quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

LIXO NOSSO DE CADA DIA




Eugênio Giovenardi, escritor, acadêmico do IHG/DF e membro do ICOMOS. (Publicado no Correio Brasiliense, 26.12.2016)

O sistema econômico mundial de produção-consumo-produção fundamenta seu lucro e eficácia no aumento da população consumidora. Não é comum querer comprar três relógios Rolex. Porém, qualquer pessoa precisa de água e comida todos os dias. O crescimento da população, além das necessidades essenciais de sobrevivência, vem cercado de estímulos cada dia mais diversificados para seu conforto com bens úteis e inúteis, de curta duração. Essa imensa gama de bens de consumo alimenta a usina autossustentável de fabricação de lixo líquido e sólido. O lixo seja talvez um dos itens que não entram no planejamento urbano e parece não ter sido preocupação na maioria dos projetos de engenharia e arquitetura urbana do Distrito Federal.
Com o crescimento da população e consequentemente do consumo de bens industrializados, a tendência é que o lixo aumente na mesma ou em maior proporção com a entrada no comércio de produtos com obsolescência programada. Produtos que duravam 10 a 20 anos, hoje são descartados em poucos meses.
As ações dirigidas ao lixo têm um sentido curativo e não preventivo. Uma ação preventiva e inteligente buscaria minimizar a produção de lixo liquido, orgânico ou sólido. No entanto, as ações curativas, mais dispendiosas do que as preventivas, se arrastam em demorados projetos sanitários da administração pública com a construção de galpões de reciclagem e aterros sanitários.  Corre-se atrás do lixo, e apenas a uma parte dele. Espera-se que a água suja ou usada chegue aos córregos ou ao Lago Paranoá para tomar medidas de purificação e devolvê-la aos cidadãos. Grande parte dos projetos de esgotamento de águas pluviais é proposta depois de inundações, desmoronamentos, destruição de casas e mortes de cidadãos. Projetos de captação de águas pluviais e reflorestamento de áreas comuns são, até hoje, exceções.
Ian McHarg (1920-2001), planejador e arquiteto urbanista de projetos de base ecológica, professor da Universidade da Pensilvânia, foi um dos principais críticos do consumo dos bens físicos no mundo. Contratado, em 1971, para projetar a construção de Woodlands New Town, para uma população de 50 mil habitantes, no estudo prévio, determinou os “requisitos de desempenho para a manutenção dos valores sociais representados pelo ambiente natural”. Dentre eles: “o cuidado com nascentes e perigo de enchentes; riscos para a vida e saúde, ocasionados pela ação humana e relacionados com a qualidade da água, recarga de aquíferos, perfuração de poços artesianos e solos inadequados para despejo de dejetos”. A expansão de Brasília parece não só desconhecer, como ignorar esses valores sociais do urbanismo, essenciais para a convivência dos cidadãos.
Todos os dias, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) do Distrito Federal recolhe das ruas 2,7 mil toneladas de lixo. Desse total, apenas 1,2 mil recebem tratamento. Segundo o SLU, as 900 toneladas serão despejadas no Aterro de Samambaia recém-liberado para receber os rejeitos não reaproveitáveis. Quantos milhões de reais foram investidos nessas 900 toneladas que, em troca, emitirão chorume que fatalmente contaminará o solo, o ambiente respirável, os cursos de água e os aquíferos interiores.
Esse acúmulo de lixo não aproveitável, é acrescido de toneladas de lixo espalhadas pelas quadras do Plano Piloto e cidades satélites ou às margens das rodovias, como se observa entre Taguatinga e Ceilândia. São fonte permanente de poluição ambiental e difusão de bactérias que afetam as águas, as árvores e as pessoas. Esses dados são ainda mais preocupantes se considerarmos que boa parte desse lixo é jogada no Lixão da Estrutural, o maior lixão a céu aberto em operação na América Latina. Desse Lixão depende a sobrevivência diária de mil catadores e suas famílias em condições insalubres e degradantes
Os resíduos sólidos, como sucata de automóveis, computadores, aparelhos celulares e eletrodomésticos, ainda aguardam o cumprimento da legislação específica pela indústria, comércio e administração pública. O advento da TV digital, que entrou em vigor em Brasília no dia 26 de outubro passado, produziu efeitos imediatos com o aparecimento de carcaças de televisores à beira de estradas do DF. Na BR-060, entre os KM 1 e 9, nas margens de Samambaia, há 21 pontos de acúmulo de lixo diversificado, a céu aberto, originado de residências, escolas, indústrias, lojas comerciais e da construção civil.
É de se desejar que ações administrativas mais eficientes na classificação e tratamento do lixo expressem a grandeza de uma cidade que é Patrimônio Cultural da Humanidade.

15.12.2016



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

POR QUE OUSO DIZER




Cedo ao impulso de dizer, sem presunção, que dediquei mais de quarenta anos à preservação da vida vegetal e animal, do ambiente e das águas, na biocomunidade do Sítio das Neves, área de cerrado no Planalto Central.
Quem e quantos, no Distrito Federal e no Brasil, realizam ações concretas que propiciem a regeneração de um bioma ou parte dele?
Quem e quantos desenvolveram um sistema planejado de recuperação de áreas degradadas com proteção de espécies nativas originais?
Quem e quantos se preocupam com a captação de águas da chuva para recarga dos aquíferos e fortalecimento de nascentes, numa bacia hídrica integral, com barragens em todos os canais de esgotamento?
Quem e quantos podem exibir resultados ao longo de 40 anos? Alegro-me de ser um deles.
Infelizmente, não possuo informações sobre tantos ecologistas que, como eu, compreenderam os equívocos do crescimento econômico destruidor da natureza. Gostaria de nominá-los para me alegrar com sua presença quase invisível e silenciosa.
Sei que há bons exemplos nos quintais urbanos de paisagismo e cuidados para integração de fauna e flora. Que há estímulos do governo para pequenos grupos de agricultores, estimulando-os a gastar menos água no processo produtivo, depois de verem esgotadas as nascentes e a terra.
Quem do PV ou ONGs ambientais têm projetos ou planos ou programas em desenvolvimento que sejam rumos a seguir?
Ibama, Fundação Chico Mendes, Ibram, Sema, Ministério do Meio Ambiente, além de atos políticos e legais, quais iniciativas poderiam indicar como exemplo possível de somar-se aos que se dedicam à proteção ambiental? Ou chegaremos sempre depois que a lama e as inundações aumentam a indignação e a tristeza dos vivos ou o lamento pelos mortos?
O Sítio das Neves, no Distrito Federal, é uma iniciativa cidadã, particular, sem ajuda do erário público nem da orientação governamental. É um investimento para o futuro ambiental do Planalto Central.
Meu trabalho garante 700.000 litros de água diária, à noite, , graças ao orvalho que se acumula sobre a vegetação do Sítio.
Liberei estes 70 hectares, pouco mais de um milésimo da área do DF, da especulação imobiliária e do primitivo e irracional processo de produção de alimentos.
Garanto água limpa e abundante, que brota de nascentes e alimenta córregos para as próximas décadas, se as queimadas, os poços tubulares ou artesianos não esgotarem os aquíferos da região.
Tenho a oferecer uma universidade vegetal a estudiosos, a amantes da natureza, a cidadãos que desejam preservar o que temos de essencial no país: árvores e água.
Passados quarenta anos de experiência e atos de preservação, posso, com segurança, aconselhar governos a criarem milhões de empregos verdes ao longo de rios, ao redor de mananciais e às margens de milhares de quilômetros de rodovias para proteger mais de 500 cidades anualmente vítimas de alagamentos.


