segunda-feira, 27 de maio de 2019

IMPOSTOS E APOSENTADORIA


IMPOSTOS e APOSENTADORIA

Pago, por mês, em benefício do sr. Leonildo Lima, caseiro, R$ 406,00 ou, no ano, R$ 5.684,00. Em 30 anos de contribuições, o sr. Leonildo Lima terá um crédito de R$ 170.520,00 (sem as correções). Em princípio, ele teria com esse valor, transformado em salário mínimo atual, 14 anos de aposentadoria paga pelos anos trabalhados. Uma conta de poupança social remunerada em nome do sr. Leonildo, por trinta anos, pode garantir sua aposentadoria, sem prejuízo de outros ingressos eventuais.
Mas o que impede os representantes do povo a tomar decisões sociais é a cruel desigualdade salarial, imposta e aceita, que constrói nossa sociedade baseada em privilégios defendidos por leis desumanas.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

cA VIDA SOCIAL DOS CIPÓS




CIPÓS


O cipó é um liame singular. Encantei-me com seu bom humor e seus trejeitos de se enroscar no corpo das árvores vizinhas. Passo bons momentos a olhá-los, examiná-los e emocionar-me com suas acrobacias. São fascinantes. Têm uma variada capacidade trópica para subir e descer, se enrolar, abrir braços e gavinhas. Atravessam córregos e ribeirões sem se afogar. Formam desenhos admiráveis. Quando os cipós atingem alturas de 20 a 30 metros, geram ramificações e descem ao solo para alimentar-se, aguar-se e reproduzir-se. Têm vida própria.
Os cipós andam em círculos buscando espaços no alto. Preferem as linhas curvas às retas. São seres livres na busca do infinito. Não escolhem ombro amigo. A planta que estiver por perto é abraçada e para sempre. Os cipós são amantes apaixonados. Sem a vizinhança eles não prosperam. A mata precisa deles. Eles precisam dela. São  gregários. Têm o sentido do abraço, da conjugação, da junção sem perder a identidade. Pelas cordas do cipó sobem as térmitas para construírem no alto suas casas.
Vejo abraços apertados de felicidade amorosa. Aventuram-se. Não temem a grossa árvore nem desprezam o jovem e ainda imberbe arbusto. Sua presença artística produz pinturas e esculturas que o Sol ilumina e o céu as emoldura no espaço.

terça-feira, 7 de maio de 2019

QUADRAS 500


SOBRE AS QUADRAS 500 DO SUDOESTE

COMENTÁRIOS ECOSSOCIOLÓGICOS (Eugênio Giovenardi)

POLÍTICA AMBIENTAL

Desde a aprovação do início do empreendimento, nesses espaço, prevê-se a instalação de 22 prédios residenciais, seis comerciais e um institucional com a agregação de  4.000 pessoas e 3.000 carros.
Área física a ser urbanizada (141.654 m2/ 14,160 ha). Qual será o impacto sobre o Parque das Sucupiras.
Pergunta inicial: o pretendido equilíbrio arquitetônico da cidade deve se opor ao equilíbrio ecológico e ambiental? A Brasília Revisitada de Lucio Costa completa 30 anos. Em 1989, ele manifestou seu consentimento em “urbanizar” aquela área que pertencia à Marinha. Teremos que pensara da mesma forma 30 anos depois?
A biodiversidade local será preservada com a ocupação de mais 4 mil pessoas e 3 mil carros? Um milhão de espécies da flora e da fauna, dizem 145 cientistas, baseados em 15 mil fontes, estão prestes a desaparecer do planeta. O homo sapiens não resistira à extinção, apesar da tecnologia que deixará, até 2030, 2 bilhões de desempregados.
A compensação requerida pelos órgãos ambientais produzirá e manterá o mesmo equilíbrio ambiental no mesmo espaço urbanizado? A densidade espacial se justifica nessa área?
Repito o que venho insistindo há anos: um novo olhar sobre a natureza é necessário e urgente.
Falo com experiência de 44 anos, mais de metade de minha vida, acompanhando a regeneração de uma área degradada de 70 hectares. A área das previstas Quadras 500 é área degradada que requer humanização sem fauna e flora?
É desconcertante que decisões de administradores da coisa pública demonstrem não conhecer nem compreender o bioma Cerrado. Uma coisa é administrar os bens da natureza, outra é administrar os bens do PIB.
Parecemos inimigos de áreas verdes originais. Queremos maquiar o Cerrado com penduricalhos. Buganvílias, florezinhas de canteiros, são lindas, mas não terão a função natural de recompor o ambiente climático. Elas podem agregar beleza, mas não substituem o funcionamento de infiltração da vegetação nativa..
Uma área de vegetação nativa que combina gramíneas, arbustos e árvores pode deter até 70% da chuva, controla a umidade, facilita a infiltração e a recarga de aquíferos canalizando as águas aos córregos.
Uma área impermeabilizada não detém aguaceiros. Ao contrário, se transforma em rio que inunda prédios, matam pessoas e animais, canaliza ou desvia o curso dos ventos que derrubam árvores,
Processo de regeneração será extinto com a ocupação do espaço urbano. A regeneração de uma área requer anos e décadas soterrados por avenidas, estacionamentos, prédios e lixo.

