo potencial hídrico.
Não bastasse essa pressão sobre os aquíferos limpos, nos damos ao luxo de despejar 22 mil metros cúbicos por hora ou 362 metros cúbicos por minuto, no Lago Paranoá e córregos do Distrito Federal.
O uso invisível da água é determinado pelo consumo de energia hidrelétrica. Cada pessoa consome, em média, 3KW por dia. Segundo especialistas em geração de energia hidrelétrica, para gerar um KW se necessitam 6.660 litros de água. O consumo de energia per capita eleva o consumo diário de água para 19.980 litros. Esse volume, multiplicado pela população do DF, demonstra por que as represas do país estão abaixo dos níveis projetados (DF: 2.900.000 x 19.980: BRASIL: 206 milhões x 19.980).
Qual a solução estratégica que se impõe diante da escassez de água?
Captação e detenção de águas pluviais. A mais eficiente forma de captação é o reflorestamento intenso que, além de favorecer a recarga dos aquíferos, evita assoreamento dos rios, melhora a umidade do ar e traz de volta pássaros, aves e animais nativos. Outros modos de captação devem ser instalados nos prédios urbanos e em galerias subterrâneas na cidade, a exemplo de Tóquio, com a mesma tecnologia com a qual se abrem estacionamentos subterrâneos ou túneis de metrô.
Por que a captação? A precipitação pluvial no DF alcança mais de 1.500mm no período chuvoso, o que significa 1.500 litros por metro quadrado, ou 87 milhões de metros cúbicos que escorrem para os rios.
A captação das águas pluviais é uma medida administrativa de planejamento imprescindível e urgente para enfrentar as dificuldades futuras de abastecimento hídrico à população do DF.

23.11.2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CASO TRIUNFO

(Foto: Eugênio Giovenardi)

Esta solicitação foi enviada ao MPDFT em razão de a Triunfo não ter respondido as mensagens que enviei à Ouvidoria da empresa.

Dra. LUCIANA MEDEIROS COSTA
Promotora de Justiça 

Desde 1974 acompanho a recuperação de uma área desertificada de Cerrado, de 70 hectares, na BR-060 km 26 (BSB/GOI), lado esquerdo. Ao longo de 42 anos, observo o retorno das águas das duas nascentes quase extintas, graças à captação e detenção de águas pluviais, mediante pequenas barragens construídas nos canais de esgotamento, conhecidos como grotas.
Com a duplicação da citada rodovia, o DNIT concedeu à empresa Triunfo o contrato de manutenção, limpeza e socorro.
A área que está sob minha responsabilidade limita com a rodovia numa extensão de 850 metros de frente. Nessa extensão, a área de domínio do DNIT é de 50 metros. Por alguma razão, caminhoneiros e condutores de automóveis usam descarregar o lixo orgânico e plásticos entre o km 26,5 ao Km 27.
Procurei o Ponto 01 da Triunfo que está localizado no km 23 da BR-060 e solicitei que a empresa tomasse alguma medida para recolher o lixo dessa área em razão da proteção de nascentes e por ser uma área de Proteção Ambiental Permanente.
Orientaram-me que solicitasse uma ordem de serviço à Ouvidoria da empresa, em Goiânia. Assim o fiz por várias vezes, via e-mail, explicando as razões e solicitando ao senhor Leonardo Moura esse serviço. O primeiro contato foi feito no dia 6 de agosto e o último, no dia 25 de setembro. Sequer tive resposta a meus e-mails. Tentei comunicar-me com um departamento do DNIT e fui informado que o assunto deveria se resolver com a Triunfo.
Saliento que a conformação geográfica da área favorece, com o advento das chuvas, o arrasto do lixo e da poluição para as nascentes que se localizam próximas à rodovia.
Quero salientar que não se trata de causa individual. Proteção de nascentes é de interesse público e água limpa é condição básica de saúde.
Diante do não atendimento da Triunfo, para proteger as nascentes, obriguei-me a contratar a roçagem da área, recolher parte do lixo orgânico e transportá-lo até a Agrovila Engenho das Lajes, a 4 km.
Nessa mesma rodovia, à margem esquerda, em frente a Samambaia, desde o km 1 ao Km 9, há, permanentemente, ao redor de 20 pontos de acúmulo de lixo variado: plásticos, papel, vidros, garrafas plásticas, entulho de construção, peças descartadas de oficinas e latas de óleo lubrificante, restos orgânicos.
Minha sugestão ao Ibram, por anos consecutivos, foi a de construir pequenos abrigos cobertos, ao longo da rodovia, em distâncias a serem determinadas, com orientação aos usuários para que depositem o lixo nesses locais.
Outras placas educativas informariam aos usuários sobre a proteção de nascentes ao longo da rodovia.
Creio que deveria ser obrigação da Triunfo, constante de contrato de concessão, o reflorestamento de rodovias para captação do dióxido de carbono emitido pelos milhares de carros que transitam semanalmente por essa rodovia.
Contato com a Triunfo:
Agradeço o apoio do MPDFT
Eugênio Giovenardi