12.7.2014

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

ÁGUA NOSSA DE CADA DIA


( Artigo publicado no Correio Braziliense, em 25.11.2016) 
Eugênio Giovenardi, ecossociólogo, autor de UMA OBRA EM VERDE, entre outros

As mudanças climáticas bateram à nossa porta não sem avisos prévios. Antes do Clube de Roma, 1972, escritores russos, como Anton Tchekhov (1870-1904), ou franceses, como Marguerite Yourcenar (1903-1987), advertiram a espécie humana sobre o desmatamento, a poluição de rios e o esgotamento dos ecossistemas. O desrespeito à ecologia e a indiferença com o ambiente se agravaram com o crescimento exponencial da população humana nas seis primeiras décadas de 1900.
A intensidade do uso dos bens naturais limitados para a sobrevivência e a reprodução de todas as espécies vivas do planeta, incluído o homo sapiens, depende essencialmente do número de bocas. Os bens essenciais são água e alimentos. Uma pessoa precisa, por dia, de 110 litros de água, segundo a Organização Mundial da Saúde e ao redor de 1 kg de comida. Um bovino, que oferece carne ou leite, ingere 30 kg de comida por dia e consome 15 mil litros de água para converter esses alimentos em um kg de carne. E são necessários mil litros de água para se obter da vaca um litro de leite.
Para produzir um quilo de arroz, um pivô central precisa tirar do subsolo 2.500 litros de água sem a responsabilidade de os repor. Água para produzir alimentos é apenas o ponto de partida para todos os demais usos que dela faz a espécie humana.
Divulga-se que Brasília foi projetada para uma população ideal de 500 mil habitantes. O consumo mínimo de água por dia desses habitantes seria de 55 milhões de litros de água e 500 mil kg de comida. A população atual, 55 anos depois, chega a três milhões. A quantidade de comida passou de 500 mil para três milhões de kg e o consumo de água, de 55 para 330 milhões de litros/dia. 
Esse consumo de água se refere apenas à reposição diária por pessoa, sem contar os diferentes usos de água que vão da limpeza urbana à lavagem de carros, nas quadras e superquadras de Brasília, regadio de jardins ou para a indústria, o comércio e a produção de alimentos.
Esse consumo direto de água visível é multiplicado pelo consumo de água invisível em forma de energia elétrica. Segundo especialistas em geração de energia hidrelétrica, para produzir um KW são necessários 6.600 litros de água. O consumo médio de energia por pessoa/dia é de 3 KW, que requerem 19.800 litros de água. Tudo somado, só a população atual de Brasília requer, para seu conforto diário, 198,3 bilhões de litros de água. Não temos toda essa água no DF. E, a cada ano, ao redor de 60 mil novos habitantes se somam à população do DF, equivalente ao tamanho do bairro Vicente Pires. Não é de estranhar que as grandes represas do país estejam com baixos níveis de água. Cabe inculcar na população esta mensagem permanente: para poupar água, apague a luz.    
Esses dados relativos ao aumento da população e suas necessidades diversificadas, ampliadas pelo estimulo ao consumo desmedido de bens úteis e inúteis são os elementos básicos a determinar uma inteligente gestão econômica da água.
No Distrito Federal, há, pelo menos, seis órgãos públicos responsáveis pela gestão da água, mas atuam como rodas soltas segundo suas competências institucionais. A dissintonia institucional permite que representantes de empresas de perfuração de poços artesianos, sem temor da fiscalização, revelem sua autonomia de decisão a potenciais clientes: “Não precisa falar com ninguém. Isso não é fiscalizado. Todo mundo faz assim” (CB, 5.11.2016)
Por outro lado, a população não tomou consciência da gravidade das consequências das mudanças climáticas. E uma delas é a irregularidade das chuvas. A única fonte perene de abastecimento de água e recarga das nascentes é a chuva. Uma das medidas administrativas essenciais dos órgãos públicos, com autoridade gerencial e a participação da população, é planejar e executar sistemas diferenciados de captação e armazenamento de águas da chuva.
Em épocas de escassez, discute-se a elevação do preço da água. Ameaça-se com racionamento. Obriga-se a individualização dos hidrômetros. Recomendam-se projetos de reuso da água e outros truques. Essas medidas, ainda que necessárias, são subsidiárias e não estimulam na população comportamentos de longo prazo nem aumentam o volume das represas e rios.
Urgente, diante da irregularidade das chuvas, é a captação de águas pluviais, no campo e nas cidades, e de múltiplas formas. A captação para recarga dos aquíferos, como solução ecológica e permanente, se faz, como em Tóquio, com galerias de reserva. Reforça-se com arborização intensa, metro a metro, generosa proteção de nascentes, olhos d‘água e com a desimpermeabilização das cidades.
Dada a importância do berço das águas, é de extrema responsabilidade dos administradores atentar para o limite da capacidade de suporte do DF quanto ao crescimento explosivo da população e a consequente pressão sobre os aquíferos superficiais e subterrâneos.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

POPULAÇÃO E ÁGUA

(Foto: Eugênio Giovenardi, Sítio das Neves, Barragem de captação e armazenamento)

(Informação enviada ao MPDFT) 
O Distrito Federal, como parte do berço das águas, nos últimos anos, apresenta permanente escassez hídrica pelas próprias condições geológicas e geográficas. A vegetação nativa, com experiência de milhões de anos, sabe controlar o uso da água para sua sobrevivência e reprodução. A fauna, em condições normais de seu habitat, também encontra água para se dessedentar. A espécie humana, em acampamentos urbanos ou rurais para produzir os alimentos do cotidiano, consome água para satisfazer a inúmeras necessidades, além da sobrevivência e da reprodução. O acesso à água vai da coleta direta na fonte ou no rio, sob a forma de aqueduto como o romano, aos encanamentos modernos que retiram o líquido de imensas represas.
Uma das informações fundamentais para estabelecer estratégias e táticas de administração do fornecimento e uso de água é o número de pessoas que buscam esse serviço público.
O uso da água nas cidades e na agricultura se destina a inúmeras atividades cada uma delas com suas características de necessidade, de importância, de urgência, de intensidade e de tempo. Uma das formas de controle do uso da água é o hidrômetro controlado por um órgão de administração pública, instalado em residências particulares, condomínios, edifícios comerciais, industriais e de prestação de serviços à população, além do uso da água para limpeza e regadio de áreas verdes. As águas retiradas de poços artesianos estão atualmente fora de controle por deficiência da fiscalização e aplicação de normas de outorga.

Para o controle e gestão do fornecimento da água há que se considerar: a) o potencial de vazão de uma região para atender a todas as formas de vida de um bioma e de seus ecossistemas; b) o regime normal e a irregularidade de chuvas; c) o impacto do crescimento da população humana, a urbanização, o aumento dos rebanhos (bovinos, ovinos, caprinos, muares, avícolas, caninos e felinos) que convivem no mesmo espaço, a ampliação das áreas de produção agrícola com o consequente desmatamento e uso de águas subterrâneas; d) o despejo de milhares de metros cúbicos, por hora,  aos córregos, rios e lagos, de água potável usada.
Uma simples aritmética da água fornece dados suficientes para o planejamento global do potencial hídrico, da administração do fornecimento e controle do uso individual e coletivo.
O consumo individual visível de água pela população do DF (2,9 milhões), atendo-se à média informada pela Caesb (180 l por pessoa), é de 522 mil metros cúbicos por dia. Qual  é o volume de vazão diário no DF?
O crescimento da população humana e o da população animal agregada, não é comparável ao da população vegetal. O aumento dos dois primeiros grupos é diário e, consequentemente, o consumo de água. A oferta natural de água não acompanha o aumento da demanda. 
Atendo-se apenas à população humana, verificam-se 125 nascimentos por dia no DF, agregando ao consumo um volume diário de 22 metros cúbicos e consequente despejo. Ao final do ano, a população do DF aumentou em 45 mil novos habitantes. Somam-se os vinte mil imigrantes que aportam ao DF, a cada ano, e tem-se 65 mil habitantes a mais, equivalente à população do bairro Núcleo Bandeirante. A pressão sobre a água é crescente e constante. Em dois anos, o DF terá 135 mil novos habitantes com o mesmo potencial hídrico.
Não bastasse essa pressão sobre os aquíferos limpos, nos damos ao luxo de despejar 22 mil metros cúbicos por hora ou 362 metros cúbicos por minuto, no Lago Paranoá e córregos do Distrito Federal.
O uso invisível da água é determinado pelo consumo de energia hidrelétrica. Cada pessoa consome, em média, 3KW por dia. Segundo especialistas em geração de energia hidrelétrica, para gerar um KW se necessitam 6.660 litros de água. O consumo de energia per capita eleva o consumo diário de água para 19.980 litros. Esse volume, multiplicado pela população do DF, demonstra por que as represas do país estão abaixo dos níveis projetados (DF: 2.900.000 x 19.980: BRASIL: 206 milhões x 19.980).
Qual a solução estratégica que se impõe diante da escassez de água?
Captação e detenção de águas pluviais. A mais eficiente forma de captação é o reflorestamento intenso que, além de favorecer a recarga dos aquíferos, evita assoreamento dos rios, melhora a umidade do ar e traz de volta pássaros, aves e animais nativos. Outros modos de captação devem ser instalados nos prédios urbanos e em galerias subterrâneas na cidade, a exemplo de Tóquio, com a mesma tecnologia com a qual se abrem estacionamentos subterrâneos ou túneis de metrô.
Por que a captação? A precipitação pluvial no DF alcança mais de 1.500mm no período chuvoso, o que significa 1.500 litros por metro quadrado, ou 87 milhões de metros cúbicos que escorrem para os rios.
A captação das águas pluviais é uma medida administrativa de planejamento imprescindível e urgente para enfrentar as dificuldades futuras de abastecimento hídrico à população do DF.

