sábado, 16 de junho de 2018

TRANSIÇÃO ECOLÓGICA


TRANSIÇÃO ECOLÓGICA


Eugênio Giovenardi, escritor, ecossociólogo, 
acadêmico do IHG/DF

O Fórum Mundial da Água e o Fórum Alternativo Mundial da Água, realizados em março de 2018, em Brasília, indicaram a necessidade premente de se elaborar uma política da água para o Brasil e, especialmente, para o Distrito Federal. A suspensão do racionamento de água, em vigor desde 2017, precisa de ações sistêmicas que administrem o possível retorno dessa medida restritiva que não atingiu igualitariamente a população de Brasília.
A política da água deverá estar incluída em uma visão ampla e sistêmica de Transição Ecológica que leve a sociedade e cada um dos cidadãos a terem um novo olhar sobre a natureza. Transição Ecológica é a mudança gradativa de conhecimentos, de atitudes e comportamentos adotados até agora com a natureza, os biomas, os ecossistemas, as mudanças climáticas prejudicando a interdependência de todos os seres vivos.
A transição ecológica visa igualmente a mudança gradativa, mas radical, do modelo econômico atual baseado no circuito produção e consumo, escravo do crescimento ilimitado orientado pelo produto interno bruto. Há três elementos a considerar na transição ecológica, considerando-se a limitação da oferta de bens do planeta: 1) o crescimento linear da população humana que necessita água, alimentos e bens de consumo essenciais cada dia mais diversificados. Hoje a população mundial é de 7,8 bilhões e, para 2050, a projeção da ONU é de 10,0 bilhões. A repartição dos bens, no modelo econômico atual, é visivelmente desigual e, a manter-se, a desigualdade crescerá. 2) O uso diversificado da água, a produção de alimentos, de máquinas, automóveis, aviões, trens, moradias, requeridos pela população crescente espoliam florestas, arrasam montanhas, secam rios, enfraquecem ecossistemas, reduzem a biodiversidade, empobrecem o planeta, envenenam as águas. 3) A urbanização avassaladora, é fonte inesgotável de poluição do ar, de contaminação das águas, de produção incontrolável de lixo orgânico, de plásticos, e toda sorte de material tóxico, de desperdício de bens, de assassinatos, de acidentes de trânsito.
A transição ecológica será um processo de revisão de nossos comportamentos se quisermos ter a natureza de nosso lado. Hoje, nossos crimes ecológicos indicam que não estamos do lado da natureza e por isso sofremos as consequências. Daí a necessidade de uma política da água no bojo da transição ecológica elaborada a muitas mãos. A participação de universidades, do Ministério Público, de Ong’s, de especialistas e grupos ambientalistas será imperiosa para apresentar à sociedade uma política da água que atenda às necessidades da população crescente.

 Um inventário minucioso e transparente, amplamente divulgado, da oferta de água superficial e subterrânea para uso de necessidades essenciais melhora a compreensão da escassez. O controle da exploração de aquíferos por meio de poços artesianos, com sobretaxa em piscinas particulares é medida democrática. A limitação das concessões e outorgas para fabricação de bebidas e outros usos é mais do que oportuna. A restrição da irrigação para produção de alimentos de consumo interno e de exportação, de acordo com estudos nacionais e internacionais de organismos de pesquisas no Brasil e no exterior é, junto comas anteriores, medida a ser proposta e executada na implementação da política da água.
A coleta seletiva do lixo, ainda incipiente no Brasil, e o saneamento básico nas pequenas e médias cidades e metrópoles devem ter caráter prioritário. A fiscalização e a construção de pontos de coleta de lixo ao longo das rodovias, o rígido controle no uso de agrotóxicos na agricultura e no combate a insetos, a ampliação do transporte público movido a eletricidade, entre outras medidas, reduzirão a contaminação do ar e a poluição dos aquíferos superficiais e subterrâneos. A política da água terá êxito se forem previstos e aplicados investimentos massivos águas acima, na direção das nascentes para preservação da vegetação nativa necessária à proteção dos mananciais.
Diante da imprevisibilidade do clima e da irregularidade das chuvas, uma medida inteligente será estabelecer, por alguns anos, o período de racionamento de água a toda a população nos meses de estiagem e suspendê-lo na época da chuva. O estrito controle do uso da água e um programa permanente de educação ambiental, associados a medidas estruturais, facilitarão o caminho para a transição ecológica no Distrito Federal.


segunda-feira, 11 de junho de 2018

CACHOEIRINHA -


CACHOEIRINHA

SANTO ANTÔNIO DO DESCOBERTO

Caros Cícero, Prof. Jacy e amigos da Cachoeirinha.

