quarta-feira, 30 de março de 2011

OLHO D’ÁGUA


Escondido entre pedras, gramíneas, orquídeas e arbustos discretos, o olho d’água espiava uma nesga de céu azul. Vinha de longe, de profundidades silenciosas, retorcendo-se por entre camadas de rochas, infiltrando-se pelas veias da terra desde tempos imemoriais. Era um olho só na face enrugada, envelhecida pela pátina dos séculos, milênios ou anos-luz.
Era filho do gelo, da nuvem, da chuva. Borbulhava incansável. A pupila brilhava e cintilava mirando o sol. Quantas noites guardou na retina a palidez da lua! As lágrimas do olho d’água desciam pelas rugas do chão num choro suave e num cantarolar monótono, adormecendo as pedras. Corriam na direção do mar, levadas por riachos e rios, e quebravam-se nas areias da praia.
Um dia, notei que as sobrancelhas vegetais que circundavam o olho d’água perdiam a cor verde, amarelavam, secavam. Não longe dele, um trator arrasava plantas e o fogo deixava cadáveres em pé ou incinerados no chão. A esclerose do solo atacou o olho d’água. As lágrimas foram secando, a cegueira obscureceu o olho d’água. Uma pequena cova no rosto da terra era a cicatriz do golpe que arrancou o olho d’água. Ainda há sol e lua, nuvens e chuvas, mas o olho d’água não vê mais.
Arrancaram sem pena meu olho d’água. Por isso, há anos, protejo os olhos d’água que ainda restam no rosto belo da terra.

sábado, 26 de março de 2011

SÉTIMA POTÊNCIA

 

Percorro, neste período chuvoso, as ruas enlameadas do Engenho das Lajes. Sacos de lixo amontoados nas esquinas ou espalhados pelo chão. O esgoto das casas se derrama pelas sarjetas. Há dias, o país foi guindado à sétima potência econômica mundial, comprovada com o crescimento do PIB em 7,5%.
Encontrei algumas pessoas na rua, na Padaria do Zé, no supermercado do Roni. Comentei com alguns deles, levava comigo o Correio Braziliense, a notícia que consagrava o Brasil com a marca de sétima potência. No curso de todas as conversas, percebi que nenhum dos meus interlocutores tinha ideia do que fosse o índice 7,5%. Ao serem questionados sobre esse percentual, um deles arriscou: “então, é por isso que é a sétima potência”?
Quase todos, ao final da conversa, me perguntavam: “e o que é que isso muda pra nós”?
Cirino da Silva, o Foguinho, está desempregado. Tem seis filhos de duas mulheres. Vive do Bolsa Família e reparte entre as duas. Uma delas vende cafezinho e biscoitos numa banca improvisada, durante as manhãs.
Zico Chaves dos Santos é pau pra toda obra, de pedreiro a eletricista, pintor e arrumador de bicicleta. Deixou a esposa e filhos, em Goiás, e bebe aqui o pouco que apura no dia.
Selma tem quatro filhos, é diarista três dias na semana, ao preço de R$ 20,00 ao dia. Não conta com o dinheiro do marido, que é pedreiro, tem carro ano 75 e gasta tudo com outras mulheres à beira da Rodovia BR 060.
Zequinha, 65 anos, enxada nas costas, vive de empreitas nas chácaras ao redor do Engenho. Além da família, sustenta vários netos que nasceram de ligações perigosas.
Joelsivan Pereira Neto é vigilante de um empório de material de construção, em Samambaia. Nos dias de folga é ajudante de pedreiro.
Rosa Couto Morais, Rosinha, 13 anos, está no sétimo ano do Ensino Fundamental. É uma das 30 adolescentes do Engenho das Lajes carregando gravidez precoce.
Deixo algumas sugestões dos moradores do Engenho das Lajes com quem conversei, depois do anúncio feito pelo ministro da fazenda, doutor Mantega.
“Eu acho que o governo tem que olhar pra nós. Aqui não tem emprego”.
“Olha como é que está (sic) essas rua. Uma vergonha!”
Voltei à biblioteca popular do Engenho das Lajes e continuei a leitura de FEBEAPÁ 3, de Stanislaw Ponte Preta. Em 2020, está previsto, o Brasil será a Quinta Potência Econômica Mundial. Até lá, o Engenho das Lajes espera não ser mais o mesmo.