23.11.2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CASO TRIUNFO

(Foto: Eugênio Giovenardi)

Esta solicitação foi enviada ao MPDFT em razão de a Triunfo não ter respondido as mensagens que enviei à Ouvidoria da empresa.

Dra. LUCIANA MEDEIROS COSTA
Promotora de Justiça 

Desde 1974 acompanho a recuperação de uma área desertificada de Cerrado, de 70 hectares, na BR-060 km 26 (BSB/GOI), lado esquerdo. Ao longo de 42 anos, observo o retorno das águas das duas nascentes quase extintas, graças à captação e detenção de águas pluviais, mediante pequenas barragens construídas nos canais de esgotamento, conhecidos como grotas.
Com a duplicação da citada rodovia, o DNIT concedeu à empresa Triunfo o contrato de manutenção, limpeza e socorro.
A área que está sob minha responsabilidade limita com a rodovia numa extensão de 850 metros de frente. Nessa extensão, a área de domínio do DNIT é de 50 metros. Por alguma razão, caminhoneiros e condutores de automóveis usam descarregar o lixo orgânico e plásticos entre o km 26,5 ao Km 27.
Procurei o Ponto 01 da Triunfo que está localizado no km 23 da BR-060 e solicitei que a empresa tomasse alguma medida para recolher o lixo dessa área em razão da proteção de nascentes e por ser uma área de Proteção Ambiental Permanente.
Orientaram-me que solicitasse uma ordem de serviço à Ouvidoria da empresa, em Goiânia. Assim o fiz por várias vezes, via e-mail, explicando as razões e solicitando ao senhor Leonardo Moura esse serviço. O primeiro contato foi feito no dia 6 de agosto e o último, no dia 25 de setembro. Sequer tive resposta a meus e-mails. Tentei comunicar-me com um departamento do DNIT e fui informado que o assunto deveria se resolver com a Triunfo.
Saliento que a conformação geográfica da área favorece, com o advento das chuvas, o arrasto do lixo e da poluição para as nascentes que se localizam próximas à rodovia.
Quero salientar que não se trata de causa individual. Proteção de nascentes é de interesse público e água limpa é condição básica de saúde.
Diante do não atendimento da Triunfo, para proteger as nascentes, obriguei-me a contratar a roçagem da área, recolher parte do lixo orgânico e transportá-lo até a Agrovila Engenho das Lajes, a 4 km.
Nessa mesma rodovia, à margem esquerda, em frente a Samambaia, desde o km 1 ao Km 9, há, permanentemente, ao redor de 20 pontos de acúmulo de lixo variado: plásticos, papel, vidros, garrafas plásticas, entulho de construção, peças descartadas de oficinas e latas de óleo lubrificante, restos orgânicos.
Minha sugestão ao Ibram, por anos consecutivos, foi a de construir pequenos abrigos cobertos, ao longo da rodovia, em distâncias a serem determinadas, com orientação aos usuários para que depositem o lixo nesses locais.
Outras placas educativas informariam aos usuários sobre a proteção de nascentes ao longo da rodovia.
Creio que deveria ser obrigação da Triunfo, constante de contrato de concessão, o reflorestamento de rodovias para captação do dióxido de carbono emitido pelos milhares de carros que transitam semanalmente por essa rodovia.
Contato com a Triunfo:
Agradeço o apoio do MPDFT
Eugênio Giovenardi



terça-feira, 25 de outubro de 2016

UMA FAZENDA DIFERENTE



UM SISTEMA DIFERENTE
DE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
É POSSÍVEL.

Visitei, há dias, a Fazenda Recreio, parte sediada no Distrito Federal e parte no estado de Goiás. A área de 1.700 hectares integra um surpreendentemente belo e majestoso contorno geográfico do Planalto Central. A Fazenda Recreio abriga 70 mil árvores plantadas tecnicamente em fileiras na direção leste/oeste (eucalipto, mogno africano, acácia, entre outras), consorciadas com pastagens que se beneficiam da sombra e da água retida pelo sistema radicular. As nascentes de água estão protegidas por matas nativas conservadas e por plantio de árvores, formando um sistema hídrico inteligente, solidificado pelo Córrego Cachoeirinha que atravessa a Fazenda e pelo Rio São Bartolomeu a correr pela divisa.
Uma lagoa natural resiste aos meses de estiagem, dessedenta e alimenta um plantel de vacas prenhes e reúne centenas de garças brancas, tuiuiús, marrecos e um sem número de pássaros.
Um lago artificial de cinco hectares (50 mil metros2, aproximadamente, 20,0 bilhões de litros) abastece a fazenda por roda d’água, corta a monotonia das coxilhas, enche de graça o ambiente e atrai bichos, como as capivaras, que ali se multiplicam a seu bel-prazer.
A Fazenda Recreio hospeda 1.500 cabeças de gado que pastejam parcialmente sob as árvores que reflorestaram grande parte da área. Desperta a atenção do visitante um cuidadoso consórcio: árvores, água, pasto e sombra que determinam um diferente sistema de produção de alimentos, de respeito à vida nativa, que mantêm o sentido essencialmente ecológico da atividade produtiva.
A pergunta, ao analisar os modelos de produção agrícola e industrial, é: quando um sistema de produção é ecológico? A meu ver, a resposta está no equilíbrio entre a oferta e o uso de ingredientes naturais de um bioma, especialmente terra e água. O equilíbrio entre oferta e uso dos elementos necessários à atividade produtiva é o ponto crucial para garantir o ritmo natural da regeneração do bioma e da biota.
O critério ecológico, então, a ser usado para avaliar um sistema produtivo – ou ecologia da produção - é o equilíbrio entre a oferta e o uso dos elementos naturais de um bioma e não o lucro ou os benefícios auferidos da atividade econômica exploratória derivados da gestão eficiente ou competitiva dos agentes administrativos. A intenção, a atitude e as ações para o uso dos elementos com o fim de manter o equilíbrio e garantir a regeneração ecológica de um bioma diferem das técnicas de exploração degenerativa para obter benefícios econômicos, de curto ou longo termo, compartilhados ou distribuídos a uma população. Os fins não justificam os meios.
Alguns dados serão de utilidade para discutir o sistema de equilíbrio ecológico da Fazenda Recreio, podendo-se aplicar a outras atividades agrícolas.
Plantio sistemático de árvores. Além da vegetação nativa ao longo dos cursos de água e capões dispersos na área, houve um acréscimo, até o presente, de 70.000 árvores de diferentes espécies: ipês, mogno, pau-ferro, acácias, eucaliptos, entre outras.
Retenção de água e evaporação. A população arbórea de 70 mil unidades, agregada ao espaço, cumpre importantes funções durante 24 horas por dia, além da captação de águas da chuva durante o período chamado invernal. Uma árvore do porte das que existem na Fazenda Recreio mantém um volume mínimo diário permanente de água e saudável evaporação de 100 litros, equivalendo a 7 (sete) milhões de litros de água/dia, correspondendo a 27,55 bilhões de litros no ano.
Captação de águas da chuva. Calcula-se que uma área vegetada em toda sua extensão capta e detém até 25% das águas da chuva. A precipitação média, conforme dados da leitura do pluviômetro da Fazenda Recreio, é de 1.200mm ou 1.200 litros de água por m2. O volume de água anual recebido por essa área é de 20,4 bilhões de litros (1.200 X 17.000.000m2), correspondendo a uma média diária de 55,0 milhões de litros ou 3,23 litros por m2. Um quarto do volume total da precipitação, 5,1 bilhões de litros, é retido pelas árvores durante o período chuvoso e pela vegetação de gramíneas que se estende sobre toda a área. As gramíneas formam um colchão espeço e, consorciadas com as plantas, contribuem fortemente para a recarga dos aquíferos. Não menos importantes são os capões e as amplas matas ciliares nativas que, além de captar boa parte da água pluvial, protegem as nascentes, os córregos e o Rio São Bartolomeu.
Boi e água. Cálculos elaborados por especialistas, publicados em revistas e livros, indicam que um quilo de carcaça bovina consome 15.000 litros de água ao longo de seu período de engorde que, nos melhores casos, é de quatro anos. Se esses dados, aceitos pela literatura especializada, podem ser utilizados, um bovino que atinge 400 kg ao longo de quatro (04) anos, terá consumido o equivalente a seis milhões de litros de água, com média anual de 1,5 milhão de litros. O rebanho de 1.500 bois, ao longo dos quatro anos, terá consumido 9,0 bilhões de litros, com média anual de 2,25 bilhões de litros, ou 6,5 milhões de litros dia.
Ao se comparar o volume do líquido retido pelo amplo, e eficiente sistema de captação e detenção de água composto pelo consórcio árvores, gramíneas e mananciais, com o consumo direto e indireto da população bovina manejada com rotação de pastagens, a Fazenda Recreio possui um permanente crédito de água para consumo de todos os hóspedes nativos, vegetais e animais e da população humana encarregada da gestão administrativa. A área, manejada com esse sistema, contribui para a manutenção dos fluxos de água com os excedentes que se infiltram no solo.
Em resumo, não computada a reserva do lago de 50 mil m2, há uma oferta de água diária constituída pelo consórcio árvores, gramíneas, retenção de águas pluviais num volume diário de 62,0 milhões de litros e uma demanda diária da população bovina de 6,5 milhões de litros.
Este ensaio não pretende justificar nem defender o produto boi. Buscou-se estabelecer um critério de equilíbrio ecológico na produção de qualquer alimento baseado no uso racional da água, na capacidade de regeneração do bioma do qual se retiram provisoriamente os elementos necessários à formação ou construção de um produto. O critério deve se aplicar à produção de cana-de-açúcar, à soja, ao milho, ao arroz e aos processos industriais que afetam o bioma na extração de minerais, no processamento e no uso final do produto.
17.9.2016


