Vivi e atuei na Igreja Católica até os 31 anos. Passei duas décadas internado em seminários repletos de meninos e adolescentes e em conventos escuros habitados por homens rígidos, bem-nutridos, a caminho do paraíso, desviando os atalhos que levam ao inferno. Os atos de pedofilia e homossexualismo, em seminários e conventos masculinos e femininos, foram cuidadosamente, durante séculos, empilhados em arquivos secretos.
Tive oportunidade de compreender, nesses anos de silêncio e meditação, a complexidade da verdade divina e da hipocrisia humana, da sinceridade e da mentira. Todas as falhas, tidas como pecados, eram debitadas à fragilidade do homem e à sua tendência à desobediência às leis e a contrariar a vontade de Deus. As virtudes, que também sustentam o espírito e o caráter, dependem do Espírito Santo sem mérito pessoal do cristão.
Essa escamoteação de sentimentos, ora escondendo-se na humildade, ora exaltando o poder superior, conduz à moral hipócrita. O confessionário é o banco dos réus. Nele se desfaz esse nó chamado pecado com a absolvição dada em nome de Deus. O pecado e o pecador são guardados em segredo pelo confessor.
Parte de um rosário extenso dentro de seminários, conventos, escolas católicas e paróquias, as últimas notícias de pedofilia atingiram o Vaticano e alcançaram o Papa. A Igreja Católica continua a ensinar que a pedofilia e o homossexualismo se enquadram na lista de pecados e até são considerados doenças do espírito. Essa doutrina impede que o papa, os cardeais, bispos e sacerdotes saiam do armário.
Essas doenças, para a Igreja, são incuráveis, mas devem ser tratadas com pílulas de oração e comprimidos de confissão semanal. Entram, portanto, no âmbito do segredo: sei, mas não posso dizer.
O menino bulinado denuncia o padre ao bispo. O bispo é denunciado ao cardeal. O cardeal é denunciado ao papa. O Papa é o representante de Deus e fala em nome Dele. O Papa deve ser denunciado a Deus que só proferirá sentença no Juízo Final. Enquanto isso, o Papa, como qualquer outro réu, negará que sabe o que sabe. Dirá que é fofoca do dia e intriga de ateus.
Foi essa hipocrisia oficial, pondo Deus como testemunha e juiz, que me fez romper com a Igreja Católica aos 31 anos de idade. Abri, palmo a palmo, o caminho da liberdade de pensar, de querer e de dizer, creditando e debitando a mim meus atos humanos.
COMENTÁRIOS SEMANAIS SOBRE MEIO AMBIENTE, POLÍTICA, LITERATURA E OUTRAS SUTILEZAS DO COTIDIANO.
quarta-feira, 31 de março de 2010
CENTENÁRIO DE BRASÍLIA
Carta que minha neta Luiza me enviou, em 21 de abril de 2060.
Hoje, Brasília completa 100 anos. Subi na Torre de TV com minha neta. A cidade e arredores parecem uma imensa floresta. O Parque da Cidade, desde 2035, foi remodelado depois da proibição da entrada de carros. Chega-se até o Parque de ônibus circular ASANORTE/PARQUE (ANP), de metrô de superfície (MS) ou de bicicleta. Nos antigos estacionamentos, há escolas de pintura, de música, de danças e ginástica.
A vista do Lago é magnífica. O Passeio da Orla, sombreado por elegante arborização, inaugurado em 2030, recebe milhares de brasilienses, diariamente, para longas caminhadas. Uma empresa comunitária, sob fiscalização eletrônica, faz a manutenção e limpeza do Passeio e administra as cabanas de refrigério ao longo das duas pistas. Uma, para bicicletas. Outra, para caminhantes.
Com as novas leis do trânsito, adaptadas às determinações do Comissariado Mundial do Ambiente, a maior parte do transporte urbano é público e movido a energia solar ou elétrica. Desde 2050, a população se desloca por meio de bicicletas ou motoelétricas. Finalmente, com a pressão intensa dos cidadãos, o transporte público reduziu o número de automóveis ao mínimo necessário: ambulâncias, bombeiros e taxis de emergência. As avenidas, agora sombreadas, servem aos ciclistas e motolétricos.
Os estacionamentos são, em sua maioria, pequenos e agradáveis parques com chafarizes, alimentados com águas da chuva retida em reservatórios subterrâneos, espalhados pela área de Brasília e cidades-satélites. Quase todos os estacionamentos foram transformados em centros de cultura, de saúde e laboratórios de pesquisa. A quebra da Petrobraz, em virtude da abolição do uso de combustíveis sujos, desvalorizou milhões de carros que ficaram impedidos de trafegar. Seus proprietários os utilizam como pequenos quiosques, ao longo das ciclovias, para vender refrigerantes, sorvetes e lanches.
Com os estímulos e a descentralização dos serviços públicos para as cidades-satélites, Brasília e seus monumentos arquitetônicos atraem mais turistas e visitantes do que cidadãos em busca de soluções burocráticas. Os mesmos estímulos e descentralização foram aplicados nos Estados da Federação, levando centenas de milhares de moradores do Distrito Federal a voltarem a suas cidades de origem ou ir para áreas especiais de exploração da permacultura, e alimentos orgânicos.
