terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CRISE HÍDRICA OU CRISE DE GESTÃO

(Biocomunidade do Sítio das Neves. Árvores e água, eis o segredo. Foto: Eugênio Giovenardi)

Eugênio Giovenardi, escritor, ecossociólogo, acadêmico do Instituto Histórico e Geográfico do DF e membro do ICOMOS/UNESCO.

O dom da palavra escrita e falada, até hoje exclusivo da espécie humana, transmite conceitos, elabora mitos, cria ficções, espalha mentiras, camufla a realidade, divide e une as pessoas.
Nos últimos tempos, os cidadãos ouviram expressões como contabilidade criativa, recursos não contabilizados, fuga de capitais. Em relação à surpreendente escassez de água nos reservatórios e irregularidades das chuvas, autoridades administrativas diagnosticam stress hídrico. Nesses dias de racionamento no Distrito Federal, fala-se em crise hídrica. Na verdade, o que há é uma crise histórica de gestão da abundância de água. Parece que não sabemos o que fazer com tanta água. As inundações pelo país que o digam.
O fato de termos 12% da água doce do planeta e rios que atravessam o país, a gestão do fornecimento de água à população não se tornou motivo de planejamento nem prioridade para os governos.
Talvez nunca se tenha feito com seriedade a relação entre crescimento da população, aumento do consumo de água e a inelasticidade da oferta. O consumo aumenta sem aumentar a oferta. Oferta não significa apenas construir aquedutos para retirar água de reservatórios e levá-la às torneiras. Como se noticiou amplamente, nenhum reservatório está com sua capacidade plena.
Gestão da água é também estar preparado para enfrentar imprevistos ou irregularidades climáticas. Mas as medidas tomadas durante a escassez de água têm efeitos de curto prazo e serão esquecidas ao se normalizar a situação de emergência. A gestão do fornecimento de água à população do DF, já na casa dos três milhões e com crescimento desordenado, deve obedecer a um plano consistente para os próximos 40 anos.
Estima-se que, em dois anos, o DF terá mais 140 mil novos habitantes.  A água do planeta é a mesma de milhões de anos. As chuvas é que podem ser irregulares e é difícil fazer previsões. O certo é que a população consumidora cresce onde há e onde não há água. Se não se pode prever com segurança o volume de chuva de cada ano, é possível calcular o aumento da população e suas necessidades de água. É urgente e imprescindível preparar a população para captar a maior quantidade de água no período chuvoso. São tímidos ainda os projetos de adaptação dos edifícios da cidade para coletar a água gratuita da chuva. Na contramão da oferta de água, os desmatamentos e ocupações irregulares de áreas de proteção ambiental continuam sem uma constante ação preventiva e corretiva da administração pública.
Ações emergenciais não criam novos comportamentos, apenas acomodam temporariamente a forma de usar a água. A participação de outros órgãos como a Secretaria de Agricultura, numa situação de emergência, no sentido de orientar os agricultores na melhoria da eficiência do uso da água nas atividades agrícolas em curso, é de efeito temporário. São medidas intempestivas, desconectadas do processo produtivo já em curso.  Solicitar crédito para otimização do uso da irrigação ou canalização de cursos de água diante da escassez é um contrassenso. Nem os bancos, nem os produtores estão preparados para isso.
A preocupação dos gestores está centrada no fornecimento de água dos reservatórios à população residente na cidade. Este é apenas um item da gestão. O consumo de água relacionado com a energia hidrelétrica é ocultado pelos gestores e ignorado pela população. O consumo de água da indústria, do comércio e da agricultura é uma caixa preta. O consumo de energia dos prédios públicos é uma incógnita. A Esplanada dos Ministérios, à noite, é uma apoteose de luzes iluminando a burocracia adormecida.
O planejamento da gestão da água deve relacionar a produção industrial e a de alimentos com a capacidade da região de fornecer o volume de água necessário. A vocação territorial da produção de alimentos deve ser compatibilizada com a oferta de água para que se obtenha o equilíbrio entre oferta e demanda. Este equilíbrio é o conceito básico da produção econômica ecológica.
A criação de gado no DF só poderia ser permitida com técnicas de manejo ecológico que garantam pelo menos a reposição da água consumida pelo rebanho num ciclo produtivo. A alta produtividade da soja no DF não é argumento inatacável se os aquíferos se esgotam e a recarga não acontece.
Um núcleo central de planejamento da gestão da água deve estabelecer para diferentes setores produtivos, cujas características diferem uns dos outros, quais são adequados diante da escassez de água.
Reuso, captação de águas pluviais e reflorestamento são elementos fundamentais na gestão do fornecimento de água à população. Onde produzir, quanto produzir, com quanta água, a que custo e para quantos, são questões fundamentais de planejamento que os gestores da água têm que responder.
31.1.2017


