quarta-feira, 15 de abril de 2026

REFAZIMENTO DO CERRADO

 

REFAZIMENTO DO CERRADO – 21 DE ABRIL DE 1960

66 ANOS DEPOIS 2026

Eugênio Giovenardi, Filósofo, Sociólogo, Escritor.

 

LAGO PARANOÁ E OUTROS LAGOS

Alerta sobre as águas do Lago Paranoá.

Das águas cristalinas da Missão Cruls

ao depósito de águas usadas e contaminadas.

 

Cientistas e ecologistas experientes anunciam alertas, há mais de 50 anos (Conferência de Estocolmo, 1972), sobre as manifestações dos fenômenos físicos de alto poder destruidor que afetam todos os seres vivos.  Espera-se pela tragédia? Ou é possível e urgente um diálogo inteligente com a natureza das coisas? Alguns aspectos desses alertas podem ser enfatizados, para melhor compreensão dos consumidores humanos em suas múltiplas e diferentes atividades necessárias à manutenção da vida. O tempo da natureza não é o tempo de uma espécie viva. É o tempo incomensurável da manutenção da teia do milagre inexplicável da vida.

Minhas observações, ao longo de 52 anos, atinentes à regeneração de uma área degradada de 70 hectares de Cerrado, no Distrito Federal, somam-se aos alertas de especialistas e a explicações dadas por órgãos oficiais. Reter sabiamente, no solo, as águas da chuva é um dos segredos da regeneração dos ecossistemas. Água é o elemento essencial para manutenção da vida. É a prioridade das prioridades. Não há pão sem água. O Lago Paranoá e outras represas que oferecem água potável sofrem a influência de quatro elementos essenciais à vida, à saúde e à reprodução da biodiversidade. Esses elementos não são devidamente relacionados ao se examinar o grau de contaminação das águas. Grandes estruturas, como as represas, construídas pelo engenho humano, para acumular águas em benefício de todos os seres vivos, podem ser enganosas porque mostram volumes aparentemente inesgotáveis.

A natureza, compreendida pela ecologia, se expressa pela linguagem dos ecossistemas que se apresentam com elementos interligados, interativos e interdependentes: solo, subsolo, água, ar, temperatura. Qualquer atividade humana que altere o estado natural do solo repercute sobre todos os elementos do ecossistema e afeta a teia da vida de todos os seres vivos que nele vivem.

A generosidade do bioma Cerrado, como caixa d´água do Brasil, palco da interiorização da capital do país, foi surpreendida pelo ímpeto da migração e crescimento da população. O bioma e os ecossistemas locais que abrigavam, na década de 1950, 12 mil habitantes, no curso de 66 anos, sofrem o impacto abrupto e continuado de três milhões de pessoas. O aumento da população, a intensa urbanização, o manejo descontrolado do território e o desnudamento de terras para exploração agrícola, agravado por queimadas sazonais, alteraram a fisionomia geológica e geográfica regional. Em consequência, romperam-se gravemente as relações interativas e interdependentes do solo, da água, do ar e da temperatura.

Primeiro ponto. Ocupação e uso do solo.

Os especialistas, ouvidos pela BBC News Brasil, foram unânimes em afirmar que, além das medidas para frear o aquecimento do planeta, será necessário pensar em planos de resiliência climática — ou seja, como adaptar moradias, bairros, cidades inteiras e campos de produção de alimentos a eventos como secas, tufões, tornados, inundações, ondas de calor, entre outros.

“No caso do Rio Grande do Sul, precisaremos pensar nos padrões de ocupação e nos tipos de estruturas que permitirão a gente conviver com essas cheias”, antevê engenheiro ambiental Pedro Frediani Jardim. “É o que já se está repensando. Nossos sistemas de proteção contra enchentes ou construção de pontes sobre rios, terão que ser reestudados com garantias de manutenção”, conclui ele.  

O volume de água das represas, em metros cúbicos, medido apenas com réguas estáticas, sem uso de sensores de alta precisão, tanto no Lago Paranoá, quanto na do Rio Descoberto e outros reservatórios situados no Distrito Federal, pode não corresponder à realidade. A extensão física do contorno e do espelho d’água não reflete o real volume do líquido armazenado. O assoreamento dos lagos e rios está sem controle. O estuário Guaíba, no contorno de Porto Alegre e da Lagoa dos Patos (RS), mostrou o resultado do acúmulo de terra levada pelos rios que descem da Serra Gaúcha.

