terça-feira, 15 de abril de 2014

CIDADE– PARQUE











A esmagadora maioria dos que vieram morar em Brasília o fez por mil razões compreensíveis, menos por querer habitar conscientemente numa cidade-parque.

Parque da cidade ou cidade-parque? Este último é um aposto que identifica  a cidade de Brasília, capital da República Federativa do Brasil. Brasília cidade-parque é Patrimônio Cultural da Humanidade.
Há parques famosos, uns mais conhecidos do que outros. Distinguem-se por si mesmos e têm vida e luz própria. Jardim de Luxemburgo, Paris, criado pela rainha Maria de Medici. O Hyde Park (Londres), o National Park (NY) estão entre os mais conhecidos. São parques, praças e ruas que compõem o conjunto das cidades em que se localizam como a Place Clichy (Paris) ou 5ª Avenida (NY).
Brasília é diferente e única. Brasília é o parque. O morador de Brasília vive no parque, embora tenha um parque suplementar; o Parque da Cidade. Diz-se que no Brasil tudo acaba em pizza. Pela nossa inconstância crônica, pelo jeitinho esperto, fácil e preguiçoso, a cidade-parque não passou dos limites do Plano Piloto.
O sonho de Lúcio Costa, ao projetar a cidade-parque sugerindo árvores majestosas consorciadas a outras menores, começou com o equívoco consciente de arrasar as espécies nativas e extinguir a biodiversidade vegetal já adaptada nesta região há milênios.
A escala bucólica ganhou duas faces: a periférica nativa, sujeita a fogo e a lixo e a arborizada em torno da escala residencial. Ao incluir no projeto urbanístico as escalas gregária e monumental, a cidade-parque ganhou a primeira poda conceitual. Os edifícios monumentais da Esplanada, longa, horizontal e gigantesca não deveriam ter sua majestade molestada pela trivial galhada de árvores plebeias.
Com a consistente e persistente imagem urbana de que Brasília é essencialmente o Plano Piloto, e pelo efeito pizza, os bairros ou cidades-satélites não foram abrangidos pelo conceito de cidade-parque.
Presumo que a esmagadora maioria dos que vieram morar em Brasília o fez por mil razões compreensíveis, menos por querer habitar conscientemente numa cidade-parque. Não é de estranhar que os habitantes de Brasília, seus administradores, todas as energias econômicas e políticas disponíveis tentem adaptar a cidade ao cidadão e não conciliar o cidadão ao conceito de cidade-parque. Um conflito quase insuperável. Assim, a grande maioria dos habitantes de Brasília trocou apenas de cidade. Trata-se a cidade-parque com métodos e comportamentos velhos e roceiros. Transferem-se para Brasília os vícios e as virtudes da cidade de origem. Para o moderno habitante de Brasília, árvore, facão, machado e motosserra têm tudo a ver.
Para mascarar a ignorância sobre o novo conceito de cidade-parque inventam-se termos: engessamento, puxadinhos, adensamento, PPCUP, LUOS.
Em conclusão, o conceito internacionalmente reconhecido de cidade-parque monumental deveria ter gerado, desde seu início, um órgão administrativo com autoridade e poder autônomos, como o Ateliê de Planification Urbaine de Paris (APUP). Esse órgão técnico garantiria a consistência e a permanência do equilíbrio entre urbanização e parque, e o intercâmbio saudável entre a vida humana e a vida vegetal.
O essencial urbanístico, em Brasília, que identifica o cidadão brasiliense e sua organização, é preservar a nova forma de convivência social e a beleza acolhedora da cidade dentro de um parque tão essencial quanto a cidade. Falta incluir todos os bairros de Brasília – as cidades-satélites – no conceito de cidade-parque.

11.4.2014

segunda-feira, 7 de abril de 2014

SÍNDROME DO SENHORIO


Entro numa farmácia para comprar um medicamento controlado.
Farmácia também vende crédito para telefone pré-pago. Na Colômbia, drogarias vendem bebidas alcoólicas. Também são drogas.
O atendente voltou com o remédio solicitado. Antes que pudesse me perguntar se era só isso que eu queria, uma senhora entre 40 e 45 anos, da nova classe média, se antecipou com um telefone supermoderno na mão.
– Pode me botar dez reais de crédito? – disse oferecendo o aparelho ao atendente.
O moço, sozinho no balcão, apresentou a máquina Cielo à senhora e lhe pediu que compusesse o número. Ela compôs, lentamente, sem o indicativo de Brasília e a máquina não o reconheceu: número inválido.
O atendente lhe pediu que refizesse a operação e começasse com o indicativo 61. Irritada, a senhora, do alto de sua tecnologia celular, repreendeu o moço.
– Por que você mesmo não põe o número. Você está aqui para quê?
A senhora deve ter ouvido essa pergunta muitas vezes no curso da escravidão.
Ela tinha todos os sinais de que fora escrava até dias antes de comprar ou ganhar o telefone celular. Agora, estava um degrau acima, graças ao telefone e passara automaticamente para a categoria de senhora. O atendente desconhecido passou a ser um anônimo serviçal. Está aí para quê?