Fiquei muito feliz de ter conhecido a área da Cachoeirinha e de ver a ação dedicada dos amigos que o Prof. Jacy Guimarães soube reunir ao redor de si, das águas, das plantas e dos habitantes nativos desse refúgio ecológico.
Minha percepção, como parte orgânica da natureza, ao caminhar pela área, observar e sentir as múltiplas vozes que vinham das grotas, dos altos, dos diferentes silêncios da mata, do murmúrio das cachoeiras, foi de que a alma daquele espaço expressava uma indisfarçável tristeza e um forte sentimento de decepção.
Não se assustem. É minha maneira de sentir e perceber os ecos profundos da natureza e compreender o que ela diz quando estou com ela.
Procurei interpretar esses ecos profundos e tentarei expressá-los, aqui, para futuras conversas com os participantes da caminhada de ontem (10.6.2018).
Primeiro, Cachoeirinha é uma área em atitude de defesa contra várias forças que atuam ao redor dela: cobiça de fazendeiros, avanço da urbanização, familiares desinteressados. Essas forças têm uma energia negativa e suscitam medo, preocupação e até indignação de quem as recebe. Estabelece-se, em contrapartida, o conflito. Busca-se um armamento em forma de soluções legais e burocráticas para defender-se contra essas forças externas.
Segundo, os sentimentos do conflito, do medo, da indignação, do tempo, infelizmente passam para a natureza que é solidária com seus defensores e reflete o medo, a tristeza, a decepção. A preocupação com a defesa reduz o espaço para a integração do afeto entre a biocomunidade natural e as pessoas que dela se aproximam. Grande parte da energia vai para executar ações de defesa e proteção para comprovar a solidariedade à Cachoeirinha e ao Prof. Jacy, no caso, um herói nessa guerra disfarçada. (É da natureza esse instinto de defesa. A mãe tigre, para defender os filhotes contra o chacal faminto, os esconde numa cova enquanto busca, durante dias, caçar uma presa. O tempo do amor é substituído pelo tempo da defesa. Os filhotes sofrem pela ausência da mãe e a mãe também.)
Terceiro, como superar a posição de defesa e alcançar um grau superior de parentesco com a biocomunidade? Como conciliar as ações de proteção às águas, às plantas e aos animais com a integração com os habitantes nativos por parte dos hóspedes eventuais de hoje e do futuro? Quero dizer, empreender ações que melhorem o fluxo de águas e fortaleçam as nascentes não substituem o abraço e a conversa com as plantas, as águas e bichos. Transformar o estado jurídico da área não propiciará, necessariamente, uma atitude de afeto aos gestores em perspectiva. Ao compreender os ecos profundos da natureza, escrevi um pequeno livro As árvores falam. Para ouvi-las é preciso conhecer seu idioma.
Estes comentários expressam tão somente a relação orgânica que existe entre todos os seres vivos de um espaço. As árvores nos transmitem sentimentos de paz, de serenidade, de paciência, de energia e força. Nós transmitimos à natureza nossos sentimentos de amor, de felicidade, de ódio, de desprezo, de cobiça, de indiferença. Ao penetrar num espaço natural é preciso pisar com cuidado e não interromper o diálogo permanente de seus habitantes.
O ponto central é, a meu ver, como passar da defesa da Cachoeirinha à integração das pessoas que hoje ou no futuro terão com ela. Como passar da defesa explicita ao afeto explícito da fraternidade natural? Eis a questão que me orienta no convívio com a área da qual sou hóspede: Biocomunidade do Sítio das Neves. Proponho-me pagar a felicidade que me dá o sorriso das árvores e o murmúrio das águas com afeto explícito. Entrar feliz na casa que me hospeda e dela sair feliz.
O diálogo convivial com a natureza, sem saibro de superioridade sapiens, é tarefa de aprendizagem permanente.
Meu desejo é que cheguemos a esse clímax de nobreza humana.
A todos, meu carinho e solidariedade.
Eugênio Giovenardi
Biocomunidade Sítio das Neves
11.6.2018