terça-feira, 18 de outubro de 2016

SUPERPOVOAMENTO E SUPERPOPULAÇÃO

(Publicado no Correi Braziliense em 17.10.2016)

O avanço da superpopulação mundial vem sendo alertado pelo Clube de Roma desde 1972. Biólogos da Finlândia, na década de 1960, sinalizavam que a natureza nórdica já sofria de exaustão diante da exploração intensa de seus bens. As consequências do crescimento da população mundial tornaram-se mais agudas, especialmente para países pobres ou emergentes. Hoje, a pobreza, a fome, a falta de água, o desemprego e as guerras entre países provocam uma nova diáspora. Multidões estão fugindo de seus países e morrendo pelo caminho. O planeta sofre de superpopulação. Mas a superpopulação começa ao nosso lado. Seus efeitos são sentidos em nossas cidades, em nossas ruas, em nossas casas, em nossas florestas e rios, em nossas lavouras.
Quais são as indicações mais visíveis que apontam para a realidade da superpopulação tanto em países ricos quanto em nações pobres? A fome castiga quase um bilhão de pessoas em todos os países do mundo. A dificuldade de acesso diário à água potável sacrifica quase dois bilhões de humanos e milhões de outros seres vivos. O desemprego generalizado atinge países pobres e ricos. Os mortos e os exilados de guerras econômicas e religiosas e os expulsos de suas terras pelas mudanças climáticas compõem um retrato lúgubre da espécie humana.
Mais perto de nós, em quase todas as regiões do país, há sinais incontestes de superpovoamento urbano e indícios claros de superpopulação. Filas diárias às portas de hospitais. Prisões superlotadas. A busca angustiante da casa própria. A falta de creches para liberar as mães trabalhadoras de duas ou três jornadas de trabalho. O inchaço das cidades com sacrifício de áreas verdes. Milhares de famílias em situação de risco ambiental. Ruas entulhadas de carros. Esses acontecimentos do dia a dia parecem não dar ao cidadão perspectiva alguma de mudança.
Tenho comentado com alguns demógrafos sobre o tema da superpopulação. A primeira reação é dar uma resposta estatística. As taxas de crescimento, no Brasil, vêm caindo, reafirmam. Já tivemos, nas décadas de 1950 e 1960, taxas de crescimento de até 5%. Hoje, a taxa média de fecundidade, em nosso país, é de 1,94%. Isto quer dizer que uma mulher, em média, tem 1,94 filho. Não tem um jeito ridículo essa linguagem estatística que amputa parte do filho para dar a ilusão de um decréscimo do ritmo de reprodução? Em que lugar do mundo uma mulher tem um filho e um pedaço de outro?
Por que não falar da realidade da reprodução humana e localizar essa realidade no tempo e no espaço? Seria mais fácil discutir esse tema tabu conhecendo-se as circunstâncias, a cultura, a forma de relacionamento de um povo com a natureza diante da oferta de maiores ou menores condições de sobrevivência. Em que lugar, mulheres têm dois filhos ou nenhum? Em que lugar, mulheres têm quatro filhos? Em que lugares e em que circunstâncias, mulheres têm cinco ou mais filhos?
A média estatística enfraquece a realidade e limita a condução racional de uma política democrática e consciente de controle da natalidade humana, não só em benefício da espécie humana, como também em favor de todas as espécies vivas do planeta tanto vegetais quanto animais que constituem a biodiversidade do planeta. Nenhuma monocultura é desejável para o convívio harmonioso dos seres vivos.
O crescimento descontrolado da espécie humana com múltiplas e variadas necessidades, impõe medidas de sobrevivência para si em detrimento da sobrevivência das demais espécies vivas do planeta das quais depende. Os prenúncios, apesar dos contraceptivos, da urbanização e da tecnologia são de aumento da população para as próximas décadas, sem que se propicie, ao mesmo tempo, o acesso aos bens essenciais a quase metade dela.
Superpopulação não é apenas um fato numérico. É a relação entre o número de pessoas vivas, o complexo conjunto de suas necessidades básicas ou estimuladas e a capacidade das próprias instituições humanas de administrar grandes populações. Essa incapacidade de administrar se agrava com o aumento da população. Parte significativa dela não é igualitariamente atendida. O que se percebe é um atendimento seletivo, parcial e discriminatório mesmo com leis adequadas e vastos programas sociais.
O crescimento da população, no dia a dia, é quase imperceptível. No Distrito Federal, registram-se 125 nascimentos por dia, que somam, ao final do ano, 45 mil novos habitantes, número equivalente à população do Núcleo Bandeirante. Ou seja, nasce uma cidade satélite por ano, no DF, com necessidade de mais água, energia, alimentos, espaço físico, postos de vacinação, serviços médicos, fraldas, berços, roupas, sapatos.

Nesse ritmo, o DF, em dois anos, terá 200 mil habitantes a mais, sem contar os 20 mil imigrantes anuais, segundo a Codeplan. O avanço indiscriminado sobre as últimas áreas verdes e a urbanização descontrolada agravam as dificuldades administrativas e entorpecem a ação governamental. As habilidades institucionais para atender a todas as necessidades da população não crescem no mesmo passo do aumento da população. O limite da capacidade de suporte do DF já foi ultrapassado. Há que se rever a situação presente e prever o que nos espera nos próximos anos. O racionamento de água, neste ano, é um aviso claro de superpovoamento.  