Não há prazer maior, ainda que mesquinho, do que ser servido por um subordinado ou escravo. 

sábado, 5 de abril de 2014

ALERTAS CLIMÁTICOS


 
Nestes dias, o relatório das mudanças climáticas deveria produzir o impacto de um terremoto. Estamos vivendo a mudança climática em várias regiões do nosso país. Chuvas diluvianas no Norte. Escassez de água no Sudeste com ênfase na grande São Paulo.
Os especialistas se detêm no atraso das chuvas e no alto consumo de água que esgotou a represa Cantareira, tida como reserva controladora do abastecimento, diante de instabilidades pluviais.
Regular, racionalizar e até racionar o consumo são medidas em perspectiva que assustam os administradores e políticos sob a mira de reações populares em época de eleições.
Chegamos atrasados em todas as medidas e análises referentes à água. Os pontos irreversíveis que provocaram a escassez de água são clamorosos e de difícil solução.
A ocupação desordenada e descontrolada das áreas adjacentes aos mananciais provocou a derrubada da vegetação natural. A diversidade e a densidade vegetal nas encostas e vales captavam e detinham as águas da chuva, alimentavam e protegiam os mananciais existentes na serra.
A urbanização mudou o ambiente. Influiu nos índices de umidade e na direção dos ventos. Impermeabilizou o solo e redirecionou o curso das águas. A cidade de São Paulo continua sendo inundada por qualquer chuva mediana.
A preocupação maior dos administradores e especialistas é com o consumo de água de 20 milhões de habitantes empilhados numa área relativamente exígua.
Falta levar à prática, e já é tarde, estudos e projetos de captação, armazenamento e intercomunicação de reservatórios. A extensão e a densidade da ocupação urbana não podem ser obstáculos insuperáveis para uma captação inteligente de águas pluviais.
Investem-se imensos recursos monetários e com indiscutível velocidade para construir estádios de futebol sob a nova denominação romana de arenas.
Com respeito às águas, orgulha-se a administração do país de erguer enormes e desafiadoras estruturas de contenção de águas rio abaixo. Poucos olham rio acima para descobrir que os grandes rios nascem de um olho d’água atacado de cegueira.
Água não pode ser dissociada do superpovoamento e da vegetação intensa necessária, especialmente nas encostas e vales, para proteger os mananciais.

Nas cidades, a preocupação maior da administração inteligente deveria ser, como em Tóquio, captar as águas da chuva em galerias subterrâneas e em canais alimentadores de represas.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

CRIATIVIDADE E COMPETIÇÃO ECONÔMICA


As propostas que economistas e cientistas sociais, biólogos e antropólogos oferecem à sociedade para humanizar a vida da espécie humana, corrigindo a compulsão do ter coisas em detrimento de ser, encontram barreiras surpreendentes.
Compreende-se que os ferrenhos adeptos do crescimento econômico sem limites cedam à ambição dos empreendedores e não aceitem freá-lo. Porém, os interlocutores mais delicados de se lidar são os que adotam um discurso de expressões ecológicas e ambientalistas ambíguas mescladas de velhos conceitos.
Um desses, que ainda está no meio do caminho do amadurecimento conceitual, afirmava com segurança, numa conversa entre amigos, que o capitalismo não é responsável pela desigualdade econômica e social, pois estimula abertamente a criatividade e a competição. A competição, segundo ele, é benéfica para a eficiência na produção de bens.
A invenção da roda, exemplo de criatividade antes do capitalismo, em épocas imemoriais, nasceu da necessidade de chegar a novos lugares e transportar alimentos de sobrevivência para reprodução da população tribal. A relação sobrevivência-criatividade tem a ver com o grupo tribal em toda sua extensão. A criatividade no crescimento econômico, baseada na superioridade de um povo sobre outros e na exploração sem limites dos bens naturais, pode levar à fabricação de aviões ou de celulares como de bombas atômicas ou equipamentos de destruição da humanidade.
Confunde-se, por comodismo mental, competição econômica, empresarial com exploração dos colaboradores do processo produtivo que são os trabalhadores e os consumidores de bens. Determina-se, em consequência, o lucro da atividade e do capital. Esse processo funcional garante a estabilidade econômica temporária com altos e baixos. Aumento do emprego e do consumo. Diminuição do consumo e desemprego. O impacto ecológico dessa atividade econômica linear é esquecido e os investidores quase sempre descuram do fato de a riqueza natural ser finita e de difícil regeneração.
A competição econômica não é o mesmo que competição social. A competição social é impulsionada pelas leis biológicas da sobrevivência e reprodução da espécie. A competição social e a cooperação entre os membros da mesma espécie são inerentes à essência da vida e ambas têm limites. Os limites são determinados pela consciência do eu e reconhecimento da consciência do outro.
A espécie humana é constituída geneticamente de igualdade estrutural. É esta igualdade estrutural que deve comandar a frágil e insegura igualdade funcional. A competição econômica ou “criatividade” mal-interpretada aponta para a igualdade funcional – todos podem colaborar para o crescimento econômico com emprego e renda – e facilmente descarrila para a submissão da maioria aos interesses da minoria.
A busca da igualdade funcional pela competição econômica é parte da utopia. A igualdade estrutural é inquebrantável porque é consequência da constituição biológica e psíquica do ser humano. Independe da igualdade funcional, embora esta possa contribuir e de fato contribui para o convívio feliz da espécie humana. A igualdade estrutural do ser humano pode ser ignorada pela ambição, manipulada pelo poder, por regimes políticos ou religiosos, mas não extinta. Ela surge com maior ou menor intensidade ao longo do tempo. Este é o ponto básico do qual deve partir toda a ação humana destinada à felicidade da espécie humana.
Ao perder o foco da igualdade estrutural, descamba-se para a utopia da igualdade funcional de ter coisas e ter posição fictícia ou real na sociedade para garantir a linearidade do crescimento econômico. O equívoco da igualdade funcional consolida a divisão de classes sociais. Todos ou a maioria podem ter carro, mas se estabelece ao mesmo tempo sólida diferença não só entre os carros em uso como entre as pessoas que o possuem.
A produção de bens para o conforto material da espécie humana, usando as capacidades técnicas e tecnológicas, as habilidades intelectuais, as energias e a força, pode alcançar altos níveis de prosperidade material sem atentar para a sobrevivência da biodiversidade necessária à vida.