 

POLÍTICA POPULACIONAL


Qual o escopo de um governo? Satisfazer necessidades essenciais de toda a população. Moradia é uma delas.
A população cresce no DF em 40 mil novos habitantes/ano.
O déficit habitacional estimado, por diferentes instituições, está entre 117 mil a 125 mil. Os 22 prédios do Sudoeste não reduzirão o déficit habitacional do DF. Ao contrário, vai-se aumentar o número de apartamentos vazios. Uma afronta à população.
A que classe de renda pertencem os 2.500 novos moradores previstos para os 22 prédios do Sudoeste? As 830 famílias pressionarão o aumento do consumo de água em 207.500 l/dia ou 207 m3.
A previsão de mais 3.000 carros em circulação significa ocupação permanente e exclusiva de uma área de 18.000 m2.
Qual o local de trabalho dos futuros ocupantes do Sudoeste? 
O que falta nessas discussões é o ingrediente transparência. Trata-se de mercado imobiliário de oferta de moradia a quem tem dinheiro para comprar ou os futuros moradores já foram incluídos no rol dos que precisam casa a preços justos?
Quantos desses apartamentos ficarão vazios?
Por que não oferecer moradias decentes onde os demandantes podem adquirir? Onde é possível construir para atender a faixa salarial? Por que não Pôr do Sol, Samambaia, Sol Nascente, Sobradinho, Recanto das Emas e outros lugares, transformando-os em parques saudáveis.
Então, quem é a demanda? A demanda deve ter nome e identificação. A procura habitacional dos sem-teto está dirigida para quais áreas? Onde estão eles? Quais são os espaços disponíveis para essa demanda? Qual é o impacto sobre o bioma?
Qual é o acervo de vegetação nativa e fauna residente? Ibram e Construtoras sabem? A Lei do Zoneamento Econômico-Ecológico está sendo respeitada? Os 22 prédios do Sudoeste atendem a essa demanda?
O número de trabalhadoras domésticas e diaristas, no DF, se aproxima de 90 mil e mais de 40 mil vêm diariamente trabalhar no Plano Piloto. Por que não reservar para elas o SUDOESTE? Elas sabem usar transporte público. Certamente, a discriminação social impede de se pensar em fatos óbvios.
O mercado imobiliário está distante de quem realmente necessita.
Estamos administrando as necessidades da população ou simplesmente prestamos adoração ao deus PIB?

POLÍTICA HABITACIONAL


A taxa de crescimento populacional se reduzirá na camada rica da população. Na periferia das cidades a taxa continuará maior. A média de crescimento da população é usada para encobrir interesses econômicos.
Em 2030, segundo a Codeplan, o impacto da faixa etária jovem na população cairá de 24% a 17%, enquanto os idosos representarão 16% da população. Há que se pensar, então, em abrigos, casas de repouso terminal para atender humanamente os velhos. O Sudoeste poderá ser uma área estratégica alternativa para a população que envelhece. Será mais fácil visitar pais, avós, parentes em locais adequados a pessoas necessitadas de apoio.
Uma das alternativas, além de outras já mencionadas, será deixar a área das quadras 500 do Sudoeste como área verde, pulmão urbano, um parque silencioso para pensar.
Finalmente, a conversão de áreas rurais em urbanas é uma afronta imperdoável contra o Cerrado. Até hoje, o Pdot não controlou a ocupação de áreas de proteção ambiental.

CAPTAÇÃO DE ÁGUAS PLUVIAIS

I. Áreas cobertas de vegetação integrada – árvores e gramíneas – de 10.000 m2, frente a uma precipitação de 30 mm (30 litros por m2 ),  podem captar até 70% desse volume ou 21 mm (21 litros por m2 ), ou 210.000 litros, em 30 minutos (7.000 l/minuto).
Resultado: A vegetação detém a água, controla o fluxo, infiltra.