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A ÁGUA SUMIU NO DF



Há dez anos, quando escrevi O RETORNO DAS ÁGUAS – edição bilíngue – previ e alertei para o risco de escassez. Pouco ou nada se fez para proteger as águas acima que vem das nascentes. O desmatamento do Cerrado, a urbanização intensa e descontrolada, o aquecimento da cidade pela impermeabilização e mais de um milhão e quatrocentos mil carros e as queimadas continuam com mais de mil focos neste ano. Esses desatinos podem não ser causa exclusiva do calor e da escassez de água, mas contribuem drasticamente para piorar as condições climáticas. Na biocomunidade do Sítio das Neves (DF), as nascentes estão vivas, respeitadas, cercadas de intensa vegetação.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

IMPERIALISMO E NATUREZA



É histórico o que os ingleses fizeram na Índia, ou os portugueses e o espanhóis nas Américas, ou os franceses no norte da África. Podia-se encher uma enciclopédia de horrores ou uma enciclopédia de benefícios para colonizadores e colonizados.
O imperialismo político, econômico e tecnológico depôs governos locais. Impôs seu idioma. Abriu estradas. Perfurou minas. Apossou-se de riquezas. Quantos milhões morreram de fome em Bengala, no Brasil, em Biafra com ações de nossos antepassados?
Quando ocupamos uma área da natureza, como o bioma Cerrado, poucos lembram que esse ato imperialista deve ter seu lado cientista para conhecer os habitantes tão especiais que vivem nele há milhares de anos e, assim, conviver com eles.
Por isso, levo biólogos, geólogos, geógrafos à biocomunidade do Sítio das Neves para compreender, conhecer e conviver com o complexo sistema de árvores, água e milhões de vidas. O Sítio das Neves conta, hoje, com mapas de satélite, classificação de árvores e identificação de bichos e aves, localização de nascentes, pluviômetros para medição de águas da chuva.
Antes de qualquer ação humana no Cerrado é preciso conhecê-lo. A ocupação atual do Cerrado usa outro método. O modelo imperialista cego. Como não se pode acabar com tudo o que há nele: plantas, animais, nascentes de água, muda-se a cultura natural por uma cultura humana experimental. Quantos milhões de árvores e de animais morreram com nossa chegada ao Cerrado? Quantos milhares de nascentes de água e rios secaram? Há sempre justificativas ideológicas para explicar a conduta do homo sapiens: soja e bois para vender.
O fato grave é que, com a desarrazoada ocupação do bioma Cerrado nossa capacidade de administrar os erros cometidos e em processo custa cada dia mais caro e torna-se mais difícil.
O caos se avoluma na medida de nossa ignorância contumaz.

27.8.2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

ÁGUAS DO LAGO PARANOÁ



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MARCOS GARZON, escritor e ambientalista, em seu livro, 2004, Tarde demais?, escreveu: “Na região do Distrito Federal, desde a inauguração da cidade de Brasília, mais de 60 nascentes foram destruídas”.Agonizam os córregos Vicente Pires, Cabeceira do Valo (Veado) e Cana do Reino. Estudos demonstram que mais de 300 córregos e riachos desapareceram. 

Nenhuma menção se faz ao superpovoamento do DF. Durante o período de estiagem não se faz menção à racionalidade do uso da água. Gasta-se até mais do que em outros meses. A oferta de água proveniente das nascentes não se altera e é insuficiente para satisfazer as múltiplas e diversificadas necessidades da população. 

O acréscimo de 105 bebês por dia, no DF, o que resulta em 38.000 novos habitantes, por ano, e os 20.000 imigrantes que a eles se somam parece não perturbarem os administradores públicos. Essa população acrescida gera um consumo adicional de 23,4 milhões de litros de água por ano. Se somássemos o volume de água necessário a gerar a energia anual consumida pela nova população que se agrega (2 KW por pessoa/dia), o que estranhamente nunca é mencionado, os números chegam a 280 bilhões de litros (para gerar um KW são necessários 6.600 litros de água). Esse é apenas o acréscimo de consumo anual de água. Não há aumento de um metro cúbico a mais no DF para oferecer a uma população que cresce explosivamente. Não se pode planejar chuvas nem a longevidade dos aquíferos. Pode-se, se os donos do poder acordarem, planejar o crescimento da população.

Se, em 2004, era tarde demais para pensar no futuro das águas no DF, hoje, está definitivamente encerrado o jogo. O Lago Paranoá nos dará água suja e cara. Investimentos que faltarão à saúde e à educação serão enterrados em tubulação, bombas, energia e órgãos de administração.
Vale lembrar um trecho do relatório do botânico e engenheiro Auguste Claziou, membro da Missão Cruls, entre 1882 e 1884, referente ao vale que depois se tornou Lago Paranoá: “...Cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros. Impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale.” Teria lembrado da majestade dos vales do Departamento de Auvergne, na França?
Essa imagem sumiu, como sumiram as Sete Quedas do Rio Paraná. Os cadáveres insepultos desses rios mencionados por Glaziou foram fisicamente soterrados pela invasão displicente de novos bandeirantes. Vive-se de contradições muito ao gosto do imediato, do útil, do fica melhor assim. Transforma-se a beleza e a grandeza da paisagem natural em estética fictícia que exige incansável esforço para defendê-la diante das dificuldades permanentemente apontadas.

Por que temos medo de falar sobre crescimento da população e não temos vergonha de gritar pela medalha do crescimento econômico?

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

CONCESSÕES E TERCEIRIZAÇÕES


Conceder a empresas privadas a administração de bens públicos é entregar a elas dinheiro de impostos e parte do poder de decisão. Nem sempre o poder de decisão é conduzido a atender a globalidade da população a ser beneficiada por serviços terceirizados. As empresas privadas terão as mesmíssimas dificuldades operacionais enfrentadas pelo governo: mão de obra, gestão, planejamento, execução. Como as concessões são pontuais e, nesses pontos se concentram as obras, a gestão e o trabalho, os resultados são normalmente mal avaliados.
No caso da concessão à Triunfo, no trecho Brasília/Goiânia da BR-060, observam-se melhoras em alguns pontos! Recorri à Triunfo (Ouvidoria 0 800), solicitando serviços de limpeza e saneamento da Área de Domínio do Dnit, em frente a meu Sítio das Neves, Km 26, por ser Área de Preservação Permanente – APP. Fi-lo por dois motivos: risco constante de incêndios e concentração de lixo depositado por cidadãos brasilienses. Meus três pedidos telefônicos foram reforçados por mensagem eletrônica. NÃO OBTIVE RESPOSTA!
Com o apoio de especialistas em preservação do Cerrado, iniciamos um projeto de limpeza, saneamento e arborização de 850 metros em frente ao Sítio. Será uma obra demonstrativa, de iniciativa privada, sem recursos do tesouro, para um vasto e desejável programa de arborização e ajardinamento de rodovias com o intuito de evitar inundações de cidades águas abaixo. Agricultores de SC e PR já fazem isso com araucárias que produzem o pinhão.
(Publicado do blog O OBSERVADOR)

terça-feira, 19 de julho de 2016

ÁGUAS ABAIXO



A estiagem, no DF, se estende por 60 dias. Umidade do ar em nível prejudicial à saúde, menos de 20%, em horas do dia. Dizem pesquisadores do comportamento das águas subterrâneas que o nível das reservas baixou três metros. Alguns poços artesianos e muitas nascentes secaram nestes dois meses. Por quê? Aqui está a resposta dada pelos pluviômetros da Agência Nacional de Águas instalados na biocomunidade do Sítio das Neves, DF:
2015 – abril: 299,4 mm – maio: 48 mm – junho: 0.0 mm
2016 – abril: 8.0 mm – maio: 38.0 mm – junho: 0.0 mm (Um milímetro corresponde a um litro por metro quadrado). A oferta de água diminui e o consumo aumenta. As bacias do São Francisco, do Tocantins e do Paranaíba são alimentadas pelos aquíferos do DF. Como se preparam os órgãos de proteção das águas e a população urbana e rural para captar as próximas águas da chuva? Com queimadas! Já vão para 700 os crimes de fogo neste ano. A barragem mais importante para captar águas da chuva e evitar inundações de mais de 300 cidades águas abaixo são as árvores. O golpe inteligente é preservar as árvores e a vegetação auxiliar capazes de captar trilhões de litros de águas da chuva para recarregar os aquíferos subterrâneos!

