sexta-feira, 29 de março de 2013

O MITO DA OPÇÃO PELOS POBRES OU POBREZA SUSTENTÁVEL




Que seria dos finlandeses, suecos, dinamarqueses e noruegueses se, em vez de administrar a riqueza produzida por todos e para todos os cidadãos, os governos daqueles países tivessem optado, há duzentos anos, pela assistência aos menos favorecidos, filhos de agricultores ou de serviçais de reis, rainhas, príncipes e princesas?
Esses países fizeram a opção pela educação pública para todos, independentemente de origem ou localização geográfica. Todos os cidadãos são iguais perante o conhecimento. As oportunidades futuras esperaram por eles.
O mito da opção pelos pobres sugere uma categoria de pessoas inválidas, incapazes, deficientes com marca biológica e genética específica, cuja debilidade requer cuidados permanentes do Estado invasor, semelhantes aos que se destinam a tribos indígenas. Conclui-se que pobres geram pobres num espaço de pobreza, assim como os indígenas se reproduzem na selva.

Quem é o pobre?

A opção pelos pobres corresponde à ideia que se tem deles para justificar as ações propostas para atendê-los. O critério básico dessa opção é que o pobre precisa de dinheiro para sobreviver e se reproduzir. Leia-se: O pobre não é. O pobre precisa ter. Não dispõe de dinheiro para construir uma casa decente, ter água potável, canalização do esgoto, recolhimento de dejetos e lixo. Mora em agrupamentos improvisados, favelas, mangues, palafitas com quase todas essas deficiências. Padece de desnutrição. Alimenta-se mal. São características de pobreza material.
Há uma escala de pobreza e miséria com graduações variadas, o que permite aos governos produzir estatísticas da eventual ou real mobilidade de um patamar de pobreza a outro sem afetar a opção pelos pobres. Nunca se sabe ao certo qual dessas graduações é mais numerosa ou mais importante para a elaboração de programas: se os miseráveis, os que vivem em extrema pobreza ou os simplesmente pobres, acima ou abaixo da “linha de pobreza”. Uns são mais excluídos que outros, por isso as ações empreendidas não alcançam a todos ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. Ou seriam tipos de pobreza cada qual com sua genética e sua patologia biológica e social?
Qual é o tamanho da população pobre do Brasil? Ninguém sabe. Ninguém. O que se sabe é um número contido num percentual. É sobre esse percentual impreciso que se elaboram cadastros, se concebem, produzem e executam todos os programas para os pobres.

Por que a opção pelos pobres?

Qual será o fundamento filosófico que anima a permanente opção pelos pobres e gera, ao mesmo tempo, um estado de pobreza sustentável? Num Estado democrático ou autoritário há sempre um jogo e uma disputa política pela manutenção do poder e da autoridade em mãos de um grupo, de um partido, de uma ideologia.
Os pobres de espírito, isto é, os que reconhecem seu estado de pobreza e aceitam viver em tais condições de penúria material e social são “dignos do reino dos céus”, isto é, dos benefícios paternais do governo. Pobres, nesse contexto, são os que reconhecem seu estado de pobreza pública e estatisticamente declarado com direito a benefícios e favores. Adquirem, portanto, o direito a favores programáticos que ninguém ousa contestar para não ser acusado de elitismo ou neoliberalismo. Os pobres aceitam o estado de pobreza por ser útil a eles e conveniente aos que o sustentam.
O jogo do poder conta com um amplo leque de bondades e favores distribuídos preferencialmente aos que apoiam, alimentam e sustentam os governantes. Nesse jogo do poder, conta-se com o reconhecimento dos beneficiados pelos favores recebidos. Uma forma de reconhecimento é não contestar o poder; é aplaudi-lo, defendê-lo e mantê-lo funcionando nesse ritmo de concessão de favores.
Mas os obséquios não são distribuídos uniformemente. O poder sabe manter divisões de classes, distintas categorias de grupos e astutamente adéqua o discurso, a distribuição de benefícios e as justificativas. Possui meios para controlar a luta entre os mais e os menos favorecidos. Tolera os desafios e sabe que as diferentes classes requerem atenções especificas. Há categorias de súditos que exigem mais favores que outras e manifestam sua vontade de tempos em tempos. Há outras categorias de beneficiados que, pela sua posição no tablado social, não reclamam melhores favores. É a categoria dos pobres. Pobres não fazem greve. Eles têm, hoje, o que nunca tiveram. Reclamar mais é correr risco de perder o que lhes deram. O poder instituído conta com a barreira do medo e os pobres não a ousam ultrapassar. Nem, por isso, são menos reconhecidos pelos favores recebidos. A gratidão é o mais sublime gesto do reconhecimento da dependência do favor recebido.
  
