domingo, 8 de fevereiro de 2015

VILÃO HÍDIRCO


(Foto: vocesabia)

Retoma-se a discussão para apontar quais são os setores que mais consomem água. O vilão, nas estatísticas, sempre foi a agricultura, com 72% da água diretamente consumida pela espécie humana. Poucos relacionam o consumo de energia ao consumo da água. Esquece-se até que a água produz energia elétrica fazendo rodar geradores.
Para gerar um KW de energia são necessários 6.660 litros de água, segundo os medidores de usinas hidrelétricas. Em nosso apartamento (duas pessoas), consomem-se, em média, 210 KW/mês. Convertidos em água, somam 1.400.000 litros. Além do consumo relativo à energia, há outras atividades da casa e dos moradores que requerem água, numa proporção de 150 litros per capita, ou mais 9.000 litros. É evidente que a redução do consumo de água deve se dirigir ao uso da energia elétrica.
Nas cidades, vivem 80% da população. Não será o cidadão urbano o vilão escondido que está esvaziando as represas?
As informações sobre uso e consumo de água, no Brasil, refletem apenas os dados coletados em algumas categorias de consumidores e suas atividades. Esses dados refletem o uso direto de água pelas pessoas e nas atividades econômicas. Poucas ou raríssimas vezes faz-se relação entre o uso da água e tamanho da população.
Todas as categorias mencionadas nos relatórios estatísticos são aspectos de um único usuário final da água: o cidadão. A água gasta para produzir automóveis, ou soja, ou leite, ou carne tem como objetivo final a sobrevivência, a reprodução e o bem-estar da população. Por exemplo: que volume de água é necessário para construir um automóvel que será usado pelo cidadão? Que volume de água é necessário para levar um bovino aos 400 quilos? Na agricultura, o mais nefasto talvez não seja o que se tira do subsolo, mas o que nele se introduz poluindo águas.
Uma importante relação entre água e energia é feita de maneira a encobrir a realidade dos dados apresentados. É verdade que todas as atividades humanas poderiam ser realizadas com menos consumo de água. Na agricultura, na fabricação de automóveis, na construção civil gasta-se mais água do que é mencionado nas estatísticas. Por quê? Porque não se faz a relação entre água e geração de energia elétrica.
Alguns exemplos podem ilustrar o verdadeiro volume de água gasta em algumas atividades. Vamos aceitar um dado referencial mencionado por cientistas da produção de energia elétrica: 6.660 litros de água para produzir um KW.
Um horticultor que irrigue um hectare de hortaliças com 10.000 litros de águas (1 l/m2) e use um motor elétrico que gaste 10 KW por dia. O consumo direto de água será acrescido de 66.660 litros que se referem indiretamente à produção de energia. Nesse dia, o horticultor gastará 76.660 litros ou 76 m3. Se só utilizar esse volume durante 52 semanas (um ano) seu consumo de água para oferecer hortaliças ao Ceasa será de 3,98 milhões de litros ou 3,98 mil m3.
O horticultor é um cidadão comum e usa água para outras finalidades do dia a dia. Como todo cidadão tem “direito” a 120 litros/dia. Terá consumido, no ano, 43.800 litros ou 43 m3. Somado o custo de 60 KW mês que gasta para diferentes fins, o consumo de água se acresce de 4,7 milhões de litros ou 4,7 mil m3. O consumo anual de água do cidadão, direta e indiretamente, estará próximo a 4,9 milhões de litros ou 4,9 mil m3.
Em conclusão: para produzir hortaliças, gasta 3,98 mil m3. Para satisfazer suas necessidades individuais, gasta 4,91 mil m3, num total de 8,89 mil m3.
Em ambos gastos, o consumo indireto de água é maior do que o consumo direto. Fato que induz a que a redução do consumo de água depende da redução do consumo de energia gerada pela água.

Um comentário:

Rafael Bernardes disse...

Excelente Blogger.
Conhecí hoje e não consegui parar de ler, este Eugênio Pedro Giovenardi manda bem demais.
Aprendi muito e espero multiplicar estas informações pelos caminhos que irei percorrer.