segunda-feira, 24 de abril de 2017

O RISCO DA TECNOLOGIA


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(Zero casualidades. É para valer)


As ameaças à vida humana e, por consequência, a grande parte da biodiversidade vegetal e animal, vêm da criatividade tecnológica da espécie homo, há milhares de anos, e de seu uso. Da invenção da roda ao chip, os problemas que essas inovações nos armam nem sempre têm soluções adequadas à felicidade humana.
Os adoradores da tecnologia creem que essa divindade resolverá indefinidamente todos os problemas que a espécie humana cria ao longo do tempo. Ouve-se que não faltara comida nem água para os 11 bilhões de pessoas que estarão vivas em 2100. Mais de cinquenta cidades e o DF têm o fornecimento de água racionada em 2017. Os dados da fome, conhecidos hoje, nada asseguram sobre a futura abundância.
Estamos perdendo o controle no uso da tecnologia. A começar pelo aumento da população humana. Máquinas de todo tipo para todas as necessidades e desejos criados pela propaganda engenhosa estimulam a reprodução. A tecnologia supõe educação e evolução na escolha de comportamentos para a convivência humana.
Sexo não é sinônimo de maternidade ou paternidade. É um mecanismo de reprodução, mas a procriação dos seres vivos está relacionada a alimentos existentes ou em potencial na natureza. E esses bens serão sempre limitados. Portanto, não é a tecnologia que resolverá o uso de bens limitados se o número de consumidores não for contido.
Quem e quantos são os consumidores? Bilhões de árvores, bilhões de animais de terra e água, bilhões de insetos e pássaros e 7, 4 bilhões de humanos a caminho dos 11 bilhões.
Já não temos controle sobre os aparelhos que a tecnologia projetou. Nem os pais controlam seu celular nem o dos filhos. Quem projetou as redes de comunicação não tem controle sobre elas. Quem decide quando e como os aparelhos eletrônicos devem funcionar responde pelo nome de doutor sistema. Sai e volta quando quer.
Quem projetou bombas, metralhadoras e tanques não controla seu instinto assassino e o número de mortos se conta aos milhares por dia. O descontrole irreprimível no uso da tecnologia levará a espécie humana à extinção. Provavelmente o córtex cerebral não tenha tempo suficiente para abrigar os novos passos da evolução.
A tecnologia não tem solução para deter os fenômenos naturais com bilhões de anos de experiência e constância. Raios, tornados, tempestades, ventanias, secas desafiam nossa criatividade tecnológica. Não é com mais gente que enfrentaremos os fenômenos da natureza. Nem será com mais alguns bilhões de seres humanos que aumentaremos os bens limitados do planeta.

Ou tomamos consciência de que nossa grandeza de seres vivos consiste em nos adaptar à realidade de bens limitados à sobrevivência ou desapareceremos sem causar prejuízos ao planeta e ao universo.

terça-feira, 11 de abril de 2017

DA ESCASSEZ HÍDRICA À TRANSIÇÃO HÍDRICA

DA ESCASSEZ HÍDRICA À TRANSIÇÃO HÍDRICA

Na organização da natureza, a água está disponível para todos os seres vivos. Alguns deles, como as árvores, são protetores dos cursos de água. Com exceção da espécie humana, todos os seres vivos convivem harmoniosamente com a água. Ao se tratar do uso da água pela espécie humana, deve-se considerar a demanda crescente e diversificada. Não existe no conjunto de riquezas naturais uma oferta específica de água para a espécie humana.
A intervenção humana no cenário natural, relacionada à reprodução e à sobrevivência, ocasiona distúrbios que podem ser danosos a todos os seres vivos que formam a biocomunidade de um bioma.
Na administração da captação e retenção das águas disponíveis para uso humano há que se considerar duas questões: quanta água há e quantos são os que precisam de água, incluindo todos os seres vivos de um bioma.