sexta-feira, 25 de março de 2011

SÓ FALHAMOS NA EXECUÇÃO

 

Estava lendo na biblioteca popular do Engenho das Lajes, agrovila situada a 50 km do Palácio da Alvorada. Pela euforia  dos comentários de jornalistas e economistas numa importante emissora de rádio, presumi que as manchetes de jornais e noticiários de TV não falassem de outro assunto. O país foi despertado com um badalaço. O PIB cresceu 7,5% em 2010. Toda a riqueza do país está sintetizada nesse percentual. Simplificando, em 2009, a riqueza do país era igual a R$ 100,00, em 2010, subiu para R$ 107,50.
Adivinho que esse leve aumento da riqueza se deva a exportações de carne, soja, minérios, à produção e venda de carros, geladeiras, celulares, televisões, remédios, cirurgias plásticas, ao PAC I, PAC II e outros que virão. Não sei se a novíssima “contabilidade criativa” descontou, dessa riqueza toda, as perdas de 40 mil mortos no trânsito, os prejuízos das 200 cidades inundadas, as centenas de soterrados nos deslizamentos de morros, dos milhares de hectares desmatados na Amazônia e no Cerrado. O fato contábil é que, somando os ganhos da economia sem deduzir a perdas, passamos de cem para cento e sete reais e cinquenta centavos. Perdi-me nos cálculos e, na noite passada, sonhei que um logaritmo perseguia uma raiz quadrada entre as ruelas enlameadas do Engenho das Lajes.
Os governantes do Brasil, do presidente ao prefeito, desde muito tempo, adotaram um método simpático de administrar e resolver nossas dificuldades em escala progressiva: muitas boas intenções, promessas eleitorais, planos globais envolvendo 36 ministérios, programas detalhados para todos os setores econômicos, tecnológicos, culturais e sociais, projetos importantes e urgentes, entregues a empresas privadas, com bilhões de reais empilhados no orçamento invisível. A governança falha apenas na execução. Mas, no final, tudo dá certo. Para quem?
Em frente à biblioteca do Engenho das Lajes, passa muita riqueza pela rodovia BR 060, hoje duplicada. Passa. Cegonhas vão em direção a Goiás, vindas de Minas Gerais. Outras vêm de Goiás para Brasília. É o PIB passando. Há mais de vinte anos, por insistência da população do Engenho das Lajes, os governadores de turno prometem construir uma passarela para evitar atropelamentos e mortes de crianças que vão para a escola. Em vez de passarela ou semáforo, apareceu do nada um viaduto, até hoje, inacabado. Nada de passarela. As ruelas do Engenho das Lajes, no período chuvoso, ficam enlameadas. As águas sujas do esgoto, a céu aberto, se misturam com as da chuva. Nos meses secos, a lama vira pó que se junta à fumaça de milhares de carros que cruzam diariamente o povoado. Esqueci-me de dizer que o Engenho das Lajes pertence à sétima potência econômica mundial, onde 13 milhões de cidadãos não têm vaso sanitário em casa. Quer dizer...
Então, perguntei a vários habitantes do Engenho das Lajes o que sentiam na alma patriótica sendo cidadãos da sétima potência mundial. Darei o resultado em outra ocasião. Por enquanto, lendo Stanislaw Ponte Preta, pergunto-me por que temos que ser uma potência mundial? Sendo o Brasil grande por natureza, não será suficiente construirmos uma nação justa e igualitária, sem a esquizofrenia do PIB e a histeria de potência mundial?

