terça-feira, 20 de setembro de 2016

A ÁGUA SUMIU NO DF



Há dez anos, quando escrevi O RETORNO DAS ÁGUAS – edição bilíngue – previ e alertei para o risco de escassez. Pouco ou nada se fez para proteger as águas acima que vem das nascentes. O desmatamento do Cerrado, a urbanização intensa e descontrolada, o aquecimento da cidade pela impermeabilização e mais de um milhão e quatrocentos mil carros e as queimadas continuam com mais de mil focos neste ano. Esses desatinos podem não ser causa exclusiva do calor e da escassez de água, mas contribuem drasticamente para piorar as condições climáticas. Na biocomunidade do Sítio das Neves (DF), as nascentes estão vivas, respeitadas, cercadas de intensa vegetação.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

IMPERIALISMO E NATUREZA



É histórico o que os ingleses fizeram na Índia, ou os portugueses e o espanhóis nas Américas, ou os franceses no norte da África. Podia-se encher uma enciclopédia de horrores ou uma enciclopédia de benefícios para colonizadores e colonizados.
O imperialismo político, econômico e tecnológico depôs governos locais. Impôs seu idioma. Abriu estradas. Perfurou minas. Apossou-se de riquezas. Quantos milhões morreram de fome em Bengala, no Brasil, em Biafra com ações de nossos antepassados?
Quando ocupamos uma área da natureza, como o bioma Cerrado, poucos lembram que esse ato imperialista deve ter seu lado cientista para conhecer os habitantes tão especiais que vivem nele há milhares de anos e, assim, conviver com eles.
Por isso, levo biólogos, geólogos, geógrafos à biocomunidade do Sítio das Neves para compreender, conhecer e conviver com o complexo sistema de árvores, água e milhões de vidas. O Sítio das Neves conta, hoje, com mapas de satélite, classificação de árvores e identificação de bichos e aves, localização de nascentes, pluviômetros para medição de águas da chuva.
Antes de qualquer ação humana no Cerrado é preciso conhecê-lo. A ocupação atual do Cerrado usa outro método. O modelo imperialista cego. Como não se pode acabar com tudo o que há nele: plantas, animais, nascentes de água, muda-se a cultura natural por uma cultura humana experimental. Quantos milhões de árvores e de animais morreram com nossa chegada ao Cerrado? Quantos milhares de nascentes de água e rios secaram? Há sempre justificativas ideológicas para explicar a conduta do homo sapiens: soja e bois para vender.
O fato grave é que, com a desarrazoada ocupação do bioma Cerrado nossa capacidade de administrar os erros cometidos e em processo custa cada dia mais caro e torna-se mais difícil.
O caos se avoluma na medida de nossa ignorância contumaz.

27.8.2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

ÁGUAS DO LAGO PARANOÁ



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MARCOS GARZON, escritor e ambientalista, em seu livro, 2004, Tarde demais?, escreveu: “Na região do Distrito Federal, desde a inauguração da cidade de Brasília, mais de 60 nascentes foram destruídas”.Agonizam os córregos Vicente Pires, Cabeceira do Valo (Veado) e Cana do Reino. Estudos demonstram que mais de 300 córregos e riachos desapareceram. 

Nenhuma menção se faz ao superpovoamento do DF. Durante o período de estiagem não se faz menção à racionalidade do uso da água. Gasta-se até mais do que em outros meses. A oferta de água proveniente das nascentes não se altera e é insuficiente para satisfazer as múltiplas e diversificadas necessidades da população. 

O acréscimo de 105 bebês por dia, no DF, o que resulta em 38.000 novos habitantes, por ano, e os 20.000 imigrantes que a eles se somam parece não perturbarem os administradores públicos. Essa população acrescida gera um consumo adicional de 23,4 milhões de litros de água por ano. Se somássemos o volume de água necessário a gerar a energia anual consumida pela nova população que se agrega (2 KW por pessoa/dia), o que estranhamente nunca é mencionado, os números chegam a 280 bilhões de litros (para gerar um KW são necessários 6.600 litros de água). Esse é apenas o acréscimo de consumo anual de água. Não há aumento de um metro cúbico a mais no DF para oferecer a uma população que cresce explosivamente. Não se pode planejar chuvas nem a longevidade dos aquíferos. Pode-se, se os donos do poder acordarem, planejar o crescimento da população.