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

REPRESA DO DESCOBERTO - BRASÍLIA

(40 anos de preservação, as nascentes se tornaram perenes. Biocomunidade Sítio das Neves. Foto: Eugênio Giovenardi)


“O melhor é a água.” (Guimarães Rosa)
Falar do essencial é mais difícil.
Por que a REPRESA DO DESCOBERTO está se esvaziando?
A represa foi inaugurada em 1974. A população de Brasília era de 600 mil habitantes. Em 2016, Codeplan registra só para Ceilândia 600 mil hab. A represa, hoje, fornece água para 1,8 milhão de usuários.
A represa foi projetada para armazenar 102 km3 (102 trilhões de litros). Hoje, com 20%, dispõe de 21 trilhões de litros.
A vazão é de 3.600 l/s o que significa 10 bilhões de litros no mês. Os usuários retiram, no mês, 8,6 bilhões, superávit de 1,5 bilhões. Qualquer irregularidade de chuvas no período afeta o nível da represa. Os meses de julho, agosto e setembro serão cruciais para Ceilândia, Taguatinga, Guará e vizinhos. Solução burocrática de emergência: racionamento e maior preço da conta.
Os corpos d’água representam apenas 3% da Bacia Hidrográfica do Descoberto que é de 791,9 km2.
Árvores, nascentes e população eis a questão.
Mas o que a água tem a ver com o caos da República?
Crise hídrica ou crise de gestão planificada?
13.2.2017

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

LIXO NOSSO DE CADA DIA




Eugênio Giovenardi, escritor, acadêmico do IHG/DF e membro do ICOMOS. (Publicado no Correio Brasiliense, 26.12.2016)

