quinta-feira, 27 de março de 2014

VAL, A DIARISTA



A quarta-feira nos traz, com a presença da diarista Val, aspectos da realidade urbana e traços humanos da pessoa que a vive. Mora na cidade de Valparaíso, no estado de Goiás, na divisa do Distrito Federal, a 30 km de nosso apartamento.
Grande parte dos moradores dessas áreas, que hoje compõem a metrópole brasiliense, depende da oferta de trabalho no Plano Piloto e cidades satélites mais importantes como Taguatinga.
Diarista de profissão, é no Plano Piloto que ela consegue melhor remuneração. Mas o aspecto mais desgastante não são as condições rotineiras do trabalho. O deslocamento de sua casa, do Condomínio Albatroz ao ponto de trabalho, faz parte do martírio diário.
O programa habitacional Minha Casa Minha Vida, executado pela Caixa Econômica Federal nessa área, comprometeu por trinta anos seu salário e a pequena aposentadoria do companheiro. Esse programa de características sociais, políticas e eleitorais deu oportunidade de moradia simples a milhares de famílias. Esses condomínios estão situados longe de tudo, plantados num deserto urbano e funcionam como roda solta.
– Com o que eu ganho, não posso escolher onde morar. É onde dá o meu dinheiro.
Não se pensou no transporte urbano. E, se a mobilidade foi mencionada em algum documento oficial, não foi levada à prática. Pertence a outra secretaria do governo estadual que não se comprometeu a prestar o serviço por falta de orçamento e de empresas de transporte interessadas.
Como as prestações da Caixa são implacáveis, sob permanente ameaça de confiscar o imóvel por inadimplência, Val sai todos os dias para garantir o valor da prestação mensal. O dia começa entre 4h30 e 5h da manhã. Vence meia hora de caminhada até a parada de ônibus. Toma lotação pirata até o Gama. Entra num ônibus lotado e viaja em pé até o Plano Piloto, suportando o cotidiano engarrafamento em pontos críticos do Park Way. Toca o interfone às 9h30 para cumprir a rotina do serviço doméstico.
Vendo sua disposição quase alegre e, se não lhe tivéssemos perguntado, não adivinharíamos que nossa diarista é hipertensa, diabética, sofre de dores na coluna, é susceptível de gripes frequentes e engole vários comprimidos ao longo da jornada.
Deixa o local de trabalho às 16h para entrar em seu condomínio às 18h30 e cuidar da própria casa hipotecada à Caixa.
Quando lhe abro a porta, sabendo de seus males, de suas análises críticas à indiferença generalizada e de sua descrença nos administradores da coisa pública, convido-a a entrar.
– Bom-dia! Tudo bem, Val?

– Tudo jooiia!

quarta-feira, 26 de março de 2014

UPP OU UPP – EIS A QUESTÃO


Ao ouvir o primeiro anúncio do governo do Rio de Janeiro, em 2008, sobre a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora em comunidades dos morros cariocas, também ditas favelas, opinei, em círculos restritos, contra esse equívoco administrativo.
A essência da atividade policial é reprimir, não pacificar. Toda a concepção policial e sua educação profissional são para usar a força e as armas com ou sem razão. Apertar o gatilho é mais fácil do que dialogar. Segundo o próprio governo, os integrantes de UPP não receberam o treinamento necessário e específico para tratar com pessoas e cidadãos desarmados. Para os policiais todos os cidadãos são suspeitos até prova em contrário.

PRÉ-UPP

Milícias militares ou paramilitares que atuavam nas favelas eram policiais, bombeiros, vigilantes, agentes penitenciários e militares fora de serviço ou na ativa. Agiam em comunidades urbanas de baixa renda, conjuntos habitacionais e favelas sob a alegação de combater o narcotráfico. Mantinham-se com recursos financeiros provenientes da venda de proteção da população carente, extorsão de comerciantes e pessoas denominadas chefes de zonas de comércio de drogas.
As milícias policiais controlavam mais de 400 das 1006 favelas da cidade do Rio de Janeiro. Contavam com respaldo de políticos e lideranças comunitárias locais, muitos deles ligados à distribuição de entorpecentes.
Mancomunados com facções distribuidoras de drogas, essas milícias paralelamente organizadas e de pleno conhecimento dos comandos da polícia do Estado, de políticos em exercício de mandatos, altos funcionários do governo, advogados e meritíssimos juízes, além de pedágios para garantir a segurança das comunidades, cobravam a execução dos “contratos” averbados segundo a lei da droga: o não cumprimento do “acertado” leva à pena de morte.
Parte dessa organização policial paralela, que engloba várias categorias de pessoas públicas, permanece ativa. Como se noticiou, alguns policiais pertenciam aos dois grupos enfrentados e integraram a polícia pacificadora. Buscaram legitimar sua ação criminosa, cujos acontecimentos desastrosos são amplamente divulgados como acidentes de percurso.

