O LAMENTO DA ÁRVORE
No dia em que o
Homem-serra esqueceu que,
numa tarde
abrasadora, dormiu à sombra de um Jatobá,
ouvi, entristecido,
o Lamento da Árvore, que transplantei
há 20 anos.
Nasci sem ser plantada, num lugar
quieto do Cerrado.
Ainda novinha, mão amiga me levou
para crescer na cidade.
Adaptei-me ao barulho de
automóveis,
Levantei seis braços, tomei sol e
chuva.
Fiz sombra a uma Crista-de-galo
com flores vermelhas.
Alguns anos passaram, meus galhos
cresceram.
Dei abrigo ao Saruê. O bentevi e o
sabiá se aninharam.
De madrugada eles cantavam, antes
do Sol nascer.
Da janela, uma voz me dava bom-dia
E sua mão tocava minhas folhas.
Noites longas, de olhos abertos
Olho a Lua e as estrelas que
passam de vagar.
Durante o dia, minhas folhas
recolhiam a poeira do ar.
Um dia, de súbito, o homem-serra,
de rosto vermelho,
Montado numa escada de ferro,
decepa meu braço que olhava o
nascer do Sol,
depois amputa, sem rubor, o braço
que olhava o pôr do Sol.
Sem pena, cortou o terceiro braço
que admirava o Norte.
Indiferente, foi ao braço que
mirava o Sul e o derrubou.
Insatisfeito, estraçalhou o galho
central que contava estrelas.
Mutilada viva, chorei! Minhas
lágrimas rolaram pelo tronco
E caíram sobre as flores da Iris-roxa
que floresce em outubro.
Murmurei, trêmula, ao Homem-serra de rosto
vermelho:
- Uma árvore é só uma árvore, faz
bem a humanos e não humanos.
- A árvore, Homem-serra, também
tem alma.
17 de outubro de 2026
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