A convivência social e a felicidade existencial da espécie humana dependem fundamentalmente da igualdade estrutural das pessoas e do respeito permanente aos limites da riqueza natural finita para a reprodução e sobrevivência de todos os seres vivos do planeta.

ÁGUAS DE MARÇO - 2014


 
No mês de março de 2014, a precipitação no Sítio das Neves medida pelo pluviômetro instalado pela Agência Nacional de Águas foi de 326,7 mm (326,7 litros por m2 , somando 228,6 milhões de litros de água sobre a área.
164,9 mm (164,9 litros por m2), somando 115,4 milhões de litros de água sobre a área.
Esse volume dá uma média diária de 7,6 litros por metro quadrado. As chuvas se distribuíram com mais ou menos precipitação durante quase todos os dias do mês A maior precipitação se deu no dia 8 alcançando 49 mm (49 litros por m2).
O volume total de água, no mês de março, 2014, foi menor do que a precipitação de março de 2013 que foi de 401,9 mm, isto é, 401,9 litros por metro quadrado. A média diária do mês de marco de 2013 alcançou 12,9mm litros por m2, superior à de março de 2014 com 5,8 mm por m2.

COMPARATIVO 2013/2014 (em mm) no Sítio das Neves
JANEIRO
2013
JANEIRO 2014
FEVEREIRO
2013
FEVEREIRO 2014
MARÇO 2013
MARÇO
2014
457,8
169,8
132,7
164,9
401,9
326,7

SEQUÊNCIA DE CHUVAS 2013/2014 (em mm)
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
Janeiro
Fevereiro
3,1
42,3
179,55
304,44
311,6
169,8
164,9

Março
TOTAL
326,7
1.599,49
Memória de cálculo: 1.599,49 mm X 700.000 m2  (área do Sítio)

De agosto 2013 até o fim de março de 2014, o Sítio das Neves recebeu 1.119.643.000 litros de água (1.119.643 m3) proporcionando excelente recarga dos aquíferos graças à vegetação intensa regenerada e ao sistema de barragens de captação, contenção e retenção das águas em todas as vertentes e canais de esgotamento.

O Distrito Federal foi fartamente agraciado pela chuva. Chuva não é pouca. Pouca é a inteligência humana para aproveitá-la em benefício da biodiversidade incluída nela a espécie humana. No mês de março o DF recebeu 1,897 trilhão de litros de água ou 1,897 bilhão de m3. Muito pouco dessas águas puderam se infiltras no solo para recarga dos aquíferos em razão da impermeabilidade urbana. A maior parte da água desceu para os córregos e ao Lago Paranoá arrastando todo o lixo que encontrou pela frente.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O PASSADO NO PRESENTE