UPP

Primeiro equívoco. A base da concepção da UPP é que a comunidade está em guerra. A guerra se travava entre os distintos chefes do tráfico de drogas e uma parte organizada da polícia que havia tomado a si a administração dos morros. Recordem-se os filmes Tropa de Elite I e II. Mortes, prisões e sequestros cometidos por ambos lados foram registrados pela imprensa durante décadas. Havia, portanto, em um dos lados, a milícia paralela organizada para controlar a comunidade, negociar e receber parte do resultado da distribuição da droga. Não raro, se confrontavam com a outra banda que, além de armamento moderno, gerenciava os estoques de entorpecentes para atender à intensa demanda de consumidores.

Nasce um novo conceito: substituir a polícia corrupta ligada ao tráfico pela polícia pacificadora. Em razão do primeiro equívoco de que as comunidades estão em guerra, a polícia entra nelas para exterminar um dos contendores com tanques, helicópteros, caminhões de soldados armados da polícia militar, do exército, da marinha e da aeronáutica.
Numa guerra não morrem apenas soldados como se viu e se verá ao longo do tempo. Que espera do pacificador uma comunidade em guerra? Que o pacificador elimine ou sane a causa da guerra. Que ponha no lugar da causa da guerra a causa da paz.
A polícia não tem causa de paz para oferecer. Na prática, a polícia pacificadora matou pessoas ditas criminosas que têm mãe e pai, quando não são eles pai e mãe. A polícia pacificadora matou cidadãos inocentes, extorquiu dinheiro, roubou, mentiu, chantageou pessoas. A polícia pacificadora expulsou da comunidade, com o critério da limpeza humana, pessoas que ali nasceram, brincaram e têm raízes pátrias. A polícia, à força e com poder de fogo, dividiu famílias e grupos de amizade. Eliminam-se pessoas. A droga permanece.
Segundo equívoco. Quem sustenta o Shopping Iguatemi? Ninguém mais do que os milhares de consumidores que ali vão para abastecer-se de bens úteis ou supérfluos. Quantos pequenos negócios foram eliminados pela guerra empresarial movida pelas megaempresas em nome da escala econômica e do barateamento dos produtos?
Quem sustenta os “supermercados” de variedades de drogas instalados nos morros e favelas do Rio de Janeiro? Os consumidores de drogas da Zona Sul do Rio, jovens que buscam alternativa à mesmice da vida cotidiana, executivos que precisam mostrar capacidade e eficiência, políticos, altos funcionários públicos e até molambos humanos de rua que perderam o endereço de sua identidade. Ninguém refreia a oferta se a demanda é intensa.
Polícia pacificadora não agrega nada à educação, à saúde, ao emprego, à remuneração justa, ao transporte público e à própria segurança coletiva. É próprio da polícia que conhecemos instalar o medo, a submissão, o uso da força, a denúncia remunerada, a corrupção, a mentira, a perseguição. A morte do pedreiro Amarildo dos Santos e a mulher presa e baleada, arrastada por policiais, envolvidos em outros assassinatos, ao longo de uma avenida do Rio de Janeiro, são ações típicas de soldados em guerra.
A polícia, treinada para usar armas e matar, sabe que uma ação gera reação na mesma ordem e na mesma intensidade. Contabilizam-se dezenas de mortos nas “comunidades pacificadas”. No último ano, três policiais foram mortos e 24 feridos. A revolta e a indignação das pessoas desarmadas sugerem que não se pode falar em pacificação policial. Com as UPP se estabeleceu, na prática, a pena de morte.