terça-feira, 25 de outubro de 2016

UMA FAZENDA DIFERENTE



UM SISTEMA DIFERENTE
DE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
É POSSÍVEL.

Visitei, há dias, a Fazenda Recreio, parte sediada no Distrito Federal e parte no estado de Goiás. A área de 1.700 hectares integra um surpreendentemente belo e majestoso contorno geográfico do Planalto Central. A Fazenda Recreio abriga 70 mil árvores plantadas tecnicamente em fileiras na direção leste/oeste (eucalipto, mogno africano, acácia, entre outras), consorciadas com pastagens que se beneficiam da sombra e da água retida pelo sistema radicular. As nascentes de água estão protegidas por matas nativas conservadas e por plantio de árvores, formando um sistema hídrico inteligente, solidificado pelo Córrego Cachoeirinha que atravessa a Fazenda e pelo Rio São Bartolomeu a correr pela divisa.
Uma lagoa natural resiste aos meses de estiagem, dessedenta e alimenta um plantel de vacas prenhes e reúne centenas de garças brancas, tuiuiús, marrecos e um sem número de pássaros.
Um lago artificial de cinco hectares (50 mil metros2, aproximadamente, 20,0 bilhões de litros) abastece a fazenda por roda d’água, corta a monotonia das coxilhas, enche de graça o ambiente e atrai bichos, como as capivaras, que ali se multiplicam a seu bel-prazer.
A Fazenda Recreio hospeda 1.500 cabeças de gado que pastejam parcialmente sob as árvores que reflorestaram grande parte da área. Desperta a atenção do visitante um cuidadoso consórcio: árvores, água, pasto e sombra que determinam um diferente sistema de produção de alimentos, de respeito à vida nativa, que mantêm o sentido essencialmente ecológico da atividade produtiva.
A pergunta, ao analisar os modelos de produção agrícola e industrial, é: quando um sistema de produção é ecológico? A meu ver, a resposta está no equilíbrio entre a oferta e o uso de ingredientes naturais de um bioma, especialmente terra e água. O equilíbrio entre oferta e uso dos elementos necessários à atividade produtiva é o ponto crucial para garantir o ritmo natural da regeneração do bioma e da biota.
O critério ecológico, então, a ser usado para avaliar um sistema produtivo – ou ecologia da produção - é o equilíbrio entre a oferta e o uso dos elementos naturais de um bioma e não o lucro ou os benefícios auferidos da atividade econômica exploratória derivados da gestão eficiente ou competitiva dos agentes administrativos. A intenção, a atitude e as ações para o uso dos elementos com o fim de manter o equilíbrio e garantir a regeneração ecológica de um bioma diferem das técnicas de exploração degenerativa para obter benefícios econômicos, de curto ou longo termo, compartilhados ou distribuídos a uma população. Os fins não justificam os meios.
Alguns dados serão de utilidade para discutir o sistema de equilíbrio ecológico da Fazenda Recreio, podendo-se aplicar a outras atividades agrícolas.
Plantio sistemático de árvores. Além da vegetação nativa ao longo dos cursos de água e capões dispersos na área, houve um acréscimo, até o presente, de 70.000 árvores de diferentes espécies: ipês, mogno, pau-ferro, acácias, eucaliptos, entre outras.