O sistema econômico mundial de produção-consumo-produção fundamenta seu lucro e eficácia no aumento da população consumidora. Não é comum querer comprar três relógios Rolex. Porém, qualquer pessoa precisa de água e comida todos os dias. O crescimento da população, além das necessidades essenciais de sobrevivência, vem cercado de estímulos cada dia mais diversificados para seu conforto com bens úteis e inúteis, de curta duração. Essa imensa gama de bens de consumo alimenta a usina autossustentável de fabricação de lixo líquido e sólido. O lixo seja talvez um dos itens que não entram no planejamento urbano e parece não ter sido preocupação na maioria dos projetos de engenharia e arquitetura urbana do Distrito Federal.
Com o crescimento da população e consequentemente do consumo de bens industrializados, a tendência é que o lixo aumente na mesma ou em maior proporção com a entrada no comércio de produtos com obsolescência programada. Produtos que duravam 10 a 20 anos, hoje são descartados em poucos meses.
As ações dirigidas ao lixo têm um sentido curativo e não preventivo. Uma ação preventiva e inteligente buscaria minimizar a produção de lixo liquido, orgânico ou sólido. No entanto, as ações curativas, mais dispendiosas do que as preventivas, se arrastam em demorados projetos sanitários da administração pública com a construção de galpões de reciclagem e aterros sanitários.  Corre-se atrás do lixo, e apenas a uma parte dele. Espera-se que a água suja ou usada chegue aos córregos ou ao Lago Paranoá para tomar medidas de purificação e devolvê-la aos cidadãos. Grande parte dos projetos de esgotamento de águas pluviais é proposta depois de inundações, desmoronamentos, destruição de casas e mortes de cidadãos. Projetos de captação de águas pluviais e reflorestamento de áreas comuns são, até hoje, exceções.
Ian McHarg (1920-2001), planejador e arquiteto urbanista de projetos de base ecológica, professor da Universidade da Pensilvânia, foi um dos principais críticos do consumo dos bens físicos no mundo. Contratado, em 1971, para projetar a construção de Woodlands New Town, para uma população de 50 mil habitantes, no estudo prévio, determinou os “requisitos de desempenho para a manutenção dos valores sociais representados pelo ambiente natural”. Dentre eles: “o cuidado com nascentes e perigo de enchentes; riscos para a vida e saúde, ocasionados pela ação humana e relacionados com a qualidade da água, recarga de aquíferos, perfuração de poços artesianos e solos inadequados para despejo de dejetos”. A expansão de Brasília parece não só desconhecer, como ignorar esses valores sociais do urbanismo, essenciais para a convivência dos cidadãos.
Todos os dias, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) do Distrito Federal recolhe das ruas 2,7 mil toneladas de lixo. Desse total, apenas 1,2 mil recebem tratamento. Segundo o SLU, as 900 toneladas serão despejadas no Aterro de Samambaia recém-liberado para receber os rejeitos não reaproveitáveis. Quantos milhões de reais foram investidos nessas 900 toneladas que, em troca, emitirão chorume que fatalmente contaminará o solo, o ambiente respirável, os cursos de água e os aquíferos interiores.
Esse acúmulo de lixo não aproveitável, é acrescido de toneladas de lixo espalhadas pelas quadras do Plano Piloto e cidades satélites ou às margens das rodovias, como se observa entre Taguatinga e Ceilândia. São fonte permanente de poluição ambiental e difusão de bactérias que afetam as águas, as árvores e as pessoas. Esses dados são ainda mais preocupantes se considerarmos que boa parte desse lixo é jogada no Lixão da Estrutural, o maior lixão a céu aberto em operação na América Latina. Desse Lixão depende a sobrevivência diária de mil catadores e suas famílias em condições insalubres e degradantes
Os resíduos sólidos, como sucata de automóveis, computadores, aparelhos celulares e eletrodomésticos, ainda aguardam o cumprimento da legislação específica pela indústria, comércio e administração pública. O advento da TV digital, que entrou em vigor em Brasília no dia 26 de outubro passado, produziu efeitos imediatos com o aparecimento de carcaças de televisores à beira de estradas do DF. Na BR-060, entre os KM 1 e 9, nas margens de Samambaia, há 21 pontos de acúmulo de lixo diversificado, a céu aberto, originado de residências, escolas, indústrias, lojas comerciais e da construção civil.
É de se desejar que ações administrativas mais eficientes na classificação e tratamento do lixo expressem a grandeza de uma cidade que é Patrimônio Cultural da Humanidade.