sexta-feira, 25 de maio de 2018

MAIO - 68


Fotos: 1968 a 2018

MAIO-68


Paris, durante 45 dias, generosamente propôs à espécie humana um novo olhar sobre a natureza das coisas. Um novo olhar sobre a convivência social, sobre a economia exploradora da riqueza natural e sua distribuição, sobre a condição humana. As ruas de Paris acolheram o diálogo, a fraternidade, o debate livre, sob a antinorma “interdit d’interdire” e “l’imagination au pouvoir”. Os donos da verdade tremeram em seus palácios e bunkers.
Agradecido, celebro os 50 anos dessa festa da liberdade e do ensaio de libertação das imposições generalizadas, como testemunha e partícipe. Há cinquenta anos, no dia 26 de maio de 1968, a conjunção de coincidências inexplicáveis arrumou meu encontro com Hilkka Mäki, uma jornalista que observava, na calçada da rua Vaugirard, o enfrentamento de estudantes com a polícia francesa.
A rua Vaugirard nos separava. Para começarmos uma jornada comum de 50 anos, foi preciso atravessar a rua. Era o que o Movimento de Maio-68 propunha: atravessar ruas, oceanos e fronteiras proibidas para ultrapassar as injustiças, os preconceitos, a discriminação, as escravidões explicitas e disfarçadas, as mentiras sociais e educacionais.
Atravessei a rua Vaugirard e a jornalista desconhecida, num tom de velha amizade, perguntou-me se eu estava de acordo com as mensagens que se discutiam nas ruas de Nanterre e de Paris, na Praça da Sorbonne e do Panteão, no Teatro Odéon e no Ópera, nas escolas e nos bistrôs. Essa pergunta deu sentido ao rumo de minha caminhada. Tive uma estranha sensação de que a jornalista e eu compartilharíamos as alegrias e as agruras da vida. Atravessei a rua, e há 50 anos, atravessamos o oceano.
A globalização da liberdade de pensar e de construir um mundo diferente assustou a humanidade. Maio-68 terminou e deixou para trás uma era. A solavancos, enfrentamos a era pós Maio-68. As grandes decepções desta era anunciam mudanças que as novas gerações terão que administrar.
Hilkka e eu pertencemos aos ideais de Maio-68. Atravessamos juntos todas as ruas congestionadas para desfrutar de um mundo livre e fraterno.
É decepcionante perceber, 50 anos depois, que as autodenominadas esquerdas brasileiras recusam atravessar a rua da história na busca de um destino mais generoso para os cidadãos do país. 

26.5.2018

quarta-feira, 23 de maio de 2018

POLITICAS AMBIENTAIS



Aos que me ouviram ontem e comentaram, obrigado.
Aos que não ouviram e tem tempo para acompanhar o que foi dito, aqui está o link. Clicar em Eugenio Giovenardi na lista de palestrantes

segunda-feira, 30 de abril de 2018

DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA



Desmatamento na Amazônia

Em março, o desmatamento na Amazônia foi 243% maior do que no mesmo período do ano passado. 
O último relatório divulgado pelo Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) aponta que o desmatamento na Amazônia Legal, área que compreende nove estados brasileiros e corresponde a quase 60% do território brasileiro, atingiu 287 km2 em março de 2018. Para efeito de comparação, neste mesmo mês, em 2015, o desmatamento era de 58 km2, ou seja, cinco vezes menor.
Segundo o levantamento, em relação a março de 2017, considerando somente os alertas a partir de 10 hectares, houve aumento de 249%, quando o desmatamento somou 71 km2.
Os principais responsáveis pela derrubada da floresta foram os estados de Mato Grosso (40%), Roraima (21%), Pará (18%), Amazonas (14%) e Rondônia (7%).
De acordo com o Imazon, 63% do desmatamento registrado ocorreu em terras privadas ou “sob diversos estágios de posse”. O restante das áreas que teve corte raso de floresta aconteceu em assentamentos de reforma agrária (33%), unidades de conservação (3%) e terras indígenas (1%).
Já as florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 102 km2 em março de 2018. Comparada ao mesmo período do ano anterior, a degradação é 28% maior.
Os alertas de desmatamento e degradação florestal realizados pelo Imazon são gerados pela plataforma Google Earth Engine (EE), com a utilização de imagens de satélites e mapas digitais.
Todavia, os índices de desflorestamento da Amazônia publicados pelo instituto não são oficiais. O governo só leva em conta os dados elaborados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que frequentemente apresenta números diferentes aos do Imazon. A discrepância nos resultados se dá ao uso de metodologias distintas de avaliação.
Como já noticiado, o avanço da soja, em áreas de desmatamento na Amazônia, é o maior em cinco anos.
O plantio do grão, em área devastada, cresceu 27,5% em relação à safra anterior, segundo um relatório da Moratória da Soja.
(Elaborado por Suzana Camargo, 24 de abril de 2018)



sexta-feira, 27 de abril de 2018

UPP,s OU UPP,s EIS A QUESTÃO

NO DIA 26.3.2014, DIANTE DOS RESULTADOS DAS UPP,s
PUBLIQUEI, NESTE BLOG, AS REFLEXÕES ABAIXO.


