terça-feira, 18 de outubro de 2016

SUPERPOVOAMENTO E SUPERPOPULAÇÃO

(Publicado no Correi Braziliense em 17.10.2016)

O avanço da superpopulação mundial vem sendo alertado pelo Clube de Roma desde 1972. Biólogos da Finlândia, na década de 1960, sinalizavam que a natureza nórdica já sofria de exaustão diante da exploração intensa de seus bens. As consequências do crescimento da população mundial tornaram-se mais agudas, especialmente para países pobres ou emergentes. Hoje, a pobreza, a fome, a falta de água, o desemprego e as guerras entre países provocam uma nova diáspora. Multidões estão fugindo de seus países e morrendo pelo caminho. O planeta sofre de superpopulação. Mas a superpopulação começa ao nosso lado. Seus efeitos são sentidos em nossas cidades, em nossas ruas, em nossas casas, em nossas florestas e rios, em nossas lavouras.
Quais são as indicações mais visíveis que apontam para a realidade da superpopulação tanto em países ricos quanto em nações pobres? A fome castiga quase um bilhão de pessoas em todos os países do mundo. A dificuldade de acesso diário à água potável sacrifica quase dois bilhões de humanos e milhões de outros seres vivos. O desemprego generalizado atinge países pobres e ricos. Os mortos e os exilados de guerras econômicas e religiosas e os expulsos de suas terras pelas mudanças climáticas compõem um retrato lúgubre da espécie humana.
Mais perto de nós, em quase todas as regiões do país, há sinais incontestes de superpovoamento urbano e indícios claros de superpopulação. Filas diárias às portas de hospitais. Prisões superlotadas. A busca angustiante da casa própria. A falta de creches para liberar as mães trabalhadoras de duas ou três jornadas de trabalho. O inchaço das cidades com sacrifício de áreas verdes. Milhares de famílias em situação de risco ambiental. Ruas entulhadas de carros. Esses acontecimentos do dia a dia parecem não dar ao cidadão perspectiva alguma de mudança.
Tenho comentado com alguns demógrafos sobre o tema da superpopulação. A primeira reação é dar uma resposta estatística. As taxas de crescimento, no Brasil, vêm caindo, reafirmam. Já tivemos, nas décadas de 1950 e 1960, taxas de crescimento de até 5%. Hoje, a taxa média de fecundidade, em nosso país, é de 1,94%. Isto quer dizer que uma mulher, em média, tem 1,94 filho. Não tem um jeito ridículo essa linguagem estatística que amputa parte do filho para dar a ilusão de um decréscimo do ritmo de reprodução? Em que lugar do mundo uma mulher tem um filho e um pedaço de outro?
Por que não falar da realidade da reprodução humana e localizar essa realidade no tempo e no espaço? Seria mais fácil discutir esse tema tabu conhecendo-se as circunstâncias, a cultura, a forma de relacionamento de um povo com a natureza diante da oferta de maiores ou menores condições de sobrevivência. Em que lugar, mulheres têm dois filhos ou nenhum? Em que lugar, mulheres têm quatro filhos? Em que lugares e em que circunstâncias, mulheres têm cinco ou mais filhos?
A média estatística enfraquece a realidade e limita a condução racional de uma política democrática e consciente de controle da natalidade humana, não só em benefício da espécie humana, como também em favor de todas as espécies vivas do planeta tanto vegetais quanto animais que constituem a biodiversidade do planeta. Nenhuma monocultura é desejável para o convívio harmonioso dos seres vivos.
O crescimento descontrolado da espécie humana com múltiplas e variadas necessidades, impõe medidas de sobrevivência para si em detrimento da sobrevivência das demais espécies vivas do planeta das quais depende. Os prenúncios, apesar dos contraceptivos, da urbanização e da tecnologia são de aumento da população para as próximas décadas, sem que se propicie, ao mesmo tempo, o acesso aos bens essenciais a quase metade dela.
Superpopulação não é apenas um fato numérico. É a relação entre o número de pessoas vivas, o complexo conjunto de suas necessidades básicas ou estimuladas e a capacidade das próprias instituições humanas de administrar grandes populações. Essa incapacidade de administrar se agrava com o aumento da população. Parte significativa dela não é igualitariamente atendida. O que se percebe é um atendimento seletivo, parcial e discriminatório mesmo com leis adequadas e vastos programas sociais.
O crescimento da população, no dia a dia, é quase imperceptível. No Distrito Federal, registram-se 125 nascimentos por dia, que somam, ao final do ano, 45 mil novos habitantes, número equivalente à população do Núcleo Bandeirante. Ou seja, nasce uma cidade satélite por ano, no DF, com necessidade de mais água, energia, alimentos, espaço físico, postos de vacinação, serviços médicos, fraldas, berços, roupas, sapatos.

Nesse ritmo, o DF, em dois anos, terá 200 mil habitantes a mais, sem contar os 20 mil imigrantes anuais, segundo a Codeplan. O avanço indiscriminado sobre as últimas áreas verdes e a urbanização descontrolada agravam as dificuldades administrativas e entorpecem a ação governamental. As habilidades institucionais para atender a todas as necessidades da população não crescem no mesmo passo do aumento da população. O limite da capacidade de suporte do DF já foi ultrapassado. Há que se rever a situação presente e prever o que nos espera nos próximos anos. O racionamento de água, neste ano, é um aviso claro de superpovoamento.  

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