II. Uma área impermeabilizada de 10.000 m2 (5.000m x 2m), diante de mesmo volume de 30mm (30 litros m2 ), recebe diretamente 300.000 litros em 30 minutos (10.000 l/minuto).
Resultado: O asfalto não detém a água, arrasta lixo aos córregos, rios e lagos, arranca árvores e sem esgotamento eficiente inunda cidades.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

BRASÍLIA AOS 59 ANOS


BRASÍLIA AOS 59 ANOS ( Artigo não publicado pelo Correio Braziliense)


Eugênio Giovenardi, sociólogo e escritor, membro da Academia de Letras do Brasil e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.

“A única defesa para Brasília está na preservação do seu Plano Piloto. [...] Considero indispensável uma barreira às arremetidas demolidoras que já se anunciam vigorosas” (Bilhete de Juscelino Kubitschek, em 15.6.1960, a Rodrigo de Mello Franco de Almeida, Presidente do IPHAN).

Brasília ainda é administrável?
Aos 59 anos, Brasília dá sinais de cansaço. Clama por carinho humano dos cidadãos e dos administradores públicos. O Projeto Piloto de Lucio Costa com suas quatro escalas: residencial, gregária, monumental e bucólica ficou confinado nos limites da área que acolheu os serviços burocráticos do Estado. A nova capital foi concebida para plantar um novo país no coração geográfico do Brasil.
A concepção das superquadras, dos clubes de vizinhança e de convivência, das escolas localizadas ao pé das crianças, do gabarito modesto de seis andares que respeitam os horizontes, da concentração dos serviços públicos, da amplidão dos espaços sob um céu generoso, das amplas e arejadas avenidas, não foi além da área privilegiada do Plano Piloto. Nunca chegou nem chegará às cidades satélites transformadas em aviários humanos ou dormitórios de servidores públicos ou trabalhadores de empresas centralizadas na área do Plano Piloto. Fora dos limites do Projeto Lucio Costa, Brasília se “ordinarizou”.
A migração desenfreada, nesse meio século, surpreendeu os administradores, arquitetos, engenheiros e planificadores. A capacidade instalada para administrar grandes populações naufragou diante da ocupação de centenas de milhares de pessoas que acudiam ao Planalto Central. Ocupamos cegamente os espaços
Aos 59 anos, Brasília recebe, anualmente, 40 mil novos habitantes e abriga, hoje, mais de três milhões de pessoas, acolitadas por um milhão e oitocentos mil automóveis. O carro particular impôs à cidade um desenho dominado por avenidas, viadutos, retornos, pontes. Interditaram-se os caminhos de pedestres. Até o Parque da Cidade se transformou em pistas de corrida, diferentemente do Jardim de Luxemburgo e outros pelo mundo.
A amplidão dos espaços concebidos sugeria um modelo de transporte moderno, universalizado, rápido, capaz de unir todos os pontos habitados ao mercado dos serviços públicos. O transporte público poderia ser complementado por ciclovias.  Embora se tenha dado importância ao tráfego de bicicletas, as ciclovias oferecidas têm sérios obstáculos para a mobilização de cidadãos, interrompidas por longos trechos e com travessias de risco e mal sinalizadas.
Uma cidade (urbs) não é apenas um conjunto imobiliário, ainda que arquitetonicamente belo, majestoso e empolgante. A civitas é uma praça de convivência de seres inteligentes, (ágora para os atenienses) onde as pessoas se encontram, dialogam, discutem, trocam, propõem e expõem suas riquezas interiores, seus pensamentos, seus sentimentos, sua vida.
A cidade deve ser um elo entre as pessoas, as árvores, os pássaros, os animais, todos hóspedes do mesmo bioma. O bioma Cerrado, no qual foi plantada a nova capital do país, foi furiosamente atacado pela violência imobiliária, pela desídia administrativa, pela ignorância coletiva. Atrasamos, ou quase impedimos o desenvolvimento das energias regenerativas do Cerrado. A regeneração vegetal, a volta de espécies da fauna, os pássaros e insetos polinizadores que contribuem para o reflorestamento precisam de décadas de paciência e silêncio para  restabelecer o sistema da biodiversidade. O tempo da natureza não é o tempo do relógio econômico da exploração das riquezas naturais. A ocupação criminosa dos espaços nativos torna extremamente difícil, senão impossível, a regeneração do bioma Cerrado.
É motivo de esperança que, em vários países, os jovens compreenderam que é preciso ter um novo olhar sobre a natureza.  Em preparação aos 60 anos de Brasília, é importante que toda a população brasiliense, estimulada pelos jovens, pressione fortemente os planejadores, os administradores e representantes legislativos dos cidadãos a propor e realizar ações que favoreçam, nos próximos 50 anos, a regeneração necessária do Cerrado do Distrito Federal para sobrepor-se ao deserto urbano.