UPP OU UPP – EIS A QUESTÃO


Ao ouvir o primeiro anúncio do governo do Rio de Janeiro, em 2008, sobre a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora em comunidades dos morros cariocas, também ditas favelas, opinei, em círculos restritos, contra esse equívoco administrativo.
A essência da atividade policial é reprimir, não pacificar. Toda a concepção policial e sua educação profissional são para usar a força e as armas com ou sem razão. Apertar o gatilho é mais fácil do que dialogar. Segundo o próprio governo, os integrantes de UPP não receberam o treinamento necessário e específico para tratar com pessoas e cidadãos desarmados. Para os policiais todos os cidadãos são suspeitos até prova em contrário.

PRÉ-UPP

Milícias militares ou paramilitares que atuavam nas favelas eram policiais, bombeiros, vigilantes, agentes penitenciários e militares fora de serviço ou na ativa. Agiam em comunidades urbanas de baixa renda, conjuntos habitacionais e favelas sob a alegação de combater o narcotráfico. Mantinham-se com recursos financeiros provenientes da venda de proteção da população carente, extorsão de comerciantes e pessoas denominadas chefes de zonas de comércio de drogas.
As milícias policiais controlavam mais de 400 das 1006 favelas da cidade do Rio de Janeiro. Contavam com respaldo de políticos e lideranças comunitárias locais, muitos deles ligados à distribuição de entorpecentes.
Mancomunados com facções distribuidoras de drogas, essas milícias paralelamente organizadas e de pleno conhecimento dos comandos da polícia do Estado, de políticos em exercício de mandatos, altos funcionários do governo, advogados e meritíssimos juízes, além de pedágios para garantir a segurança das comunidades, cobravam a execução dos “contratos” averbados segundo a lei da droga: o não cumprimento do “acertado” leva à pena de morte.
Parte dessa organização policial paralela, que engloba várias categorias de pessoas públicas, permanece ativa. Como se noticiou, alguns policiais pertenciam aos dois grupos enfrentados e integraram a polícia pacificadora. Buscaram legitimar sua ação criminosa, cujos acontecimentos desastrosos são amplamente divulgados como acidentes de percurso.

UPP

Primeiro equívoco. A base da concepção da UPP é que a comunidade está em guerra. A guerra se travava entre os distintos chefes do tráfico de drogas e uma parte organizada da polícia que havia tomado a si a administração dos morros. Recordem-se os filmes Tropa de Elite I e II. Mortes, prisões e sequestros cometidos por ambos lados foram registrados pela imprensa durante décadas. Havia, portanto, em um dos lados, a milícia paralela organizada para controlar a comunidade, negociar e receber parte do resultado da distribuição da droga. Não raro, se confrontavam com a outra banda que, além de armamento moderno, gerenciava os estoques de entorpecentes para atender à intensa demanda de consumidores.