No Distrito Federal, durante seis meses, milhares de metros cúbicos de água das chuvas são levados diretamente ou por dutos subterrâneos aos córregos e lagos. Além de inundar locais sem esgotamento adequado, as águas encontram caminho livre nas áreas urbanizadas, densamente impermeabilizadas, para arrastar aos córregos que alimentam os lagos, milhares de metros cúbicos de terra, mesclados com detritos vegetais e dejetos sólidos.

Segundo ponto. Filtragem das Águas

O grau de pureza da água do Lago Paranoá, demonstrado por sistemas de filtragem, ainda que considerados eficientes, não reflete a realidade da contaminação por fatores externos que se agregam ao volume diário recebido de águas usadas pela população. As águas que descem ao Lago, com vazão indefinida, provêm de córregos desprotegidos e contaminados em sua origem. Os múltiplos bueiros de esgotamento, de difícil manutenção e limpeza, despejam águas usadas nos lagos e represas provenientes de milhares de imóveis de habitação e trabalho, de restaurantes, escolas, hospitais e postos de gasolina. Vive-se num ecossistema enfermo.

Os dados da Caesb ou da Adasa estimam volumes médios por unidade residencial ou per capita, mas não indicam o fabuloso volume de líquido diário que abastece o Lago Paranoá e outros reservatórios. A média de consumo de água por habitante brasiliense, estimada por órgãos de controle hídrico, incluídos todos os serviços urbanos necessários à população, é de 160 litros. Por diferentes dutos, provenientes de banheiros residenciais, cozinhas, lavanderias, hotéis, hospitais, restaurantes, postos de gasolina e outros serviços de limpeza urbana são despejados no Lago Paranoá, diariamente, não menos de 800.000.000 de litros de água infectada de lixo líquido e sólido. A vazão das nascentes do Distrito Federal foi calculada, no período da construção de Brasília, em 9.300 litros, por segundo, o equivalente a 820.800.000 litros/dia. O déficit de água, no DF, é evidente. Milhares de poços artesianos, além do reuso das águas do Lago e da importação dispendiosa de milhares de metros cúbicos da Represa Corumbá IV (GO), complementam a oferta hídrica para diferentes demandas de três milhões de pessoas na cidade e no campo.

Terceiro ponto: Mananciais.

Nascentes e poços artesianos se complementam, mas conflitam. As nascentes morrem quando a vegetação nativa, cuja função é reter as águas da chuva, é eliminada. Os poços artesianos esgotam os aquíferos próximos às nascentes, quando a perfuração não é acompanhada de estudos geológicos para localização dos lagos interiores. No período chuvoso, que se estende por seis meses, as águas contaminadas, que não descem pelos bueiros, desembocam diretamente nos córregos e represas. Bilhões de litros (ou quilos) de água da chuva lavam milhares de prédios e milhões de folhas de árvores cobertas de poeira tóxica. Quilômetros de ruas em declive e áreas de estacionamentos arrastam ao Lago Paranoá, em toda sua vasta extensão, sem controle de filtros, areia, paus e pedras, lixo líquido e sólido, resíduos pulverizados de pneus, óleos lubrificantes deixados nas pistas por milhares de carros. A morfologia da cidade está desenhada, imprudentemente, para expulsar as águas da chuva.

Quarto ponto. Ar/vento.

Desmatamento prévio para exploração agrícola ou projeção da arquitetura urbana, altura e disposição dos prédios, influem e alteram a direção dos ventos. Os ventos não só levantam poeira como espalham elementos tóxicos e os depositam sobre o espelho do Lago ou são respirados pela população, sem filtros de purificação. A contaminação do ar chega sobre toda a extensão do Lago. Doenças respiratórias se infiltram em humanos e não humanos. Nossas casas não são à prova de contaminação diurna e noturna.

Quinto ponto. Luz/temperatura.

No período seco, entre maio e setembro, com clima frio ressequido, associado aos ventos do outono e do inverno, o consumo de água de todos os seres vivos aumenta, para repor a perda hídrica do organismo. São meses de proliferação de doenças respiratórias. As queimadas costumeiras, a fumaça e as cinzas cobrem os espelhos de água e a vegetação, penetram nas residências e se alojam nos pulmões de humanos e não humanos. Nesse período, se opera direta ou indiretamente, pela ação humana uma dupla contaminação nos organismos vivos em todas as águas desprotegidas e na inspiração do ar poluído. Água é vida! Água contaminada gera doenças fatais.

 

O Estado tem o poderio e o poder. O Estado é uma nação de pessoas. O Estado é um pai que manda, permite, controla, reprime, julga, condena, absolve. A cara do pai muda, mas a do Estado, não. Mudam, para bem ou para mal, os que administram o Estado.


Nenhum comentário: