segunda-feira, 11 de junho de 2018

CACHOEIRINHA -


CACHOEIRINHA

SANTO ANTÔNIO DO DESCOBERTO

Caros Cícero, Prof. Jacy e amigos da Cachoeirinha.

Fiquei muito feliz de ter conhecido a área da Cachoeirinha e de ver a ação dedicada dos amigos que o Prof. Jacy Guimarães soube reunir ao redor de si, das águas, das plantas e dos habitantes nativos desse refúgio ecológico.
Minha percepção, como parte orgânica da natureza, ao caminhar pela área, observar e sentir as múltiplas vozes que vinham das grotas, dos altos, dos diferentes silêncios da mata, do murmúrio das cachoeiras, foi de que a alma daquele espaço expressava uma indisfarçável tristeza e um forte sentimento de decepção.
Não se assustem. É minha maneira de sentir e perceber os ecos profundos da natureza e compreender o que ela diz quando estou com ela.
Procurei interpretar esses ecos profundos e tentarei expressá-los, aqui, para futuras conversas com os participantes da caminhada de ontem (10.6.2018).
Primeiro, Cachoeirinha é uma área em atitude de defesa contra várias forças que atuam ao redor dela: cobiça de fazendeiros, avanço da urbanização, familiares desinteressados. Essas forças têm uma energia negativa e suscitam medo, preocupação e até indignação de quem as recebe. Estabelece-se, em contrapartida, o conflito. Busca-se um armamento em forma de soluções legais e burocráticas para defender-se contra essas forças externas.
Segundo, os sentimentos do conflito, do medo, da indignação, do tempo, infelizmente passam para a natureza que é solidária com seus defensores e reflete o medo, a tristeza, a decepção. A preocupação com a defesa reduz o espaço para a integração do afeto entre a biocomunidade natural e as pessoas que dela se aproximam. Grande parte da energia vai para executar ações de defesa e proteção para comprovar a solidariedade à Cachoeirinha e ao Prof. Jacy, no caso, um herói nessa guerra disfarçada. (É da natureza esse instinto de defesa. A mãe tigre, para defender os filhotes contra o chacal faminto, os esconde numa cova enquanto busca, durante dias, caçar uma presa. O tempo do amor é substituído pelo tempo da defesa. Os filhotes sofrem pela ausência da mãe e a mãe também.)
Terceiro, como superar a posição de defesa e alcançar um grau superior de parentesco com a biocomunidade? Como conciliar as ações de proteção às águas, às plantas e aos animais com a integração com os habitantes nativos por parte dos hóspedes eventuais de hoje e do futuro? Quero dizer, empreender ações que melhorem o fluxo de águas e fortaleçam as nascentes não substituem o abraço e a conversa com as plantas, as águas e bichos. Transformar o estado jurídico da área não propiciará, necessariamente, uma atitude de afeto aos gestores em perspectiva. Ao compreender os ecos profundos da natureza, escrevi um pequeno livro As árvores falam. Para ouvi-las é preciso conhecer seu idioma.
Estes comentários expressam tão somente a relação orgânica que existe entre todos os seres vivos de um espaço. As árvores nos transmitem sentimentos de paz, de serenidade, de paciência, de energia e força. Nós transmitimos à natureza nossos sentimentos de amor, de felicidade, de ódio, de desprezo, de cobiça, de indiferença. Ao penetrar num espaço natural é preciso pisar com cuidado e não interromper o diálogo permanente de seus habitantes.
O ponto central é, a meu ver, como passar da defesa da Cachoeirinha à integração das pessoas que hoje ou no futuro terão com ela. Como passar da defesa explicita ao afeto explícito da fraternidade natural? Eis a questão que me orienta no convívio com a área da qual sou hóspede: Biocomunidade do Sítio das Neves. Proponho-me pagar a felicidade que me dá o sorriso das árvores e o murmúrio das águas com afeto explícito. Entrar feliz na casa que me hospeda e dela sair feliz.
O diálogo convivial com a natureza, sem saibro de superioridade sapiens, é tarefa de aprendizagem permanente.
Meu desejo é que cheguemos a esse clímax de nobreza humana.
A todos, meu carinho e solidariedade.
Eugênio Giovenardi
Biocomunidade Sítio das Neves
11.6.2018


3 comentários:

Anônimo disse...

teste

Anônimo disse...

Boa Noite
Gostaria de agradecer em nome do Prof. Jacy e amigos da Cachoeirinha, ao prof. Dr> Eugênio por sua disponibilidade em nos repassar suas técnicas de conservaço, preservacao e cuidado com a Natureza e especial com a água. A tecnica do Arco Romano, traz grande ajuda a natureza e especial a conservaçao e preservaçao da agua, pois reduz a velocidade da agua nas grota, retendo os sedimentos que seriam carreados ao rio. O evento realizado na Reserva Cachoeirinha foi um sucesso, tanto de aprendizado como de integracao, entre os presentes e a natureza em sua plenitude. Agradecemos aos 16 participantes da atividade, e nos comprometemos em construirmos outros Arcos Romanos em varias grotas da Cachoeirinha.Nossa gratidao ao prof.Eugenio. Conte com nossa ajuda caso precise em uma atividade no sitio das Neves. Cicero Ramos

Unknown disse...

Professor Eugênio,

Suas observações sobre a Cachoeirinha me fizeram refletir um bocado. Talvez porque já conviva ali há bastante tempo, talvez porque não tenha aguçado tanto essa percepção, o fato é que sinto profunda paz e contentamento quando cuido e me dedico às árvores, águas e todos que vivem ali. Por isso inicialmente estranhei sua percepção.
Mas é um novo olhar. O sentimento de alguém que ouve as árvores, entrando pela primeira vez na Cachoeirinha. Então algo a ser levado a sério!
Vamos prestar mais atenção ao carinho com/da natureza ali, à contemplação da maravilhosa área de Cerrado daquela terra, às conquistas que já fizemos na recuperação da vegetação e nos avanços que temos feito na proteção da reserva.
Não há como deixarmos de lado questões como a batalha jurídica e o esforço de convencimento das várias partes envolvidas, mas essas são apenas algumas facetas do trabalho. E há outras bem mais prazerosas. Que tal darmos mais atenção a estas!
Obrigada por sua visita e por suas reflexões.

Abraços,

Cristina.