15.12.2016



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

POR QUE OUSO DIZER




Cedo ao impulso de dizer, sem presunção, que dediquei mais de quarenta anos à preservação da vida vegetal e animal, do ambiente e das águas, na biocomunidade do Sítio das Neves, área de cerrado no Planalto Central.
Quem e quantos, no Distrito Federal e no Brasil, realizam ações concretas que propiciem a regeneração de um bioma ou parte dele?
Quem e quantos desenvolveram um sistema planejado de recuperação de áreas degradadas com proteção de espécies nativas originais?
Quem e quantos se preocupam com a captação de águas da chuva para recarga dos aquíferos e fortalecimento de nascentes, numa bacia hídrica integral, com barragens em todos os canais de esgotamento?
Quem e quantos podem exibir resultados ao longo de 40 anos? Alegro-me de ser um deles.
Infelizmente, não possuo informações sobre tantos ecologistas que, como eu, compreenderam os equívocos do crescimento econômico destruidor da natureza. Gostaria de nominá-los para me alegrar com sua presença quase invisível e silenciosa.
Sei que há bons exemplos nos quintais urbanos de paisagismo e cuidados para integração de fauna e flora. Que há estímulos do governo para pequenos grupos de agricultores, estimulando-os a gastar menos água no processo produtivo, depois de verem esgotadas as nascentes e a terra.
Quem do PV ou ONGs ambientais têm projetos ou planos ou programas em desenvolvimento que sejam rumos a seguir?
Ibama, Fundação Chico Mendes, Ibram, Sema, Ministério do Meio Ambiente, além de atos políticos e legais, quais iniciativas poderiam indicar como exemplo possível de somar-se aos que se dedicam à proteção ambiental? Ou chegaremos sempre depois que a lama e as inundações aumentam a indignação e a tristeza dos vivos ou o lamento pelos mortos?
O Sítio das Neves, no Distrito Federal, é uma iniciativa cidadã, particular, sem ajuda do erário público nem da orientação governamental. É um investimento para o futuro ambiental do Planalto Central.
Meu trabalho garante 700.000 litros de água diária, à noite, , graças ao orvalho que se acumula sobre a vegetação do Sítio.
Liberei estes 70 hectares, pouco mais de um milésimo da área do DF, da especulação imobiliária e do primitivo e irracional processo de produção de alimentos.
Garanto água limpa e abundante, que brota de nascentes e alimenta córregos para as próximas décadas, se as queimadas, os poços tubulares ou artesianos não esgotarem os aquíferos da região.
Tenho a oferecer uma universidade vegetal a estudiosos, a amantes da natureza, a cidadãos que desejam preservar o que temos de essencial no país: árvores e água.
Passados quarenta anos de experiência e atos de preservação, posso, com segurança, aconselhar governos a criarem milhões de empregos verdes ao longo de rios, ao redor de mananciais e às margens de milhares de quilômetros de rodovias para proteger mais de 500 cidades anualmente vítimas de alagamentos.


12.7.2014

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

ÁGUA NOSSA DE CADA DIA


( Artigo publicado no Correio Braziliense, em 25.11.2016) 
Eugênio Giovenardi, ecossociólogo, autor de UMA OBRA EM VERDE, entre outros