19.7.2016

quarta-feira, 6 de julho de 2016

ARITMÉTICA DA ÁGUA

Na exposição do pesquisador da Embrapa Jorge Werneck que ouvi, ontem, no auditório da Segeth, ficou claríssimo que sabemos tudo sobre água. Onde está, por onde corre, sua profundidade, a quantidade de dejetos que arrasta aos córregos, o volume de cada mês chuvoso. Mas quase nada sabemos sobre as chuvas, além de que são a única fonte de abastecimento de nossos rios. Se vai chover muito ou pouco ou se vai chover onde precisa e no momento que se precisa, saberemos só depois da seca ou da inundação. Por isso se constroem grandes represas, mas na incerteza de que se encherão na hora certa.
 Estamos diante de um dilema: a incerteza de ter água disponível e a certeza de que consumimos muita água. O crescimento do número de consumidores é anunciado. Resta a dúvida de ter chuvas na medida adequada.
O DF é conhecido como berço das águas. Alimenta o Tocantins, o São Francisco e o Paranaíba que vai ao Sul. No DF, anualmente, 60 mil novos consumidores de água somam-se aos 3 milhões existentes. Quem, na esfera administrativa, composta de dezenas de órgãos de decisão, está preparado para administrar uma nova Vicente Pires por ano? Eis a razão do caos administrativo do DF.
Qual é o volume médio de água de um habitante do DF? 190 litros por dia (Caesb). Parte dela vai ao esgoto com dejetos corporais. Qual é o volume médio de água necessário para gerar a energia elétrica de 3 KW diários de cada cidadão brasiliense? 19.800 litros por pessoa (para gerar um KW são necessários 6.600 litros). Águas que saem de represas longe de Brasília, mas nascem aqui. Feitas as somas, chova ou faça sol, os 3 milhões de brasilienses consomem, por dia, 59.4 bilhões de litros de água.
Sabemos tudo sobre água. Só não sabemos administrá-la. Estamos matando a água no berço. Poupe água. Apague a luz!

6.7.2016

terça-feira, 5 de julho de 2016

DISCUSSÕES SOBRE ÁGUA



Tenho participado de debates e propostas sobre o consumo de água no DF promovidos por organismos públicos – Adasa, ANA, Sema, Ibram, Segeth, Caesb, MMA, Ibama. Iniciativas necessárias em vista da escassez de água no DF e do aumento da população urbana e rural num montante de 65.000 novos habitantes por ano. É como se uma Vicente Pires surgisse a cada ano. Caos administrativo.
O número de poços artesianos cresceu desmesuradamente. A perfuração desses poços não tem controle adequado. A Adasa contabiliza mais de 30 mil poços, dois terços deles sem autorização de funcionamento. Poço artesiano esgota nascentes.
O período de estiagem no DF, que vai de maio a outubro, é o tempo adequado para que a população e os órgãos públicos se preparem para não só receber, como e especialmente para captar e reter as águas da chuva no campo e na cidade. Como todos sabem, os países tropicais não contam com geleiras nem com neves. Nossa única fonte de recarga das nascentes, dos rios e aquíferos subterrâneos é a chuva. Estranhamente, a captação das águas da chuva não entra nessas discussões, nem há propostas concretas para que isto aconteça.
As árvores são a primeira barragem de captação e detenção das águas da chuva. A maioria das cidades satélites está nua de árvores e coberta de asfalto. Duas condições eficazes para impedir a captação de água, levar lixo e sedimentos aos córregos e, por falta de escoamento tubular, invadir casas e causar mortes. A captação de água em edifícios e em poços subterrâneos nas cidades, a exemplo do Japão, deveria ser prioridade para os administradores, engenheiros, arquitetos e urbanistas.
A captação de águas pluviais no meio rural é um tema desconhecido. Há, relativamente à água, duas formas de agricultura: as grandes plantações que consomem muita água subterrânea e a pequena produção que não pratica os mais rudimentares artifícios para captar suficiente volume de água para suas necessidades.
Neste período de estiagem de seis meses, enquanto muitas espécies vegetais se despem de folhas e economizam água, a espécie humana urbana e rural – homo sapiens – consome irracionalmente.

(amanhã, Aritmética da água)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

OITAVO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA

Prezados 


Li com atenção a informação que os jornalistas Rafael Campos e Júlia Chaib deram sobre o evento preparatório ao Oitavo Fórum Mundial da Água.
Por meio do IHG/DF, coordenei dois Seminários tb. preparatórios ao Fórum, em 2015 e 2016, com o título ÁGUAS ACIMA. Estamos preparando o terceiro Seminário para 2017.
A ênfase que demos nos seminários contrasta com a que se está dando nesses eventos de cunho político ou de políticas que envolverão recursos sem fim.
Primeiro: ênfase em reservatórios, grandes represas (gestão ineficiente quando não corrupta de dinheiro) e interrupção ou desvio de cursos de água contrastam com o desmatamento, a urbanização sem controle e a morte de nascentes de água. As inversões até hoje ÁGUAS ABAIXO não resolveram a dificuldade de acesso à água, porque se esqueceram de inversões ÁGUAS ACIMA.
Segundo: Tratamento de esgotos, reuso de água se justificam se o fluxo normal de água for mantido. As evidências mostram o contrário.
Terceiro: nenhuma referência foi feita sobre a captação de águas da chuva, única fonte tropical de reabastecimento de rios e nascentes de água. Captação de águas da chuva associada ao grito revolucionário do século 21 que é PLANTAR ÁRVORES. O desmatamento da Amazônia e do Cerrado continua.
Quarto: Nenhuma palavra sobre o tabu do crescimento demográfico regional e mundial, verdadeira e palpável razão do aumento do consumo de água. Para exemplificar este último item, no DF, o consumo diário direto de água é de aproximadamente 760 milhões de litros que, somados ao volume necessário para a geração de energia elétrica consumida pela população do DF - 73 bilhões de litros - alcança a cifra diária de 73,760 bilhões. Isto quer dizer que se quisermos água sustentável teremos que apagar a luz.
Leve-se em conta que o crescimento demográfico implica em rebanhos bovinos, suínos, etc. que ocupam o mesmo espaço do Homo Sapiens e precisam muito mais água para sobreviverem.
(A pop. brasileira é de 204 milhões e o rebanho bovino é de 212 milhões de cabeças.)

terça-feira, 28 de junho de 2016

A VIDA

Aos leitores que mandaram flores e lembraram da data

A VIDA


A vida é uma ligação.
Estou ligado às pulsações
Dos seres vivos do planeta
Miro-me nas velhas árvores
Colho delas a sabedoria paciente.
A vida me trouxe
Inesquecíveis presentes
E indestrutíveis passados.
Será menos pródiga
Em futuros incertos.
Sigo, então, o curso das águas
Que retornam ao mar
Porque a vida é devolução.


28.6.2016

sexta-feira, 10 de junho de 2016

ARBORIZAÇÃO DE MARGENS DA RODOVIA (BSB/GOI)

(Publicado no Facebook)


Em época de desemprego, de falta de água e mudanças climáticas, há espaço para a prosperidade usando a inteligência. Uma das ações concretas para atender aos três aspectos mencionados é arborizar as margens da rodovia que liga Brasília a Goiânia. Os 210 km que ligam essas cidades se transformam em 210.000 metros que multiplicados por 20 metros de largura das margens resultam em 4.200.000 m2.. Plantando-se duas árvores por m2, caberiam 8.400.000 árvores. Em dois anos, cada árvore capta, durante o período chuvoso, 100 litros de água da chuva num volume mínimo de 840.000.000 de litros. Em consequência, haverá maior recarga do aquíferos, redução de inundações, refúgio de pássaros, humanização do trajeto, absorção de dióxido de carbono proveniente dos milhares de carros que circulam por essa rodovia. Essa prosperidade coletiva teria um custo mínimo a ser incluído nos contratos de concessão a empresas de administração de rodovias e conservação das áreas de domínio do DNIT, ou por meio de pequenas associações de moradores, ao longo da rodovia, como se fez na Colômbia graças a um projeto do PNUD.

terça-feira, 7 de junho de 2016

DO OUTRO LADO

DO OUTRO LADO


Venho da direção oposta
E moro no outro lado.
Venho de onde você veio
Meu rasto ainda se vê.
Vim do outro lado
Onde ficou de mim
Uma parte irrecuperável.
Venha para o outro lado.
Há lugares vagos
No lado de lá.
Eu moro no outro lado.
Todos vamos na direção oposta
Qualquer que seja o lado,
Mas se quiser me encontrar
Passe para o outro lado.