Retenção de água e evaporação. A população arbórea de 70 mil unidades, agregada ao espaço, cumpre importantes funções durante 24 horas por dia, além da captação de águas da chuva durante o período chamado invernal. Uma árvore do porte das que existem na Fazenda Recreio mantém um volume mínimo diário permanente de água e saudável evaporação de 100 litros, equivalendo a 7 (sete) milhões de litros de água/dia, correspondendo a 27,55 bilhões de litros no ano.
Captação de águas da chuva. Calcula-se que uma área vegetada em toda sua extensão capta e detém até 25% das águas da chuva. A precipitação média, conforme dados da leitura do pluviômetro da Fazenda Recreio, é de 1.200mm ou 1.200 litros de água por m2. O volume de água anual recebido por essa área é de 20,4 bilhões de litros (1.200 X 17.000.000m2), correspondendo a uma média diária de 55,0 milhões de litros ou 3,23 litros por m2. Um quarto do volume total da precipitação, 5,1 bilhões de litros, é retido pelas árvores durante o período chuvoso e pela vegetação de gramíneas que se estende sobre toda a área. As gramíneas formam um colchão espeço e, consorciadas com as plantas, contribuem fortemente para a recarga dos aquíferos. Não menos importantes são os capões e as amplas matas ciliares nativas que, além de captar boa parte da água pluvial, protegem as nascentes, os córregos e o Rio São Bartolomeu.
Boi e água. Cálculos elaborados por especialistas, publicados em revistas e livros, indicam que um quilo de carcaça bovina consome 15.000 litros de água ao longo de seu período de engorde que, nos melhores casos, é de quatro anos. Se esses dados, aceitos pela literatura especializada, podem ser utilizados, um bovino que atinge 400 kg ao longo de quatro (04) anos, terá consumido o equivalente a seis milhões de litros de água, com média anual de 1,5 milhão de litros. O rebanho de 1.500 bois, ao longo dos quatro anos, terá consumido 9,0 bilhões de litros, com média anual de 2,25 bilhões de litros, ou 6,5 milhões de litros dia.
Ao se comparar o volume do líquido retido pelo amplo, e eficiente sistema de captação e detenção de água composto pelo consórcio árvores, gramíneas e mananciais, com o consumo direto e indireto da população bovina manejada com rotação de pastagens, a Fazenda Recreio possui um permanente crédito de água para consumo de todos os hóspedes nativos, vegetais e animais e da população humana encarregada da gestão administrativa. A área, manejada com esse sistema, contribui para a manutenção dos fluxos de água com os excedentes que se infiltram no solo.
Em resumo, não computada a reserva do lago de 50 mil m2, há uma oferta de água diária constituída pelo consórcio árvores, gramíneas, retenção de águas pluviais num volume diário de 62,0 milhões de litros e uma demanda diária da população bovina de 6,5 milhões de litros.
Este ensaio não pretende justificar nem defender o produto boi. Buscou-se estabelecer um critério de equilíbrio ecológico na produção de qualquer alimento baseado no uso racional da água, na capacidade de regeneração do bioma do qual se retiram provisoriamente os elementos necessários à formação ou construção de um produto. O critério deve se aplicar à produção de cana-de-açúcar, à soja, ao milho, ao arroz e aos processos industriais que afetam o bioma na extração de minerais, no processamento e no uso final do produto.
17.9.2016