Justificativas

Os de cima, os governantes sabem o que é bom para os pobres. Dão-lhes gratuitamente meios materiais como se tirassem do próprio bolso. Transformam-se em pais e benfeitores para criar a dependência afetiva, dominar as emoções dos pobres com atos formais de atenção. Ao mesmo tempo, cria-se o fascínio amoroso pelo pobre para que outros doem o supérfluo. Preparam-se ocasiões especiais em que os pobres são convidados a festejar o Natal, a Páscoa, o Carnaval, o Dia da Criança pobre, o Dia das Mães pobres sem esquecer o dia das urnas. Publicam-se por todos os meios de comunicação as emoções públicas da generosidade dos doadores e reconhecimento lacrimoso dos beneficiados.
Forma-se uma corrente de apoio à retórica, aos programas e ações envolvendo pessoas, ministérios, igrejas, ONGs, meios de comunicação de massa para consolidar a dependência e criar a consciência de pobreza sustentável. Há que se repetir nos discursos, nos programas, projetos e ações públicas a contínua opção pelos mais pobres.
Toma-se o cuidado de desvincular o poder benfeitor de comportamentos antiéticos e imorais que rolam a seu redor para que a imagem paternal não se manche diante dos favorecidos.
Intensifica-se a publicação de estatísticas complexas, detalhadas (por idade, sexo, cor), com percentuais abundantes para comprovar a existência dos pobres, a atenção dada a eles, as melhorias obtidas, preservando a sustentabilidade da pobreza. O Estado consegue, ao dar comida e acesso aos bens materiais a milhões de pobres, a mágica social de manter neles a consciência da pobreza sustentável e a dependência política.

Ferramentas

Como sustentar o estado de pobreza e como fabricar pobres? Uma das ferramentas é mantê-los a uma prudente distância geográfica, social e política de todos os centros de decisão. As técnicas e métodos participativos se destinam também e, em muitos casos, a ter consciência da própria realidade. As decisões sobre as ações programadas são comunicadas e justificadas segundo critérios de pessoas ausentes à realidade estudada. As obras e os orçamentos, executados ou não, formam, antecipadamente, parte das estatísticas como fatos consumados.
Os programas obedecem a mapas geográficos da pobreza que indicam onde estão os pobres e a rota de sua mobilidade. A área rural, as periferias das cidades, os locais que oferecem subempregos (estacionamentos, semáforos, portas de banco e supermercados), as funções semiescravas de crianças, mulheres e homens (empregados domésticos, vigilantes noturnos), ruas, marquises, casas e edifícios abandonados, pontes e viadutos compõem o mapa da pobreza. Esse mapa engloba todos os graus da exclusão, desde a extrema pobreza miserável até a elite da pobreza nas favelas de grandes cidades.

Processo gradual da pobreza sustentável

Introduzir a população pobre nas estatísticas é o primeiro passo da sustentabilidade. É preciso saber quantos são e onde estão para mantê-los num rigoroso controle de reprodução social. A sustentabilidade da pobreza não conflita com o ter, com obter objetos. Estabelece-se a ilusão da igualdade do ter, de entrar nos centros comerciais, de adquirir bens de uso comum. O que a pessoa é, reveste-se com o que tem. Transforma-se a possibilidade de consumir bens em sonhos de realização pessoal: aparelho de TV, computador, celular, geladeira, fogão, máquina de lavar, carro, casa e dezenas de outros objetos de conforto disponíveis a todos. Nada disso seria importante sem a cédula de identidade e o título de eleitor, portas de entrada para as manipulações estatísticas.
Na produção criativa da riqueza, há uma reserva de áreas de trabalho para os pobres onde a remuneração é baixa, insuficiente para as necessidades básicas e ao conforto: lixões, agricultura de subsistência, subempregos diversos e improdutivos. No processo de sustentação da pobreza, separa-se a comercialização dos produtos da etapa de produção, seja primária ou processada. Mecanismos fundamentados na proteção do consumidor tendem a desconsiderar certos custos da produção (tempo, mão de obra, investimentos) para que a intermediação feita por agentes externos lucre com os preços de venda.
Fomenta-se, dessa forma, uma economia solidária para os pobres. Elabora-se a cadeia produtiva da pobreza, isto é, os elementos de manutenção da pobreza produtiva são solidários: baixa produção, comercialização terceirizada, processamento de produtos de qualidade inferior se integram num sistema de autogestão da pobreza. Os dados da economia solidária dos recicladores indicam a existência de 30 mil empreendimentos dessa categoria, congregando 3 milhões de trabalhadores, muitos deles com renda menor do que um salário mínimo.
  