UPP ou UPP

Tivesse o governo do Rio de Janeiro proposto Unidades de Políticas Públicas, a exemplo de Bogotá (O aço que domou Bogotá), com ampla participação popular, funcionários preparados para o diálogo, ações coletivas para proteção ambiental, dadas as condições geográficas da área, abastecimento de água, tratamento de esgotos, sistema de coleta de lixo, transporte alternativo, escolas, diversão, lazer, estímulo à arte e à música, postos de saúde eficientes, segurança inteligente baseada na aproximação de pessoas e não na simples prisão ou eliminação de cidadãos, o papel primordial da polícia poderia consequentemente ter melhor êxito. A teoria dos expurgos foi testada durante dezenas de anos na União Soviética (Stálin e Cia,). Os resultados negativos caíram sobre gerações posteriores como herança de equívocos ideológicos, maniqueístas e administrativos.
Um sistema de diálogo e cooperação da comunidade eliminaria termos como “bandidos”, “criminosos” que generalizam os comportamentos e incitam a polícia a cometer também atos criminosos justificados como acidentes de trabalho. O diálogo da cidadania deve preceder à ação policial.
 O terror é instalado pela UPP, pois as ameaças são permanentes vindas de policiais armados ou de comerciantes de drogas a moradores que outrora foram beneficiados por estes em razão da ausência crônica de políticas públicas dos governos.
Não há condições reais de pacificação se as políticas públicas em cumprimento da Constituição não chegam às comunidades. Muitos benefícios reais foram oferecidos pela organização do narcotráfico à comunidade dada a ausência do Estado. Esse boleto também é cobrado pelo terror de um e outro.
Resta para a polícia pacificadora controlar a demanda e o consumo de drogas que são a verdadeira causa da existência de “supermercados” de entorpecentes cujos verdadeiros donos e herdeiros não são perturbados.
Os fatos mais recentes de mortes e prisões de ambos lados confirmam a opinião de analistas sociais de que as UPP, concebidas na área policial, são uma declaração de guerra à organização distribuidora de drogas instalada dentro de uma comunidade e, portanto, parte integrante dela durante décadas.
Nessa complexa organização social, consolidada há décadas, é virtualmente impossível separar relacionamentos familiares, culturais, econômicos e políticos com ações policiais. Isto é, não é possível eliminar um elemento da equação social extinguindo apenas os altos mandos do tráfico, pois o comércio de drogas é sustentado por fatores externos à comunidade. Pode-se dizer que o comércio de drogas possui auto-organização que não se elimina com a prisão ou a morte de alguns chefes. Ela rebrota do próprio tronco.
O comércio de drogas tem experiência milenar. Classificado como produto ilícito, exige um tipo de organização complexo capaz de atender a demanda persistente e burlar os controles legais. Os chefes da organização se estabelecem numa hierarquia empresarial cuja competição agregou o uso de armamento para defesa de seu funcionamento e dos valiosos estoques. O comércio de armas está intimamente ligado ao comércio de drogas. Além de outras, as guerras têm razões econômicas. O tráfico de armas tem tido, em muitos casos, a participação da polícia e de militares da ativa.