Se, em 2004, era tarde demais para pensar no futuro das águas no DF, hoje, está definitivamente encerrado o jogo. O Lago Paranoá nos dará água suja e cara. Investimentos que faltarão à saúde e à educação serão enterrados em tubulação, bombas, energia e órgãos de administração.
Vale lembrar um trecho do relatório do botânico e engenheiro Auguste Claziou, membro da Missão Cruls, entre 1882 e 1884, referente ao vale que depois se tornou Lago Paranoá: “...Cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros. Impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale.” Teria lembrado da majestade dos vales do Departamento de Auvergne, na França?
Essa imagem sumiu, como sumiram as Sete Quedas do Rio Paraná. Os cadáveres insepultos desses rios mencionados por Glaziou foram fisicamente soterrados pela invasão displicente de novos bandeirantes. Vive-se de contradições muito ao gosto do imediato, do útil, do fica melhor assim. Transforma-se a beleza e a grandeza da paisagem natural em estética fictícia que exige incansável esforço para defendê-la diante das dificuldades permanentemente apontadas.

Por que temos medo de falar sobre crescimento da população e não temos vergonha de gritar pela medalha do crescimento econômico?

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

CONCESSÕES E TERCEIRIZAÇÕES


Conceder a empresas privadas a administração de bens públicos é entregar a elas dinheiro de impostos e parte do poder de decisão. Nem sempre o poder de decisão é conduzido a atender a globalidade da população a ser beneficiada por serviços terceirizados. As empresas privadas terão as mesmíssimas dificuldades operacionais enfrentadas pelo governo: mão de obra, gestão, planejamento, execução. Como as concessões são pontuais e, nesses pontos se concentram as obras, a gestão e o trabalho, os resultados são normalmente mal avaliados.
No caso da concessão à Triunfo, no trecho Brasília/Goiânia da BR-060, observam-se melhoras em alguns pontos! Recorri à Triunfo (Ouvidoria 0 800), solicitando serviços de limpeza e saneamento da Área de Domínio do Dnit, em frente a meu Sítio das Neves, Km 26, por ser Área de Preservação Permanente – APP. Fi-lo por dois motivos: risco constante de incêndios e concentração de lixo depositado por cidadãos brasilienses. Meus três pedidos telefônicos foram reforçados por mensagem eletrônica. NÃO OBTIVE RESPOSTA!
Com o apoio de especialistas em preservação do Cerrado, iniciamos um projeto de limpeza, saneamento e arborização de 850 metros em frente ao Sítio. Será uma obra demonstrativa, de iniciativa privada, sem recursos do tesouro, para um vasto e desejável programa de arborização e ajardinamento de rodovias com o intuito de evitar inundações de cidades águas abaixo. Agricultores de SC e PR já fazem isso com araucárias que produzem o pinhão.
(Publicado do blog O OBSERVADOR)

terça-feira, 19 de julho de 2016

ÁGUAS ABAIXO



A estiagem, no DF, se estende por 60 dias. Umidade do ar em nível prejudicial à saúde, menos de 20%, em horas do dia. Dizem pesquisadores do comportamento das águas subterrâneas que o nível das reservas baixou três metros. Alguns poços artesianos e muitas nascentes secaram nestes dois meses. Por quê? Aqui está a resposta dada pelos pluviômetros da Agência Nacional de Águas instalados na biocomunidade do Sítio das Neves, DF:
2015 – abril: 299,4 mm – maio: 48 mm – junho: 0.0 mm
2016 – abril: 8.0 mm – maio: 38.0 mm – junho: 0.0 mm (Um milímetro corresponde a um litro por metro quadrado). A oferta de água diminui e o consumo aumenta. As bacias do São Francisco, do Tocantins e do Paranaíba são alimentadas pelos aquíferos do DF. Como se preparam os órgãos de proteção das águas e a população urbana e rural para captar as próximas águas da chuva? Com queimadas! Já vão para 700 os crimes de fogo neste ano. A barragem mais importante para captar águas da chuva e evitar inundações de mais de 300 cidades águas abaixo são as árvores. O golpe inteligente é preservar as árvores e a vegetação auxiliar capazes de captar trilhões de litros de águas da chuva para recarregar os aquíferos subterrâneos!