O passado é a única testemunha do viver humano. Continua no presente e nada revela do futuro. Compõe-se de fatos imutáveis. Impassível, recebe interpretações diversas e controversas.
Podemos visitar o passado situado a milênios, a séculos ou a anos de distância. Aqui e hoje, lembramos marechais, generais e torturadores da ditadura militar, cujo golpe foi precedido de outros golpes preparatórios de contramanifestações de cunho moral e religioso e da atuação de personagens civis: Magalhães Pinto, Auro de Moura Andrade e Ranieri Mazzili.
São fatos e não se podem mudar os fatos. O Golpe Militar se deu. Parte da sociedade civil e religiosa o apoiou. Preferiu a força das armas ao diálogo democrático, ao aperfeiçoamento das instituições, à difícil tarefa de administrar a diversidade de propostas, necessidades e aspirações da população. Pretendeu impor a concretização da convivência social mantendo a desigualdade e controlando o irreprimível desejo humano de perceber e sentir a felicidade de viver em liberdade.
Ficaram no passado os vinte e um anos de ditadura militar. Há os que só têm passado e jamais terão presente. Nós podemos olhar o passado, que é parte de nós, e trazê-lo ao presente. Deixamos no sarcófago do passado a ditadura militar e a subserviência da sociedade que a aplaudiu.
Estamos vivos e temos o privilégio de olhar ao passado, aos que estão definitivamente no passado e aos que, do passado, iluminam nosso presente. O passado, que neste momento lembramos, decreta a vergonha e a infâmia de uns e ressuscita a amargura dos que sobreviveram. Amargura digna e criativa de uns. Indigna e destrutiva de outros.
Os personagens da ditadura militar demoliram instituições com atos institucionais. Censuraram a palavra, mas não puderam calar o pensamento nem antes, nem durante, nem depois que se homiziaram no passado. O país, entretanto, não pode viver a síndrome do passado.
O passado está a nos dizer que o presente pode e deve ser diferente e melhor. Um presente que seja de todos. Optamos pela democracia, infelizmente confinada à urna eleitoral. Na prática, a democracia está sendo cabresteada por várias formas de ditadura, isto é, sem a participação livre e consciente da maioria.
Democracia dominada pela ditadura econômica em mãos dos mais fortes que determinam preços, taxas e impostos. Pela ditadura financeira, em mãos de bancos especuladores que usam o dinheiro a seu bel-prazer. Pela ditadura administrativa, sem transparência, em mãos dos mais espertos e aproveitadores que privatizam a res publica. Pela ditadura ideológica da governabilidade em que se mistura o trigo ao joio de cuja farinha se produz um pão contaminado.
Optamos pela democracia. Há que passar de democracia representativa para a democracia participativa. Uma democracia ouvida. Hoje, para ser ouvido, apela-se desesperadamente para a queima de ônibus num país em que o transporte público depende de ônibus.
Há que democratizar a democracia. Há que romper o estatuto dos fatos consumados, das decisões de cima para baixo que determinam o que é bom e o que é ruim para a convivência igualitária.
Participar é exercer o pensamento. É questionar decisões antes que sejam tomadas. É desarticular esses conúbios teratológicos entre os interesses das oligarquias privadas e a administração pública. O impulso da participação tem que ser estimulado e organizado entre grupos de cidadãos, de baixo para cima, antes que os coletivos institucionais se apropriem de suas vontades, aspirações e desejos.
Podemos ter medo da rua pela insanidade do tráfego ou pela imprevisibilidade de sequestros. Não podemos ter medo da rua para expressar nosso pensamento e nossa vontade de participar nas decisões que se destinam a construir um presente que honrará nosso passado, o de nossos filhos e netos.


30.3.2014

sexta-feira, 28 de março de 2014

ANARQUISMO LITERÁRIO


 (Palestra proferida na Associação Nacional de Escritores)

Estas reflexões e comentários nasceram da observação e exame da imperiosa necessidade que pessoas como os escritores têm de declarar seus pensamentos e oferecê-los aos outros. Os fatos que acontecem ao seu redor, sem sua presença, ou os que têm sua participação não podem perder-se no silêncio. Há que divulgá-los, comentá-los, neles pôr sentimentos, poesia, ironia, humor.
Cabe, inicialmente, um esclarecimento sobre o título Anarquismo Literário. O termo (do grego an+arkhé=sem comando) foge à semântica política, à sintaxe do poder e ao simbolismo da organização social em sua vasta extensão. Refiro-me à estrutura cerebral anarquista do escritor e não à utopia anarquista de um escritor. Não é anarquismo na literatura, mas literatura livre de comandos, criativa e evolutiva. Ressalto a essência anárquica do escritor que revela pela palavra o que seu cérebro descobre.

*****
Os escritores compõem uma nação global. Regem-se com independência e liberdade, em qualquer país, em qualquer idioma. Formam a frente única da palavra, carimbo que identifica e distingue o homo sapiens de todas as demais formas de vida do planeta. A censura tem impedido a leitura, cortado mãos, mas não calará o pensamento.

No contexto proposto, desejo apenas sublinhar a independência, a autodeterminação e a liberdade arbitral de expressão do pensamento do escritor. Neste sentido, é anárquico. Não tem patrão nem governo além de sua consciência.
Não se há de estranhar, por isso, rebeliões contra a sintaxe, a regência de verbos e preposições, a fonética, a grafia ou contra o gênero literário dominante. Tentativas autoritárias também surgem no reino da gramática, do léxico, do calepino e na grafia da palavra. Há que aceitar que todo idioma, falado ou escrito, não será o mesmo em um século como não o foi a cinco.
Tem-se uma folha em branco e nela imprimem-se ideias, pensamentos, usando a mais poderosa arma – a palavra – sem proselitismo, livre das grades do gênero e da simples venda de receitas de felicidade.