CRIATIVIDADE DESTRUTIVA

Uma organização de guerrilha militar para comercialização de um produto ilícito não se justifica. O armamento simples ou sofisticado, cuja função é eliminar pessoas, faz parte da criatividade destrutiva que caracteriza o estado primitivo da evolução cerebral. Declarar guerra para preparar a paz podia ser útil ao Império Romano. A fila humana andou mais de três mil anos depois disso. Há que encontrar na criatividade construtiva mecanismos de conversação e diálogo generosos, educativos e de saúde pública, que alimentem a organização social ecumênica, plural, capaz de respeitar as diferenças e as diversidades humanas.
Enquanto durarem as ações comandadas pela organização policial com o fim de estabelecer uma ordem policial de convivência, as mortes continuarão de lado e lado.
A concepção e a implantação de políticas públicas têm nas UPP policiais um obstáculo de origem. Ações administrativas pontuais, mesmo importantes, para efeito de propaganda oficial beneficiam alguns ou até parte da comunidade. No entanto, o conflito permanece no âmago da organização social comunitária.
As ações do governo para atender ao conjunto de necessidades das comunidades ocupadas pela força militar são mal planejadas, ineficientes, sem continuidade nem participação dos cidadãos nas decisões e dependentes do comportamento policial autônomo. A ideia de guerra permanece.
A definição de crime organizado se restringe apenas ao grupo armado que controla as agências distribuidoras da droga? Ou atinge também os produtores e consumidores do produto? Por que foram selecionadas as comunidades dos morros cariocas para atacar o “crime organizado”??? A polícia e seus investigadores da Coordenação de Repressão às Drogas (CORD) têm desarticulado grupos de distribuidores de entorpecentes em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Brasília e outras cidades.
Esses distribuidores circularam há anos pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, abasteceram universitários e funcionários graduados de órgãos públicos, sócios de clubes, médicos, advogados e juízes. A classe média e alta, em qualquer parte do país nunca terá o privilégio de ser controlada por uma UPP. Elas são meras consumidoras de droga e garantem a acumulação de fortunas aos distribuidores.
Há uma reserva de milhões de reais para o consumo de drogas, desde o crack mais ordinário à escama de peixe da cocaína. Essa reserva está protegida pela constituição brasileira. Seus legítimos proprietários estão dispostos a investi-la em drogas. O fornecedor é apenas um empreendedor de risco. Se fracassar por descontrole ou desonestidade na prestação de contas, as leis do tráfico o punem com morte. Se cair nas malhas do CORD, em nada modifica o volume da reserva disponível dos consumidores para futuras transações. Se presos, os distribuidores responderão em liberdade. A falta de feijão na gôndola do supermercado não extingue a vontade de comer uma suculenta feijoada.

TABU PERSISTENTE

Permanece o tabu da questão: a legalização do comércio da droga. O comércio da droga depende em grande parte do consumo contra o qual nenhuma guerra será eficaz. Por que não legalizá-lo? Trata-se de uma economia de bilhões sobre os quais não incidem impostos. Talvez este seja um dos motivos da guerra. A sonegação de impostos, com certeza, atingirá também o comércio de drogas como é praticada pela grande indústria e pelo alto comércio. A Receita Federal produz mecanismos sofisticados para cobrar inadimplentes.
Os bilhões de dólares que nos está custando a guerra contra a distribuição de drogas certamente serão somados ao PIB e não à paz social.
Ou queremos construir uma organização social e política comandada pela força policial mediocremente preparada para garantir a convivência humana?
A convivência social tem que evoluir para o diálogo e a participação dos cidadãos nas decisões adequadas de políticas públicas e não para o terror das armas prontas a disparar em todas as direções.

26.3.2014


terça-feira, 18 de março de 2014

DE CIMA PARA BAIXO




Foto: Transporte de massa!

A informação de que parte dos cidadãos mais ricos de São Paulo deixa o automóvel em casa e entra num ônibus confortável, para ir a seu escritório, foi dada como alvíssaras de mudança.
O motivo da opção escolhida por esses novos passageiros ou usuários da mobilidade – outrora dita transporte público – foi o menor tempo gasto no trajeto. Outros detalhes foram menos destacados: possibilidade de leitura durante a viagem, conversa demorada ao celular e até um cochilo.
Lembre-se que os mais ricos sempre tiveram opções de transporte dignas de sua condição de condutores da economia. Usavam o auto, enquanto a maioria enfrentava o bonde puxado por bestas. Eles embarcavam em aviões e os outros em ônibus pinga-pinga ou em trens sonolentos.
Vieram, depois, os “frescões”, os helicópteros, enquanto os trabalhadores comuns superlotavam os trens de subúrbio. Agora, cansados de engarrafamentos, os ricos usam as linhas expressas de ônibus modernos para ganhar tempo que é dinheiro.
Para a grande maioria sobra o transporte de massa. Massa de pão. Massa de macarrão. Só se percebe a massa quando desce dos vagões do metrô transformada em talharins humanos. Os menos ricos foram iludidos a adquirir seu automóvel para ajudar a economia do PIB a crescer. Cansados de ser massa de pão, eles preferem gastar duas horas no engarrafamento a três na máquina de macarrão. Tempo, aqui, não é dinheiro como lá.
O motivo ecológico, único a dar dignidade à convivência humana passou ao largo. A desigualdade funcional consolidada na vida social e política encontra, a seu tempo, as formas de distinguir quem é quem. O número de automóveis e a emissão de gases de efeito estufa aumentaram.
Trocou-se apenas o patrocinador dos engarrafamentos. O que antes era comandado pelos ricos de cima para baixo, hoje, o é de baixo para cima pelos desiludidos do transporte público.