Além disso, a Lei Demográfica, de 2028, recomendou e pôs em prática um plano de decrescimento da população. Depois da implantação da rede escolar eletrônica, em 2052, os alunos do primeiro e segundo graus e parte dos universitários, assistem às aulas por computador em suas casas ou salas adaptadas nos edifícios e quadras onde moram. O mesmo acontece com as consultas médicas encaminhadas através de um serviço de saúde pública, eletrônico, individual e comunitário, pelo qual os pacientes recebem as orientações, medicações ou recomendações especializadas. A qualidade e a oportunidade do ensino e do atendimento sanitário são as mesmas para todos os cidadãos. Reduziram-se os custos sociais e se utilizam os impostos para outras finalidades, além de sobrar mais dinheiro do salário familiar no fim do mês.
Uma nova Lei do Lazer foi instituída, em 2055, promovendo a construção de arenas e teatros, agregados a bibliotecas comunitárias, nos espaços desocupados por automóveis, para execução de orquestras, conjuntos musicais e representação dramatúrgica. Um apreciado programa de arte e cultura para todos.
Brasília e todas as comunidades que a rodeiam parecem um imenso parque onde cantam, nas madrugadas, milhares de pássaros de todas as cores. Nele correm águas cristalinas que brotam de nascentes recuperadas, graças à intensa arborização e proteção das árvores nativas e outras espécies adaptadas. A ideia nuclear do projeto do arquiteto Lúcio Costa de construir cidades-parque, para felicidade de nossa geração e com nossa participação cotidiana, foi compreendida e executada.
Cem anos é um tempo suficiente para aprender lições que servem para os que vêm depois de nós.
Hoje, Brasília completa 100 anos. Subi na Torre de TV com minha neta. A cidade e arredores parecem uma imensa floresta. O Parque da Cidade, desde 2035, foi remodelado depois da proibição da entrada de carros. Chega-se até o Parque de ônibus circular ASANORTE/PARQUE (ANP), de metrô de superfície (MS) ou de bicicleta. Nos antigos estacionamentos, há escolas de pintura, de música, de danças e ginástica.
A vista do Lago é magnífica. O Passeio da Orla, sombreado por elegante arborização, inaugurado em 2030, recebe milhares de brasilienses, diariamente, para longas caminhadas. Uma empresa comunitária, sob fiscalização eletrônica, faz a manutenção e limpeza do Passeio e administra as cabanas de refrigério ao longo das duas pistas. Uma, para bicicletas. Outra, para caminhantes.
Com as novas leis do trânsito, adaptadas às determinações do Comissariado Mundial do Ambiente, a maior parte do transporte urbano é público e movido a energia solar ou elétrica. Desde 2050, a população se desloca por meio de bicicletas ou motoelétricas. Finalmente, com a pressão intensa dos cidadãos, o transporte público reduziu o número de automóveis ao mínimo necessário: ambulâncias, bombeiros e taxis de emergência. As avenidas, agora sombreadas, servem aos ciclistas e motolétricos.
Os estacionamentos são, em sua maioria, pequenos e agradáveis parques com chafarizes, alimentados com águas da chuva retida em reservatórios subterrâneos, espalhados pela área de Brasília e cidades-satélites. Quase todos os estacionamentos foram transformados em centros de cultura, de saúde e laboratórios de pesquisa. A quebra da Petrobraz, em virtude da abolição do uso de combustíveis sujos, desvalorizou milhões de carros que ficaram impedidos de trafegar. Seus proprietários os utilizam como pequenos quiosques, ao longo das ciclovias, para vender refrigerantes, sorvetes e lanches.
Com os estímulos e a descentralização dos serviços públicos para as cidades-satélites, Brasília e seus monumentos arquitetônicos atraem mais turistas e visitantes do que cidadãos em busca de soluções burocráticas. Os mesmos estímulos e descentralização foram aplicados nos Estados da Federação, levando centenas de milhares de moradores do Distrito Federal a voltarem a suas cidades de origem ou ir para áreas especiais de exploração da permacultura, e alimentos orgânicos.
Além disso, a Lei Demográfica, de 2028, recomendou e pôs em prática um plano de decrescimento da população. Depois da implantação da rede escolar eletrônica, em 2052, os alunos do primeiro e segundo graus e parte dos universitários, assistem às aulas por computador em suas casas ou salas adaptadas nos edifícios e quadras onde moram. O mesmo acontece com as consultas médicas encaminhadas através de um serviço de saúde pública, eletrônico, individual e comunitário, pelo qual os pacientes recebem as orientações, medicações ou recomendações especializadas. A qualidade e a oportunidade do ensino e do atendimento sanitário são as mesmas para todos os cidadãos. Reduziram-se os custos sociais e se utilizam os impostos para outras finalidades, além de sobrar mais dinheiro do salário familiar no fim do mês.