Nova ética da dependência

Em reuniões de avaliação de programas destinados à população pobre (Bolsa Família, Luz para Todos, cisternas, Minha Casa Minha Vida, dezenas de outras ações de ONGs, prefeituras, secretarias de bem-estar, associação de moradores) são correntes as expressões formuladas espontaneamente pelos beneficiados desses programas: “o lugar é pobre, o bairro é pobre, aqui a maioria é pobre, aqui é longe de tudo”. Sentem-se parte dessa pobreza coletiva. Adquirem a certeza de que são pobres. Essas manifestações não consideram a TV, a geladeira, o celular e outros objetos da chamada inclusão como extintores do estado de pobreza.
Por astúcia e medo de perder o direito de viver no estado de pobreza com os benefícios que recebem, é humano apelar para as limitações em que vivem comparadas com a riqueza exposta nas propagandas, no desperdício de dinheiro público, no roubo ou desvio de milhões de reais ou nas novelas de TV. É uma tática política para permanecer na fila da distribuição de sobras e liquidações de orçamentos.
Consolida-se a consciência da pobreza como condição humana, social e política para continuar recebendo atenção especial. Prolonga-se indefinidamente o estado de dependência com um sistema de aprendizagem e ensinagem deficiente, limitado; com serviços públicos de saúde e transporte inadequados. Toma-se a precaução de consolidar a dependência mantendo a população pobre longe dos centros de decisão cultural e política (teatros, cinemas) oferecendo, de tempos em tempos, diversões de massa.
O ponto mais delicado para garantir a sustentação do estado de pobreza e a dependência de favores do Estado é dosar prudentemente o acesso da população pobre ao conhecimento crítico, limitando a capacidade e a liberdade de pensar.
Por que será que os governantes de nosso país não se propõem a fazer da educação a principal ferramenta para que toda a população brasileira, em todos os estados e regiões, se aproprie das imensas oportunidades que a evolução social, cultural, política e econômica lhes oferece? Seria optar por uma ação universal que atingiria indistintamente toda a população em qualquer lugar do país.
Ao invés de preparar os cidadãos para responder aos desafios que se apresentam na construção de uma sociedade justa, os governantes lamentam a falta de capacidade e de conhecimento da população para agarrar as oportunidades e executar com eficiência, eficácia e segurança os projetos mais e mais complexos do dia a dia. A continuar nesse rumo, o que será desastroso para o país, as perspectivas apontam para a consolidação das desigualdades nos vários Brasis.
Estou convencido de que somos uma população excessivamente grande num país demasiadamente imenso e complexo para depender das precárias capacidades administrativas de governantes que ensaiam experimentos casuísticos, perdidos na selva sem bússola.