1   Situação atual

As circunstâncias físicas específicas do Distrito Federal, por ser o berço das águas, requerem uma sábia e gradual mudança de paradigma da ação humana sobre a natureza.
A atual situação hídrica resulta do aumento da população e de sua demanda diversificada. Agrava-se com a irregularidade e diminuição das chuvas e com o efeito de mudanças climáticas. O conjunto desses fatores reduzem a capacidade de suporte geográfico do DF e conduzem ao empobrecimento da biodiversidade.
A inexistência ou o inadequado acompanhamento do balanço hídrico, o ineficiente gerenciamento de bacias hidrográficas, a consequente devastação de matas ciliares, a extinção de nascentes e pequenos cursos d’água obrigaram os gestores a decidirem pelo racionamento generalizado no fornecimento de água.
Outros aspectos importantes que provocaram a escassez hídrica se referem ao descontrole do uso de águas subterrâneas por meio de poços artesianos, a ações técnicas e políticas pouco significativas de captação de águas pluviais e ao não reuso de águas servidas.
Essas dificuldades são acrescidas pela pouca integração com as comunidades vizinhas que formam a Área Metropolitana, pelas perdas significativas (mais de 30%) de água tratada e pela especulação imobiliária desenfreada. Esses fatores provocam demandas fora de controle.
Agregue-se que a paralização das obras de Corumbá IV afetou igualmente o fornecimento de água à população do DF. Está, no momento, em curso o processo de licitação para fornecimento de água para 180 mil brasilienses retirada do Lago Paranoá.

     Situação desejável

O consumo responsável e racional da água, fruto da educação ambiental e da aplicação rigorosa da legislação, propiciará um volume diário democrático e igualitário à população conforme indicação de órgãos de saúde pública nacionais e internacionais.
A irregularidade e a escassez de chuvas, segundo informações específicas, podem continuar por longo tempo. Esse alerta deve ser intensamente comunicado à população para despertar atitude consciente de escassez e gerar novos comportamentos. É prudente assumir que as mudanças climáticas afetam fortemente o Planeta e, particularmente, o Cerrado brasileiro, o que implica em mudança de costumes no uso da água.
É imprescindível realizar o balanço hídrico do DF e Área Metropolitana tanto no uso pessoal quanto na produção agrícola e industrial cujos resultados devem ser apresentados, com transparência, à população.
Entre ações importantes e urgentes propõe-se:
- investir fortemente no gerenciamento das bacias;
- criar programa específico de repovoamento das matas ciliares com espécies nativas;
- estabelecer um Comitê de Monitoramento das nascentes e pequenos cursos d’água;
- estimular e promover forte integração da população do DF com municípios vizinhos para avaliar o potencial hídrico dos cursos d’água;
- fomentar ações de reuso da água e utilização da água da chuva;
- reduzir as perdas de água tratada a níveis não superiores a 10% e ao mesmo tempo, intensificar sistemas de controle de perdas de rede.
A ocupação irregular e a especulação imobiliária devem ser combatidas com rigor e sem tréguas.
Orientar a população sobre a outorga no uso das águas subterrâneas e fiscalizar sistematicamente o volume utilizado através de relógios medidores.
O reinicio das obras de Corumbá IV deve ser imediato, ainda que o fornecimento de água à população sofra acréscimos na conta mensal.