Uma nova Lei do Lazer foi instituída, em 2055, promovendo a construção de arenas e teatros, agregados a bibliotecas comunitárias, nos espaços desocupados por automóveis, para execução de orquestras, conjuntos musicais e representação dramatúrgica. Um apreciado programa de arte e cultura para todos.
Brasília e todas as comunidades que a rodeiam parecem um imenso parque onde cantam, nas madrugadas, milhares de pássaros de todas as cores. Nele correm águas cristalinas que brotam de nascentes recuperadas, graças à intensa arborização e proteção das árvores nativas e outras espécies adaptadas. A ideia nuclear do projeto do arquiteto Lúcio Costa de construir cidades-parque, para felicidade de nossa geração e com nossa participação cotidiana, foi compreendida e executada.
Cem anos é um tempo suficiente para aprender lições que servem para os que vêm depois de nós.
sexta-feira, 26 de março de 2010
PÉROLA DE UM CONDÔMINO
É admirável a preocupação, o interesse e a solidariedade deste morador do Bloco T, da SQS 406. Leiam o que este vigilante da L-2 propôs numa assembléia de seu condomínio.
Diz o precavido senhor: “Solicito, que o condomínio não plante novas árvores de grande porte em frente ao prédio, uma vez que as árvores hoje existentes, pelo tamanho que atingiram, prejudicam a visibilidade de minha unidade residencial. Numa oportunidade, escutei barulho de acidente ocorrido na L2 Sul, mas como não tinha visão da avenida, não pude acionar a emergência por não conseguir avaliar a gravidade do acidente. Na ocasião, tomei conhecimento, posteriormente, de que houve vítima gravemente ferida e que se o socorro tivesse sido acionado, a vida da vítima poderia ter sido salva. Entretanto, como as árvores me impediram de enxergar a L2, fiquei impedido de ajudar”.
Eis ai um conselho à Zoobotânica: cortar todas as árvores em frente aos prédios da L2 Sul para que os condôminos possam acompanhar a evolução dos acidentes de trânsito, avaliar a gravidade das vítimas e acionar o socorro imediato.
Como faz falta uma boa escola primária!
É admirável a preocupação, o interesse e a solidariedade deste morador do Bloco T, da SQS 406. Leiam o que este vigilante da L-2 propôs numa assembléia de seu condomínio.
Diz o precavido senhor: “Solicito, que o condomínio não plante novas árvores de grande porte em frente ao prédio, uma vez que as árvores hoje existentes, pelo tamanho que atingiram, prejudicam a visibilidade de minha unidade residencial. Numa oportunidade, escutei barulho de acidente ocorrido na L2 Sul, mas como não tinha visão da avenida, não pude acionar a emergência por não conseguir avaliar a gravidade do acidente. Na ocasião, tomei conhecimento, posteriormente, de que houve vítima gravemente ferida e que se o socorro tivesse sido acionado, a vida da vítima poderia ter sido salva. Entretanto, como as árvores me impediram de enxergar a L2, fiquei impedido de ajudar”.
Eis ai um conselho à Zoobotânica: cortar todas as árvores em frente aos prédios da L2 Sul para que os condôminos possam acompanhar a evolução dos acidentes de trânsito, avaliar a gravidade das vítimas e acionar o socorro imediato.
Como faz falta uma boa escola primária!
terça-feira, 16 de março de 2010
VIOLÊNCIA, GÊNERO E NÚMERO
O livro FEMINISMO EM MOVIMENTO (Editora Paulo Francis, Brasília, 2010) de Lia Z. Machado, doutora em Sociologia, induz o leitor a pensar, não apenas a se informar ou a se enriquecer com as descobertas da pesquisadora. O estudo comprova que a violência, em todas as suas manifestações, perturba amargamente o pensamento social. Os mecanismos institucionais em vigor e seu aperfeiçoamento atestam a intensidade, a frequência e a gravidade dos atos de violência.
São quatro capítulos densos de investigação, informação, análise e abertura de pistas para compreender a ação humana violenta que permeia as diferentes idades, os diferentes meios da convivência social para culminar no gênero das violências, eles e elas. Quem bate mais, onde se bate mais, quando se bate mais e por que se bate?
É nesse emaranhado de questões que Lia Machado, com argúcia e firmeza conduz o leitor a refletir sobre o fato violento, a agressão física, a demonstração teatral de força e de poder, especialmente contra a mulher. A violência é uma dessas palavras abstratas que tomam corpo físico de monstro, se personalizam e saem à rua fazendo vítimas com balas perdidas. Fulano morreu vítima da violência. Ou na economia jornalística: mais uma vítima da violência. No dia a dia, ela aparece no esporte, no trânsito, nas ruas, nas prisões ou contra a natureza, contra a mulher, contra a criança. Está escondida na fome e nas desigualdades que podem conduzir à revolução social e política com sequelas em torturas, exílio ou fuzilamento.