quarta-feira, 23 de março de 2011

Stress hídrico


No Dia Mundial da Água, fui despertado com um bombardeio assustador de números e porcentagens sobre o difícil abastecimento e o possível racionamento de água. Sabemos tudo sobre os que têm muita, pouca ou nenhuma água. Sobre os grupos privilegiados que, em Brasília, gastam mais de 1.000 litros por pessoa/dia e os que usam 120, nas bordas da metrópole. Que o Brasil é um dos países mais ricos em água doce, mas está onde vive pouca gente e escassa nos superpovoamentos. Que o bioma cerrado perdeu metade de suas matas, de suas águas e de seus bichos.
A ANA (Agência Nacional de Águas), para salvar nossas cidades do racionamento de água, propõe investimentos de R$ 22 bilhões nos próximos quatro anos. Sabemos que nossos rios estão sujos, que esgotos correm soltos, que o lixo, associado às águas, consolida o dengue e outras epidemias. Especialistas deram conselhos e truques para consumir menos e eliminar o desperdício.
A Adasa (Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal) chegou mais perto do precipício e alertou: “Gente de mais. Água de menos”. Quer dizer, quanto mais gente, mais água. Quanto mais água, menos água.
O Sr. Magela, Secretário de Desenvolvimento Urbano, anunciou um novo loteamento, no Riacho Fundo II, para 20 mil pessoas de baixa renda, isto é, comprometeu 4 milhões de litros de água/dia.
Mas o toque oficial e burocrático, a coroar todas as análises mais profundas do inconsciente e subconsciente da água, determinando o diagnóstico psicanalítico do H2O, veio da Senhora Ministra do Meio Ambiente: “estamos enfrentando o estress hídrico”.
Sim, precisamos urgentemente de um sofá ou de um leito para a água. Quem sabe onde se esconderam as 10 mil nascentes que existiam no DF? Embaixo de quase três milhões de habitantes, prédios, carros, vias, viadutos, estacionamentos. O que está sendo feito para proteger as sobreviventes da catástrofe urbanizadora? Quem fiscaliza os 30 mil poços artesianos que estão provocando um deserto subterrâneo, eliminando nascentes, secando córregos e destruindo rios?
É no nascedouro que reside o segredo da água. Conheço este segredo há 30 anos e meu Sítio das Neves é dos poucos que o maneja para garantir água para todos: desmatamento zero, floresta nativa, detenção de águas da chuva em pequenas barragens.
Convido a ANA, a Adasa, a Caesb, o IBRAM, o Ibama, o Ministério do Meio Ambiente, a conhecer o segredo e revelá-lo aos agricultores grandes e pequenos para curar o “stress hídrico”.
A terapia é um complexo vitamínico de menos gente, menos consumo e, principalmente, mais produção de água, prolongando a vida dos mananciais.

