REFAZIMENTO
DO CERRADO – 21 DE ABRIL DE 1960
66 ANOS DEPOIS ▬ 2026
Eugênio Giovenardi, Filósofo, Sociólogo,
Escritor.
LAGO PARANOÁ E OUTROS LAGOS
Alerta sobre as águas do
Lago Paranoá.
Das águas cristalinas da
Missão Cruls
ao depósito de águas
usadas e contaminadas.
Cientistas
e ecologistas experientes anunciam alertas, há mais de 50 anos (Conferência de
Estocolmo, 1972), sobre as manifestações dos fenômenos físicos de alto poder
destruidor que afetam todos os seres vivos.
Espera-se pela tragédia? Ou é possível e urgente um diálogo inteligente
com a natureza das coisas? Alguns aspectos desses alertas podem ser
enfatizados, para melhor compreensão dos consumidores humanos em suas múltiplas
e diferentes atividades necessárias à manutenção da vida. O tempo da natureza
não é o tempo de uma espécie viva. É o tempo incomensurável da manutenção da
teia do milagre inexplicável da vida.
Minhas
observações, ao longo de 52 anos, atinentes à regeneração de uma área degradada
de 70 hectares de Cerrado, no Distrito Federal, somam-se aos alertas de
especialistas e a explicações dadas por órgãos oficiais. Reter sabiamente, no
solo, as águas da chuva é um dos segredos da regeneração dos ecossistemas. Água
é o elemento essencial para manutenção da vida. É a prioridade das prioridades.
Não há pão sem água. O Lago Paranoá e outras represas que oferecem água potável
sofrem a influência de quatro elementos essenciais à vida, à saúde e à
reprodução da biodiversidade. Esses elementos não são devidamente relacionados
ao se examinar o grau de contaminação das águas. Grandes estruturas, como as
represas, construídas pelo engenho humano, para acumular águas em benefício de
todos os seres vivos, podem ser enganosas porque mostram volumes aparentemente
inesgotáveis.
A
natureza, compreendida pela ecologia, se expressa pela linguagem dos
ecossistemas que se apresentam com elementos interligados, interativos e
interdependentes: solo, subsolo, água, ar, temperatura. Qualquer atividade
humana que altere o estado natural do solo repercute sobre todos os elementos
do ecossistema e afeta a teia da vida de todos os seres vivos que nele vivem.
A
generosidade do bioma Cerrado, como caixa d´água do Brasil, palco da
interiorização da capital do país, foi surpreendida pelo ímpeto da migração e
crescimento da população. O bioma e os ecossistemas locais que abrigavam, na
década de 1950, 12 mil habitantes, no curso de 66 anos, sofrem o impacto
abrupto e continuado de três milhões de pessoas. O aumento da população, a
intensa urbanização, o manejo descontrolado do território e o desnudamento de terras
para exploração agrícola, agravado por queimadas sazonais, alteraram a fisionomia
geológica e geográfica regional. Em consequência, romperam-se gravemente as relações
interativas e interdependentes do solo, da água, do ar e da temperatura.
Primeiro ponto.
Ocupação e uso do solo.
Os
especialistas, ouvidos pela BBC News Brasil, foram unânimes em afirmar que,
além das medidas para frear o aquecimento do planeta, será necessário pensar em
planos de resiliência climática — ou seja, como adaptar moradias, bairros,
cidades inteiras e campos de produção de alimentos a eventos como secas,
tufões, tornados, inundações, ondas de calor, entre outros.
“No caso do Rio Grande do Sul,
precisaremos pensar nos padrões de ocupação e nos tipos de estruturas que
permitirão a gente conviver com essas cheias”, antevê engenheiro ambiental Pedro Frediani Jardim. “É o que já se
está repensando. Nossos sistemas de proteção contra enchentes ou construção de pontes
sobre rios, terão que ser reestudados com garantias de manutenção”, conclui
ele.
O
volume de água das represas, em metros cúbicos, medido apenas com réguas
estáticas, sem uso de sensores de alta precisão, tanto no Lago Paranoá, quanto
na do Rio Descoberto e outros reservatórios situados no Distrito Federal, pode
não corresponder à realidade. A extensão física do contorno e do espelho d’água
não reflete o real volume do líquido armazenado. O assoreamento dos lagos e
rios está sem controle. O estuário Guaíba, no contorno de Porto Alegre e da
Lagoa dos Patos (RS), mostrou o resultado do acúmulo de terra levada pelos rios
que descem da Serra Gaúcha.
No
Distrito Federal, durante seis meses, milhares de metros cúbicos de água das
chuvas são levados diretamente ou por dutos subterrâneos aos córregos e lagos.