O anarquismo está encravado nas raízes do desejo e da necessidade interiores de se religar ao outro que pertence ao mesmo corpo cultural, à mesma espécie dialogável, sem abdicar da autonomia. Está, ao mesmo tempo, relacionado à impotência, se não à frustração, de não conseguir expressar por inteiro e com intensidade verbal adequada os sentimentos que o cérebro produz.
A palavra, por vezes, é impotente, menor do que a grandeza do sentimento gerado nas circunvoluções cerebrais. A palavra não raro é infiel ao pensamento que o cérebro produz numa fração de segundo. Quando se busca a palavra o sinal se perde.
Apela-se, então, para a lágrima, o sorriso, o gesto, o Grito de Munch, à gargalhada do palhaço. Mais ainda. O impulso incontido de arrancar o pensamento das profundezas do cérebro se ampara, frequentemente, num estimulante exterior (droga ou álcool) capaz de liberá-lo das próprias amarras e das alheias para interpretar seus hieróglifos mentais. (O estado etílico de Elizabeth Bishop é apenas um caso entre milhares).

No ano passado, neste recinto, ouvimos, entre outros, Edmilson Caminha, Danilo Gomes, Anderson Braga Horta, José Rivera, João Carlos Taveira, Fábio de Souza Coutinho abordando e escavando as profundezas literárias de autores célebres, sua vida atribulada, suas angústias, seus truques originais para enganar e exorcizar os mil demônios que assolam o mundo e a mente das pessoas.

É divertido e até agradável especular sobre o que Machado de Assis quis ou não quis dizer, se Capitu deu ou não deu. Dar ou não dar, eis a questão.
Guimarães Rosa encontra no homem original, na periferia cultural da sociedade, inspiração para plasmar palavras, expressar sentimentos e vencer as barreiras da competição estabelecidas pela gramática social. Seu anarquismo literário criou seu estilo e sua estética comunicativa inimitável. Por isso sobrevive na lista dos que ultrapassaram o som de sua época.

Oscar Wilde (A alma do homem sob o socialismo), Victor Hugo (Os miseráveis), Graham Green (O terceiro homem) são exemplos, entre os grandes, de independência e liberdade literária escolhendo o tema e definindo o estilo.

Essa driblagem da semântica, da sintaxe, da fonética, essa virtude anárquica de ser dono de suas ideias e significados, de interpretar arriscadamente o comportamento alheio, de maquilar o próprio e preservar sua forma de expressão, faz do escritor um permanente desafio à crítica, aos rascunhistas de livros, aos editores e aos leitores.

É importante lembrar que os escritores de ontem e de hoje não são neófitos na arte de expressar o pensamento, relatar fatos com o toque da individualidade e da originalidade.
O escritor está na praça há, pelo menos, 40 mil anos. “O homem entrou (no universo) sem ruído”, sugeriu Teilhard de Chardin. Apareceu no meio de outras espécies que já ocupavam o universo. Pressentindo a continuidade milenar da espécie humana, colegas ainda iletrados deixaram ilustrações plasmadas nas cavernas, desde a simples e comovente impressão da mão direita na gruta de Roucadour ou desenhos na de Chauvet, a símbolos que identificavam seus feitos, seus sucessos, suas peripécias, suas tentativas de entender o universo, suas esperanças indefinidas. A linguagem rupestre conta a epopeia da sobrevivência, as vitórias do homo sapiens, ao longo de sua trajetória, sobrepondo-se às outras linhas evolutivas das quais compartilhava.

Desde cedo, o homo sapiens compreendeu que precisava de outros seres vivos para sobreviver e se reproduzir. Mas, principalmente, precisava de outros indivíduos semelhantes a ele para formar um grupo capaz de lançar-se, com a cooperação dos outros, à competição social.

Não se sabe em que circunstâncias e em que momento, ao longo de milhões de anos, o cérebro do homo sapiens tomou consciência de si, de ser, do próprio eu e dos outros eus.
Esse milagre cerebral marcou o momento histórico da virada. O homem saiu da pré-história e começou sua história. O homo sapiens descobriu-se e se identificou no outro que fugia dos mesmos perigos, abrigava-se das chuvas e dos ventos para sobreviver e reproduzir a espécie.
A evolução da espécie humana tomou um tremendo impulso quando a comunicação entre os eus se consubstanciou pela emissão da palavra. Por meio de vocábulos se consolidava o conhecimento do universo e se efetivava sua transmissão ao grupo mais próximo. Entrava o homo sapiens na fase avançada da identificação e nomenclatura das coisas e das pessoas.
Hoje, o planeta está povoado de pequenos grupos, de grandes grupos, de sociedades complexas, em permanente e indisfarçável cooperação e competição social. A estas se agregaram, milhares de anos mais tarde, a cooperação e a competição econômica, empresarial e tecnológica pela via do poder político sob os auspícios do poder religioso.
A sobrevivência do escritor depende de sua atitude cooperativa e competitiva dentro do grupo ao qual se une e entre os grupos que o cercam.