As mudanças climáticas bateram à nossa porta não sem avisos prévios. Antes do Clube de Roma, 1972, escritores russos, como Anton Tchekhov (1870-1904), ou franceses, como Marguerite Yourcenar (1903-1987), advertiram a espécie humana sobre o desmatamento, a poluição de rios e o esgotamento dos ecossistemas. O desrespeito à ecologia e a indiferença com o ambiente se agravaram com o crescimento exponencial da população humana nas seis primeiras décadas de 1900.
A intensidade do uso dos bens naturais limitados para a sobrevivência e a reprodução de todas as espécies vivas do planeta, incluído o homo sapiens, depende essencialmente do número de bocas. Os bens essenciais são água e alimentos. Uma pessoa precisa, por dia, de 110 litros de água, segundo a Organização Mundial da Saúde e ao redor de 1 kg de comida. Um bovino, que oferece carne ou leite, ingere 30 kg de comida por dia e consome 15 mil litros de água para converter esses alimentos em um kg de carne. E são necessários mil litros de água para se obter da vaca um litro de leite.
Para produzir um quilo de arroz, um pivô central precisa tirar do subsolo 2.500 litros de água sem a responsabilidade de os repor. Água para produzir alimentos é apenas o ponto de partida para todos os demais usos que dela faz a espécie humana.
Divulga-se que Brasília foi projetada para uma população ideal de 500 mil habitantes. O consumo mínimo de água por dia desses habitantes seria de 55 milhões de litros de água e 500 mil kg de comida. A população atual, 55 anos depois, chega a três milhões. A quantidade de comida passou de 500 mil para três milhões de kg e o consumo de água, de 55 para 330 milhões de litros/dia. 
Esse consumo de água se refere apenas à reposição diária por pessoa, sem contar os diferentes usos de água que vão da limpeza urbana à lavagem de carros, nas quadras e superquadras de Brasília, regadio de jardins ou para a indústria, o comércio e a produção de alimentos.
Esse consumo direto de água visível é multiplicado pelo consumo de água invisível em forma de energia elétrica. Segundo especialistas em geração de energia hidrelétrica, para produzir um KW são necessários 6.600 litros de água. O consumo médio de energia por pessoa/dia é de 3 KW, que requerem 19.800 litros de água. Tudo somado, só a população atual de Brasília requer, para seu conforto diário, 198,3 bilhões de litros de água. Não temos toda essa água no DF. E, a cada ano, ao redor de 60 mil novos habitantes se somam à população do DF, equivalente ao tamanho do bairro Vicente Pires. Não é de estranhar que as grandes represas do país estejam com baixos níveis de água. Cabe inculcar na população esta mensagem permanente: para poupar água, apague a luz.    
Esses dados relativos ao aumento da população e suas necessidades diversificadas, ampliadas pelo estimulo ao consumo desmedido de bens úteis e inúteis são os elementos básicos a determinar uma inteligente gestão econômica da água.
No Distrito Federal, há, pelo menos, seis órgãos públicos responsáveis pela gestão da água, mas atuam como rodas soltas segundo suas competências institucionais. A dissintonia institucional permite que representantes de empresas de perfuração de poços artesianos, sem temor da fiscalização, revelem sua autonomia de decisão a potenciais clientes: “Não precisa falar com ninguém. Isso não é fiscalizado. Todo mundo faz assim” (CB, 5.11.2016)
Por outro lado, a população não tomou consciência da gravidade das consequências das mudanças climáticas. E uma delas é a irregularidade das chuvas. A única fonte perene de abastecimento de água e recarga das nascentes é a chuva. Uma das medidas administrativas essenciais dos órgãos públicos, com autoridade gerencial e a participação da população, é planejar e executar sistemas diferenciados de captação e armazenamento de águas da chuva.
Em épocas de escassez, discute-se a elevação do preço da água. Ameaça-se com racionamento. Obriga-se a individualização dos hidrômetros. Recomendam-se projetos de reuso da água e outros truques. Essas medidas, ainda que necessárias, são subsidiárias e não estimulam na população comportamentos de longo prazo nem aumentam o volume das represas e rios.
Urgente, diante da irregularidade das chuvas, é a captação de águas pluviais, no campo e nas cidades, e de múltiplas formas. A captação para recarga dos aquíferos, como solução ecológica e permanente, se faz, como em Tóquio, com galerias de reserva. Reforça-se com arborização intensa, metro a metro, generosa proteção de nascentes, olhos d‘água e com a desimpermeabilização das cidades.
Dada a importância do berço das águas, é de extrema responsabilidade dos administradores atentar para o limite da capacidade de suporte do DF quanto ao crescimento explosivo da população e a consequente pressão sobre os aquíferos superficiais e subterrâneos.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

POPULAÇÃO E ÁGUA

(Foto: Eugênio Giovenardi, Sítio das Neves, Barragem de captação e armazenamento)