Creio que não seria demais agregar a violência degradante e ocultada de nossas cadeias, que só ganha a luz do dia se toca prisioneiros privilegiados. Será possível, no esperançoso caminho da paz e da compreensão entre humanos, controlar e domesticar as diversificadas causas da violência? A pergunta parece gritar ao longo dos debates sugeridos por Lia.
A vida é marcada por inúmeras frações de violência. Do nascimento à morte há rompimentos, sangue e lágrimas que a cultura os sublima e os incorpora nos comportamentos do cotidiano.
Atrevo-me, seguindo pistas abertas pela autora, a perguntar: por que a violência? Será preferível a violência positiva à violência negativa? Nem preferíveis ambas, nem aceitáveis. São discussões delicadas que mostram a complexidade da alma humana e a infinidade de reações do ser humano diante das variadas circunstâncias da convivência onde se mesclam necessidades, interesses, ambições, força e poder. Inconscientemente, faz-se o elogio da violência. Longas e minuciosas reportagens acompanham ou refazem cenas de crimes diários, agressões dentro e fora da família, chacinas de hoje e de ontem. As lutas corporais nos ringues, os filmes de guerra onde se mostra a carnificina ao lado do heroísmo, o comércio de armas letais. O fascínio pelos exércitos, o aperfeiçoamento das máquinas para aterrorizar e matar em terra, no ar e no mar. As milícias privadas, os esquadrões da morte, a segurança pública, o policiamento ostensivo, um conjunto de estratagemas para proteger pessoas de pessoas e guardar bens e riquezas individuais e públicas,
Na luta pela vida, o ser humano busca instintivamente a sobrevivência primária com a satisfação da necessidade básica. Expande-se para outras necessidades, mas ela permeia todos os passos da vida. Para sobreviver, inventou artefatos de caça e pesca que levaram a armas cada vez mais apropriadas com o avançar do tempo. A sobrevivência pessoal, a salvaguarda da identidade no meio de outras identidades, desperta a criatividade individual em busca da aceitação pública de sua autonomia. A sobrevivência social requer o pertencimento a um grupo de acolhimento e defesa, a fuga do isolamento, o medo à exclusão, a recusa à dominação de outros. Do enfrentamento das coisas, da imposição do eu pessoal à agregação a um coletivo, os caminhos se cruzam e os sinais de trânsito na sociedade, por mais visíveis, nem sempre são suficientes para evitar os choques, os acidentes graves e fatais.
Como se entrelaçam esses aspectos da sobrevivência primária, pessoal e social para garantir os direitos humanos das crianças, dos jovens, dos idosos, dos homens, das mulheres nos múltiplos espaços e circunstâncias da sociedade? O indivíduo, o desejo de decidir sobre si mesmo, o imprevisível outro, a sociedade anônima e invisível, as leis do Estado estão todos no campo de jogo sem limite de duração.
Ao longo da leitura e das reflexões que a obra me inspirava, fazia-me perguntas: que há com a mulher? Que há de errado com o homem? Em que ponto da evolução está o cérebro humano? Há momentos em que os comportamentos indicam que o homem é um animal que não deu certo. Que descobertas primitivas concorreram para montar seu complexo de inferioridade contra o qual parece debater-se sem esmorecimento? Os dinossauros, as estrondosas tempestades, os terremotos? É preciso pôr, na ordem do dia, a exaltação da superioridade do homem?
O que levou as mulheres a se declararem em luta na defesa de seus direitos? E, aqui, mais uma vez, detive-me a perguntar sobre a luta feminista. O termo “luta feminista” ainda guarda a lembrança de uma guerra inacabada na sociedade em que o homem é o lobo do homem. O termo é repetido com mais frequência do que o desejado, mas a luta continua. Estamos em guerra. Que tipo de guerra é esta para que as mulheres entrem na luta? Contra quem, especificamente? Com que armas? E com quem será o armistício? E depois da trégua? Kathryn Bigelow foi acolhida no grêmio dos homens e ganhou o Oscar 2010, aventurando-se no território masculino com a história Guerra ao terror. As mulheres também entendem de guerra no entender dos homens.
Mas, talvez esteja no último capítulo a questão mais delicada que toca a mulher como receptáculo da vida e a difícil decisão individual de interromper uma gestação. Mulher, mãe, aborto. Um capítulo emocionante no qual o aborto é discutido com elegância, inteligência e coragem. Equipara-se, embora mais exaustivo, aos comentários de Carl Sagan consolidados por Ann Druyan, sua mulher, no livro Bilhões e bilhões.
Deixo a Lia as palavras finais da esperança: “As movimentações feministas continuam seu processo constante de reconstrução dos valores sociais, onde só terão lugar as maternidades desejadas...”
Há autores, como Lia Machado, que devem ser agradecidos por brindar obras cuja leitura se torna tão necessária quanto agradável.
Eugênio Giovenardi, escritor
Autor de Os filhos do Cardeal - o homem proibido -, Em nome do sangue, As pedras de Roma, Heliodora, Solitários no paraíso, O retorno das águas, A saga de um Sítio, entre outros.