      Transição Hídrica

A transição hídrica tem o sentido de alteração de atitude, substituição de hábitos, mudança de conceitos, passagem de um modo de comportar-se para outro. Trata-se de mudança de paradigma que implica em olhar de maneira diferente a natureza.
Entre as ações que incentivam a mudança de paradigma, sugere-se:
- Mapear e divulgar amplamente todos os nascimentos de corpos d’água da região do Distrito Federal e adjacências;
- Programar investimentos adequados a montante (águas acima) para proteção dos mananciais, mantendo uma linha intransponível de vegetação nativa;
- Ampliar o sistema de captação de águas da chuva nos prédios urbanos e rurais que favoreçam, por um lado, a recarga dos aquíferos e, por outra parte, reduzam a pressão sobre os reservatórios;
- Desenvolver tecnologias adequadas para reuso da água de acordo com a modalidade de seu uso;
- Informar a população sobre o consumo de água embutido na geração de energia elétrica. Incentivar alternativas de geração de energia elétrica. Poupar energia hidrelétrica é poupar água;
- Fortalecer a educação ambiental, com ênfase no correto uso da água;
- Avaliar o Zoneamento Econômico Ecológico no que tange ao uso da água nas diversas atividades humanas;
- Considerar os habitantes de municípios vizinhos afetados pela mesma situação da Capital, pois pertencem ao mesmo ecossistema;
- Buscar intensa Cooperação com os Estados de Goiás e Minas Gerais no que tange aos recursos hídricos;
- Criar Comitês de Risco para as diversas atividades econômicas
- Elaborar planejamento de curto, médio e longo prazos para implementação de medidas de caráter PERMANENTE;
- Cumprir a legislação que decreta a ÁGUA um bem natural, de uso comum do povo, não sendo propriedade nem de órgãos públicos, nem de corporações ou pessoas físicas. Aos órgãos públicos compete o GERENCIAMENTO da água e não sua propriedade;
- Criar o Fundo de Gerenciamento e Controle do Uso da Água, com a responsabilidade de propor ações especiais e apoiar iniciativas educacionais, científicas ou outras pertinentes ao uso e conservação dos corpos d’água. O Fundo será gerido pela sociedade civil, com participação de especialistas, empresas públicas, privadas e universidades;
- Assumir institucionalmente o estado de Transição Hídrica, estimulando ações continuadas e perenes;
- Estabelecer COM URGÊNCIA metas consistentes para os próximos meses; para os anos 2018, 2019, 2020
- Estabelecer COM URGÊNCIA Plano de Comunicação Permanente Sobre a Crise Hídrica;
- Criar PORTAL DE TRANSPARÊNCIA com a disponibilização de TODOS os dados, estatísticas, consumos, disponibilidade hídrica e demais informações necessárias à participação e fiscalização da população.

      METAS E OBJETIVOS

A caracterização do estado de Transição Hídrica permitirá a todos, permanentemente, travar contato com a realidade da escassez de água e da necessidade de cada um fazer sua parte de forma consciente.
Tratando-se de uma situação muito grave, todos são responsáveis: órgãos públicos e privados, pessoas físicas e jurídicas, centros de ensino e pesquisa, além de outros agentes que podem agir de forma positiva.
O objetivo é a discussão de saídas e soluções para a atual e as próximas gerações, que podem não encontrar água suficiente e adequada às suas necessidades.
A ênfase deve ser à MUDANÇA DE COMPORTAMENTO dos diversos agentes sociais, desde o cidadão até os organismos de controle e execução
A Transição deve ultrapassar Governos, pois a natureza do problema não comporta desvios em relação ao tema central. Requer reavaliações permanentes, sem mudanças de curso ou paralização de ações.
A Transição necessariamente perpassa toda a sociedade. A comunicação adequada e transparente estimulará a participação da população sem empecilhos burocráticos às soluções propostas.
O estabelecimento de algumas metas de curto prazo, imediatamente propostas, poderá estancar problemas crônicos.
As metas de médio e longo prazo deverão alcançar, pelo menos, os próximos 25 anos, de tal forma que as futuras gerações não sofram consequências maiores.
Os meios de comunicação têm papel fundamental neste esforço de conscientização e divulgação.
(Esta carta-documento resume os debates realizados no Terceiro Seminário Águas Acima, realizado em 30.3.2017, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico/DF, com a participação do Conselho de Arquitetos Urbanistas/DF, do Conselho Regional de Engenharia e Agrônomia/DF, da Ordem dos Advogados do Brasil/DF, da Embrapa e Emater/DF.)
11.4.2017


segunda-feira, 27 de março de 2017

CONVITE ÁGUAS ACIMA



AMIGOS DA ÁGUA, ESPECIALISTAS EM HIDROLOGIA, PRODUTORES DE ALIMENTOS ESTARÃO DEBATENDO E PROPONDO AÇÕES PARA O USO E REUSO RACIONAL DA ÁGUA.
ENTRADA FRANCA.
VENHA PROPOR SUAS IDEIAS PARA O OITAVO FÓRUM MUNDIA DA ÁGUA, EM 2018, BRASÍLIA, DF.