domingo, 20 de março de 2011

A HISTERIA DO CONSUMO



A ênfase dos noticiários é posta nos números e nas datas comemorativas do consumo. Centros comerciais, lojas de marca, concessionárias de automóveis, lado a lado com o futebol e o carnaval, estão na mira de jornalistas e comentaristas dos acontecimentos econômicos. A histeria do consumo faz a festa da economia. Não importa a ninguém que um cafezinho custe, no Brasil, R$ 4,00, ou que as taxas de juros do crédito subam a nove ou doze por cento ao mês. Endividar-se é a lei. Não importa que 19 milhões de aposentados vivam o resto dos dias pagando dívidas do crédito consignado.
Onde residem os focos desta histeria do consumo estimulada por áulicos do governo, estrategistas do poder econômico e por fanáticos adoradores do PIB? Comece-se pelos R$ 13 bilhões concedidos aos beneficiários do Bolsa Família que os gastam no comércio local e nas redes de super e hipermercados. Esse dinheiro garante parte do feijão que faltava na mesa, e complementa o necessário para o celular pré-pago, o aparelho de som de 1.000 W, a nova TV digital, a geladeira, a máquina de lavar. Esses R$ 13 bilhões são apenas o complemento da renda existente e representam um empurrão na roda do consumo. Sabe-se que o Bolsa Família não é incompatível com piscina, carro na porta adquirido com ingressos não declarados provindos de bicos extra profissionais. Constituem o caixa dois da pobreza. Esses bilhões garantem milhares de carnês mensais e boletos das dívidas familiares, orgulho do consumidor. Para pagar o carro, desdobra-se o trabalhador em diferentes funções: balconista de dia e garçom à noite. E, para a estatística, é a diminuição da desigualdade.
Vai-se aos altos funcionários e aos postos da elite administrativa da burocracia, na qual se inclui a presidência da república, câmara e senado, câmaras estaduais e municipais, ministros de tribunais, ativos e aposentados. É ali que se abastecem de pingues ordenados os apadrinhados, a claque eleitoral, os laranjas, a linha multicor do nepotismo: filhismo, maridismo, mulherismo e penduricalhos afins, agregados em escala descendente com salários de marajás. Nomes não faltam. As primeiras páginas dos jornais os publicam com frequência sem que a indignação popular abale os fundamentos da pátria. Podem até prender “supostos” ladrões do erário por algumas horas, mas o dinheiro fica solto à espera da próxima festa badalada onde todos dançam e tudo se esquece.
Tudo isso seria inconsistente sem o apoio incondicional da sonegação contumaz. Os auxiliares indispensáveis da histeria do consumo atendem pelo nome de cheque especial, cartão de crédito, crédito em consignação, financiamento direto ao consumidor, em 12 ou 36 parcelas sem juros. Outra categoria de auxiliares terapêuticos da histeria do consumo se denomina superfaturamento, propina, obras não acabadas, desvios do INSS, falsas aposentadorias, sorte nas loterias.
Essas camadas superpostas da pirâmide econômica: bilionários, milionários, Classe A, Classe Média Alta, Nova Classe Média, a classe do Salário Mínimo, a linha imaginária da pobreza sustentada pelo Bolsa Família, a categoria escrava do zero ao meio salário, são a base e garantia da indústria desigual, do comércio desigual, dos serviços desiguais, do crescimento e do desenvolvimento desiguais.
Por isso e para assegurar a desigualdade profunda, mascarada pela fantasia política da inclusão, criaram-se sonhos incansavelmente vendidos aos consumidores. A carteira assinada por um patrão é o símbolo da estabilidade e inclusão no rebanho de consumidores, pastorado pelo sistema vertical do cumprimento de ordens. O carro, posto na rua como valor de ascensão social e, a casa própria, transformada em dívida sem fim, completam as virtudes cardeais da cidadania moderna.
Embalados por esses sonhos, arrastados por essas ondas incontidas, os cidadãos acordam dominados pela volúpia ensandecida do consumismo que contaminou, há tempos, as células mais sensíveis do organismo social: educação e saúde. As escolas privadas, da creche à universidade, dividem a sociedade em ricos e pobres, extorquem os clientes com pesadas mensalidades, enquadram alunos em uniformes exclusivos e criam absurdas despesas complementares com festas de formatura desde a conclusão da fase do ensino fundamental à colação de grau universitário. As escolas públicas, incluídas no sistema de segregação da cidadania, filhas enteadas do Estado, por serem gratuitas servem aos alunos as sobras do bolo econômico e cultural.
A saúde pública, salvo exceções que dignificam a regra, como a Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação, está entregue à extorsão dos planos de seguro ou às vergonhosas filas de hospitais semiacabados. O conceito de saúde preventiva se esconde tímido por trás de campanhas esporádicas e dispersas para combater epidemias arraigadas à cultura do lixo, da sujeira e do descaso.
A histeria do consumo nos colheu no arrastão econômico e cultural que devasta a sociedade. No comando da histeria avassaladora, os guardiões vigilantes  esperam o pequeno cidadão na maternidade para transformá-lo num consumidor contumaz. Cada passo de sua aventura existencial é bombardeado por anúncios em que ele mesmo é ator. Aos três anos, já domina os mais avançados aparelhos eletrônicos e está apto a dar lições aos anciãos que ainda insistem em buscar nas enciclopédias e dicionários o significado das palavras e o valor dos fatos históricos. O pensar filosófico e o raciocínio crítico estão sendo substituídos por soluções mágicas, práticas e rápidas, feitas de toques e cliques.
A histeria do consumo nos impõe decisões rápidas, o culto do imediato, a farra inesquecível do hoje. Amanhã, teremos o novo, o atual, o moderno e aderimos a ele por osmose cultural. A histeria do consumo homogeneíza, pasteuriza a sociedade e estabelece o critério de igualdade baseado no sagrado e inviolável direito de consumir.

