ARBORIZAÇÃO
COMENTÁRIOS SEMANAIS SOBRE MEIO AMBIENTE, POLÍTICA, LITERATURA E OUTRAS SUTILEZAS DO COTIDIANO.
quinta-feira, 13 de outubro de 2022
ARBORIZAÇÃO
terça-feira, 4 de outubro de 2022
MANEQUIM ARBÓREO PARA A CIDADE-PARQUE
MANEQUIM
ARBÓREO PARA A CIDADE-PARQUE
Os engenheiros
modistas da Novacap se debruçaram sobre a prancheta iluminada para desenhar um
manequim adequado a desvestir as árvores que desfilam nas passarelas do Plano
Piloto. Os traços do genial manequim se inspiram na clássica nudez tropical
para impedir a absorção do carbono venenoso, ressecar o ar e propagar molestos
ruídos de dois milhões de máquinas automotivas e alaridos desesperados de implacáveis
motosserras.
Galhos eretos
no ar, másculos, desprezam os véus verdes que sombreavam os caminhos. As
árvores da cidade-parque, despojadas de sua beleza feminina, humilhadas, com
seus troncos nus, prestam continência aos ditadores ambientais. Nesta
cidade-parque, onde a captação de águas das chuvas é escassa, os modistas
ambientais preferem árvores seminuas, submissas, esquartejadas, empobrecidas,
esterilizadas. A estética urbanizada tenta ludibriar os fenômenos físicos e
remodelar as formas artísticas da natureza que se manifesta com o idioma
singelo e pacífico das árvores.
2.10.2022
quinta-feira, 29 de setembro de 2022
A DEGRADAÇÃO DO CERRADO E DA CIDADE-PARQUE
A DEGRADAÇÃO DO
CERRADO
E DA
CIDADE-PARQUE
Brasília e
todas as cidades do Centro-Oeste contribuem para transformar o Cerrado em
deserto. A concepção tradicional da arquitetura urbana se adapta com sutilezas
de engenharia e arte ao crescimento da população. A degradação dos ecossistemas
diferenciados do bioma Cerrado, atingindo a fauna e a flora, não poupa a
cidade-parque. O sonho da cidade-parque despareceu sob os escombros de um
assentamento humano desigual, caótico, destruidor. Centenas de nascentes
desapareceram sob a irracional impermeabilidade das cidades, invasão de áreas
protetoras, abertas a inundações e desastres. As árvores que embelezariam a
cidade-parque, que propiciam umidade, captam águas da chuva e alimentam
pássaros, são tratadas com a mesma insensibilidade administrativa da ocupação
do espaço geográfico do Distrito Federal. A Floresta Nacional (FLONA) foi amputada
por decreto e aprovada por ditos representantes do povo.
É preciso que
os órgãos do Governo do Distrito Federal (Novacap, Zoobotânica, Adasa, Caesb)
informem a população sobre as reais razões de podas incompreensíveis em áreas
onde ninguém passa e nem há estacionamentos que pudessem ser atingidos por
algum galho de árvore. Este ato irracional de poda de árvores, segundo explicou
um dos comandados de uniforme verde-abóbora, obedece a um programa de proteção
prévia a possíveis quedas de galhos sobre automóveis!!!
As fotos aqui
publicadas (montanhas de verde abatido) indicam a irracionalidade da amputação
de galhos e troncos de árvores que protegem os blocos vizinhos da poluição dos
milhares de carros que correm pela L-2 e abafam o ruído da via. A saúde da
população, o bem-estar ao caminhar pela sombra, o ar menos seco e mais puro não
entram como razões de decisões meramente administrativas. Todas as energias da
gestão da cidade-parque parecem dirigidas à presença ditatorial e impositiva de
quase dois milhões de automóveis. A NOVACAP com seu exército de motosserristas
parece ser inimigo do verde e amigo do lixo que invade o solo e polui as águas.
Seis fotos da Poda na L-2
29.9.2022
segunda-feira, 26 de setembro de 2022
PROPOR O DECRESCIMENTO DA POPULAÇÃO MUNDIAL É AINDA UM TABU
segunda-feira, 12 de setembro de 2022
ANO DO CERRADO OU DIA?
ANO DO CERRADO OU
DIA?