Nasce um novo conceito: substituir a polícia corrupta ligada ao tráfico pela polícia pacificadora. Em razão do primeiro equívoco de que as comunidades estão em guerra, a polícia entra nelas para exterminar um dos contendores com tanques, helicópteros, caminhões de soldados armados da polícia militar, do exército, da marinha e da aeronáutica.
Numa guerra não morrem apenas soldados como se viu e se verá ao longo do tempo. Que espera do pacificador uma comunidade em guerra? Que o pacificador elimine ou sane a causa da guerra. Que ponha no lugar da causa da guerra a causa da paz.
A polícia não tem causa de paz para oferecer. Na prática, a polícia pacificadora matou pessoas ditas criminosas que têm mãe e pai, quando não são eles pai e mãe. A polícia pacificadora matou cidadãos inocentes, extorquiu dinheiro, roubou, mentiu, chantageou pessoas. A polícia pacificadora expulsou da comunidade, com o critério da limpeza humana, pessoas que ali nasceram, brincaram e têm raízes pátrias. A polícia, à força e com poder de fogo, dividiu famílias e grupos de amizade. Eliminam-se pessoas. A droga permanece.
Segundo equívoco. Quem sustenta o Shopping Iguatemi? Ninguém mais do que os milhares de consumidores que ali vão para abastecer-se de bens úteis ou supérfluos. Quantos pequenos negócios foram eliminados pela guerra empresarial movida pelas megaempresas em nome da escala econômica e do barateamento dos produtos?
Quem sustenta os “supermercados” de variedades de drogas instalados nos morros e favelas do Rio de Janeiro? Os consumidores de drogas da Zona Sul do Rio, jovens que buscam alternativa à mesmice da vida cotidiana, executivos que precisam mostrar capacidade e eficiência, políticos, altos funcionários públicos e até molambos humanos de rua que perderam o endereço de sua identidade. Ninguém refreia a oferta se a demanda é intensa.
Polícia pacificadora não agrega nada à educação, à saúde, ao emprego, à remuneração justa, ao transporte público e à própria segurança coletiva. É próprio da polícia que conhecemos instalar o medo, a submissão, o uso da força, a denúncia remunerada, a corrupção, a mentira, a perseguição. A morte do pedreiro Amarildo dos Santos e a mulher presa e baleada, arrastada por policiais, envolvidos em outros assassinatos, ao longo de uma avenida do Rio de Janeiro, são ações típicas de soldados em guerra.
A polícia, treinada para usar armas e matar, sabe que uma ação gera reação na mesma ordem e na mesma intensidade. Contabilizam-se dezenas de mortos nas “comunidades pacificadas”. No último ano, três policiais foram mortos e 24 feridos. A revolta e a indignação das pessoas desarmadas sugerem que não se pode falar em pacificação policial. Com as UPP se estabeleceu, na prática, a pena de morte.


UPP ou UPP

Tivesse o governo do Rio de Janeiro proposto Unidades de Políticas Públicas, a exemplo de Bogotá (O aço que domou Bogotá), com ampla participação popular, funcionários preparados para o diálogo, ações coletivas para proteção ambiental, dadas as condições geográficas da área, abastecimento de água, tratamento de esgotos, sistema de coleta de lixo, transporte alternativo, escolas, diversão, lazer, estímulo à arte e à música, postos de saúde eficientes, segurança inteligente baseada na aproximação de pessoas e não na simples prisão ou eliminação de cidadãos, o papel primordial da polícia poderia consequentemente ter melhor êxito. A teoria dos expurgos foi testada durante dezenas de anos na União Soviética (Stálin e Cia,). Os resultados negativos caíram sobre gerações posteriores como herança de equívocos ideológicos, maniqueístas e administrativos.
Um sistema de diálogo e cooperação da comunidade eliminaria termos como “bandidos”, “criminosos” que generalizam os comportamentos e incitam a polícia a cometer também atos criminosos justificados como acidentes de trabalho. O diálogo da cidadania deve preceder à ação policial.
 O terror é instalado pela UPP, pois as ameaças são permanentes vindas de policiais armados ou de comerciantes de drogas a moradores que outrora foram beneficiados por estes em razão da ausência crônica de políticas públicas dos governos.
Não há condições reais de pacificação se as políticas públicas em cumprimento da Constituição não chegam às comunidades. Muitos benefícios reais foram oferecidos pela organização do narcotráfico à comunidade dada a ausência do Estado. Esse boleto também é cobrado pelo terror de um e outro.
Resta para a polícia pacificadora controlar a demanda e o consumo de drogas que são a verdadeira causa da existência de “supermercados” de entorpecentes cujos verdadeiros donos e herdeiros não são perturbados.
Os fatos mais recentes de mortes e prisões de ambos lados confirmam a opinião de analistas sociais de que as UPP, concebidas na área policial, são uma declaração de guerra à organização distribuidora de drogas instalada dentro de uma comunidade e, portanto, parte integrante dela durante décadas.
Nessa complexa organização social, consolidada há décadas, é virtualmente impossível separar relacionamentos familiares, culturais, econômicos e políticos com ações policiais. Isto é, não é possível eliminar um elemento da equação social extinguindo apenas os altos mandos do tráfico, pois o comércio de drogas é sustentado por fatores externos à comunidade. Pode-se dizer que o comércio de drogas possui auto-organização que não se elimina com a prisão ou a morte de alguns chefes. Ela rebrota do próprio tronco.
O comércio de drogas tem experiência milenar. Classificado como produto ilícito, exige um tipo de organização complexo capaz de atender a demanda persistente e burlar os controles legais. Os chefes da organização se estabelecem numa hierarquia empresarial cuja competição agregou o uso de armamento para defesa de seu funcionamento e dos valiosos estoques. O comércio de armas está intimamente ligado ao comércio de drogas. Além de outras, as guerras têm razões econômicas. O tráfico de armas tem tido, em muitos casos, a participação da polícia e de militares da ativa.