terça-feira, 21 de março de 2017

OUVIR A NATUREZA

OUVIR A NATUREZA
(Foto: Eugênio Giovenardi, manancial preservado 
na biocomunidade do Sítio das Neves)

Eugênio Giovenardi, escritor e ecossociólogo,
Académico do IHG/DF e membro do ICOMOS/UNESCO

O acesso à água potável é uma necessidade natural de todas as espécies vivas e, para os humanos, uma política pública em todos os países. O cuidado com as águas, porém, varia de país para país. Há mais de uma década, o Rio Colorado, no Texas, não derrama suas águas no mar, por força da intensa irrigação de produtos agrícolas.
No dia 23 de setembro de 2014, o diretor do Parque Nacional da Serra da Canastra, Luiz Arthur Castanheira, comunicou aos brasileiros que a nascente principal do Rio São Francisco, situada em São Roque de Minas, havia secado. É dessa nascente que se origina o rio com 2.700 km de extensão. “Não foi da noite para o dia. Foi de forma gradativa”, afirmou Castanheira. Foram anos de descaso, de mutilação do Cerrado, de exploração inadequada do solo. Saber que essa nascente tem milhares de anos de história trazida do subterrâneo da terra e morreu pela incúria da mão humana é motivo para pensar, se não para chorar.
Informações recentes indicam que as águas salgadas do mar entram por mais de dez quilômetros pela foz do São Francisco, perturbando a reprodução de peixes e mudando os hábitos dos pescadores e ribeirinhos. Até quando a transposição do Velho Chico suportará os maus tratos que recebe desde suas cabeceiras?
Há dois ou três anos, o Rio Doce, que nasce em Minas Gerais, já não chega ao Oceano Atlântico em virtude da devastação impiedosa da mineração, da agricultura e bovinocultura.
Aos brasilienses vale lembrar um trecho do relatório do botânico e engenheiro Auguste Glaziou, membro da Missão Cruls, entre 1882 e 1884, referente ao vale que depois se tornou Lago Paranoá: “...Cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros. Impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale.”
E o relatório da mesma Expedição, elaborado em 1884, informa: “Existem na área, diversos cursos d'água que se unem e dirigem-se para um penhasco, formando um novo rio. Possivelmente, naquela região, deveria existir um lago pré-histórico. Se fizermos uma barragem neste penhasco, um lago navegável, em ambas direções, poderá novamente ser formado.”
Parece-me extrair dessas constatações singelas que os integrantes da Missão Cruls imaginavam que a nova cidade, coração da república, se levantaria “calma e majestosa” ao longo e largo da bacia hidrográfica do Lago Paranoá. O Lago seria “navegável em ambas direções” e ofereceria à mobilidade urbana uma alternativa de transporte.
Ao invés dessa quietude, o Lago recebeu quatro pontes de fuga para os cidadãos apressados. Os aspectos utilitários, sugeridos pela pressa e pelo imediatismo lucrativo, premidos pelo aumento implacável da população, transformaram o Lago Paranoá em repositório de águas usadas. E, em razão das dificuldades de abastecimento hídrico à população, a introdução de uma usina-barcaça de captação e limpeza de águas, outrora cristalinas, alterará a paisagem grandiosa do lago.
Estimativa comedida indica que, embora afetados pelo incômodo racionamento, os habitantes do Plano Piloto, Guará, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo e Águas Claras se dão ao luxo de jogar, todos os dias, no Lago Paranoá mais de 95 milhões de litros de águas usadas. Esse volume, 66 mil litros por minuto, representa quase metade da água captada diariamente do reservatório do Descoberto por 62% da população. As águas usadas se tornaram um dos principais afluentes do Lago Paranoá.
Distintas tecnologias de custos variáveis e algumas delas com custos mínimos, no DF, podem ser imediatamente aplicadas para recuperar e preservar os mananciais. Mas para isso é preciso adaptar as atividades humanas à oferta de água que a natureza nos dá. E, atualmente, aceitar e administrar o regime irregular das chuvas. Em primeiro lugar, é necessário rever o estado das microbacias e mananciais que alimentam os aquíferos e marcar uma ampla linha de proteção da vegetação auxiliar das nascentes. Plantio de árvores isoladas, sem a vegetação milenar e própria do cerrado em torno dos mananciais, pouco ou nada aumenta a recarga dos aquíferos.
Urgente é ampliar, com determinação política e envolvimento das comunidades, investimentos imediatos na captação de águas pluviais nos edifícios públicos, blocos de condomínios, residências e galerias subterrâneas.
É imprescindível a difusão de tecnologias existentes, diferenciadas e adequadas, segundo o tipo de utilização da água, para o consequente reuso. A mudança de atitudes, concepções e hábitos pode levar tempo. Mas se não começarmos hoje, nossos netos e bisnetos serão vítimas de nosso descaso ou comodismo.
Os 40 mil brasilienses, que nascem todos os anos, dependem dos cuidados inteligentes da população atual na arrumação dos espaços da casa comum. É verdade que a estiagem agrava a escassez de água. Porém, o ritmo do aumento da população e o conssequente superpovoamento do DF não darão perspectivas esperançosas aos novos habitantes da capital do país. Ouvir a natureza é a atitude mais inteligente da espécie humana.
(Publicado no Correio Braziliense em 21.3.2017)




terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CRISE HÍDRICA OU CRISE DE GESTÃO

(Biocomunidade do Sítio das Neves. Árvores e água, eis o segredo. Foto: Eugênio Giovenardi)

Eugênio Giovenardi, escritor, ecossociólogo, acadêmico do Instituto Histórico e Geográfico do DF e membro do ICOMOS/UNESCO.

O dom da palavra escrita e falada, até hoje exclusivo da espécie humana, transmite conceitos, elabora mitos, cria ficções, espalha mentiras, camufla a realidade, divide e une as pessoas.
Nos últimos tempos, os cidadãos ouviram expressões como contabilidade criativa, recursos não contabilizados, fuga de capitais. Em relação à surpreendente escassez de água nos reservatórios e irregularidades das chuvas, autoridades administrativas diagnosticam stress hídrico. Nesses dias de racionamento no Distrito Federal, fala-se em crise hídrica. Na verdade, o que há é uma crise histórica de gestão da abundância de água. Parece que não sabemos o que fazer com tanta água. As inundações pelo país que o digam.
O fato de termos 12% da água doce do planeta e rios que atravessam o país, a gestão do fornecimento de água à população não se tornou motivo de planejamento nem prioridade para os governos.
Talvez nunca se tenha feito com seriedade a relação entre crescimento da população, aumento do consumo de água e a inelasticidade da oferta. O consumo aumenta sem aumentar a oferta. Oferta não significa apenas construir aquedutos para retirar água de reservatórios e levá-la às torneiras. Como se noticiou amplamente, nenhum reservatório está com sua capacidade plena.
Gestão da água é também estar preparado para enfrentar imprevistos ou irregularidades climáticas. Mas as medidas tomadas durante a escassez de água têm efeitos de curto prazo e serão esquecidas ao se normalizar a situação de emergência. A gestão do fornecimento de água à população do DF, já na casa dos três milhões e com crescimento desordenado, deve obedecer a um plano consistente para os próximos 40 anos.
Estima-se que, em dois anos, o DF terá mais 140 mil novos habitantes.  A água do planeta é a mesma de milhões de anos. As chuvas é que podem ser irregulares e é difícil fazer previsões. O certo é que a população consumidora cresce onde há e onde não há água. Se não se pode prever com segurança o volume de chuva de cada ano, é possível calcular o aumento da população e suas necessidades de água. É urgente e imprescindível preparar a população para captar a maior quantidade de água no período chuvoso. São tímidos ainda os projetos de adaptação dos edifícios da cidade para coletar a água gratuita da chuva. Na contramão da oferta de água, os desmatamentos e ocupações irregulares de áreas de proteção ambiental continuam sem uma constante ação preventiva e corretiva da administração pública.
Ações emergenciais não criam novos comportamentos, apenas acomodam temporariamente a forma de usar a água. A participação de outros órgãos como a Secretaria de Agricultura, numa situação de emergência, no sentido de orientar os agricultores na melhoria da eficiência do uso da água nas atividades agrícolas em curso, é de efeito temporário. São medidas intempestivas, desconectadas do processo produtivo já em curso.  Solicitar crédito para otimização do uso da irrigação ou canalização de cursos de água diante da escassez é um contrassenso. Nem os bancos, nem os produtores estão preparados para isso.
A preocupação dos gestores está centrada no fornecimento de água dos reservatórios à população residente na cidade. Este é apenas um item da gestão. O consumo de água relacionado com a energia hidrelétrica é ocultado pelos gestores e ignorado pela população. O consumo de água da indústria, do comércio e da agricultura é uma caixa preta. O consumo de energia dos prédios públicos é uma incógnita. A Esplanada dos Ministérios, à noite, é uma apoteose de luzes iluminando a burocracia adormecida.
O planejamento da gestão da água deve relacionar a produção industrial e a de alimentos com a capacidade da região de fornecer o volume de água necessário. A vocação territorial da produção de alimentos deve ser compatibilizada com a oferta de água para que se obtenha o equilíbrio entre oferta e demanda. Este equilíbrio é o conceito básico da produção econômica ecológica.
A criação de gado no DF só poderia ser permitida com técnicas de manejo ecológico que garantam pelo menos a reposição da água consumida pelo rebanho num ciclo produtivo. A alta produtividade da soja no DF não é argumento inatacável se os aquíferos se esgotam e a recarga não acontece.
Um núcleo central de planejamento da gestão da água deve estabelecer para diferentes setores produtivos, cujas características diferem uns dos outros, quais são adequados diante da escassez de água.
Reuso, captação de águas pluviais e reflorestamento são elementos fundamentais na gestão do fornecimento de água à população. Onde produzir, quanto produzir, com quanta água, a que custo e para quantos, são questões fundamentais de planejamento que os gestores da água têm que responder.
31.1.2017