sábado, 19 de março de 2011

UM NEGRO NO BRASIL


Barack Obama, Presidente dos EUA, visita o Brasil,  acompanhado de Michelle, Malia (12) e Sasha (9).
O Brasil é um país com quase dois terços de população negra ou afrodescendente. Recebe um negro, presidente de país influente e poderoso no âmbito mundial. O aparato de proteção a este negro singular, num país de negros, não tem similar na história de visitantes ilustres.
Escravizamos negros durante um longo período de nossa história pátria. Nossa polícia tem sido truculenta com seus consanguíneos. Depois da Lei-Áurea, que deu fim à escravidão, acantonamos os negros em favelas sub-humanas. Praticamos o racismo no trabalho, na escola, mas aplaudimos o negro nos campos de futebol, no gingado do carnaval ou na música que desce dos morros.
Sabemos proteger e admirar autoridades. Seja ela um presidente negro de um império em decadência, seja um presidente operário semianalfabeto, seja um presidente ou governador corrupto antes de ser deposto.
Temos alma infantil e generosa. Fazemos manha, jogamo-nos no chão, choramos amuados, mas logo voltamos aos braços do pai e ao seio da mãe.
Não tenha medo, Obama. Este é um país de negros. Enquanto você estiver por aqui, nós o defendemos e respeitamos. Respeito é bom e caro a todos nós.