9.5.2016

sábado, 19 de março de 2016

AÇÕES PARA A GESTÃO DA ÁGUA

(Continuação da postagem anterior, com vistas ao II SEMINÁRIO ÁGUAS ACIMA, 21.3.2016, NO IHGDF, 14H30, 703/903 ASA SUL, BRASÍLIA)

POPULAÇÃO: PLANEJAMENTO FAMILIAR 

A redução gradativa da população em âmbito nacional e mundial requer ações imediatas com generosos investimentos em educação mediante programas nacionais, regionais e locais de planejamento familiar.
Esperar passivamente apenas nos efeitos da urbanização, na melhoria do ensino primário, nas ofertas de novos motivos de recreação ou nas dificuldades decorrentes de educação, de emprego e moradia, o decrescimento da população será lento e as dificuldades de administrar grandes populações serão quase insuperáveis.
 Brasil ainda cresce à proporção de uma cidade de dois milhões de habitantes, com problemas crescentes de emprego, moradia, educação e saúde. A ocupação do espaço geográfico é limitada e afrontar sua capacidade de suporte provoca sérios desgastes ambientais que multiplicam esforços e investimentos de recuperação de longuíssimo prazo.
O programa de planejamento familiar cuja meta visa ao equilíbrio entre necessidades básicas e oferta de bens limitados da natureza deve envolver a sociedade civil, ser democrático e entregue às mulheres não só pela função orgânica da maternidade como pela educação da prole e gestão da casa.
O ideal aponta para uma taxa de reprodução que não supere, em média a reposição simples ou manutenção de uma população cujas necessidades básicas possam ser individualmente satisfeitas. 

DEMANDA: REDUÇÃO DO CONSUMO DE ÁGUA 

Diante da situação hídrica mundial e das crescentes dificuldades de acesso à água no Brasil, impõe-se crescente e inteligente redução do consumo de água no âmbito individual, na produção de alimentos, no consumo de energia e na fabricação de bens duráveis (madeira, têxtil, aço, vidro).
O consumo per capita deverá entrar num amplo acordo social de interesse da sociedade para democratizar o acesso à água, estabelecer um teto além do qual serão impostas sanções proporcionais à não observância da lei. Controles administrativos, fiscais e financeiros terão que ser aperfeiçoados e sua difusão deve abranger não só os funcionários contratados como toda a população.
A extração de água mediante poços artesianos sem expressa autorização pública dos órgãos de controle deve ser fiscalizada por meio de sensores e imagens de satélites dirigidas sobre condomínios e áreas prováveis de exploração.
Investimentos em tecnologia e pesquisas biológicas serão necessários para produzir alimentos e bens de consumo duráveis com menor volume de água do que atualmente se usa.
A redução do consumo de água deve acontecer por pessoa, por unidade doméstica, por unidade de produção (empresa, órgão público) e por produto. A redução do uso de água em variadas atividades produtivas demonstrará o custo-benefício dos investimentos supérfluos, a possibilidade de restrições, sanções, racionamento, alternância na distribuição e o sobrepreço acima de determinado limite em períodos de estiagem. 

OFERTA: CAPTAÇÃO E FLORESTAMENTO

       Dada a limitação cada dia maior do acesso à água pela população mundial e, especificamente, do Distrito Federal em razão do superpovoamento, a sociedade civil e o governo distrital devem atuar em duas direções: garantir a quantidade e a qualidade da água.
Uma das medidas urgentes a serem viabilizadas pela sociedade e pela administração pública é a captação das águas pluviais no âmbito da cidade de Brasília e na área rural. Distintas tecnologias de custos variáveis e algumas delas com custos mínimos podem ser imediatamente aplicadas para esse fim. Há dois mil anos, na região montanhosa de Gansu, no leste da China, a população consome, para todas as atividades sociais e econômicas, água captada da chuva e do derretimento das geleiras por meio de cisternas. A conservação da vegetação nativa constitui o mais eficaz fator de preservação dos cursos de água.
Metas anuais progressivas deverão ser fixadas de captação e uso de águas pluviais para limpeza urbana, irrigação de gramados e jardins e para produção de alimentos. Se a sociedade se mobiliza por suas próprias forças e recursos, em cinco anos a fisionomia do Distrito Federal terá um visual densamente verde.
O reflorestamento no DF deve ser intensificado por todos os meios, tanto na preservação de espaços verdes, quanto no plantio de árvores ao longo de rodovias e na multiplicação de pequenos parques para a purificação do ar, refúgio de pássaros e repouso dos habitantes.
A qualidade da água da chuva, das nascentes, córregos e rios do DF depende do tratamento de lixo urbano e das águas usadas.
Ao longo de rodovias devem ser construídos pontos de coleta de lixo que atualmente é jogado em grandes quantidades no meio da vegetação e levado aos córregos e rios pela chuva que desce das vias asfaltadas. A qualidade da água não depende apenas do tratamento químico que a encarece. Ela pode ser consequência mais econômica de atitudes e comportamentos civilizados da cidadania.

 Brigadas contra incêndios, móveis e temporárias, no período seco, precisam ser localizadas em áreas que abrigam mananciais ou nascentes para orientar a população a não atear fogo na vegetação e, em casos acidentais, prontamente debelá-lo.

sexta-feira, 18 de março de 2016

ARITMÉTICA DA ÁGUA


ARITMÉTICA DA ÁGUA

(Foto: Eugênio Giovenardi, Sítio das Neves) 

A água é necessária para assegurar a sobrevivência e a reprodução de todos os seres vivos do planeta. Para compreender a importância da água para todos os seres vivos, convém ater-se a algumas realidades do dia a dia. A fila da água é longa. O único ser vivo que desperdiça água pertence à espécie humana. Nenhum outro ser vivo desperdiça água.
No Brasil, há muita água onde não há gente e muita gente onde a água é escassa.


1ª. REALIDADE:
 A fila da água.

Não é só a espécie humana que precisa de água.
Quando se fala em água, a torneira, a geladeira, o chuveiro, o vaso sanitário, a cozinha, a máquina de lavar, o asseio da casa, o lava-jato são preocupações da espécie humana.
Quando falta água, a gente lembra da represa vazia, volume morto, chuvas, racionamento, rodízio, torneira seca. Surgem alternativas, soluções individuais, estratagemas, reuso.
- Uma pessoa leva no corpo 70% de água. (pessoa de 60 kg leva 42 l de água). Mais da metade de nosso corpo é água.
- Uma árvore de 1.000 kg pode conter 1.000 litros, volume igual a 100% do peso.
- Um animal de 400 kg contém 280 litros, suficiente para abastecer 2 pessoas num dia.
- Uma pessoa requer 110 l/dia como volume ideal (OMS)
- Um bovino que, ao longo de 4 anos, alcança 300 kg, consumiu 4.5 milhões de litros, média de 3.082 por dia, contando o desgaste ambiental para sua reprodução. 212 milhões é a população bovina no Brasil.

Esses bilhões de litros de água que bilhões de pessoas, bilhões de animais e bilhões de plantas carregam em seus corpos, chama-se consumo consuntivo e não estarão disponíveis para encher represas, nem voltam com a chuva. É como comer uma laranja. Acaba e não volta para a laranjeira. A gente tira da conta da água e não repõe. Só a chuva e o degelo podem repor.

Não se tem notícia de que, no país, alguém morreu de sede. Mas como não estamos sozinhos na fila, no NE, centenas de animais morrem por falta de água.
A espécie humana é o único ser vivo que seca nascentes, lagos e rios, corta árvores, destrói a vegetação nativa preservadora de água. Dificulta o acesso à água poluindo rios, lagos e represas. Os investimentos águas abaixo não resolveram o acesso democrático à água.
O Rio Grande e o Colorado na Califórnia, EE UU, não chegam mais ao mar Caribe. O Rio Doce, Brasil, em 2014, pela primeira vez, não desembocou suas águas no oceano

Uma pessoa precisa de 110 litros diários de água (OMS), para atender suas necessidades e só parte volta aos rios e ao mar.
Um bovino consome 15.000 litros de água para ganhar um kg de carcaça. Essa água não volta para o mar.
As árvores precisam de água para sobrevier, se reproduzir e contribuir para a recarga dos aquíferos. Parte dessa água que fica nas árvores não volta para compor a próxima chuva. Mas as árvores retêm mais de 35% das águas da chuva e alimentam os lençóis subterrâneos.
A aliança inteligente da espécie humana é com as árvores e não com os bovinos.