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

REPRESA DO DESCOBERTO - BRASÍLIA

(40 anos de preservação, as nascentes se tornaram perenes. Biocomunidade Sítio das Neves. Foto: Eugênio Giovenardi)


“O melhor é a água.” (Guimarães Rosa)
Falar do essencial é mais difícil.
Por que a REPRESA DO DESCOBERTO está se esvaziando?
A represa foi inaugurada em 1974. A população de Brasília era de 600 mil habitantes. Em 2016, Codeplan registra só para Ceilândia 600 mil hab. A represa, hoje, fornece água para 1,8 milhão de usuários.
A represa foi projetada para armazenar 102 km3 (102 trilhões de litros). Hoje, com 20%, dispõe de 21 trilhões de litros.
A vazão é de 3.600 l/s o que significa 10 bilhões de litros no mês. Os usuários retiram, no mês, 8,6 bilhões, superávit de 1,5 bilhões. Qualquer irregularidade de chuvas no período afeta o nível da represa. Os meses de julho, agosto e setembro serão cruciais para Ceilândia, Taguatinga, Guará e vizinhos. Solução burocrática de emergência: racionamento e maior preço da conta.
Os corpos d’água representam apenas 3% da Bacia Hidrográfica do Descoberto que é de 791,9 km2.
Árvores, nascentes e população eis a questão.
Mas o que a água tem a ver com o caos da República?
Crise hídrica ou crise de gestão planificada?
13.2.2017

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

LIXO NOSSO DE CADA DIA




Eugênio Giovenardi, escritor, acadêmico do IHG/DF e membro do ICOMOS. (Publicado no Correio Brasiliense, 26.12.2016)