O livro FEMINISMO EM MOVIMENTO (Editora Paulo Francis, Brasília, 2010) de Lia Z. Machado, doutora em Sociologia, induz o leitor a pensar, não apenas a se informar ou a se enriquecer com as descobertas da pesquisadora. O estudo comprova que a violência, em todas as suas manifestações, perturba amargamente o pensamento social. Os mecanismos institucionais em vigor e seu aperfeiçoamento atestam a intensidade, a frequência e a gravidade dos atos de violência.
São quatro capítulos densos de investigação, informação, análise e abertura de pistas para compreender a ação humana violenta que permeia as diferentes idades, os diferentes meios da convivência social para culminar no gênero das violências, eles e elas. Quem bate mais, onde se bate mais, quando se bate mais e por que se bate?
É nesse emaranhado de questões que Lia Machado, com argúcia e firmeza conduz o leitor a refletir sobre o fato violento, a agressão física, a demonstração teatral de força e de poder, especialmente contra a mulher. A violência é uma dessas palavras abstratas que tomam corpo físico de monstro, se personalizam e saem à rua fazendo vítimas com balas perdidas. Fulano morreu vítima da violência. Ou na economia jornalística: mais uma vítima da violência. No dia a dia, ela aparece no esporte, no trânsito, nas ruas, nas prisões ou contra a natureza, contra a mulher, contra a criança. Está escondida na fome e nas desigualdades que podem conduzir à revolução social e política com sequelas em torturas, exílio ou fuzilamento.
Creio que não seria demais agregar a violência degradante e ocultada de nossas cadeias, que só ganha a luz do dia se toca prisioneiros privilegiados. Será possível, no esperançoso caminho da paz e da compreensão entre humanos, controlar e domesticar as diversificadas causas da violência? A pergunta parece gritar ao longo dos debates sugeridos por Lia.
A vida é marcada por inúmeras frações de violência. Do nascimento à morte há rompimentos, sangue e lágrimas que a cultura os sublima e os incorpora nos comportamentos do cotidiano.
Atrevo-me, seguindo pistas abertas pela autora, a perguntar: por que a violência? Será preferível a violência positiva à violência negativa? Nem preferíveis ambas, nem aceitáveis. São discussões delicadas que mostram a complexidade da alma humana e a infinidade de reações do ser humano diante das variadas circunstâncias da convivência onde se mesclam necessidades, interesses, ambições, força e poder. Inconscientemente, faz-se o elogio da violência. Longas e minuciosas reportagens acompanham ou refazem cenas de crimes diários, agressões dentro e fora da família, chacinas de hoje e de ontem. As lutas corporais nos ringues, os filmes de guerra onde se mostra a carnificina ao lado do heroísmo, o comércio de armas letais. O fascínio pelos exércitos, o aperfeiçoamento das máquinas para aterrorizar e matar em terra, no ar e no mar. As milícias privadas, os esquadrões da morte, a segurança pública, o policiamento ostensivo, um conjunto de estratagemas para proteger pessoas de pessoas e guardar bens e riquezas individuais e públicas,
Na luta pela vida, o ser humano busca instintivamente a sobrevivência primária com a satisfação da necessidade básica. Expande-se para outras necessidades, mas ela permeia todos os passos da vida. Para sobreviver, inventou artefatos de caça e pesca que levaram a armas cada vez mais apropriadas com o avançar do tempo. A sobrevivência pessoal, a salvaguarda da identidade no meio de outras identidades, desperta a criatividade individual em busca da aceitação pública de sua autonomia. A sobrevivência social requer o pertencimento a um grupo de acolhimento e defesa, a fuga do isolamento, o medo à exclusão, a recusa à dominação de outros. Do enfrentamento das coisas, da imposição do eu pessoal à agregação a um coletivo, os caminhos se cruzam e os sinais de trânsito na sociedade, por mais visíveis, nem sempre são suficientes para evitar os choques, os acidentes graves e fatais.
Como se entrelaçam esses aspectos da sobrevivência primária, pessoal e social para garantir os direitos humanos das crianças, dos jovens, dos idosos, dos homens, das mulheres nos múltiplos espaços e circunstâncias da sociedade? O indivíduo, o desejo de decidir sobre si mesmo, o imprevisível outro, a sociedade anônima e invisível, as leis do Estado estão todos no campo de jogo sem limite de duração.
Ao longo da leitura e das reflexões que a obra me inspirava, fazia-me perguntas: que há com a mulher? Que há de errado com o homem? Em que ponto da evolução está o cérebro humano? Há momentos em que os comportamentos indicam que o homem é um animal que não deu certo. Que descobertas primitivas concorreram para montar seu complexo de inferioridade contra o qual parece debater-se sem esmorecimento? Os dinossauros, as estrondosas tempestades, os terremotos? É preciso pôr, na ordem do dia, a exaltação da superioridade do homem?