2ª REALIDADE:

 População e água:

A população do DF cresce além do razoável.
Demora-se em tomar medidas racionais para conter a população. A natureza das coisas cria um mosquito para alertar sobre os perigos da superpopulação e a super-reprodução.
O DF registra 3.200 nascimentos por mês (106/dia), cuja soma é de 38.400 novos habitantes por ano. Somados os imigrantes que vêm residir no DF, o número chega a 45.000, o que equivale a um Núcleo Bandeirante/ano.
Esse crescimento explosivo é uma das principais causas do caos administrativo na saúde, na educação, no transporte somado ao desmatamento, à impermeabilização do solo e ao desafio permanente ao acesso à água nos próximos dez anos.
Cada criança que nasce precisa de 110 litros de água/dia, creche, escola, energia elétrica, comida, transporte. Não é por nada que, o DF mantém 237.000 desempregados, seis vezes o número de nascimentos, ou seja, milhares de crianças já nascem desempregadas, com sede, com fome e sem lar.
O alerta da superpopulação já foi dado. A densidade populacional sugerida por Lucio Costa era de 11.740 m2 por habitante, num total de 500.000 habitantes em seu projeto de cidade-parque e, hoje, é de apenas 1.956 m2, para uma população de quase 3 milhões.  A desigualdade ecológica se consolida, ao lado da desigualdade estrutural.
A população cresce e o volume de água é sempre o mesmo. A advertência é cuidar, proteger, fortalecer as nascentes, córregos acima. O nosso aliado são as árvores.  
O controle do crescimento da população é condição imprescindível para a sustentabilidade hídrica.

3ª REALIDADE:
Água por habitante – DF

Vivemos, no DF, uma situação hídrica de permanente escassez.
O consumo médio oficial por habitante, informado pelo órgão competente, é de 190 litros/dia. (média é um argumento estatístico). O consumo humano direto diário de água, no DF, situa-se ao redor de 600.000.000 de litros, sem contar o consumo agrícola. No período de estiagem, o consumo é maior do que a vazão. Parte da água vem de fora do DF.
Uma das medidas administrativas seria estabelecer um volume mínimo: 110 litros dia a custo moderado e democrático. Ou estabelecer a média, hoje estimada em 190 litros. Ultrapassado o mínimo até a média, cobrar um valor pelo excedente. Mais de 190 litros, o valor deveria ser acrescido de 100 ou 200%.

Vazão. A disponibilidade diária de água para o brasiliense é de 1,4 m3 (1.400 litros). Situação preocupante. O ideal, segundo a ONU, para segurança hídrica é de 4,8 m3 (4.800 litros). Isto significa manter na conta da poupança de água volume suficiente para as épocas de escassez. Nesta escala:
500 m3 hab/ano (1,4 m3 situação de Brasília) = escassez
500 m3 a 1.700 m3 hab/ano = situação apertada
> de 1.700 m3 hab/ano = situação confortável.
Quando o uso consuntivo da água, isto é, o volume de água que não volta ao rio, representa apenas 5% de toda a retirada, considera-se excelente economia.
Entre 5 e 10%, é confortável
Entre 10 e 20%, situação do DF, é preocupante, pois sobram 80% da disponibilidade para o retorno aos rios. O superpovoamento torna mais intensa a busca de água secando poços e causando o racionamento ou o rodízio.
Entre 20 e 40%, situação crítica, quando há grandes investimentos em agricultura e outras atividades.
> Acima de 40%, situação fora de controle.
(Caderno de Recursos Hídricos, ANA, maio 2005, MMA, Marina Silva)

Água e energia.
A média de consumo/dia de energia por habitante é de 3 KW. Para gerar um KW de energia são necessários 6.660 litros de água, ou 3 x 6.660 = 19.980 litros  gastos em energia. Essa água está armazenada nas represas longe de Brasília. Multiplicando-se por 3.000.000 de habitantes obtém-se um respeitável volume de 59.940.000.000. Essa água volta ao mar, mas as represas se esvaziam a ponto de chegar ao volume morto se não chover.
Racionamento e black out são as consequências.
Se quiser poupar água, apague a luz.

4ª REALIDADE:
ÁGUA DA CHUVA

A precipitação anual no DF varia entre 1.650 e 1.700 mm, ou 1.700 litros por m2. Ano mais, ano menos. (Dados do pluviômetro da ANA instalado do Sítio das Neves, DF.
A vazão média da Bacia do Paranaíba é de 11.453 m3/seg. Na estiagem pode baixar a um terço, 4.647 m3/seg.
A oferta total de água no DF é de 9 m3 p/seg. O consumo urbano, segundo a WWF, se iguala à oferta. Algumas áreas do DF têm escassez de água e muitos poços tubulares e artesianos secaram.
A precipitação irregular, a formação geológica, a impermeabilização intensiva, o desmatamento, as queimadas dificultam a infiltração para recarga dos aquíferos. A água que chega aos aquíferos apenas representa 5 a 12 % das precipitações.
1 mm = l litro/m2
150 mm equivalem a uma lâmina de água de 15 cm por m2. Se não houver bom escoamento, como no estreitamento dos córregos de nossas cidades, a inundação é fatal.
Precipitações em mm equivalentes em litros por m2, registrado no pluviômetro da ANA, instalado no Sítio das Neves, BR 060, Km 26, Engenho das Lajes, Recanto das Emas são as seguintes:
2013 – 2.255 mm ou 2.255 l/m2. Lâmina de 2,2 m/altura
2014 – 1.677 mm ou 1.677 l/m2. Lâmina de 1.6 m/altura
2015 – 1.642 mm ou 1.642 l/m2. Lâmina de 1.6 m/altura
A diminuição do volume pluvial e a irregularidade das precipitações evidenciam a necessidade de captação de águas pluviais, na área rural e urbana.
A precipitação anual no DF pode alcançar 4,6 trilhões de litros, com média diária de 13 bilhões de litros. Estima-se que 80% dessa água rola rios abaixo.

Poços artesianos.
É a saída mais fácil para contornar a escassez de água, mas pode causar dificuldades futuras para a população. Poços tubulares, artesianos e cacimbas também secam. Medidas de prudência indicam que a captação de águas da chuva pode diminuir o risco de se ter, no futuro, água escassa e cara.
A Adasa registra a existência de 36.500 poços artesianos dos quais apenas 6.500 são registrados. Novas normas foram expedidas pela Adasa para licença e outorga de uso de água proveniente de poços artesianos.


5ª REALIDADE:
Água e Lixo

Lixo no chão: baixo indicador de educação e civilidade
A população de Brasília produz 3 milhões de kg de lixo por dia, o equivalente a um kg por habitante.
Para onde vai o lixo?
Céu aberto      (beira de rodovias         113 toneladas
Aterro controlado                              2.159 toneladas
Aterro sanitário                                      228 toneladas
Compostagem                                        521 toneladas
Incineração                                               23 toneladas

Como exemplo: do km zero da BR-060 ao km 9 há 23 pontos de lixo, além do esgoto a céu aberto. Por que não construir pontos de coleta em linha, de dois em dois km para, orientar a população a levar o lixo nesses abrigos?
Águas usadas, esgotos, lixo à beira das rodovias poluem córregos, rios, lagos e aquíferos.
Se ainda temos água, e cada dia menos, sua qualidade preocupa e as doenças dela proveniente trazem preocupação ao serviço de saúde pública. A proliferação do mosquito Aedes Aegypti e outras espécies é consequência de lixo e esgotos não tratados.


6ª REALIDADE:
Consórcio árvores-água.

As árvores captam aproximadamente um terço das águas da chuva
Aumentam a conta de poupança de água com a recarga dos aquíferos
Oxigenam o ar e melhoram a umidade
Dão sombra ao caminhante e são abrigo de pássaros.


GRITO REVOLUCIONÁRIO DO SÉC. XXI:
PLANTAR ÁRVORES!
Nas cidades satélites, nas margens das rodovias, à beira de nascentes, às margens dos córregos.

Leituras:
ÁGUA NO SÉCULO XXI, José Galizia Tundisi
ÁGUA NO TERCEIRO MILÊNIO, Vários Autores
ÁGUA COMO MATRIZ PEDAGÓGICA, Vera Catalão
EM BUSCA DA ÁGUA, Brian Richter
O RETORNO DAS ÁGUAS, Eugênio Giovenardi