domingo, 24 de março de 2013

AS DIATRIBES DE UM PRONOME POSSESSIVO




A mulher com quem convivo há quarenta e quatro anos, não ininterruptamente, pois o próprio tempo mutante, o espaço e as circunstâncias humanas conspiram contra a convivência linear, não é minha.
A mulher com quem se convive também é definida como esposa (do latim spondere) que responde afirmativamente ao compromisso com o varão; consorte (no sentido de consorciar) do contrato social; cônjuge na caminhada (jungir com); companheira que comparte do pão (cum panis). Lembrem-se de que o português é a “última flor do Lácio”.
A mulher é o todo feminino da espécie humana, assim como o varão é o todo masculino. Macho e fêmea fazem parte do código biológico da reprodução. A lei da convivência entre os da mesma espécie, porém, é afetada por um pronome possessivo.
O pronome possessivo “minha” esposa ou “minha” mulher deriva dessa resposta dada ao homem forte, viril, varão. Resposta, na lei biológica, significa que a mulher aceitou ou foi submetida à fecundação. O ato da fecundação não gera direito de propriedade. As diferentes culturas, ao longo do tempo, compuseram rituais distintos para essa resposta.
O pronome possessivo se generalizou na prática da propriedade privada sujeita à defesa incondicional, à pilhagem, à alienação, ao roubo. O possessivo não é absoluto nem intransferível. Pode-se dar toda ou parte da propriedade ou simplesmente desfazer-se dela, abandoná-la. Ou desejar possuí-la. Ou destruí-la.
Pensei longamente nesse pronome possessivo durante os doze dias em que a mulher com quem convivo por mais de quatro décadas permaneceu na UTI de um hospital entre a vida e a morte.
Que sentido tem o pronome possessivo em se tratando de vida? O possessivo se refere a que aspecto da vida? O que pode ser meu do mistério vida alheia, vida de outro ser? O que fica da vida compartida, consorciada? Até onde ou em que ponto a lei, os códigos da convivência participante da vida se confundem com as leis biológicas que separam uma vida da outra?
Duas vidas paralelas caminham lado a lado para separar-se no infinito. Um infinito intemporal, súbito, imprevisível. O pronome possessivo é uma deturpação do mistério vida. A convivência, na singeleza desse mistério vida, parece-me o privilégio transcendental dos seres vivos que se reconhecem no olhar e nas palavras que brotam de seus pensamentos.
A vida compartida, sem a diatribe do pronome possessivo, é a expressão mais generosa da liberdade de ser, de estar, de viver e de reintegrar-se no universo.

terça-feira, 12 de março de 2013

UM ESPAÇO À MINHA ESPERA



         O filósofo Agostinho de Hipona alertou seus leitores, por volta do ano 415, com esta frase: “Um caminho está à sua espera”.
Inconscientemente, eu procurava lugares, espaços, ambientes, caminhos com os quais ou com um deles me poderia entender. Então, determinaria sua configuração, sua maneira de me receber, obedecer e seguir minhas ordens. Todos esses espaços que eu projetava em mim, que eu desenhava para mim, se dissolveram como grandes nuvens cheias de promessas de chuva. Os ventos as levaram para outras regiões. Compreendi, então, que não são os seres vivos que esperam por espaços. São os espaços que esperam por eles.
Certo dia, um espaço, um pedaço do bioma Cerrado se ofereceu gratuitamente à minha desatenção. Insinuou-se sorrateiramente. Usou sua delicada e frágil maneira de sedução. Quando percebi, estava amarrado a ele por laços firmes e inquebrantáveis. A linguagem entre nós se tornou comum. A compreensão das mensagens recebidas ajustava-se às aspirações desejadas. Um novo universo exterior se revelou ao mundo interior que eu procurava. Denominei esse espaço: Sítio das Neves.
Defini esse novo estado de espírito como felicidade vegetal. Nesse momento senti com emoção e inteligência que as árvores e todos os animais desse ambiente viviam em estado de graça. Eram felizes porque possuíam tudo gratuitamente e ofereciam essa felicidade para o desfrute de quem a quisesse saborear.
Que ordens seguiam todos esses seres vivos que destilavam felicidade para aproveitamento de quem passasse por eles? Lição por lição, diálogo por diálogo, compreendi que um código irrecusável, contendo leis físicas, biológicas e genéticas, governava todos os tipos de inteligência dos seres vivos.
Todos os seres vivos são iguais perante estas leis e todos têm direito fundamental à vida. Mas a vida não pertence individualmente e exclusivamente a cada ser vivo. Todas as vidas brotadas das mesmas leis genéticas dependem umas das outras. As leis biológicas e genéticas determinam a interdependência dos seres vivos. O gás carbônico que eu emito é necessário à vida das plantas. E elas me pagam com uma porção de oxigênio. A cadeia da interdependência amarra os seres uns aos outros.
Quase ao final do meu caminho, encontrei o espaço que me esperava há milhões de anos. Um espaço verde, cheio de vidas às quais misturei a minha. Uma felicidade vegetal me inunda como as águas que molham o chão.
12/3/2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

ÁGUAS DE FEVEREIRO 2013



    O mês de fevereiro (2013) apresentou apenas três dias de boas chuvas na região do Sítio das Neves. Nos dias 2, 6 e 10, com 36.2mm, 38.5mm e 21.4mm. Foram 19 dias sem chuva diminuindo o fluxo das nascentes e baixando o volume dos córregos e ribeirões. O volume total de chuvas do mês foi de 132.7mm, com média diária de 4,7mm. O volume foi de 92 milhões de litros no mês (92 mil m3), com média diária de 3,2 milhões de litros (3.290m3).