O sistema econômico mundial de produção-consumo-produção fundamenta seu lucro e eficácia no aumento da população consumidora. Não é comum querer comprar três relógios Rolex. Porém, qualquer pessoa precisa de água e comida todos os dias. O crescimento da população, além das necessidades essenciais de sobrevivência, vem cercado de estímulos cada dia mais diversificados para seu conforto com bens úteis e inúteis, de curta duração. Essa imensa gama de bens de consumo alimenta a usina autossustentável de fabricação de lixo líquido e sólido. O lixo seja talvez um dos itens que não entram no planejamento urbano e parece não ter sido preocupação na maioria dos projetos de engenharia e arquitetura urbana do Distrito Federal.
Com o crescimento da população e consequentemente do consumo de bens industrializados, a tendência é que o lixo aumente na mesma ou em maior proporção com a entrada no comércio de produtos com obsolescência programada. Produtos que duravam 10 a 20 anos, hoje são descartados em poucos meses.
As ações dirigidas ao lixo têm um sentido curativo e não preventivo. Uma ação preventiva e inteligente buscaria minimizar a produção de lixo liquido, orgânico ou sólido. No entanto, as ações curativas, mais dispendiosas do que as preventivas, se arrastam em demorados projetos sanitários da administração pública com a construção de galpões de reciclagem e aterros sanitários.  Corre-se atrás do lixo, e apenas a uma parte dele. Espera-se que a água suja ou usada chegue aos córregos ou ao Lago Paranoá para tomar medidas de purificação e devolvê-la aos cidadãos. Grande parte dos projetos de esgotamento de águas pluviais é proposta depois de inundações, desmoronamentos, destruição de casas e mortes de cidadãos. Projetos de captação de águas pluviais e reflorestamento de áreas comuns são, até hoje, exceções.
Ian McHarg (1920-2001), planejador e arquiteto urbanista de projetos de base ecológica, professor da Universidade da Pensilvânia, foi um dos principais críticos do consumo dos bens físicos no mundo. Contratado, em 1971, para projetar a construção de Woodlands New Town, para uma população de 50 mil habitantes, no estudo prévio, determinou os “requisitos de desempenho para a manutenção dos valores sociais representados pelo ambiente natural”. Dentre eles: “o cuidado com nascentes e perigo de enchentes; riscos para a vida e saúde, ocasionados pela ação humana e relacionados com a qualidade da água, recarga de aquíferos, perfuração de poços artesianos e solos inadequados para despejo de dejetos”. A expansão de Brasília parece não só desconhecer, como ignorar esses valores sociais do urbanismo, essenciais para a convivência dos cidadãos.
Todos os dias, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) do Distrito Federal recolhe das ruas 2,7 mil toneladas de lixo. Desse total, apenas 1,2 mil recebem tratamento. Segundo o SLU, as 900 toneladas serão despejadas no Aterro de Samambaia recém-liberado para receber os rejeitos não reaproveitáveis. Quantos milhões de reais foram investidos nessas 900 toneladas que, em troca, emitirão chorume que fatalmente contaminará o solo, o ambiente respirável, os cursos de água e os aquíferos interiores.
Esse acúmulo de lixo não aproveitável, é acrescido de toneladas de lixo espalhadas pelas quadras do Plano Piloto e cidades satélites ou às margens das rodovias, como se observa entre Taguatinga e Ceilândia. São fonte permanente de poluição ambiental e difusão de bactérias que afetam as águas, as árvores e as pessoas. Esses dados são ainda mais preocupantes se considerarmos que boa parte desse lixo é jogada no Lixão da Estrutural, o maior lixão a céu aberto em operação na América Latina. Desse Lixão depende a sobrevivência diária de mil catadores e suas famílias em condições insalubres e degradantes
Os resíduos sólidos, como sucata de automóveis, computadores, aparelhos celulares e eletrodomésticos, ainda aguardam o cumprimento da legislação específica pela indústria, comércio e administração pública. O advento da TV digital, que entrou em vigor em Brasília no dia 26 de outubro passado, produziu efeitos imediatos com o aparecimento de carcaças de televisores à beira de estradas do DF. Na BR-060, entre os KM 1 e 9, nas margens de Samambaia, há 21 pontos de acúmulo de lixo diversificado, a céu aberto, originado de residências, escolas, indústrias, lojas comerciais e da construção civil.
É de se desejar que ações administrativas mais eficientes na classificação e tratamento do lixo expressem a grandeza de uma cidade que é Patrimônio Cultural da Humanidade.

15.12.2016