sexta-feira, 18 de março de 2011

CRECHES OU ESCOLAS-PARQUES


“Nenhuma criança de zero a seis anos fora da creche” é a mais recente palavra de ordem dos governos distrital e federal no elenco das prioridades em educação. As creches aparecem como solução democrática apresentada ao público com o propósito de abrir o caminho da escola a toda a população desde o nascimento. Com essa iniciativa, o mínimo de nove anos de escolaridade será mais facilmente preenchido e, dentro de quatro anos, teremos estatísticas festejadas e aplaudidas. Com seis anos de creche acrescidos de nove do ensino fundamental, para os que chegam até lá, supera-se o número mínimo de anos dedicados à educação e à aprendizagem.
Não importa que, daqui a quinze anos, as crianças egressas deste novo modelo educativo continuem sem ler nem escrever corretamente. Nem importa que digam “latra”, “vrido”, “tauba” ou “largata” que é como ouvem em casa e que nossas escolas rurais e da periferia da metrópole brasiliense não conseguem endireitar. Nem importa  que os professores usem o plural sem esses.
Para facilitar a implantação deste brasileiríssimo modelo, que servirá de exemplo criativo para o mundo civilizado ou emergente, por que não transformar as maternidades em creche ou vice-versa? As crianças nasceriam nas creches e teriam, ali, espaço, berço, aleitamento, chocalhos, fraldas, babás, toda a bicharada e bonecas supridos pelo Estado. Seria a réplica do Admirável Mundo Novo nas mãos da eficiente pedagogia estatal operada por babás psicólogas a implantar nas cabecinhas tenras o Hino Nacional e os princípios de Ordem e Progresso. Por falar nisso, já começou a recrutamento para o futuro treinamento dessas babás? Ou o serviço será prestado por empresas terceirizadas, com pessoal especializado em trocar fraldas e esquentar mamadeiras?
Teremos, é natural neste país, creches tipo A para a nova classe média, incluída no sistema de consumo e que precisa garantir a renda para pagar o carro, a passagem aérea e a viagem à Disney em  prestações a perder de vista. Creches tipo B para empregadas domésticas, diaristas, mães solteiras, caixas de supermercado, varredoras de rua e as múltiplas categorias de trabalhadores de empresas terceirizadas. Se os formuladores desta nova política educacional, tratada com urgência e metas definidas, observassem o funcionamento de escolas primárias, ditas de ensino fundamental, em Santa Maria, Recanto das Emas ou Engenho das Lajes, todas na periferia de Brasília, a 50 quilômetros do Palácio do Planalto ou do Buriti, a decisão seria outra, sem menosprezo das creches.
Uma política educacional não começa pela projeção do número de escolas ou creches. O primeiro passo, na escala de importância, é o recrutamento da elite estudantil, isto é, entre os que mais se destacam no processo de aprendizagem, para sua preparação ao magistério, acenando para uma remuneração competitiva à de outras profissões e com etapas de aprimoramento contínuo, como no Chile ou Finlândia. O investimento profissional precede o investimento material e este depende daquele. Sem essa arrancada inicial, todo o processo educativo se esfacela pelo caminho com remendos e tapa-buracos como é, hoje, a educação neste país.
Um segundo passo, proposto com a construção de Brasília e defendido ardentemente pelo pioneiro médico pediatra Ernesto Silva, é a demarcação do espaço físico onde se gesta a aprendizagem e a ensinagem. A escola-parque é um modelo próximo ao ideal que soma natureza, liberdade, amplidão espacial e ambiente propício à fixação dos fundamentos intelectuais, culturais e morais das gerações presentes. É o contrário dos muros apertados dos bunkers escolares de hoje.
Conheço bem o Centro de Ensino Fundamental da Agrovila Engenho das Lajes, na periferia de Brasília, fundado em 1966, onde 420 alunos se amontoam nas estreitas calçadas cercadas de muros altos a impedir que os olhos vejam mais além. Por que tamanha sovinice com o espaço das escolas públicas? A liberdade educativa é prisioneira da insensibilidade dessas políticas erráticas. A escola do Engenho das Lajes, como milhares de outras, muitas delas vizinhas do poder maior e do centro de decisões políticas, está entregue a sua própria sorte, desconectada de Brasília e do mundo. Nesses quarenta anos, sequer pensou-se em dotá-la de biblioteca. Essa lacuna foi preenchida por iniciativa popular, sem ter encontrado o mínimo gesto de simpatia por parte da Secretaria de Educação do DF. Segundo informações colhidas entre pais e mestres, a maioria das crianças que terminam a nona série não prosseguem os estudos. Centenas de jovens começam cedo o caminho da jogatina, da bebida, das drogas. E o número de meninas que engravidam aos 13 ou 14 anos cresce assustadoramente nesse povoado. Essas crianças, filhas da precocidade e da ignorância, também precisarão de creches para que as jovens mães não interrompam seus estudos ou ganhem a vida como diaristas.
Conceda-se, teoricamente, um grau de importância às creches, com todas as restrições de seu funcionamento. Porém, é preciso dar o grau de urgência para o aspecto essencial da educação em nível de excelência igual para todos os cidadãos. Impõe-se a transformação dos bunkers escolares existentes na periferia da metrópole brasiliense em escolas-parques. Grande parte das dificuldades sociais e profissionais será resolvida, com ou sem creches.