21.4.2019

quarta-feira, 10 de abril de 2019

INUNDAÇÕES 2019


INUNDAÇÕES 2019

FOTO:  SÍTIO DAS NEVES (DF) PODE SER UM EXEMPLO DE PRESERVAÇÃO DO ECOSSISTEMA CERRADO.(Eugênio Giovenardi - Córrego da Mata Azul)

As inundações que afetaram a população do Rio de Janeiro, São Paulo, Teresina, e outras centenas de cidades, têm sábias e científicas explicações e poucas soluções.
Não há notícias de que, nas RESERVAS INDÍGENAS e em áreas de proteção vegetal, as águas da chuva tenham agredido a biodiversidade do ambiente preservado.
O volume de águas que cai sobre as grandes e desorganizadas cidades do Brasil de hoje é o mesmo, gota mais gota menos, desde 1500. A diferença é que as florestas detinham grande parte dos milhões de metros cúbicos que as nuvens despejavam sobre elas. A marca visível da pegada ecológica tem 500 anos.
PRIMEIRO, o aumento das populações urbanas; SEGUNDO, a devastação ocasionada pela ocupação do espaço contra todas as regras e normas mais elementares de proteção dos ecossistemas; TERCEIRO, imensas áreas desmatadas, ao longo e largo do pais, para produção de alimentos vegetais e animais são as causas mais evidentes da alteração do rumo das águas em direção ao mar.
As perspectivas de solução para os próximos anos poderão ser positivas, se esses três pilares forem simultaneamente administrados em nome da preservação da vida, isto é, da biodiversidade da qual a população humana faz parte.

10.4.2019

quarta-feira, 13 de março de 2019

AOS JOVENS DA CANDANGOLÂNDIA


Audio enviado por celular aos
jovens estudantes da Candagolândia (Brasília/DF)

CAROS JOVENS

Vocês compõem o grupo privilegiado da população. É a idade da aventura, dos sonhos e da esperança.
Convido vocês a lançar um novo olhar sobre a natureza e a realidade urbana. Compreender a natureza e seguir os princípios de sua organização com o auxílio da ecossociologia, vocês podem participar melhor da convivência urbana.
Vocês encontraram muita coisa feita, bem-feita, malfeita.
Que realidade é essa que está na frente de vocês.
Vocês podem dar um novo significado  a essa realidade.
Nosso cérebro recebe as informações da realidade que está na cara da gente.  Essas informações chegam pelos olhos, pelos ouvidos, pelo nariz – o olfato -, pelo paladar e pelo tato, quando tocamos alguma coisa.
Um novo olhar sobre a realidade tem dois pilares: a informação objetiva: o que se vê, o que se ouve, o que se sente, etc. A função do cérebro é associar essas informações, aceitá-las ou rejeitá-las. Aí, entra a informação subjetiva, ideológica: alguém disse que isso é bonito, aquilo é bom, aquilo é perigoso  e a gente entra no jogo aprovando ou desaprovando. É o pacote cultural transmitido pela palavra falada ou escrita.
O que sugiro a vocês é dar ao cérebro informações objetivas.
Qual é a realidade que eu vejo, que vocês veem?
Muito do que é real, hoje, pode-se fotografar ou gravar.
O que é real? A escola, a sala de aula, a rua, o parque, o buraco da rua, as ruas entupidas de carros, o abraço do amigo, a enxurrada, o lixo, a falta de árvores. Isso tudo é a coisa real.
Vocês podem olhar tudo isso de maneira diferente. Vocês podem fotografar o real, filmar, analisar o real, discutir sobre essa realidade, dar novo significado a ela, propor novas soluções para uma sociedade diferente que toca a vocês. Essa realidade é o futuro de vocês. Vocês são o futuro dessa realidade.
Esse novo olhar sobre a realidade significa participar nas decisões políticas da administração da coisa pública. Nós estamos num território urbano, pertencemos à polis e podemos participar da política.
Esse conhecimento concreto que vocês adquirem com um novo olhar sobre a natureza e sobre a realidade, usando as ciências e a matemática é a base da sabedoria.

3.3.2019

terça-feira, 5 de março de 2019






THE STONES OF ROME
A novel
By Eugênio Giovenardi
Translated by Walter Stokes Colton

Goiânia-GO – Kelps, 2019