Ontem, festejei
o Dia do Cerrado, visitando as nascentes e admirando a tenacidade das árvores,
ouvindo a incansável sinfonia dos sabiás e os gritos alarmantes das curicacas. O
Cerrado atravessa com paciente coragem a rigorosa estiagem, de mais de 140 dias
(em maio, só houve um dia de chuva), açoitado por ventos constantes, madrugadas
frias (10 a 12 graus), pouco orvalho e umidade máxima à noite, em 77%, baixando
nas horas da tarde a 45% em plena mata de galeria. No dia do Cerrado, no Sítio
das Neves, as temperaturas foram excepcionais: 27 graus à sombra de árvores a
31 graus no campo aberto.
As nascentes
viram suas águas se aprofundarem. O curso dos córregos que abastecem o Ribeirão
das Lajes e o Rio Descoberto chegaram ao volume mínimo, ao redor de três metros
cúbicos/dia. Assoreamento e poluição, durante esses 62 anos de intensa ocupação
desordenada do Cerrado, estão mostrando como se trata de forma ignorante e
desleal o espaço de vida para a maior biodiversidade do planeta. Se fosse
medido o efeito do assoreamento no reservatório do Descoberto, o brasiliense
saberia que seu estoque hídrico atual não seria de 50% como propalado.
O Distrito Federal
e todo o Cerrado está em situação de risco hídrico, como dizem os biólogos
especialistas. Neste período, destinado ao descanso do Cerrado, a população do Distrito
Federal o maltrata com duas pragas torturadoras: LIXO E QUEIMADAS.
E a NovaCap (Parques e Jardins) continua podando árvores,
diminuindo a umidade do ar. O erro é original. As árvores, para a administração
do GDF, são apenas embelezamento, não são proteção ambiental para fortalecer nascentes.
As árvores são plantadas sem conhecer a genealogia da planta e sem
conhecer o solo que mantinha vegetação natural arrasada.
Tenho certeza de que os funcionários da Novacap não
pensaram nos resultados da poda de árvores. Vamos ajudá-los a pensar com um
exercício sobre o volume de madeira cortada das árvores. Se cortaram, por ex.
100 metros cúbicos de madeira, significa 100 metros cúbicos de água. As
chuvas que vão cair poderiam ser captadas por esses 100 metros cúbicos de
galhos e folhas, mas já não estão nas árvores. Caem diretamente no chão e
encontram o GRANDE ALIADO, a impermeabilização seca e as águas vão para o Lago
e dali para o São Bartolomeu. E como nenhum rio vai sozinho ao mar, ele se
junta a outros para levar solo brasileiro à baía platina. O Clima de Brasília será ainda mais seco no próximo
ano e, certamente, com mais poda e mais impermeabilização. A cadeia da
ignorância assola o país.
Não basta
poupar água. É preciso proteger e respeitar a organização do Cerrado, cuidando
das nascentes águas acima.
11.9.2022
domingo, 11 de setembro de 2022
SINUCA DE BICO
SINUCA DE BICO
As pesquisas
eleitorais medem as tendências e intenções de voto dos eleitores. Todos os
candidatos apelam para a democracia na qual se plantou a liberdade como
fundamento da convivência política e da escolha dos administradores da coisa pública
(res publica). Obrigação legal para cumprir um ato democrático e livre é uma contradição.
Invocar um deus
para iluminar os eleitores é pôr essa divindade numa situação de
constrangimento, numa sinuca de bico. Em qual dos candidatos votaria o deus
invocado? O deus do papa, do pastor ou do eleitor pode não ser o mesmo. Até na eleição
do papa os cardeais dispensaram o Espírito Santo.
Padres e pastores
de todas as igrejas deveriam apresentar ao tribunal eleitoral a devida procuração
assinada por uma divindade, registrada no cartório celestial. Em qual zona eleitoral
votam os deuses invocados? Por muito menos, Sócrates foi condenado ao suicídio
obrigatório em plena democracia ateniense. Anuncia-se, no Brasil, um suicídio
eleitoral democrático.
terça-feira, 6 de setembro de 2022
CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO MUNDIAL ─ UM TABU
CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO
MUNDIAL ─ UM TABU
Eugênio Giovenardi, sociólogo e escritor
A superpopulação humana do planeta seja,
talvez, uma das principais dificuldades se não o principal obstáculo cultural
para erradicar a fome que, no século 21, assola um bilhão de pessoas; reduzir a
devastação generalizada das florestas; evitar as guerras humanas abertas ou
disfarçadas; enfrentar as mudanças climáticas em curso, fortemente provocadas
pela ação irresponsável da economia gananciosa. A redução do crescimento
demográfico em escala mundial é ainda um tabu político e ideológico de difícil
discussão na busca de uma orientação universal em benefício da biodiversidade
de seres vivos humanos e não humanos.