(Informação enviada ao MPDFT) 
O Distrito Federal, como parte do berço das águas, nos últimos anos, apresenta permanente escassez hídrica pelas próprias condições geológicas e geográficas. A vegetação nativa, com experiência de milhões de anos, sabe controlar o uso da água para sua sobrevivência e reprodução. A fauna, em condições normais de seu habitat, também encontra água para se dessedentar. A espécie humana, em acampamentos urbanos ou rurais para produzir os alimentos do cotidiano, consome água para satisfazer a inúmeras necessidades, além da sobrevivência e da reprodução. O acesso à água vai da coleta direta na fonte ou no rio, sob a forma de aqueduto como o romano, aos encanamentos modernos que retiram o líquido de imensas represas.
Uma das informações fundamentais para estabelecer estratégias e táticas de administração do fornecimento e uso de água é o número de pessoas que buscam esse serviço público.
O uso da água nas cidades e na agricultura se destina a inúmeras atividades cada uma delas com suas características de necessidade, de importância, de urgência, de intensidade e de tempo. Uma das formas de controle do uso da água é o hidrômetro controlado por um órgão de administração pública, instalado em residências particulares, condomínios, edifícios comerciais, industriais e de prestação de serviços à população, além do uso da água para limpeza e regadio de áreas verdes. As águas retiradas de poços artesianos estão atualmente fora de controle por deficiência da fiscalização e aplicação de normas de outorga.

Para o controle e gestão do fornecimento da água há que se considerar: a) o potencial de vazão de uma região para atender a todas as formas de vida de um bioma e de seus ecossistemas; b) o regime normal e a irregularidade de chuvas; c) o impacto do crescimento da população humana, a urbanização, o aumento dos rebanhos (bovinos, ovinos, caprinos, muares, avícolas, caninos e felinos) que convivem no mesmo espaço, a ampliação das áreas de produção agrícola com o consequente desmatamento e uso de águas subterrâneas; d) o despejo de milhares de metros cúbicos, por hora,  aos córregos, rios e lagos, de água potável usada.
Uma simples aritmética da água fornece dados suficientes para o planejamento global do potencial hídrico, da administração do fornecimento e controle do uso individual e coletivo.
O consumo individual visível de água pela população do DF (2,9 milhões), atendo-se à média informada pela Caesb (180 l por pessoa), é de 522 mil metros cúbicos por dia. Qual  é o volume de vazão diário no DF?
O crescimento da população humana e o da população animal agregada, não é comparável ao da população vegetal. O aumento dos dois primeiros grupos é diário e, consequentemente, o consumo de água. A oferta natural de água não acompanha o aumento da demanda. 
Atendo-se apenas à população humana, verificam-se 125 nascimentos por dia no DF, agregando ao consumo um volume diário de 22 metros cúbicos e consequente despejo. Ao final do ano, a população do DF aumentou em 45 mil novos habitantes. Somam-se os vinte mil imigrantes que aportam ao DF, a cada ano, e tem-se 65 mil habitantes a mais, equivalente à população do bairro Núcleo Bandeirante. A pressão sobre a água é crescente e constante. Em dois anos, o DF terá 135 mil novos habitantes com o mesmo potencial hídrico.
Não bastasse essa pressão sobre os aquíferos limpos, nos damos ao luxo de despejar 22 mil metros cúbicos por hora ou 362 metros cúbicos por minuto, no Lago Paranoá e córregos do Distrito Federal.
O uso invisível da água é determinado pelo consumo de energia hidrelétrica. Cada pessoa consome, em média, 3KW por dia. Segundo especialistas em geração de energia hidrelétrica, para gerar um KW se necessitam 6.660 litros de água. O consumo de energia per capita eleva o consumo diário de água para 19.980 litros. Esse volume, multiplicado pela população do DF, demonstra por que as represas do país estão abaixo dos níveis projetados (DF: 2.900.000 x 19.980: BRASIL: 206 milhões x 19.980).
Qual a solução estratégica que se impõe diante da escassez de água?
Captação e detenção de águas pluviais. A mais eficiente forma de captação é o reflorestamento intenso que, além de favorecer a recarga dos aquíferos, evita assoreamento dos rios, melhora a umidade do ar e traz de volta pássaros, aves e animais nativos. Outros modos de captação devem ser instalados nos prédios urbanos e em galerias subterrâneas na cidade, a exemplo de Tóquio, com a mesma tecnologia com a qual se abrem estacionamentos subterrâneos ou túneis de metrô.
Por que a captação? A precipitação pluvial no DF alcança mais de 1.500mm no período chuvoso, o que significa 1.500 litros por metro quadrado, ou 87 milhões de metros cúbicos que escorrem para os rios.
A captação das águas pluviais é uma medida administrativa de planejamento imprescindível e urgente para enfrentar as dificuldades futuras de abastecimento hídrico à população do DF.

