segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

UM PAÍS SEM POLÍCIA


Você já pensou nisso? Nossa sociedade está organizada sobre um pilar “essencial” para o funcionamento dos serviços públicos e privados: a polícia. As leis decretadas, amadurecidas em séculos de civilização, não valem pela letra. Valem pela presença da polícia. Estamos acostumados a temer a polícia. Aprendemos na escola da rua a ter certeza de que é função da polícia garantir o cumprimento das leis. Diante de um roubo, a pergunta é imediata: onde está a polícia? Sem polícia o assalto, o ilícito, a contravenção são permitidos.
A extinção da polidez cidadã deixou lugar à polícia para proteger a polis. Evoluiu-se para trás. Nossa sexta potência econômica não foge à regra involutiva. A Costa Rica não tem exército. O rei da Suécia se mobiliza em bicicleta.
Mantemos como guarda-costas da sociedade inúmeras categorias descoordenadas de polícias públicas além de um exército paralelo de vigilância privada. Nossos edifícios estão protegidos por vigilantes, soldados armados, câmaras fotográficas, portas eletrônicas, alarmes. Segurança significa polícia ao lado. Educação, nesta ótica, nada tem a ver com segurança.
É tamanha a importância da polícia na agora sexta potência econômica mundial que nossa vida, nossa casa, nossa bicicleta, nossos tênis dependem da presença de um agente policial. A greve da polícia militar da Bahia escancarou as frágeis normas da convivência e do respeito à liberdade dos cidadãos. A paralisação da polícia militar provocou a convocação da força militar do exército. Sem polícia a sociedade não funciona.
Quando a repressão policial não é exercida visivelmente, em plena era democrática, o motorista estaciona o carro em lugar inadequado, ignora a sinalização do trânsito, dirigir bêbado. Sem polícia por perto, o cidadão se dá o direito de assaltar lojas e pessoas, depredar ônibus, incendiar mendigos, explodir caixas eletrônicos, estuprar meninos ou meninas e mil outras ações delinquentes.
Protegidos pela semiobscuridade dos gabinetes, onde o olho da vigilância policial não intimida, os legisladores e executivos forjam mensalões, aprovam superfaturamento de obras, aceitam polpudas propinas, encaminham favorecimentos legais, operam desvios de dinheiro público. A polícia especializada em roubos é chamada apenas para confirmar a delinquência que ficará impune.
Os morros do Rio de Janeiro estão “pacificados” com a presença permanente de tanques, metralhadoras e helicópteros do exército e da marinha. A pacificação não é um armistício entre contendores. É o domínio da força sobre as relações sociais. Nosso crescimento econômico e nosso PIB são “sustentáveis” com a segurança policial, não com a eficiência profissional e a educação cidadã fundamental.
Não basta aos governantes levar no colo milhões de pobres e miseráveis para encobrir as mazelas de nossa cultura cidadã e disfarçar o enriquecimento indecente da nova classe política desvairada.
Quanto mais cresce a desigualdade, e só não a vê quem não quer, ampliada pelo crescimento da população urbana, maior será a necessidade da ação e da repressão policial para que a letra da lei seja observada e as liberdades garantidas. O resultado está nas prisões superlotadas.
Os cidadãos podem escolher entre a liberdade fundamental que enobrece o ser humano ou o cassetete que o avilta. Sem essa escolha consciente dos cidadãos, gerada nas oficinas escolares, o país poderá passar à terceira potência econômica garantida por uma segurança policial mais numerosa, mais sofisticada e mais ameaçadora das liberdades individuais.

2 comentários:

Anônimo disse...

Sr.Eugênio
Deixe seu sitio sem um bom cachorro de guarda e verás se ele continuará a salvo dos marginais.Assim é um país...sem exército para mostrar que tem um cão de guarda a protege-lo será tomado sem pestanejar pelos outros países mais fortes....
Os ideais do passado são verdadeiras utopias, ou grandes mentiras ou quem sabe até grandes desculpas para se ter o aproveitamento do êxito.....e o mais interessante é que se acredita na máscara que se criou...

Anônimo disse...

Prezado anônimo,

Agradeço a leitura de meus comentários.

Enquanto precisarmos de polícia armada é porque a força do espírito cede lugar ao espírito da força.

Polícia para os que precisam de polícia.

Meu Sítio foi roubado três vezes, apesar dos cachorros e da polícia a menos de três quilômetros.

Tornar a polícia imprescindível na construção de uma sociedade inteligente é renunciar à própria inteligência.

Não podemos nos conformar com o atraso.

As utopias fazem bem à saúde. Elas não são máscaras. São prenúncios de que se pode melhorar a convivência entre todos os seres vivos.