Comparação dos volumes dos meses de novembro, dezembro (2012), janeiro e fevereiro de 2013.
NOVEMBRO
DEZEMBRO
JANEIRO
FEVEREIRO
TOTAL
228,3mm
235,1mm
457,8mm
132,7mm
1.035.9
7,61mm
7,83mm
15,2mm
4.7mm
8.6mm

Na segunda linha, leem-se as médias diárias de cada mês e a média diária dos quatro meses.
Note-se que o volume de águas do mês de fevereiro (2013) é bem inferior ao registrado em novembro de 2012.

Nas áreas cobertas de vegetação, como no Sítio das Neves, as nascentes se mantiveram ativas. As barragens contribuíram fortemente para a infiltração e percolação. Nas áreas vizinhas, com pisoteio de gado, queimadas e aração, as fortes chuvas de janeiro arrastaram volumes imensos de sedimentos aos córregos.

Área do Sítio das Neves: 700.000 m2.

1.3.2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

É INACREDITÁVEL



O governador Agnelo Queiroz disse: “A maioria das papelarias e dos alunos estão (sic) nas áreas mais pobres do DF. Com o Cartão Material Escolar irrigamos nossa economia e damos dignidade às famílias, Agora, o estudante vai para a escola com satisfação e autoestima elevadas”. Eis a essência da educação.
Adriana C. da Costa, diarista, beneficiária do Bolsa Família há seis anos, conta do constrangimento de seus filhos, de 8, 11 e 16 anos, usarem os itens constantes da cesta escolar gratuita dada pelo governo. Diz ela: “Tinha tênis, meia, uniforme e material, mas tudo vinha com a sigla do GDF. Amigas minhas já me contaram que os filhos ficavam com vergonha e não usavam”. E acrescenta: “Meus filhos adoram comprar material. E sempre escolhem o mais caro, então, vai ser bom, né?”
O secretário da pasta das Micro e Pequenas Empresas considera o Cartão um marco para o desenvolvimento econômico local: “O Cartão tem duas vertentes. De um lado vai estimular as crianças e adolescentes da rede pública, consagrando o direito de escolha durante a compra. E, de outro, incentivará a geração de emprego e renda, pois a papelaria vai vender mais”. E dando uma de radical de esquerda, ensina que, anteriormente, o material escolar era fornecido por grandes empresas de outras regiões. Diz essa sumidade: “Agora, os R$ 36 milhões não vão mais para uma, mas para 210 empresas aqui do DF.”
Quem acredita que os cadernos e lápis, borracha e canetas são fabricados em Samambaia, Itapuã ou na Estrutural? A qualidade da educação para o governador e seus secretários está na compra do material escolar. No direito de escolha do lápis e do caderno.
É inacreditável, mas é assim que somos governados.
(Estes fatos foram relatados no CB, 27.2.2013)

QUE PAÍS É ESTE?



Alguém, um dia, surpreendido com os fatos e as pessoas que aparecem nas TV’s e nos jornais, perguntou de súbito QUE PAÍS É ESTE?. Explicam, justificam, negam e nos governam.
Tive, há poucos dias, essa mesma pergunta nos olhos e no pensamento. Essas figuras, que se mostram ao vivo como saídas de uma história em quadrinhos, rostos redondos, luzidios, sorridentes, de óculos modernos, cabelos grisalhos ou tingidos, dizem coisas estranhas. Competem uns com os outros. Sacodem números, sempre bilhões. Despejam percentuais sempre diversos. Um jogo de esconde-esconde ridículo: dólar, inflação, PIB. Defendem e protegem as pequenas cifras, quando não conseguem as grandes, e as justificam acusando os Estados Unidos e a Europa.
Dizem, agora, que vão controlar os preços das diárias  dos hotéis durante a Copa das Confederações com a participação dos proprietários, do Ministério das Cidades e das associações dos hoteleiros. Falam. Sorriem e se vão. Como no teatro.
A sensação que me assaltou, nesse dia, foi a de ser um estranho no ninho. Não faço parte desse país. Não tenho nada a ver com essa gente. O mundo em que vivem não é o meu. Vivo no futuro. Eles, no passado. Esse país está nas mãos deles. Eles precisam do país. Desconfio que o país não precise deles. Estaria melhor sem eles. Eles fazem o país à sua imagem e semelhança. Tornam o país ridículo como ridículos são.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

EQUILÍBRIO ORGÂNICO


(Foto: Ecodebate)