23.11.2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CASO TRIUNFO

(Foto: Eugênio Giovenardi)

Esta solicitação foi enviada ao MPDFT em razão de a Triunfo não ter respondido as mensagens que enviei à Ouvidoria da empresa.

Dra. LUCIANA MEDEIROS COSTA
Promotora de Justiça 

Desde 1974 acompanho a recuperação de uma área desertificada de Cerrado, de 70 hectares, na BR-060 km 26 (BSB/GOI), lado esquerdo. Ao longo de 42 anos, observo o retorno das águas das duas nascentes quase extintas, graças à captação e detenção de águas pluviais, mediante pequenas barragens construídas nos canais de esgotamento, conhecidos como grotas.
Com a duplicação da citada rodovia, o DNIT concedeu à empresa Triunfo o contrato de manutenção, limpeza e socorro.
A área que está sob minha responsabilidade limita com a rodovia numa extensão de 850 metros de frente. Nessa extensão, a área de domínio do DNIT é de 50 metros. Por alguma razão, caminhoneiros e condutores de automóveis usam descarregar o lixo orgânico e plásticos entre o km 26,5 ao Km 27.
Procurei o Ponto 01 da Triunfo que está localizado no km 23 da BR-060 e solicitei que a empresa tomasse alguma medida para recolher o lixo dessa área em razão da proteção de nascentes e por ser uma área de Proteção Ambiental Permanente.
Orientaram-me que solicitasse uma ordem de serviço à Ouvidoria da empresa, em Goiânia. Assim o fiz por várias vezes, via e-mail, explicando as razões e solicitando ao senhor Leonardo Moura esse serviço. O primeiro contato foi feito no dia 6 de agosto e o último, no dia 25 de setembro. Sequer tive resposta a meus e-mails. Tentei comunicar-me com um departamento do DNIT e fui informado que o assunto deveria se resolver com a Triunfo.
Saliento que a conformação geográfica da área favorece, com o advento das chuvas, o arrasto do lixo e da poluição para as nascentes que se localizam próximas à rodovia.
Quero salientar que não se trata de causa individual. Proteção de nascentes é de interesse público e água limpa é condição básica de saúde.
Diante do não atendimento da Triunfo, para proteger as nascentes, obriguei-me a contratar a roçagem da área, recolher parte do lixo orgânico e transportá-lo até a Agrovila Engenho das Lajes, a 4 km.
Nessa mesma rodovia, à margem esquerda, em frente a Samambaia, desde o km 1 ao Km 9, há, permanentemente, ao redor de 20 pontos de acúmulo de lixo variado: plásticos, papel, vidros, garrafas plásticas, entulho de construção, peças descartadas de oficinas e latas de óleo lubrificante, restos orgânicos.
Minha sugestão ao Ibram, por anos consecutivos, foi a de construir pequenos abrigos cobertos, ao longo da rodovia, em distâncias a serem determinadas, com orientação aos usuários para que depositem o lixo nesses locais.
Outras placas educativas informariam aos usuários sobre a proteção de nascentes ao longo da rodovia.
Creio que deveria ser obrigação da Triunfo, constante de contrato de concessão, o reflorestamento de rodovias para captação do dióxido de carbono emitido pelos milhares de carros que transitam semanalmente por essa rodovia.
Contato com a Triunfo:
Agradeço o apoio do MPDFT
Eugênio Giovenardi