sábado, 12 de julho de 2014

MUITO POUCO

 (crônica)

Preciso de tão pouco. O ar que respiro. Invisível. Vital.
Um olhar sincero. Um sorriso afável. Uma palavra saudável.
Um gesto solidário. Um abraço apertado. Recebido e dado.
Um copo d’água. Um pão de centeio. Uma taça de vinho.
A sombra de árvores. O chuá do ribeirão.
Um livro, dois livros, vários livros.
Escutar Lago de Como à noitinha.
Ouvir uma harpa no lago azul de Ipacaraí.
Cantar Saudades do matão ao violão.
Caminhar pelo cerrado. Abraçar árvores tortas de sede e fogo.
Sair à noite e ouvir estrelas.
Caminhar, caminhar todos os caminhos.
Poucas palavras. Dizer que amei. Imensamente.
Amei você que apareceu no meio do meu caminho.
Você que brotou de nós.
Vocês que brotaram de quem brotou de nós.
Quero pouco. Nem sempre o tenho. Nem sempre o dou.
Por fim, aprende-se que o pouco somado é muito.


11.7.2014

sexta-feira, 4 de julho de 2014

REJEIÇÃO ÀS ÁRVORES


A destruição da natureza, o corte sistemático de árvores, o aniquilamento de milhares de vidas ao longo de milênios, a desertificação das margens dos rios, para erguer habitações e cidades, guardam relação profunda com a primitiva forma de sobrevivência herbívora da espécie humana.
Há mais de 200.000 anos, nossos antepassados tinham nas árvores o abrigo e a alimentação. A evolução nos deu um cérebro capaz de perceber as mudanças climáticas. Presenteou-nos com habilidades manuais para fabricar artefatos novos de sobrevivência.
Pôde, então, a nova espécie das linhas genéticas simiescas descer das árvores, aventurar-se pelas selvas e pradarias. Banhar-se nas águas. Esconder-se nos socavões e cavernas que apareciam com o baixar dos mares.
Aprenderam de felinos e caninos a arte da caça, germe de futuras guerras. À fase herbívora, que durara milênios, sucedeu a carnívora. Uma virada e tanto. As mãos que colhiam folhas, flores e frutos serviram friamente ao instinto assassino que floresceu nas novas circunstâncias. Matar! A espécie humana aprendeu a matar. Incorporou na cultura da sobrevivência o assassinato, a morte de outras vidas e de seus semelhantes.
As árvores, que alimentaram e abrigaram a espécie humana e lhe deram o carinho maternal, passaram a segundo plano. Sair à caça como os leões, gatos, tigres e cães lhe abriu novas perspectivas. Revolucionou a organização social da sobrevivência para a reprodução da espécie. Estabeleceu os primeiros pilares da competição social entre os vários clãs.
A rejeição das árvores se consolidou com invenções orientadas ao assassinato de animais para comer. Pedras pontiagudas arremessadas, galhos transformados em flechas e lanças, fundas para lançar calhaus à distância fizeram da caça a ousada profissão de matar. Tornou-se caçador o macho homem em busca da presa. E a presa transformou-se em sonho e objeto de desejo. Onde estão e quais serão as novas presas?
Desde o começo da rejeição da árvore, estabeleceu-se a perigosa alternância: um dia é do caçador, outro, da caça. Os perigos desta vida vêm conosco desde a origem.
A ocupação gradativa das áreas geográficas do planeta, a migração de grandes populações, a matança sistemática de animais para a alimentação, estenderam-se durante milênios. Florestas foram abatidas a machados de pedra e de aço. O fogo tornou-se um decisivo auxiliar no desbravamento de imensas regiões.
Nos últimos 15.000 anos, se consolidou a rejeição ao materno ventre arbóreo. As florestas, berço de nossa espécie, foram substituídas por animais que serão mortos com técnicas modernas de assassinato para saciar a fome de sete bilhões de ex-herbívoros.
O desprezo pelas árvores assemelha-se à rejeição do ventre materno. Pretendeu ser uma saída para a independência ilusória. A interdependência dos seres vivos, porém, é uma lei da natureza e um princípio ecológico dos quais a espécie humana não pode prescindir.
Conquistar o equilíbrio entre a independência da espécie humana e a interdependência de todos os seres vivos na competição social é imprescindível para que o instinto assassino adquirido, e atuante na cultura, não transforme o dia do caçador no dia da caça.