O que levou as mulheres a se declararem em luta na defesa de seus direitos? E, aqui, mais uma vez, detive-me a perguntar sobre a luta feminista. O termo “luta feminista” ainda guarda a lembrança de uma guerra inacabada na sociedade em que o homem é o lobo do homem. O termo é repetido com mais frequência do que o desejado, mas a luta continua. Estamos em guerra. Que tipo de guerra é esta para que as mulheres entrem na luta? Contra quem, especificamente? Com que armas? E com quem será o armistício? E depois da trégua? Kathryn Bigelow foi acolhida no grêmio dos homens e ganhou o Oscar 2010, aventurando-se no território masculino com a história Guerra ao terror. As mulheres também entendem de guerra no entender dos homens.
Mas, talvez esteja no último capítulo a questão mais delicada que toca a mulher como receptáculo da vida e a difícil decisão individual de interromper uma gestação. Mulher, mãe, aborto. Um capítulo emocionante no qual o aborto é discutido com elegância, inteligência e coragem. Equipara-se, embora mais exaustivo, aos comentários de Carl Sagan consolidados por Ann Druyan, sua mulher, no livro Bilhões e bilhões.
Deixo a Lia as palavras finais da esperança: “As movimentações feministas continuam seu processo constante de reconstrução dos valores sociais, onde só terão lugar as maternidades desejadas...”
Há autores, como Lia Machado, que devem ser agradecidos por brindar obras cuja leitura se torna tão necessária quanto agradável.
Eugênio Giovenardi, escritor
Autor de Os filhos do Cardeal - o homem proibido -, Em nome do sangue, As pedras de Roma, Heliodora, Solitários no paraíso, O retorno das águas, A saga de um Sítio, entre outros.
terça-feira, 9 de março de 2010
BIBLIOTECA DO ENGENHO DAS LAJES
Ao completar 70 anos, convidei amigos para festejar essa data comigo, em um sítio que temos no Distrito Federal, próximo à Agrovila Engenho das Lajes, à margem da Rodovia BR 060, Km 30.
Em lugar dos presentes costumeiros, sempre difíceis de escolher, minha mulher e eu decidimos pedir livros aos convidados para iniciar uma biblioteca nessa Agrovila. Os amigos trouxeram 350 obras e uma estante metálica.
Livros e estante são o básico para uma biblioteca. Mas para funcionar precisa de elementos imprescindíveis: leitores e bibliotecário.
Num país carregado de analfabetismo crônico, de escolas públicas jogadas a segundo plano, os administradores se preocupam com a água, o esgoto e a luz, além das vias empoeiradas e enlameadas. A Agrovila Engenho das Lajes, a 50 quilômetros do centro da capital da República, é o retrato do abandono. A biblioteca, último item de prioridade administrativa.
Quatro anos foram despendidos a convencer administradores, professores da Escola Classe, com 420 alunos, a Associação de moradores sobre a importância da biblioteca.
Como é comum em vilarejos pobres, dominados por líderes espertos e políticos astutos, o povo está acostumado a pedir e a receber migalhas aos ricos de fora. A biblioteca do Engenho das Lajes também recebeu ajuda exterior, vinda do programa Casa do Saber, mantido por uma rede de postos de gasolina BR.
Há, no Brasil, algumas centenas de bibliotecas fechadas, não por falta de leitores, mas de alguém que lhes abra as portas. A biblioteca comunitária do Engenho das Lajes é uma das que têm suas portas abertas durante os cinco dias da semana com uma frequência admirável de crianças, adolescentes e adultos. Um acervo de mais de 3 mil livros.
As portas se abrem graças a voluntários que se cotizam todos os meses para garantir a abertura da biblioteca, procedida por um morador da Agrovila. Os leitores não só leem. Escrevem também e desenham. Cadernos, lápises e canetas estão disponíveis aos leitores e futuros escritores.
Enquanto o administrador do Engenho das Lajes se ocupa da água e do esgoto e a polícia garante a segurança das ruas, a biblioteca cuida da mente das pessoas e acende luzes nas avenidas do espírito.
Quando um Estado cuida do povo e um povo preza a educação, a leitura, o conhecimento e a sabedoria pode-se confiar no presente e no futuro da nação.
Em lugar dos presentes costumeiros, sempre difíceis de escolher, minha mulher e eu decidimos pedir livros aos convidados para iniciar uma biblioteca nessa Agrovila. Os amigos trouxeram 350 obras e uma estante metálica.
Livros e estante são o básico para uma biblioteca. Mas para funcionar precisa de elementos imprescindíveis: leitores e bibliotecário.
Num país carregado de analfabetismo crônico, de escolas públicas jogadas a segundo plano, os administradores se preocupam com a água, o esgoto e a luz, além das vias empoeiradas e enlameadas. A Agrovila Engenho das Lajes, a 50 quilômetros do centro da capital da República, é o retrato do abandono. A biblioteca, último item de prioridade administrativa.
Quatro anos foram despendidos a convencer administradores, professores da Escola Classe, com 420 alunos, a Associação de moradores sobre a importância da biblioteca.