17.3.14


Nota: Sou ecossociólogo, naturalista e escritor. Administro uma área liberada da opressão industrial e da tirania do consumo obsessivo. Reserva natural de cerrado de 70 hectares (Sítio das Neves) para refúgio de variada fauna de ar e terra, reprodução espontânea da flora nativa (3.500 espécies), proteção de nascentes e recarga de aquíferos com captação e retenção de águas pluviais. Estudo a ocupação do espaço e a organização de algumas espécies da biocomunidade (mangabeiras, caliandras e catolé).

segunda-feira, 17 de março de 2014

ONDE A VIDA É GASTA I


 
Vida, no contexto dessa frase, é sinônimo abstrato de tempo, tranquilidade, ansiedade, preocupação consciente e inconsciente, aborrecimento, indignação ou felicidade. Há sempre alternativa. A vida é uma medalha de duas faces e a probabilidade de uma alternativa é de meio a meio. A vida é alternativa à morte. A alternativa está presente a cada passo. Da hora de acordar à hora de deitar.
O transporte urbano, por ser caótico nas médias e grandes cidades, ganhou categoria abstrata e sociológica – mobilidade. É um dos vilões que consomem a vida do cidadão.
Distingue-se, nesse quesito, alternativa de opção. Alternativa é ir ou não ir. A decisão depende de opções. Ir ao cinema na sessão das 19 horas é uma decisão aalternativa que depende de distintas opções. Em Brasília, a hora pico é inconveniente. Arrisca-se de ser prisioneiro do trânsito por tempo igual ao da duração do filme. E para certos cinemas, por sua localização, a opção do transporte não é determinante. Nem o ônibus, nem o metrô, nem o carro individual são capazes de dar a este pedaço de tempo e vida o prazer que antecede o filme em perspectiva. O tempo gasto no trânsito equivale ao consumo de vida.
A diarista que precisa vencer vinte e cinco quilômetros para chegar ao local de trabalho, premida pelas contas a pagar segundo suas opções de consumo, sente-se constrangida a ir. Não se dá a liberdade de não ir. Das 24 horas de vida, gastará seis divididas entre o trajeto da casa à parada de ônibus e ao ponto de chegada de volta ao lar, ao final do dia. Mais da metade da vida desse dia será gasta no trânsito e no trabalho que ela justifica pela remuneração satisfatória em razão das contas a pagar: prestação da casa, condomínio, energia, água, alimento, vestuário, diversos impostos diretos (IPTU/SLU), TV, celular, remédios controlados, transporte, taxa escolar, supermercado, reparos da casa, etc...
Diaristas e milhões de trabalhadores gastam a vida – o tempo – como colaboradores inconscientes do crescimento econômico impulsionado pelo consumo. O trabalho, nessas condições, alimenta o consumo que sustenta o crescimento econômico apurado pelo PIB. O PIB só não mostra o gasto da vida do trabalhador.
Conclusão desanimadora: gasta-se a vida para sustentar o lucro do crescimento econômico concentrado em poucas mãos.

ONDE A VIDA É GASTA II

 Cada pessoa ou grupo de pessoas se acomodam a um modelo que lhes é imposto pela convivência social. O que se vê e se ouve é inconscientemente praticado. Raros são os que escolhem o modelo de vida. E não há modelos puros. É imposto tal qual é vivido num tempo e por um grupo que nos antecede.
A diarista, o proprietário do insubstituível automóvel, o funcionário público, o empresário idealista, o escritor, todos caíram na arapuca preparada há tempos. A diarista caiu na arapuca. Qualquer um cai. E só percebe quando sair dela é quase impossível, ainda que a gripe, o diabete, a hipertensão conspirem contra ela.
Poderia trabalhar em local próximo a sua casa sem o desgaste do trânsito, com salário menor. Mas o modelo que adotou recusa mudanças. Submete-se ao modelo e gasta a vida nele.
O sonho do automóvel zero quilômetro também é imposto. O dono será dele vitima e escravo. Sua felicidade está no carro. Vive o carro em vez de viver a vida. A utilidade do material justifica a queima de combustível fóssil, a emissão de carbono e, principalmente, o lugar de destaque no grupo. Sente-se vitorioso não por ter compreendido o universo de sua existência, mas porque o carro o distingue e o aplaude.
Há uma reciprocidade entre o modelo e o usuário. Um alimenta o outro. Um sustenta o outro. Mudar o modelo é mudar-se. E mudar-se exige um ato de consciência diante da própria vida e a dos que nos cercam. Mudar-se é o ponto alfa da revolução consciente para compreender o universo que habitamos.