É tempo de assinar um armistício entre a espécie humana e a natureza para consolidar a convivência social e viver em paz.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

OS COZINHEIROS DA REPÚBLICA


Os cozinheiros atuais do governo e os candidatos ao posto de chef oferecem o mesmo cardápio econômico nas mesmas travessas sem variações substanciais no tempero. Desconhecem o paladar dos clientes que esperam na fila com fome e sede de novas iguarias.
O que estão oferecendo os cozinheiros de avental e touca, fogões acesos, sorrisos temperados, panelas e frigideiras vazias? Todos dizem que vão preparar mais pratos e melhores. Qual é o prato do dia desses cozinheiros? Inflação descontrolada para uns e sob controle para outros, mas apimentada e salgada. Dólar flutuante ao molho do mercado invisível mascarado de fantasma. Prometem encher a barriga da família que é garantia de votos agradecidos que, segundo presumíveis cozinheiros deveria se transformar em prato de lentilhas nacional e patriótico. O sonho modesto da nova classe média se contentará com casa de 36 m2. O grande sonho, com automóvel movido a gasolina, combustível fóssil e abundante dose de CO2. O PIB continuará como ídolo do crescimento atropelando os limites ecológicos e ambientais do país.
A violência urbana contará com a contrapartida de milhares de efetivos militares de todos os uniformes, armas e tanques, helicópteros e UPPs, garantindo os 50 mil assassinatos anuais. O incentivo aos carros particulares, implícito em todos os cardápios, com os milagres de excelência do pré-sal, transformarão as cidades em restaurantes a céu aberto cujos clientes esperarão horas na fila para o suculento banquete da competição consumista de status.
Os cozinheiros prometem receitas sem gordura, feijoada lait, coca zero, temperos com fines herbes importadas para uma vida saudável em spas hospitalares. Publicarão cartilhas de qualidade para aperfeiçoar o paladar da clientela, fundamental para concursos que acenam com salários de marajás políticos.
Alguém leu, viu ou ouviu desses cozinheiros em perspectiva proporem uma revolução na receita do tratamento dos esgotos urbanos e rurais? Na desocupação das margens dos rios? No reflorestamento de milhões de hectares que limpariam as águas que passam por milhares de cidades? Na captação de águas da chuva para evitar inundações urbanas? Na coleta integral e racional de lixo que infesta as águas superficiais e subterrâneas?
Como ficam, então, os clientes? Terão que forçosamente escolher um cozinheiro, mas não poderão fazer a comanda que desejam porque todos os restaurantes oferecem o mesmo prato insosso. O mais inseguro na escolha do cozinheiro é que ele pode mudar os temperos sem consultar o cliente e trocar os pratos do cardápio depois de feita a comanda.
O país precisa de cozinheiro que encha a barriga do cliente sem esvaziar-lhe a cabeça. Frei Betto disse que os que ocupam a cozinha há doze anos “Nutriram o bolso, não a consciência crítica”. O cozinheiro a comandar a cozinha em 2015, seguirá a mesma receita?

24.6.2014

segunda-feira, 2 de junho de 2014

ÁGUAS DE MAIO 2014



No mês de maio de 2014, a precipitação no Sítio das Neves medida pelo pluviômetro instalado pela Agência Nacional de Águas foi de 26,0mm (26 litros por m2 ) somando 18 milhões de litros de água no mês sobre a área de 700.000m2. O volume médio diário do mês foi de 0,86 mm por metro quadrado, menos de 01 mm (01 litro/dia), perfazendo um total de 600.000 mil litros de água/dia ou 600m3.
Houve duas chuvas no mês de maio nos dias 9 (15mm) e 27 (11mm). O volume total de água, no mês de maio, 2014, foi levemente maior do que a precipitação de maio de 2013 que foi de 25,3mm.

COMPARATIVO 2013/2014 (em mm) no Sítio das Neves
JANEIRO
2013
JANEIRO 2014
FEVEREIRO
2013
FEVEREIRO 2014
MARÇO 2013
MARÇO
2014
457,8
169,8
132,7
164,9
401,9
326,7

Abril 2013
Abril  2014
Maio 2013
Maio 2014


554,5
371,9
25,3
26,0



SEQUÊNCIA DE CHUVAS 2013/2014 (em mm)
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
Janeiro
Fevereiro
3,1
42,3
179,55
304,44
311,6
169,8
164,9

Março
Abril
Maio
TOTAL
326,7
371,9
26,0
1.900,29
Memória de cálculo: 1.900,29mm X 700.000 m2  (área do Sítio)
No ano de 2013, O Sítio das Neves foi agraciado com mais chuvas (2.050mm) do que em 2014 (1.900,29mm).
De agosto 2013 até o fim de maio de 2014, o Sítio das Neves recebeu 1.330.140.000 litros de água (1.330.140m3) proporcionando eficiente recarga dos aquíferos graças à vegetação intensa regenerada e ao sistema de barragens de captação, contenção e retenção das águas em todas as vertentes e canais de esgotamento.

Nos próximos meses, o temor do fogo será um companheiro permanente e as ações de defesa do cerrado intensificadas.