Como é comum em vilarejos pobres, dominados por líderes espertos e políticos astutos, o povo está acostumado a pedir e a receber migalhas aos ricos de fora. A biblioteca do Engenho das Lajes também recebeu ajuda exterior, vinda do programa Casa do Saber, mantido por uma rede de postos de gasolina BR.
Há, no Brasil, algumas centenas de bibliotecas fechadas, não por falta de leitores, mas de alguém que lhes abra as portas. A biblioteca comunitária do Engenho das Lajes é uma das que têm suas portas abertas durante os cinco dias da semana com uma frequência admirável de crianças, adolescentes e adultos. Um acervo de mais de 3 mil livros.
As portas se abrem graças a voluntários que se cotizam todos os meses para garantir a abertura da biblioteca, procedida por um morador da Agrovila. Os leitores não só leem. Escrevem também e desenham. Cadernos, lápises e canetas estão disponíveis aos leitores e futuros escritores.
Enquanto o administrador do Engenho das Lajes se ocupa da água e do esgoto e a polícia garante a segurança das ruas, a biblioteca cuida da mente das pessoas e acende luzes nas avenidas do espírito.
Quando um Estado cuida do povo e um povo preza a educação, a leitura, o conhecimento e a sabedoria pode-se confiar no presente e no futuro da nação.
domingo, 7 de março de 2010
MASMORRA
Antes de mais nada, vamos ao termo. Entre os mouros, mazmorra era um celeiro subterrâneo. Poderia servir de cárcere para criminosos condenados à morte. Daí mata-morra ou masmorra.
O jurista Nélio Machado, advogado do prisioneiro Arruda, na peroração de defesa, afirmou que seu constituinte foi lançado numa masmorra. Para quem não acompanhou o caso da Caixa de Pandora, na cidade de Brasília, nem viu o filme Me dá um dinheiro aí, o Senhor Arruda é governador convalescente do Distrito Federal e, ao mesmo tempo, paciente da Justiça. Vitimado pelo câncer da corrupção, seu estado de saúde política é grave, fato que determinou seu internamento imediato numa UTI policial que o advogado denominou masmorra, calabouço, ergástulo. Local que lembra fedor, escuridão, teto baixo e água até o joelho.
O Brasil é uma potência emergente, tirada do nada pelo novo paradigma do crescimento econômico. Há 8 anos, o país não existia, era o caos, recém-devastado pelo dilúvio. Nunca se fez tanto “nesse país” nem se disse tanta imbecilidade.
Tudo, agora, é diferente, inclusive as masmorras. Aquelas cadeias superlotadas de pacientes – 470 mil ocupando 270 mil leitos − são coisas do passado. Transformaram-se em masmorras modernas. Um novo paradigma de prisões está em curso.
Nossas masmorras, modelo para países do Primeiro Mundo, têm ar condicionado requerido pelo país tropical, mesa de leitura, pois não há mais presos analfabetos, frigobar para gelar a água e a cerveja, refeições à la carte trazidas de fora, beliche para o ou a acompanhante e, finalmente, basculante 30X30 para olhar estrelas.
Os sobreviventes da implosão do Carandiru e os pacientes da Papuda se inscreveram no concurso para as vagas nas novas masmorras do Distrito Federal.
Vivemos num país maravilhoso onde até as masmorras são disputadas pelos pacientes da Justiça.
O jurista Nélio Machado, advogado do prisioneiro Arruda, na peroração de defesa, afirmou que seu constituinte foi lançado numa masmorra. Para quem não acompanhou o caso da Caixa de Pandora, na cidade de Brasília, nem viu o filme Me dá um dinheiro aí, o Senhor Arruda é governador convalescente do Distrito Federal e, ao mesmo tempo, paciente da Justiça. Vitimado pelo câncer da corrupção, seu estado de saúde política é grave, fato que determinou seu internamento imediato numa UTI policial que o advogado denominou masmorra, calabouço, ergástulo. Local que lembra fedor, escuridão, teto baixo e água até o joelho.
O Brasil é uma potência emergente, tirada do nada pelo novo paradigma do crescimento econômico. Há 8 anos, o país não existia, era o caos, recém-devastado pelo dilúvio. Nunca se fez tanto “nesse país” nem se disse tanta imbecilidade.
Tudo, agora, é diferente, inclusive as masmorras. Aquelas cadeias superlotadas de pacientes – 470 mil ocupando 270 mil leitos − são coisas do passado. Transformaram-se em masmorras modernas. Um novo paradigma de prisões está em curso.
Nossas masmorras, modelo para países do Primeiro Mundo, têm ar condicionado requerido pelo país tropical, mesa de leitura, pois não há mais presos analfabetos, frigobar para gelar a água e a cerveja, refeições à la carte trazidas de fora, beliche para o ou a acompanhante e, finalmente, basculante 30X30 para olhar estrelas.
Os sobreviventes da implosão do Carandiru e os pacientes da Papuda se inscreveram no concurso para as vagas nas novas masmorras do Distrito Federal.
Vivemos num país maravilhoso onde até as masmorras são disputadas pelos pacientes da Justiça.