Além de inundar locais sem esgotamento adequado, as águas encontram caminho
livre nas áreas urbanizadas, densamente impermeabilizadas, para arrastar aos
córregos que alimentam os lagos, milhares de metros cúbicos de terra, mesclados
com detritos vegetais e dejetos sólidos.
Segundo ponto. Filtragem das Águas
O
grau de pureza da água do Lago Paranoá, demonstrado por sistemas de filtragem,
ainda que considerados eficientes, não reflete a realidade da contaminação por
fatores externos que se agregam ao volume diário recebido de águas usadas pela
população. As águas que descem ao Lago, com vazão indefinida, provêm de
córregos desprotegidos e contaminados em sua origem. Os múltiplos bueiros de
esgotamento, de difícil manutenção e limpeza, despejam águas usadas nos lagos e
represas provenientes de milhares de imóveis de habitação e trabalho, de
restaurantes, escolas, hospitais e postos de gasolina. Vive-se num ecossistema
enfermo.
Os
dados da Caesb ou da Adasa estimam volumes médios por unidade residencial ou per
capita, mas não indicam o fabuloso volume de líquido diário que abastece o
Lago Paranoá e outros reservatórios. A média de consumo de água por habitante
brasiliense, estimada por órgãos de controle hídrico, incluídos todos os
serviços urbanos necessários à população, é de 160 litros. Por diferentes
dutos, provenientes de banheiros residenciais, cozinhas, lavanderias, hotéis,
hospitais, restaurantes, postos de gasolina e outros serviços de limpeza urbana
são despejados no Lago Paranoá, diariamente, não menos de 800.000.000 de litros
de água infectada de lixo líquido e sólido. A vazão das nascentes do Distrito
Federal foi calculada, no período da construção de Brasília, em 9.300 litros,
por segundo, o equivalente a 820.800.000 litros/dia. O déficit de água, no DF,
é evidente. Milhares de poços artesianos, além do reuso das águas do Lago e da
importação dispendiosa de milhares de metros cúbicos da Represa Corumbá IV
(GO), complementam a oferta hídrica para diferentes demandas de três milhões de
pessoas na cidade e no campo.
Terceiro ponto: Mananciais.
Nascentes
e poços artesianos se complementam, mas conflitam. As nascentes morrem quando a
vegetação nativa, cuja função é reter as águas da chuva, é eliminada. Os poços
artesianos esgotam os aquíferos próximos às nascentes, quando a perfuração não
é acompanhada de estudos geológicos para localização dos lagos interiores. No
período chuvoso, que se estende por seis meses, as águas contaminadas, que não
descem pelos bueiros, desembocam diretamente nos córregos e represas. Bilhões
de litros (ou quilos) de água da chuva lavam milhares de prédios e milhões de
folhas de árvores cobertas de poeira tóxica. Quilômetros de ruas em declive e
áreas de estacionamentos arrastam ao Lago Paranoá, em toda sua vasta extensão,
sem controle de filtros, areia, paus e pedras, lixo líquido e sólido, resíduos
pulverizados de pneus, óleos lubrificantes deixados nas pistas por milhares de
carros. A morfologia da cidade está desenhada, imprudentemente, para expulsar
as águas da chuva.
Quarto ponto. Ar/vento.
Desmatamento
prévio para exploração agrícola ou projeção da arquitetura urbana, altura e
disposição dos prédios, influem e alteram a direção dos ventos. Os ventos não
só levantam poeira como espalham elementos tóxicos e os depositam sobre o
espelho do Lago ou são respirados pela população, sem filtros de purificação. A
contaminação do ar chega sobre toda a extensão do Lago. Doenças respiratórias
se infiltram em humanos e não humanos. Nossas casas não são à prova de
contaminação diurna e noturna.
Quinto ponto. Luz/temperatura.
No
período seco, entre maio e setembro, com clima frio ressequido, associado aos
ventos do outono e do inverno, o consumo de água de todos os seres vivos
aumenta, para repor a perda hídrica do organismo. São meses de proliferação de
doenças respiratórias. As queimadas costumeiras, a fumaça e as cinzas cobrem os
espelhos de água e a vegetação, penetram nas residências e se alojam nos
pulmões de humanos e não humanos. Nesse período, se opera direta ou
indiretamente, pela ação humana uma dupla contaminação nos organismos vivos em
todas as águas desprotegidas e na inspiração do ar poluído. Água é vida! Água
contaminada gera doenças fatais.
O Estado tem o poderio e
o poder. O Estado é uma nação de pessoas. O Estado é um pai que manda, permite,
controla, reprime, julga, condena, absolve. A cara do pai muda, mas a do
Estado, não. Mudam, para bem ou para mal, os que administram o Estado.