quinta-feira, 15 de novembro de 2007

O GOVERNADOR E O CARDEAL

Os jornais de outubro estamparam duas declarações.
Uma, do poder laico, sem estratégias eficazes nem capacidade administrativa para resolver conflitos sociais: “Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal”. O Governador do Rio de Janeiro acredita que o aborto é uma arma contra a violência. Ao diminuir a população, reduz-se o número de criminosos potenciais
A segunda, do poder religioso, defende a existência dos pobres, enquanto o governo não faz o que deve: “Essas declarações do Governador são muito graves. Refletem um profundo preconceito e supõem que, para ele, a solução para a violência é a eliminação dos pobres”. O Cardeal Scherer se acomoda na frase evangélica: pobres sempre os tereis convosco.
Em seguida, outros comentários repetem os chavões de sempre. Filho de pobre é bandido, de rico, não, induzindo a concluir que, num país rico, não há violência nem corrupção. O foco da discussão parece ser outro. Não é durante a gestação nem depois dela que o poder laico e o poder religioso deviam se preocupar. É antes dela. Em matéria de aborto, não há que se privilegiar rico ou pobre. Abortos são freqüentes em todos os grupos sociais, em todas as idades, dos 13 aos 50 anos. Eles vão continuar, com ou sem lei do aborto legal, em maior ou menor intensidade, dependendo da pressão das circunstancias.
O ponto central do debate é o progressivo crescimento da população, mesmo que com índices mais baixos. O país não tem estratégias eficazes nem capacidade administrativa para atender a grandes populações. Governar um país é administrar sua população e não apenas promover o crescimento econômico como valor final de acumulação de riqueza monetária. Não é segredo de justiça que as populações marginadas do desenvolvimento do país aumentam duas vezes mais do que a parte rica. E é a população pobre a maior vítima do desemprego e subembrego. A batalha de estreitar a distancia entre pobres e ricos parece perdida, a médio prazo.
A economia brasileira está dirigida a menos de um terço da população. Os outros dois terços, sustentados por programas de emergência e salários mínimos, recebem, segundo o discurso oficial, a ajuda suficiente e necessária para sentir-se satisfeitos, à margem da grande economia e contentar-se com as sobras do banquete.
Enquanto se aprimoram os meios e as habilidades para prender e matar cidadãos, a batalha contra as desigualdades sociais está perdida. O governo, o poder laico e o religioso estão dando provas de que não têm força nem meios de aplicar as leis de combate às atividades ilícitas dos bandidos ricos e dos ditos marginais. Na ilicitude, há cumplicidade entre eles. Um consome a droga, outro fornece. Um vende a arma, outro dispara.
A superpopulação brasileira derrotou o poder laico e o poder religioso, o governador e o cardeal. O desordenado crescimento da população brasileira é um erro histórico perpetrado por ambos e que lhes tira o sono. Seremos dois Brasis por mais cem anos, um com medo do outro.
Os resultados mais evidentes da construção da segurança para a sociedade se refletem no aumento de prisões e de covas nos cemitérios. A prioridade da educação é, ainda, uma peça de retórica, sustentada por estatísticas que não refletem a essencial realidade da maioria da população brasileira.

2 comentários:

R disse...

Prezado Observador,

parabens pela iniciativa do blog! Alguns textos já tinha visto no seu jornal. Vai postando aí que estamos 'ligados", ok?

Quanto a este último texto, como socióloga e também observadora, gostaria de fazer algumas reflexões a respeito de pobreza.

Tenho de comecar (obs. meu teclado é lá da terrinha, não vem com cedilha) a dizer que se eu soubesse solucionar a questão, já o teria feito faz tempo. Porém, tenho algumas idéias a respeito.

Como você mostra no texto, o crescimento econômico não solve o problema pelo fato de que os pobres sempre ficarão recebendo apenas as migalhas, "os restos do banquete". Entretanto, é imprenscindível. Não posso imaginar um país extremamente pobre que simplesmente não tenha recursos financeiros solucionar pobreza. De qualquer maneira, crescimento econômico só pode ajudar os pobres caso seja igual. E até no melhor da hipóteses leva décadas.

Pois bem, o que poderíamos fazer? A segunda proposta é a educacão. Certamente uma opcão viável e louvável. Porém, demorado. Supondo que a escola brasileira a partir de agora atingisse o "padrão finlandês" ainda levaria no mínimo 12 anos para os primeiros sairem bem formados e ainda algumas geracões até todos seriam inseridos no mercado de trabalho. Este hipótse, portanto, também, não soluciona a questão a médio prazo.

Por último, resta então os programas de transferência de renda, como Bolsa Família no caso brasileiro. Na Europa os direitos sociais em termos de assistencialismo foram conquistas por meio de lutas no séc. 19, o Brasil ainda espera providenciar os servicos básicos aos seus cidadãos. Portanto, na minha modesta opinião, a média prazo os programas de transferência de renda são os únicos que podem dar conta de mitigar pobreza.

E agora minha pergunta: se estes programas conseguem - como eu coloco - mitigar a pobreza a média prazo, o que se pode fazer para erradicá-la?

Um abraco da amiga socióloga finlandesa do Sudoeste

O OBSERVADOR disse...

Raisa,
Agradeço seu comentário.
Considero que crescimento econômico ou produção de riqueza devem estar em função das necessidades básicas de toda a população de um país.
Por isso, o crescimento econômico capitalista criará forçosamente uma distância entre os donos do capital e os do trabalho.
Um regime social de produção e distribuição equitativa da riqueza, socialismo humano, é desejável. A resistência está nas raízes da natureza humana, ontologicamente individualista, centrada na sobrevivência pessoal e, em consqüência, voltada a acumular bens de sobra, não necessários à sobrevivência e reprodução da espécie.
Outros temas correlatos à pobreza são desigualdade e diferença.
Voltaremos a eles.