É DA CULTURA DO BRASILEIRO

O analfabetismo crônico e o funcional de muitos brasileiros, a ignorância, a irresponsabilidade, o descuido e a displicência com que se comportam é comumente justificada com esta explicação: é da cultura do brasileiro. Mas parece-me maldade e inveja cordial. Lutamos hora e meia para debelar um incêndio na área de meu Sítio que é de preservação da biodiversidade vegetal e animal. As placas de atenção e orientação que coloquei na semana passada apenas estimularam algum idiota a pôr fogo no cerrado. Sei que há explicações científicas sobre o tema do fogo como agente do cerrado. Mas o fósforo que o acendeu, ontem, é criminoso e nada natural. Até hoje, quarenta anos de minha vida no Sítio das Neves, não houve nenhum incêndio natural. Foram todos sobrenaturais com eliminação de vasta biodiversidade e aumento da aridez. Convido aos defensores do fogo a visitar meu Sítio para observar a diferença entre o cerrado queimado e o cerrado em regeneração e repouso.



quarta-feira, 28 de maio de 2014

ESTÁ NA HORA


O candidato a ocupar a presidência da República Federativa do Brasil (apontando apenas um aspecto das mudanças estruturais desejadas) que apresentar um plano de criação de 20 milhões de postos de trabalho verde até 2020, sem extinguir os programas emergenciais de minoração da miséria e da pobreza, dará um passo importante na mudança da economia de produção para o consumo para uma era de prosperidade humana nos limites dos bens finitos do planeta.
Entre os postos de trabalho verde para ampliar a oferta de riquezas naturais estão a recuperação de nascentes, ampliação de áreas de recarga de aquíferos, reflorestamento de margens de rodovias, agricultura básica de produção de alimentos, sistemas associativos de captação de águas pluviais na área urbana e no meio rural, criação e manutenção de corredores ecológicos de multiplicação da biodiversidade, proteção de parques nativos e urbanos.
As estatísticas oficiais informam ou deveriam informar que parte dos recursos financeiros veiculados pelos programas sociais também participou do desfile da compra de automóveis estimulada por créditos subsidiados e isenção temporária de impostos. O automóvel transformado em realização de sonho de consumo pôs os cidadãos em igualdade sobre quatro rodas. Outros itens à base de minérios como geladeiras, lavadeiras e outros eletrodomésticos se associaram aos impulsos do consumo como estratégia do crescimento econômico medido pelo PIB.
Quase nada se fez para contrabalançar e compensar a emissão de gases de efeito estufa com a queima intensificada e generalizada de combustível fóssil. Os incentivos ao consumo não tiveram uma contrapartida clara de proteção das riquezas naturais oferecida pelo discurso público. A transição da economia do crescimento baseada na produção ilimitada para o consumo ilimitado conduz à competição improdutiva pelo caminho do status social. Uma desastrosa indução ao consumo justificada pelo direito à igualdade de consumir sem limites. A dívida tomou o lugar da poupança.
A igualdade social só é possível se a comunidade se mantiver dentro dos limites finitos dos bens disponíveis no planeta circunscritos a cada região habitada. Pode-se, por exemplo, produzir menos carros para uso individual com a recapacitação para outras atividades ecológicas de trabalhadores a serem dispensados de suas empresas.
Os recursos de uma nova estrutura evolutiva da economia da escassez e do consumo compulsivo à prosperidade compartilhada devem vir das próprias empresas montadoras de autopeças em parceria com o Estado.

Uma gama de serviços sociais na área da saúde, da educação, de amparo aos idosos e crianças, de lazer criativo na arte e na música, visita a museus e bibliotecas, de desfrute das belezas naturais, de limpeza e ajardinamento urbano melhoraria o ambiente, humanizaria a convivência e daria novo rumo à lógica social.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

SEGURANÇA DA SOBREVIVÊNCIA



Parece difícil abandonar o cacoete da discussão generalizada e ideologizada sobre a condição de ricos e pobres. O sucesso da gestão econômica se mede pela riqueza física acumulada no corpo do Estado ou nas mãos de empresas privadas.
A preocupação das diferentes facções do neoliberalismo e neocapitalismo com tinturas de políticas sociais contraditoriamente se dirige ao enriquecimento cada vez maior do rico, com mais ou menos intensidade, e o empobrecimento relativo do pobre que patina na areia para sair da zona de turbulência e de segregação. Essa dicotomia está longe de terminar uma vez que as medidas econômicas favorecem a permanência desses dois blocos.
Nossa economia e seus condutores tateiam com ensaios, soluções improvisadas e justificativas, mas escorregam na compulsão do consumo para equilibrar o resultado dos investimentos sob a espada do PIB. Índices e curvas se multiplicam exacerbadamente para determinar quem ganha e quem perde na refrega obsessiva do crescimento econômico.
A posição ideológica sobre quem é mais rico ou menos pobre tem que evoluir para algo mais nobre e mais duradouro: a segurança da sobrevivência das pessoas e da espécie humana frente às limitações ecológicas para sustentar a vida inteligente no planeta.

Os indicadores de proteção à sobrevivência humana refletirão a distribuição equitativa e os limites da riqueza ecológica disponível à população mundial. Entre os principais indicadores estarão: emissão de gases de efeito estufa, água, áreas verdes, uso de agrotóxicos para produção de alimentos, geração de empregos verdes, ciência e tecnologia adequadas à sobrevivência.