terça-feira, 18 de outubro de 2016

SUPERPOVOAMENTO E SUPERPOPULAÇÃO

(Publicado no Correi Braziliense em 17.10.2016)

O avanço da superpopulação mundial vem sendo alertado pelo Clube de Roma desde 1972. Biólogos da Finlândia, na década de 1960, sinalizavam que a natureza nórdica já sofria de exaustão diante da exploração intensa de seus bens. As consequências do crescimento da população mundial tornaram-se mais agudas, especialmente para países pobres ou emergentes. Hoje, a pobreza, a fome, a falta de água, o desemprego e as guerras entre países provocam uma nova diáspora. Multidões estão fugindo de seus países e morrendo pelo caminho. O planeta sofre de superpopulação. Mas a superpopulação começa ao nosso lado. Seus efeitos são sentidos em nossas cidades, em nossas ruas, em nossas casas, em nossas florestas e rios, em nossas lavouras.
Quais são as indicações mais visíveis que apontam para a realidade da superpopulação tanto em países ricos quanto em nações pobres? A fome castiga quase um bilhão de pessoas em todos os países do mundo. A dificuldade de acesso diário à água potável sacrifica quase dois bilhões de humanos e milhões de outros seres vivos. O desemprego generalizado atinge países pobres e ricos. Os mortos e os exilados de guerras econômicas e religiosas e os expulsos de suas terras pelas mudanças climáticas compõem um retrato lúgubre da espécie humana.
Mais perto de nós, em quase todas as regiões do país, há sinais incontestes de superpovoamento urbano e indícios claros de superpopulação. Filas diárias às portas de hospitais. Prisões superlotadas. A busca angustiante da casa própria. A falta de creches para liberar as mães trabalhadoras de duas ou três jornadas de trabalho. O inchaço das cidades com sacrifício de áreas verdes. Milhares de famílias em situação de risco ambiental. Ruas entulhadas de carros. Esses acontecimentos do dia a dia parecem não dar ao cidadão perspectiva alguma de mudança.
Tenho comentado com alguns demógrafos sobre o tema da superpopulação. A primeira reação é dar uma resposta estatística. As taxas de crescimento, no Brasil, vêm caindo, reafirmam. Já tivemos, nas décadas de 1950 e 1960, taxas de crescimento de até 5%. Hoje, a taxa média de fecundidade, em nosso país, é de 1,94%. Isto quer dizer que uma mulher, em média, tem 1,94 filho. Não tem um jeito ridículo essa linguagem estatística que amputa parte do filho para dar a ilusão de um decréscimo do ritmo de reprodução? Em que lugar do mundo uma mulher tem um filho e um pedaço de outro?
Por que não falar da realidade da reprodução humana e localizar essa realidade no tempo e no espaço? Seria mais fácil discutir esse tema tabu conhecendo-se as circunstâncias, a cultura, a forma de relacionamento de um povo com a natureza diante da oferta de maiores ou menores condições de sobrevivência. Em que lugar, mulheres têm dois filhos ou nenhum? Em que lugar, mulheres têm quatro filhos? Em que lugares e em que circunstâncias, mulheres têm cinco ou mais filhos?
A média estatística enfraquece a realidade e limita a condução racional de uma política democrática e consciente de controle da natalidade humana, não só em benefício da espécie humana, como também em favor de todas as espécies vivas do planeta tanto vegetais quanto animais que constituem a biodiversidade do planeta. Nenhuma monocultura é desejável para o convívio harmonioso dos seres vivos.
O crescimento descontrolado da espécie humana com múltiplas e variadas necessidades, impõe medidas de sobrevivência para si em detrimento da sobrevivência das demais espécies vivas do planeta das quais depende. Os prenúncios, apesar dos contraceptivos, da urbanização e da tecnologia são de aumento da população para as próximas décadas, sem que se propicie, ao mesmo tempo, o acesso aos bens essenciais a quase metade dela.
Superpopulação não é apenas um fato numérico. É a relação entre o número de pessoas vivas, o complexo conjunto de suas necessidades básicas ou estimuladas e a capacidade das próprias instituições humanas de administrar grandes populações. Essa incapacidade de administrar se agrava com o aumento da população. Parte significativa dela não é igualitariamente atendida. O que se percebe é um atendimento seletivo, parcial e discriminatório mesmo com leis adequadas e vastos programas sociais.
O crescimento da população, no dia a dia, é quase imperceptível. No Distrito Federal, registram-se 125 nascimentos por dia, que somam, ao final do ano, 45 mil novos habitantes, número equivalente à população do Núcleo Bandeirante. Ou seja, nasce uma cidade satélite por ano, no DF, com necessidade de mais água, energia, alimentos, espaço físico, postos de vacinação, serviços médicos, fraldas, berços, roupas, sapatos.

Nesse ritmo, o DF, em dois anos, terá 200 mil habitantes a mais, sem contar os 20 mil imigrantes anuais, segundo a Codeplan. O avanço indiscriminado sobre as últimas áreas verdes e a urbanização descontrolada agravam as dificuldades administrativas e entorpecem a ação governamental. As habilidades institucionais para atender a todas as necessidades da população não crescem no mesmo passo do aumento da população. O limite da capacidade de suporte do DF já foi ultrapassado. Há que se rever a situação presente e prever o que nos espera nos próximos anos. O racionamento de água, neste ano, é um aviso claro de superpovoamento.  

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A ÁGUA SUMIU NO DF



Há dez anos, quando escrevi O RETORNO DAS ÁGUAS – edição bilíngue – previ e alertei para o risco de escassez. Pouco ou nada se fez para proteger as águas acima que vem das nascentes. O desmatamento do Cerrado, a urbanização intensa e descontrolada, o aquecimento da cidade pela impermeabilização e mais de um milhão e quatrocentos mil carros e as queimadas continuam com mais de mil focos neste ano. Esses desatinos podem não ser causa exclusiva do calor e da escassez de água, mas contribuem drasticamente para piorar as condições climáticas. Na biocomunidade do Sítio das Neves (DF), as nascentes estão vivas, respeitadas, cercadas de intensa vegetação.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