16.3.2014 
Nota: Sou ecossociólogo, naturalista e escritor. Administro uma área liberada da opressão industrial e da tirania do consumo obsessivo. Reserva natural de cerrado de 70 hectares (Sítio das Neves) para refúgio de variada fauna de ar e terra, reprodução espontânea da flora nativa (3.500 espécies), proteção de nascentes e recarga de aquíferos com captação e retenção de águas pluviais. Estudo a ocupação do espaço e a organização de algumas espécies da biocomunidade (mangabeiras, caliandras e catolé).


quarta-feira, 12 de março de 2014

TRANSMUTAÇÃO


DO NOME AO NÚMERO. Meu nascimento estava previsto para o dia 29.6.1934. Dia de São Pedro no calendário católico. Antecipei minha chegada para o dia 28. Frustrei a decisão que, em família, haviam tomado de me dar o nome de Pedro Eugênio. A solução foi simples. Inverteu-se a ordem dos fatores e, no cartório, assentou-se Eugênio Pedro.
Na época, havia duas personalidades importantes: meu avô materno Eugenio e o cardeal Eugenio Pacelli, depois papa Pio XII. Em casa, chamavam-me carinhosamente Geninho. Certamente, as freiras da escola primária assentaram corretamente o nome de família. Creio que tenha sido por volta dos dez anos que tomei consciência de meu nome.
A transmutação do nome pode ter influenciado o caráter? Como seria eu, se fosse Pedro Eugênio? Não sei. As fases da transmutação da identidade seguiram ao longo dos anos. Passei de um nome a outro e do nome ao número. Não há, segundo minhas investigações onomásticas, outro nome igual ao meu no Brasil. Isto, porém, não é suficiente para me identificar. A Certidão de Nascimento é um velho registro raramente solicitado.
– Boa tarde! Vou ao 12º andar, consultório do doutor X.
– Sua identidade, por favor.
– A carteira?
– Só o número.
Misteriosamente, o número trouxe meu nome na tela. A atendente, de mau humor, de olhos na tela do computador, pergunta: Eugênio?
– Isto, confirmo.
Para a atendente eu era o único cidadão com esse nome.
Ao telefone, preciso um serviço de urgência da Companhia Energética de Brasília.
– Tenha em mãos o número identificador da conta, diz uma voz ainda jovem. E, em seguida: digite os quatro primeiros números de seu CPF.
A atendente não se satisfez com os onze números do CPF.
– Seu nome completo, por favor!
Concluo que, assim como há tocaios, números de CPF também geram desconfiança. Por isso, a servidora quis confirmar nome e número.
Comprei um remédio na drogaria da quadra. Antes de sair:
– Não gostaria de fazer o cadastro de fidelidade para desconto nos preços dos medicamentos?
– Pois não!
– Lembra o número do CEP?
Essa pergunta completou o cadastro. RG, CPF, CEP. Sabem quem sou e onde moro. Nessa altura das relações sociais, deixei de ser um cidadão com nome próprio e entrei definitivamente para a legião de contribuintes.
Todos esses números e nome, no entanto, de nada valeriam se eu não tivesse uma senha individual e intransferível.
– Digite sua senha.
Ainda assim minha verdadeira identidade pode ser contestada por um mecanismo chamado sistema. Com toda a autoridade eletrônica, amparada pelo avanço tecnológico indiscutível, o contribuinte é surpreendido com uma acusação de falsário em duas palavras:
– Senha inválida!