19.7.2016

quarta-feira, 6 de julho de 2016

ARITMÉTICA DA ÁGUA

Na exposição do pesquisador da Embrapa Jorge Werneck que ouvi, ontem, no auditório da Segeth, ficou claríssimo que sabemos tudo sobre água. Onde está, por onde corre, sua profundidade, a quantidade de dejetos que arrasta aos córregos, o volume de cada mês chuvoso. Mas quase nada sabemos sobre as chuvas, além de que são a única fonte de abastecimento de nossos rios. Se vai chover muito ou pouco ou se vai chover onde precisa e no momento que se precisa, saberemos só depois da seca ou da inundação. Por isso se constroem grandes represas, mas na incerteza de que se encherão na hora certa.
 Estamos diante de um dilema: a incerteza de ter água disponível e a certeza de que consumimos muita água. O crescimento do número de consumidores é anunciado. Resta a dúvida de ter chuvas na medida adequada.
O DF é conhecido como berço das águas. Alimenta o Tocantins, o São Francisco e o Paranaíba que vai ao Sul. No DF, anualmente, 60 mil novos consumidores de água somam-se aos 3 milhões existentes. Quem, na esfera administrativa, composta de dezenas de órgãos de decisão, está preparado para administrar uma nova Vicente Pires por ano? Eis a razão do caos administrativo do DF.
Qual é o volume médio de água de um habitante do DF? 190 litros por dia (Caesb). Parte dela vai ao esgoto com dejetos corporais. Qual é o volume médio de água necessário para gerar a energia elétrica de 3 KW diários de cada cidadão brasiliense? 19.800 litros por pessoa (para gerar um KW são necessários 6.600 litros). Águas que saem de represas longe de Brasília, mas nascem aqui. Feitas as somas, chova ou faça sol, os 3 milhões de brasilienses consomem, por dia, 59.4 bilhões de litros de água.
Sabemos tudo sobre água. Só não sabemos administrá-la. Estamos matando a água no berço. Poupe água. Apague a luz!

6.7.2016

terça-feira, 5 de julho de 2016

DISCUSSÕES SOBRE ÁGUA



Tenho participado de debates e propostas sobre o consumo de água no DF promovidos por organismos públicos – Adasa, ANA, Sema, Ibram, Segeth, Caesb, MMA, Ibama. Iniciativas necessárias em vista da escassez de água no DF e do aumento da população urbana e rural num montante de 65.000 novos habitantes por ano. É como se uma Vicente Pires surgisse a cada ano. Caos administrativo.
O número de poços artesianos cresceu desmesuradamente. A perfuração desses poços não tem controle adequado. A Adasa contabiliza mais de 30 mil poços, dois terços deles sem autorização de funcionamento. Poço artesiano esgota nascentes.
O período de estiagem no DF, que vai de maio a outubro, é o tempo adequado para que a população e os órgãos públicos se preparem para não só receber, como e especialmente para captar e reter as águas da chuva no campo e na cidade. Como todos sabem, os países tropicais não contam com geleiras nem com neves. Nossa única fonte de recarga das nascentes, dos rios e aquíferos subterrâneos é a chuva. Estranhamente, a captação das águas da chuva não entra nessas discussões, nem há propostas concretas para que isto aconteça.
As árvores são a primeira barragem de captação e detenção das águas da chuva. A maioria das cidades satélites está nua de árvores e coberta de asfalto. Duas condições eficazes para impedir a captação de água, levar lixo e sedimentos aos córregos e, por falta de escoamento tubular, invadir casas e causar mortes. A captação de água em edifícios e em poços subterrâneos nas cidades, a exemplo do Japão, deveria ser prioridade para os administradores, engenheiros, arquitetos e urbanistas.
A captação de águas pluviais no meio rural é um tema desconhecido. Há, relativamente à água, duas formas de agricultura: as grandes plantações que consomem muita água subterrânea e a pequena produção que não pratica os mais rudimentares artifícios para captar suficiente volume de água para suas necessidades.
Neste período de estiagem de seis meses, enquanto muitas espécies vegetais se despem de folhas e economizam água, a espécie humana urbana e rural – homo sapiens – consome irracionalmente.

(amanhã, Aritmética da água)