Dirijo-me, nesta conversa, ao grupo da ANE composto de vários grupos. Nesse grupo maior, nem todos se conhecem. Nem todos me conhecem. Grupos invisíveis se formam por afinidades de pensamento, mesmo que os componentes estejam distantes ou desaparecidos no tempo.
O escritor, em sua solidão ontológica, está cercado de grupos que formam, cada qual, um tipo especial de competição social na produção e sobrevivência literária: 

ESCRITOR OU
GRUPO DE ESCRITORES
EDITORES
LEITORES
CRÍTICOS
LIVREIROS
ANE
OUTRAS
ASSOC.
NÃO LEITORES
 

      O diagrama mostra a ANE e grupos de escritores com sua idiossincrasia e relacionamentos específicos, visíveis e/ou invisíveis, com vivos ou com mortos. Não seria de estranhar que se manifestassem controvérsias, rebeliões mentais, oposição a decisões dentro e fora da ANE por grupos que a compõem. O princípio anarquista da mente comunicativa persiste no processo cooperativo por força da competição social para sobreviver num grupo cercado de grupos.

Cada escritor ou grupo de escritores afins são cercados pela própria associação ANE e por:
Grupos de escritores que pertencem a outras academias e associações de cooperação e competição literária.
Grupos de leitores que expressam suas preferências e acirram a competição social do escritor.
Grupos de críticos ou pretensos críticos literários que, consciente ou inconscientemente, favorecem escritores e enfraquecem outros.
Grupos de livreiros para quem o livro é um produto comercial como a batata ou o caviar com seu marketing específico.
Grupos de editores que veem no livro um investimento lucrativo ou ideológico.
Grupo vasto de não leitores para os quais o escritor é um espírito invisível e, o livro, um misterioso retângulo fabricado em série por máquinas inteligentes.
Cada grupo tem suas regras, seus códigos, seu juízo de valor. Há que se livrar de todos eles para escrever. Mas há que, de alguma forma, dialogar com todos eles para ser lido ou ouvido. Competir com eles para sobreviver.

A OBRA


Acuado por tantos grupos, o cérebro do escritor emite comandos, planeja ações, cria personagens, controla seus comportamentos, é juiz, réu e polícia. É pai e mãe. Premia e castiga. Entra em êxtase poético ou deprime-se ao olhar estrelas sem poder alcançá-las. Denuncia injustiças, propõe armistícios. É esta virtude anárquica que faz a grandeza do escritor. O anarquismo do bem, na linguagem do maniqueísmo político moderno.

Pratica esta virtude quando escreve. E, quando escreve, se denuncia e, no meio da denúncia pessoal, inclui a denúncia coletiva. Desnuda seu eu para que outros eus o vejam, o percebam e o ouçam. Por isso, nem sempre sabe se o personagem retratado é o próprio escritor travestido de personagem. Se o autor cria o personagem ou se o personagem denuncia o autor.

O crítico do romance MEMÓRIAS DE ADRIANO, de Marguerite Yourcenar, lhe perguntou: “Adrian est-vous, n’est-ce pas?” Ou seja, a romancista foi, por algum tempo, a augusta imperatriz de Roma e pôs nos comportamentos e atitudes de Adriano seus desejos e expectativas.

Como sou um escritor plebeu recém-chegado à ANE e desconhecido da maioria, um infiltrado na manifestação literária, me foi proposto comentar a trajetória de minha obra. Surgiu-me, então, ligar uma forma de anarquismo à literatura.

Se me permitem, revelo algumas circunstâncias de meus romances, que são parte preponderante de meus escritos, marcados pela transgressão a regras e costumes. Uma propensão inata à justiça e à equidade suscitou em mim, desde a infância, uma tendência à rebelião para manter a mente livre e independente. Todos os esforços institucionais para convencer-me a aderir a regras formais, seja de religião ou de partidos políticos, desvirtuaram-se diante da soberania libertária da mente. Considero-me, hoje, um cidadão livre de comandos.
A rebeldia, portanto, em meus romances e nos outros escritos socioambientais, é uma característica mental de contestação e ênfase ao que não parece justo, equitativo, coerente, racional. Logo adiante, me referirei mais precisamente à transgressão.
Um breve relato sobre meus seis romances.

1)     OS FILHOS DO CARDEAL – Meu primeiro romance, no qual sou personagem e escritor, foi publicado em 1997, aos 63 anos, escrito durante vinte anos (1977-1997). Na segunda edição tomou o título de O homem proibido –De fundo autobiográfico, o personagem deixa seus grupos básicos, familiares e sociais, rebela-se contra todos os códigos que conduziram e controlaram sua mente e vontade até os 30 anos de vida. Transgride todas as regras definidas por outra cultura e recupera seu próprio eu. Abandona sua Igreja, rompe com Deus e com a fé. O personagem é o escritor com falsa identidade. Uma biografia críptica. Um relato de fatos não lineares. Uma biografia autorizada.