Essa é a fase final da transmutação. A passagem do nome para o número não pôde ser completada. Tente mais tarde.

sexta-feira, 7 de março de 2014

ÁGUAS DE FEVEREIRO - 2014


 
No mês de fevereiro de 2014, a precipitação no Sítio das Neves medida pelo pluviômetro instalado pela Agência Nacional de Águas foi de 164,9 mm (164,9 litros por m2), somando 115,4 milhões de litros de água sobre a área.
Esse volume dá uma média diária de 5,8 litros por metro quadrado. Os primeiros 9 dias do mês continuaram a forte estiagem de janeiro. As chuvas se concentraram ente os dias 10 e 18 do mês A maior precipitação foi no dia 14 alcançando 57,1 mm (57,1 litros por m2).
O volume total de água, no mês de fevereiro, 2014, foi maior do que a precipitação de fevereiro de 2013 que foi de 132,7 mm, isto é, 132,7 litros por metro quadrado. A média diária do mês de fevereiro de 2013 alcançou 4,7 litros por m2, menos do que em fevereiro de 2014 que foi de 5,8 mm.

COMPARATIVO 2013/2014 (em mm) no Sítio das Neves
JANEIRO 2013
JANEIRO 2014
FEVEREIRO 2013
FEVEREIRO 2014
457,8
169,8
132,7
164,9

SEQUÊNCIA DE CHUVAS 2013/2014 (em mm)
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
Janeiro
TOTAL
3,1
42,3
179,55
304,44
311,6
169,8









Fevereiro






164,9





1.272,79
 Memória de cálculo: 1.272,79 mm X 700.000 m2

De agosto 2013 até o fim de fevereiro de 2014, o Sítio das Neves recebeu 892.453.000 litros de água (892.453 m3) proporcionando a recarga dos aquíferos graças à vegetação intensa regenerada e ao sistema de barragens para captação, contenção e retenção das águas em todas as vertentes e canais de esgotamento ou grotas.
 ___________________ 

Nota: Sou ecossociólogo, naturalista e escritor. Administro uma área liberada da opressão industrial e da tirania do consumo obsessivo, reserva natural de cerrado de 70 hectares (Sítio das Neves) para refúgio de variada fauna de ar e terra, reprodução espontânea da flora nativa (3.500 espécies), proteção de nascentes e recarga de aquíferos com captação e retenção de águas pluviais. Estudo a ocupação do espaço e a organização de algumas espécies da biocomunidade (mangabeiras, caliandras e catolé).

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A PODA DE ÁRVORES

 

Uma pergunta fundamental. Por que plantar árvores?
Para produzir alimentos ou urbanizar, destruiu-se o habitat das árvores nativas. Em lugar delas, nas cidades, plantam-se espécies que vão ocupar duas ou mais vezes o espaço das que ali nasceram. As árvores nativas não tinham prédios ao seu redor. Nem calçadas. Nem ruas. Nem estacionamentos.
As árvores são dotadas de organização genética consolidada há milhares de anos. As nativas são inundadas de sol pelos quatro pontos, arejadas pela brisa da noite, regadas pelo orvalho da noite e, graças ao período chuvoso, alcançavam a estatura que o bioma lhes permitia.
Essas árvores monumentais que hoje embelezam os espaços libertos da mão dominadora do homem são escravas dela. Estão sempre ameaçadas por motosserras. É de sua espécie, de sua organização crescer para o alto e para os lados. As grandes árvores sabem de equilíbrio. Não raramente, equilibram-se umas nas outras. Por isso, põem galhos em todas as direções e em diferentes alturas do tronco.
Por que os administradores de parques e jardins, em Brasília, transformam uma canafístula em palmeira? Sabem eles que estão desequilibrando as árvores? Sabem eles que essas mutilações abrem caminho para fungos e doenças que sacrificam a árvore? Sabem eles que uma árvore pode conter cem por cento de seu peso em água? E que, durante a chuva, uma árvore pode deter metros cúbicos de água no colchão de suas galhadas?
Ontem, 27.2.2014, os operadores de motosserras deitaram ao chão centenas de quilos de galhos e troncos por motivos irracionais. Com a ajuda de cálculos de especialistas, os operadores tiraram das plantas, dessa rua, mais de 10 metros cúbicos de água (10 mil litros). Uma perda definitiva para a umidade do ar.
Os moradores da SQS 407, Asa Sul, perderam para sempre 10 mil litros de água que umedeciam o ambiente todos os dias. Todos os dias.
Os operadores de motosserras, infelizmente, cumprem a função de carrascos com a anuência da sociedade, sob a ordem de administradores obtusos e, lamentavelmente, a pedido de egoístas e temerosos proprietários de lojas.
Então, antes de plantar árvores onde outras já existiam, há que conhecê-las para saber onde plantá-las sem precisar, depois, mutilá-las.


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