A GUERRA E O ESPORTE
Guardo as fontes de informação. Só as darei em caso extremo. Coloque-se no tempo, três ou quatro séculos antes de nossa era. Exércitos de homens fortes, seminus no verão ou cobertos de peles no inverno, marcham pelas montanhas da Macedônia ou acampam nas planícies do Eufrates. Homens brutos, musculosos, treinados para esticar arcos, lançar dardos, disparar catapultas.
Um homem ambicioso, de olhar decidido, rodeado de serviçais submissos, comanda pelotões de jovens sedentos de luta corporal. Atracam-se a homens corajosos, fortes, corpos sarados, suados, braços de serpente, punhos de rocha. Os prisioneiros homiziados reconhecem a derrota e os vencedores festejam a masculinidade. As mulheres e as crianças de ambos os lados não verão mais esses homens fortes caídos na batalha, o peito transpassado, a cabeça rolando no chão.
Lisístrata (411 a.C.), negou-se a servir o esposo guerreiro, enquanto não desistisse de correr atrás de homens a pretexto de guerra. Perguntou-lhe:
− Como fazeis essas coisas, meu marido, de forma tão estúpida?
Humilhado ao ouvir a doce voz da esposa a fazer-lhe uma reprimenda, retrucou:
− Mulher, guerra é coisa de homens.
Não há na história das guerras uma só que tenha sido declarada por mulheres. Onde estava a mulher de Napoleão, Stalin, Hitler, Mussolini ou Bush?
O período de caça terminou há 10 mil anos. Acabaram-se os animais ferozes e logo foram substituídos por homens feras. Que desejo compulsivo é esse de homens caçarem homens? De homens prepararem-se durante anos para matar homens? Que há de errado com os homens que recrutam homens para a guerra? Distinguem-se esses homens pelo valor, pela virtude ou pelo uniforme?
Em outro cenário, nas arenas olímpicas, também brilhavam, cobertos de óleos e perfumados de sândalo, corpos atléticos, músculos ressaltados, agarrados uns nos outros, enlaçados na areia, extravasando a força masculina. Reminiscência evoluída dessas exibições do corpo macho está nos ringues e nos campos de futebol. Homens contra homens encontram o orgasmo esportivo quando a esfera de couro penetra a fenda procurada e culmina em abraços e beijos apaixonados, rolando sobre o gramado do campo.
Como será a civilização humana quando as mulheres decidirem comandar legiões femininas contra as guerras dos homens. Lembrem-se que, até pouco tempo, a cozinha e os bancos da igreja eram reservados às mulheres. O altar é ainda privilégio dos homens que se arrogam o direito de falar com Deus por ser masculino.
Aristófanes, ao final de sua comédia, podia ter dito:
− Há homens de mais e decisões inteligentes de menos.
Um homem ambicioso, de olhar decidido, rodeado de serviçais submissos, comanda pelotões de jovens sedentos de luta corporal. Atracam-se a homens corajosos, fortes, corpos sarados, suados, braços de serpente, punhos de rocha. Os prisioneiros homiziados reconhecem a derrota e os vencedores festejam a masculinidade. As mulheres e as crianças de ambos os lados não verão mais esses homens fortes caídos na batalha, o peito transpassado, a cabeça rolando no chão.
Lisístrata (411 a.C.), negou-se a servir o esposo guerreiro, enquanto não desistisse de correr atrás de homens a pretexto de guerra. Perguntou-lhe:
− Como fazeis essas coisas, meu marido, de forma tão estúpida?
Humilhado ao ouvir a doce voz da esposa a fazer-lhe uma reprimenda, retrucou:
− Mulher, guerra é coisa de homens.
Não há na história das guerras uma só que tenha sido declarada por mulheres. Onde estava a mulher de Napoleão, Stalin, Hitler, Mussolini ou Bush?
O período de caça terminou há 10 mil anos. Acabaram-se os animais ferozes e logo foram substituídos por homens feras. Que desejo compulsivo é esse de homens caçarem homens? De homens prepararem-se durante anos para matar homens? Que há de errado com os homens que recrutam homens para a guerra? Distinguem-se esses homens pelo valor, pela virtude ou pelo uniforme?
Em outro cenário, nas arenas olímpicas, também brilhavam, cobertos de óleos e perfumados de sândalo, corpos atléticos, músculos ressaltados, agarrados uns nos outros, enlaçados na areia, extravasando a força masculina. Reminiscência evoluída dessas exibições do corpo macho está nos ringues e nos campos de futebol. Homens contra homens encontram o orgasmo esportivo quando a esfera de couro penetra a fenda procurada e culmina em abraços e beijos apaixonados, rolando sobre o gramado do campo.
Como será a civilização humana quando as mulheres decidirem comandar legiões femininas contra as guerras dos homens. Lembrem-se que, até pouco tempo, a cozinha e os bancos da igreja eram reservados às mulheres. O altar é ainda privilégio dos homens que se arrogam o direito de falar com Deus por ser masculino.
Aristófanes, ao final de sua comédia, podia ter dito:
− Há homens de mais e decisões inteligentes de menos.
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