São necessárias
medidas racionais, em escala planetária, que indiquem a redução drástica do
crescimento populacional em favor da biodiversidade natural que garanta a
interação e a interdependência de todos os seres vivos humanos e não humanos. É
desumano esperar que as mudanças climáticas e seus incontroláveis fenômenos, as
guerras de extermínio humano e não humano, fome e pandemias virais encham o
mundo de dor, lágrimas e desespero.
A natureza não
é de esquerda e nem de direita. A natureza se fez vida e habita este
maravilhoso planeta. Fazemos parte ─ a espécie humana ─ desse milagre
existencial. Ser ambientalista ou ecologista é compreender a auto-organização
da natureza manifestada em diferentes ecossistemas. É participar da interação e
interdependência de todos os seres vivos humanos e não humanos numa convivência
social em busca do conforto natural universalmente desejado.
As vidas se
alimentam de vidas ─ proteínas, sais minerais, açúcares, água, oxigênio ─.
Viver é usar com parcimônia os bens necessários a todas as vidas, pois os bens
são limitados e finitos. A precaução no uso dos bens da natureza é uma virtude
basilar que orienta instintivamente os seres não humanos pela lei do controle
natural e alerta racionalmente a espécie humana. O equilíbrio no uso dos bens
da natureza depende fortemente do número de usuários e da intensidade do
consumo necessário de cada espécie para se reproduzir e sobreviver. A
superpopulação de uma espécie põe em risco todos os habitantes de um
ecossistema natural, por mais rico e abundante que seja. Todas as formas de
vida têm identidade. São sujeitos e não objetos dos quais se pode dispor,
decidir seu destino ou levá-los à extinção pelo uso demolidor do mais poderoso.
Os seres vivos
buscam naturalmente um relativo conforto para desfrutar a vida cercados de
fenômenos físicos incontroláveis. O nível de conforto e o consumo dos bens
naturais diferenciam o comportamento das espécies não humanas e o do homo sapiens. Ser ambientalista é
propugnar por um limite racional de conforto para toda a espécie humana. É
resistir à acumulação de bens pelo crescimento econômico a qualquer custo e dar
tempo à regeneração de ecossistemas em benefício da biodiversidade. A extinção
de espécies vivas ou a degradação generalizada dos ecossistemas pela ação
humana dificultam a interdependência dos seres vivos e geram desigualdade no
conforto e convívio da população humana.
O planeta que
abriga o milagre da vida é uma casa com espaço limitado, bens finitos e
contesta fisicamente a ação acumuladora e destrutiva da espécie humana. A arte
e a sabedoria humana se tornam mais grandiosas quando imitam a força e a
generosidade da natureza. Há, portanto, um limite a ser respeitado quanto ao
número de usuários não humanos e habitantes humanos no planeta. A cadeia
trófica tem uma lógica arrasadora para a sustentação humana. Maior população,
maior consumo de água, mais urbanização, mais solo para produzir alimentos
vegetais e animais que pressionam e até destroem ecossistemas.
Duas atividades
essenciais e necessárias ─ produção de alimentos e assentamentos urbanos ─
determinam manifestações culturais do comportamento humano nem sempre adequadas
diante do funcionamento das leis orgânicas da natureza. A produção de
alimentos, para bilhões de seres humanos e não humanos, sem restrições
racionais ao crescimento demográfico dessas populações, impõe substituição de
florestas, uso intensivo de água, nutrientes químicos ou industrializados,
defensivos tóxicos e poluidores do solo, da água e do ar. A urbanização, ao
longo e largo do planeta, se concentra ao redor de rios, mares e lagos,
modifica drasticamente as paisagens naturais, expulsa ou elimina os habitantes
naturais de ecossistemas, requer serviços de limpeza e higiene, centros de
recreação, de educação e saúde, de mobilidade e segurança social.
A redução
racional do crescimento da população humana, embora sugerida por demógrafos
desde a década de 1960 e orientada por organismos internacionais, é ainda um
tabu cultural e político. Propor a alegria da maternidade e o orgulho da
paternidade, com um ou dois filhos por casal, será uma decisão política sábia e
refletirá de maneira eficaz sobre a regeneração dos ecossistemas que abrigam
generosamente o milagre da vida no planeta.
5.9.2022