2)     EM NOME DO SANGUE ( escrito entre 2000-2002). O personagem – sacerdote católico – é estimulado a transgredir as regras e códigos que o impedem de expressar sua identidade homossexual e reprimem sua sobrevivência social. É a guerra dos eus superiores contra os inferiores. A sociedade impõe suas regras e o pune com morte violenta. É a realidade cotidiana multifacetária. O livro ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura 2003, pela Casa do Livro de Porto Alegre.

3)     AS PEDRAS DE ROMA (escrito entre 2003-2009). O chefe supremo da maior empresa religiosa do mundo competitivo se rebela contra as muralhas dogmáticas que o aprisionam. Enfatiza, na Renascença, os símbolos da arte que são anteriores à superstição, definida por Lucrécio em seu poema De rerum natura. O personagem agnóstico propõe que a religião não precisa provar a existência de Deus. Deus não pensa. Pensar é próprio do homem. Mas a religião é uma das fontes de inspiração da arte e da literatura. O personagem permite ao autor governar o Vaticano por seis anos.
4) HELIODORA (escrito e publicado em 2010), o personagem deixa sua terra, sua família, sua cultura para continuar, em Brasília, a escalada migratória que se iniciou na África há 70/80 mil anos. O imigrante perde seu chão natural e emocional, seu pedaço de céu estrelado, seu berço, seu vizinho, suas festas. É excluído de sua própria terra. Afinal, somos todos migrantes, emigrantes e imigrantes e a vida vai conosco a frente.

5) SILÊNCIO (escrito e publicado em 2011). O personagem se dá o direito e o prazer de falar com seu próprio eu, de caminhar seu caminho, de compulsar sua solidão ontológica, de sentir-se ingenuamente superior aos medíocres e surpreender-se um cidadão invisível, desconhecido, um mero contribuinte. O Homo sapiens transformado em homo contribuens.

6)     O ÚLTIMO PEDESTRE (escrito e publicado em 2013). O personagem (ou o autor) é escravo de um sistema anárquico governado por um grupo superpoderoso da sexta economia mundial que decide o que é bom para a sustentação do poder político confundido com a felicidade de todos os eus da mátria. O personagem vive e morre, a 50 km do Palácio do Planalto, asfixiado pelos gases do gueto em que está trancado. Seu desaparecimento do cenário da competição social não é notado nem faz falta.

A competição social em que a espécie humana está envolvida é um complicado processo de enganação no qual enganamos os outros e os outros nos enganam. Manipulamos com perfeição este mecanismo cerebral. Mentimos desde a infância. Aprendemos a mentir com os pais, tios e tias. Mentimos com as mãos, com os olhos, com o sorriso, com palavras e isto nos ajuda a escrever mentiras em forma literária. Romance, por definição, é uma mentira longa.
O escritor é mentiroso e enganador por sua própria natureza, por infidelidade cerebral, isto é, não consegue expressar com a palavra a pureza do pensamento. Qual é a verdadeira fotografia literária do escritor? A que ele divulga ou a que o leitor vê?
A espécie humana é a mais mentirosa do planeta. Nosso cérebro é um exímio jogador e conta com o intrincado enredo de suas circunvoluções. Deleita-se a inventar e a criar. O humor é uma das mais prazerosas manifestações do cérebro. A piada, a anedota, o chiste é expressão exponencial da comunicação humana para contrabalançar a sisudez da verdade aparente. O conselho de Voltaire foi seguido pela espécie humana muito antes que fosse por ele proposto: menti, menti, alguma coisa permanecerá...

Uma característica da espécie humana, deste ser chamado homo sapiens, é sua agressividade na luta pela sobrevivência e reprodução. Sua energia vital, de pensar, de querer, de amar, de se dedicar ao outro é também suficiente para inventar artefatos de destruição (criatividade destrutiva), não só das formas de vida que a natureza lhe oferece para sobreviver, como de aniquilamento cruel da própria espécie humana.

A agressão, a regressão, a transgressão e a digressão estão presentes de maneira anárquica na literatura. O homo sapiens é agressor, transgressor, digressor, regressor. Talvez, por isso, traga em si o germe da mentira inventiva. Se o poeta é um mentiroso (Fernando Pessoa) e o escritor, um enganador compulsivo, ambos sabem disfarçar esses impulsos agregando humor, ironia, raiva, indignação, tolerância, amor. Torna-se ao escrever um enganador perfeito e um mentiroso virtuose. Engana-se e engana os outros. Mente a si e mente aos outros sob a forma de muitas e variadas verdades.