CRIATIVIDADE DESTRUTIVA

Uma organização de guerrilha militar para comercialização de um produto ilícito não se justifica. O armamento simples ou sofisticado, cuja função é eliminar pessoas, faz parte da criatividade destrutiva que caracteriza o estado primitivo da evolução cerebral. Declarar guerra para preparar a paz podia ser útil ao Império Romano. A fila humana andou mais de três mil anos depois disso. Há que encontrar na criatividade construtiva mecanismos de conversação e diálogo generosos, educativos e de saúde pública, que alimentem a organização social ecumênica, plural, capaz de respeitar as diferenças e as diversidades humanas.
Enquanto durarem as ações comandadas pela organização policial com o fim de estabelecer uma ordem policial de convivência, as mortes continuarão de lado e lado.
A concepção e a implantação de políticas públicas têm nas UPP policiais um obstáculo de origem. Ações administrativas pontuais, mesmo importantes, para efeito de propaganda oficial beneficiam alguns ou até parte da comunidade. No entanto, o conflito permanece no âmago da organização social comunitária.
As ações do governo para atender ao conjunto de necessidades das comunidades ocupadas pela força militar são mal planejadas, ineficientes, sem continuidade nem participação dos cidadãos nas decisões e dependentes do comportamento policial autônomo. A ideia de guerra permanece.
A definição de crime organizado se restringe apenas ao grupo armado que controla as agências distribuidoras da droga? Ou atinge também os produtores e consumidores do produto? Por que foram selecionadas as comunidades dos morros cariocas para atacar o “crime organizado”??? A polícia e seus investigadores da Coordenação de Repressão às Drogas (CORD) têm desarticulado grupos de distribuidores de entorpecentes em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Brasília e outras cidades.
Esses distribuidores circularam há anos pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, abasteceram universitários e funcionários graduados de órgãos públicos, sócios de clubes, médicos, advogados e juízes. A classe média e alta, em qualquer parte do país nunca terá o privilégio de ser controlada por uma UPP. Elas são meras consumidoras de droga e garantem a acumulação de fortunas aos distribuidores.
Há uma reserva de milhões de reais para o consumo de drogas, desde o crack mais ordinário à escama de peixe da cocaína. Essa reserva está protegida pela constituição brasileira. Seus legítimos proprietários estão dispostos a investi-la em drogas. O fornecedor é apenas um empreendedor de risco. Se fracassar por descontrole ou desonestidade na prestação de contas, as leis do tráfico o punem com morte. Se cair nas malhas do CORD, em nada modifica o volume da reserva disponível dos consumidores para futuras transações. Se presos, os distribuidores responderão em liberdade. A falta de feijão na gôndola do supermercado não extingue a vontade de comer uma suculenta feijoada.

TABU PERSISTENTE

Permanece o tabu da questão: a legalização do comércio da droga. O comércio da droga depende em grande parte do consumo contra o qual nenhuma guerra será eficaz. Por que não legalizá-lo? Trata-se de uma economia de bilhões sobre os quais não incidem impostos. Talvez este seja um dos motivos da guerra. A sonegação de impostos, com certeza, atingirá também o comércio de drogas como é praticada pela grande indústria e pelo alto comércio. A Receita Federal produz mecanismos sofisticados para cobrar inadimplentes.
Os bilhões de dólares que nos está custando a guerra contra a distribuição de drogas certamente serão somados ao PIB e não à paz social.
Ou queremos construir uma organização social e política comandada pela força policial mediocremente preparada para garantir a convivência humana?
A convivência social tem que evoluir para o diálogo e a participação dos cidadãos nas decisões adequadas de políticas públicas e não para o terror das armas prontas a disparar em todas as direções.

26.3.2014

ÁGUA FILME

ÁGUA

OFEREÇO AOS ECOLOGISTAS SENSÍVEIS UM FILME DO PROF. HOLANDA, UnB, ARQUITETO E EXPERIMENTADO DOCUMENTARISTA

OLHO D'ÁGUA E VEGETAÇÃO EXPRESSAM A RIQUEZA DO CERRADO DO DISTRITO FEDERAL.

Para acessar o link do Vimeo, entrar com a senha.


senha: rock2018

Comentários são bem-vindos por esta página ou pelo Facebook