IMPERIALISMO E NATUREZA



É histórico o que os ingleses fizeram na Índia, ou os portugueses e o espanhóis nas Américas, ou os franceses no norte da África. Podia-se encher uma enciclopédia de horrores ou uma enciclopédia de benefícios para colonizadores e colonizados.
O imperialismo político, econômico e tecnológico depôs governos locais. Impôs seu idioma. Abriu estradas. Perfurou minas. Apossou-se de riquezas. Quantos milhões morreram de fome em Bengala, no Brasil, em Biafra com ações de nossos antepassados?
Quando ocupamos uma área da natureza, como o bioma Cerrado, poucos lembram que esse ato imperialista deve ter seu lado cientista para conhecer os habitantes tão especiais que vivem nele há milhares de anos e, assim, conviver com eles.
Por isso, levo biólogos, geólogos, geógrafos à biocomunidade do Sítio das Neves para compreender, conhecer e conviver com o complexo sistema de árvores, água e milhões de vidas. O Sítio das Neves conta, hoje, com mapas de satélite, classificação de árvores e identificação de bichos e aves, localização de nascentes, pluviômetros para medição de águas da chuva.
Antes de qualquer ação humana no Cerrado é preciso conhecê-lo. A ocupação atual do Cerrado usa outro método. O modelo imperialista cego. Como não se pode acabar com tudo o que há nele: plantas, animais, nascentes de água, muda-se a cultura natural por uma cultura humana experimental. Quantos milhões de árvores e de animais morreram com nossa chegada ao Cerrado? Quantos milhares de nascentes de água e rios secaram? Há sempre justificativas ideológicas para explicar a conduta do homo sapiens: soja e bois para vender.
O fato grave é que, com a desarrazoada ocupação do bioma Cerrado nossa capacidade de administrar os erros cometidos e em processo custa cada dia mais caro e torna-se mais difícil.
O caos se avoluma na medida de nossa ignorância contumaz.

27.8.2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

ÁGUAS DO LAGO PARANOÁ



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MARCOS GARZON, escritor e ambientalista, em seu livro, 2004, Tarde demais?, escreveu: “Na região do Distrito Federal, desde a inauguração da cidade de Brasília, mais de 60 nascentes foram destruídas”.Agonizam os córregos Vicente Pires, Cabeceira do Valo (Veado) e Cana do Reino. Estudos demonstram que mais de 300 córregos e riachos desapareceram. 

Nenhuma menção se faz ao superpovoamento do DF. Durante o período de estiagem não se faz menção à racionalidade do uso da água. Gasta-se até mais do que em outros meses. A oferta de água proveniente das nascentes não se altera e é insuficiente para satisfazer as múltiplas e diversificadas necessidades da população. 

O acréscimo de 105 bebês por dia, no DF, o que resulta em 38.000 novos habitantes, por ano, e os 20.000 imigrantes que a eles se somam parece não perturbarem os administradores públicos. Essa população acrescida gera um consumo adicional de 23,4 milhões de litros de água por ano. Se somássemos o volume de água necessário a gerar a energia anual consumida pela nova população que se agrega (2 KW por pessoa/dia), o que estranhamente nunca é mencionado, os números chegam a 280 bilhões de litros (para gerar um KW são necessários 6.600 litros de água). Esse é apenas o acréscimo de consumo anual de água. Não há aumento de um metro cúbico a mais no DF para oferecer a uma população que cresce explosivamente. Não se pode planejar chuvas nem a longevidade dos aquíferos. Pode-se, se os donos do poder acordarem, planejar o crescimento da população.

Se, em 2004, era tarde demais para pensar no futuro das águas no DF, hoje, está definitivamente encerrado o jogo. O Lago Paranoá nos dará água suja e cara. Investimentos que faltarão à saúde e à educação serão enterrados em tubulação, bombas, energia e órgãos de administração.
Vale lembrar um trecho do relatório do botânico e engenheiro Auguste Claziou, membro da Missão Cruls, entre 1882 e 1884, referente ao vale que depois se tornou Lago Paranoá: “...Cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros. Impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale.” Teria lembrado da majestade dos vales do Departamento de Auvergne, na França?
Essa imagem sumiu, como sumiram as Sete Quedas do Rio Paraná. Os cadáveres insepultos desses rios mencionados por Glaziou foram fisicamente soterrados pela invasão displicente de novos bandeirantes. Vive-se de contradições muito ao gosto do imediato, do útil, do fica melhor assim. Transforma-se a beleza e a grandeza da paisagem natural em estética fictícia que exige incansável esforço para defendê-la diante das dificuldades permanentemente apontadas.

Por que temos medo de falar sobre crescimento da população e não temos vergonha de gritar pela medalha do crescimento econômico?