E quem não mente? Mente o pai, a mãe, a tia, o avô. Mente o professor, o político, o economista, o deputado, o senador, a presidente, o padre, o pastor, o papa. É a válvula de escape da sobrevivência para pedir cooperação aos outros e vencer a competição dos outros.

Mas sempre existe a surpresa no flagrante de mentira.
Um diz: Desculpe, não foi isto o que eu quis dizer...
Outro: Fui mal interpretado...
Um terceiro: A frase foi colhida fora do contexto...
Finalmente, o acusado mente descaradamente quando diz: Tudo não passa de uma deslavada mentira...

Talvez a única expressão real, objetiva diante do dizer humano seja: é inacreditável.
O ceticismo faz parte da curiosidade e da inventiva humanas. Pode ser até que a mentira seja o outro lado da verdade.

Com isto quero dizer que o escritor registra a caminhada humana espelhando-se na largura de seus próprios passos e marca a evolução de suas ações cercado de uma variedade de formas de vida, de uma riquíssima biodiversidade na qual se incluem as árvores, os insetos, os pássaros, os mamíferos e, entre eles, o homo sapiens. O que poderia ou deveria ser, mistura-se ao que é. A objetividade é dissecada pela subjetividade. E a escultura sai à nossa imagem.

Somos gerados ao azar. E como escritores, contamos as peripécias e os vacilos do azar anárquico dos movimentos da sociedade na qual competimos para sobreviver e nos reproduzir. Para isso, inventam-se personagens físicos ou simbólicos que se confundem com o eu do escritor. Por vezes, esse personagem se mascara em flor, em vento, em amor, em inveja, em ciúme, em crime, em noite, em lua, em estrelas. E cansado do inferno, Dante convida Virgilio:
Uscimmo a riveder le stelle.(Dante, Inferno)

A espécie humana tem essa faculdade única da palavra para dizer o que pensa, o que não pensa, o que gostaria de pensar, o que pensam os outros e o que não pensam.

É nessa floresta que caminha a espécie humana e é nela que escavamos a palavra mais adequada e o personagem mais apropriado para dizer o que somos.
Nessa floresta, o cérebro humano, aparelho admirável e complexo, pode fazer do homem um Alexandre Magno, um Stálin, um Hitler, um Mozart, um Gandhi, uma Thatcher, uma Teresa de Ávila, um Jesus Cristo, um Pelé, um Fernandinho Beira-Mar. Somos uma unidade humana variável.

Assim, passamos a vida a ver, perceber e compreender o outro em nós para nos unirmos a ele, defender-nos dele e, se for preciso, eliminá-lo do grupo. Somos regidos pela competição social que nos impõe truques de sobrevivência e de reprodução. Por isso mesmo e, contraditoriamente, precisamos dos outros e os outros precisam de nós. Anarquia plena.

Somos hábeis criadores de próteses. Utilizamos os outros, os leitores, para prolongar e ampliar nossa vitalidade. Terceirizamos nossa mente, nossos olhos, nossos ouvidos, nossos braços e nossas pernas. Utilizamos o que a natureza pode nos beneficiar por meio de outros seres vivos.
A polícia precisa do olfato do cão para descobrir a droga escondida no sapato do passageiro. Só quando o cão lhe envia um nosebook, o homem, que já perdeu quase completamente o olfato, pode ver a droga. O cão é a prótese pericial do policial.
Sobreviver como escritores é deixar descendência plasmada nos personagens criados e nas palavras inventadas. Sobrevivência e reprodução são forças imanentes. A competição social é um de seus truques mais eficazes. A competição social pela sobrevivência de grupos produziu o desaparecimento dos Neandertais e dos índios das Américas. Cometeu o genocídio nos campos de concentração, sem esquecer Hiroshima, Iraque, Palestina, Afeganistão, Ucrânia e demais catástrofes provocadas pela espécie humana.
Assim caminha a humanidade é um lugar comum que resume toda sua grandeza e baixeza.

Alegro-me de ter podido me dirigir a participantes deste grupo para quem a palavra é a única testemunha e juiz de sua identidade, de sua existência, de sua liberdade de ser o personagem descrito por si próprio.
Tenho orgulho de fazer parte desse grupo antigo de escritores que escreveu seu primeiro livro nas paredes das cavernas e que, ao longo de milênios, tem por missão perenizar na humanidade a cultura da palavra. O escritor é um vetor de esperança à evolução cultural da mente humana na perspectiva da paz e da liberdade.
Mais do que aviões supersônicos, mais do que armas químicas, mais do que Iphones e Ipads, o escritor inventa e semeia a palavra que democratiza a democracia, civiliza a civilização e humaniza a convivência humana.
Nossos descendentes, na reprodução da cultura, são os leitores, não importa quem, não importa quantos.

A história da literatura tende, inevitavelmente, ao anacronismo. Cada época reconstrói a experiência literária em seus próprios termos. Cada historiador reordena o catálogo dos clássicos. A literatura, enquanto isso, rejeita as tentativas de imobilizá-la no interior de esquemas interpretativos. (Robert Darnton)