Insisto no conceito de interdependência dos seres vivos. A vida é a frequência de onda comum da comunicação, transmissão e recepção, da pergunta e da resposta. É a única frequência do sinal vital emitido por um ser vivo e do sinal captado por outro.
A dificuldade constante de aplicar a democracia no exercício cotidiano da governança da coisa pública e da administração da população está na emissão vertical de sinais em uma frequência de direção e a incapacidade de captar sinais em outra frequência. A frequência democrática é horizontal e não vertical.
A interdependência dos seres vivos é horizontal. As vidas interdependem em busca do equilíbrio. Umas servem às outras, mesmo que algumas desapareçam para que outras as substituam e se reencontre o equilíbrio. A mão direita precisa da esquerda e vice-versa. É a democracia orgânica, o equilíbrio orgânico.
Por trás dos seres vivos há leis físicas, assim como por trás da democracia política e econômica há leis que propõem o equilíbrio entre perguntas e respostas. Não se impõem frequências. O que dificulta o diálogo, a conversa entre as partes é a confusão entre quem deve perguntar e quem, responder. Muitas respostas são dadas antes da pergunta por quem supõe saber qual é a questão antes de ser proposta. A impaciência de uma parte prepara o carro e esquece os bois.
Na vida social, entre seres humanos ou nas relações com os demais seres vivos no universo da natureza, há que se procurar as pessoas e as coisas na mesma frequência para que a comunicação feche o ciclo. O endereço, na comunicação, é importante, imprescindível. A frequência comum a todos os seres é a vida. Não basta emitir sinais. É necessário saber captá-los.
Creio que tenha conseguido, ao longo de anos, captar os sinais vitais da natureza que os transmite por meio de árvores, insetos, pássaros e de todas as espécies vivas. A vida deles entrou na minha frequência. Meu receptor estava preparado para escutar.
No sistema corrente, fruto de erros e acertos da relação e comunicação entre os membros da espécie humana e os demais seres vivos do planeta Terra, observa-se que o ser humano estabeleceu unilateralmente centros de transmissão de sinais e descurou dos receptores. Emite sinais numa frequência e obriga os demais seres a aceitá-los para adaptarem-se às suas ordens. As espécies vivas, vegetais, animais e os elementos químicos e biológicos necessários à perpetuação da vida, emitem sinais permanentes em frequências específicas nem sempre captadas pela espécie humana. Os receptores da espécie humana estão elaborados para receber apenas respostas lógicas do sistema de transmissão de sinais para sua própria subsistência e reprodução. É um estágio ainda primitivo da evolução humana.
 Isto acontece também com o sistema de comunicação no interior dos seres da espécie humana. As respostas econômicas, políticas e administrativas parecem brotar de receptores avariados. Os sinais recebidos não foram compreendidos e a linguagem não foi decodificada. A interpretação fica a cargo da lógica do sistema que emitiu sinais para obter respostas previstas. Geram-se, assim, impasses, crises, quebras.
As inundações de centenas de cidades, a devastação da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, os engarrafamentos diários do trânsito, os milhões de pessoas pobres e miseráveis, a matança cotidiana de pessoas e animais indefesos revelam a incompatibilidade de centros múltiplos e variados de emissão de sinais vitais com os receptores mal concebidos, ou mal localizados, ou simplesmente avariados pela ação unilateral da espécie humana sobre as outras.
Atravessamos um período da evolução biológica, genética, social e política de desequilíbrio orgânico. Há que restabelecer o sistema de relação e comunicação entre todos os seres vivos do planeta. Todos os diferentes centros de emissão de sinais vitais precisam construir variados receptores para situá-los na mesma frequência: a vida, riqueza essencial do planeta.
Há que se propagar a transmissão de ondas para que se espalhem velozmente, invadam todos os espaços e circulem indefinidamente no tempo. A que distância estamos uns dos outros? A que distância os transmissores estão dos receptores? Em que tempo as respostas chegarão aos receptores? Se houver erro na compreensão e decodificação dos sinais, quais as consequências?
O que deveria ser um diálogo entre a transmissão e a recepção parece converter-se em monólogo. Um monólogo de curto prazo contraposto ao diálogo de longo prazo. O interesse, o resultado imediato, o lucro agora, o dinheiro já dominam o monólogo das decisões políticas e econômicas. O tempo não entra na execução do monólogo. O diálogo requer tempo. Há séculos e milênios pela frente para que se estabeleça o diálogo entre transmissão e recepção de sinais vitais.