sábado, 30 de outubro de 2010

DE PERNAS PARA O AR



DE PERNAS PARA O AR

Manuelzinho é meu auxiliar na manutenção do funcionamento da Biblioteca Popular do Engenho das Lajes, localidade pobre e afastada, nos limites fronteiriços do Distrito Federal com o estado de Goiás, a 50 quilômetros do Palácio do Planalto.
É muito prestativo e tem bons comentários sobre temas essenciais como honestidade, retidão, moralidade política, vida familiar, religião. Não terminou, em criança, a escola primária por razões próprias de um país grande, com população maior do que a possível capacidade de ser atendida. Está desempregado, pois não tem especialização alguma e passou dos 40 anos.
Sua tarefa é limpar a sala, tirar o pó das estantes e dos livros. Nesse processo de limpeza, de retirar os livros e recolocá-los repete-se um fato inexplicável. O curioso é que os livros voltam ao lugar de cabeça para baixo. Já havia notado várias vezes que, nas estantes da biblioteca de minha casa, a diarista comete o mesmo ato. Mostrei a ambos o lado correto e em qual posição devem estar os livros depois de limpos.
- Veja, Manuel, o dorso do livro fica para fora e, esta parte, onde está o título da obra e o nome do autor, põe-se para cima.
Disse o mesmo, várias vezes, à diarista. Dias atrás, uma leitora procurava um livro de poesia. Fui à estante para lhe mostrar a possível obra. Todos os livros estavam de cabeça para baixo.
Pedi a atenção de Manuelzinho. Olhou-me e se escusou: "Acho que me enganei". A resposta não me convenceu. É difícil mesmo saber qual é a explicação. Pode ser simplesmente um gesto automático que vem do trabalho que ambos, Manuelzinho e a diarista, praticam. O tijolo que ele assenta tem dois lados. Talvez não faça diferença o lado que escolher.
As cadeiras que a diarista afasta da mesa para limpar o chão não tem ordem determinada. Todas são iguais. A troca de lugar não altera o resultado
O livro é tratado da mesma forma, desde que volte para a prateleira e a qualquer prateleira.
Embora eu tenha separado poesia, prosa, geografia, história, isto não é tomado com o mesmo rigor nem compromete para eles a harmonia e a amizade dos livros.
Não tenho opinião formada, ainda, sobre esse fenômeno. São especulações, até eu conseguir a verdadeira razão. O fato é que a falta de familiaridade com os livros os faz ver o mundo de pernas para o ar. A resposta de Manuelzinho, constrangido de seu ato, não me convenceu. Ele mesmo não sabia explicar como isso acontecera.
Minha hipótese, observando os rumos de nossa política e os métodos de educação generalizados, é que o analfabeto vê o mundo de pernas para o ar. O livro é um pequeno mundo de pernas para o ar. Alfabetizar-se, ler e fazer contas é endireitar o mundo. É pôr o mundo de cabeça para cima. Esta é a finalidade da biblioteca. Manuelzinho ainda vai ver o mundo com os pés no chão e de cabeça para cima.
Esta incapacidade primitiva de distinguir o em cima e o embaixo resulta em trabalhos mal-acabados de pedreiros, marceneiros, pintores, digitadores, diaristas, administradores públicos, professores e vendedores de equipamentos de alta tecnologia. O “mais ou menos” ainda é uma regra observada com espontaneidade pela maioria dos prestadores de serviços. Chegaremos, um dia, à perfeição de aceitar que a linha reta é a menor distância entre dois pontos, mas, por enquanto, não é a mais fácil de traçar.

Um comentário:

Wílon disse...

OI, Eugênio,
Gostei da crônica. Só faltou você dizer qual foi a "explicação" do Manuelzinho para o fato dele colocar os livros de cabeça para baixo. Acho que é um detalhe importante para compreender o fato. Na minha opinião, talvez o mais importante. Também faltou dizer o que diz a diarista? Será que você pode dizer pra nós, leitores, ou, ao menos para mim, um curioso? Abs. Wílon 99752121