COMENTÁRIOS SEMANAIS SOBRE MEIO AMBIENTE, POLÍTICA, LITERATURA E OUTRAS SUTILEZAS DO COTIDIANO.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
O HOMEM PROIBIDO
A EDITORA MOVIMENTO, DE PORTO ALEGRE, ACABA DE PUBLICAR A SEGUNDA EDIÇÃO DO LIVRO O HOMEM PRIBIDO, DE EUGÊNIO GIOVENARDI. O HOMEM PROIBIDO É UM RELATO ROMANCEADO DE UM TEMPO CRUCIAL NA VIDA DO AUTOR. CONTA AS VICISSITUDES DE UM JOVEM EM BUSCA DA LIBERDADE PENSAR E QUERER SEM O MONITORAMENTO DE UMA INSTITUIÇÃO.O ROMANCE FOI TRADUZIDO PARA O ESPANHOL (CUBA, 2000) E PARA O FINLANDÊS (HELSINQUE, 2001).OS PEDIDOS PODEM SER FEITOS NA LIVRARIA CULTURA, DIRETAMENTE OU POR CORREIO ELETRÔNICO.
ABC DO LULA
“Minha mãe nasceu analfabeta”, informou Lula para valorizar o inegável feito de ter chegado à presidência do Brasil. Deu, com isso, esperança aos analfabetos e paus-de-arara e a todos nós que votamos nele. Lembre-se que, por três vezes, o povo de Caetés não votou no candidato Lula, nascido ali.
O abecê tornou-se uma palavra de ordem no clã dos Silva. De todos os galhos da família brotavam recomendações à mãe do Lula: “a senhora tem que conhecer o abc”, “não pode morrer sem conhecer o abc”, “o abc é muito importante na educação e no futuro dos filhos”.
Um dia, chegou a Caetés (PE) um caminhoneiro pau-de-arara, convidando o povo castigado pela seca a ir para o sul e conhecer o ABC paulista, o mais completo alfabeto cheio de oportunidades para violeiros e trovadores desempregados. Para lá foi o clã dos Silva. A mãe, cansada de tanto ouvir recomendações sobre a importância do abc, juntou os filhos que andavam por perto, amarrou uma trouxa de roupa, comprou um pacote de biscoito-maria e trepou no caminhão.
Três dias depois, moídos da viagem, com os olhos vermelhos de poeira e de sono, o pensamento ainda preso na roça seca, na galinha que botava na cesta da varanda, o vira-lata que ficou guardando a casa, o rinchar dos jegues soltos pelas ruas, dona Lindu viu, admirada, o famoso ABC.
Atravessaram São Paulo entre edifícios, que alguém disse: é uma selva de pedras, um formigueiro de gente como se fosse a festa de Caruaru. Desembarcaram em frente à prefeitura de São Bernardo do Campo.
“Aqui estamos em São Bernardo”, disse o motorista do pau-de-arara. “Ali atrás é Santo André e, mais na frente, São Caetano. Estamos no ABC. Agora é com vocês.”
Finalmente dona Lindu estava conhecendo o ABC. “Taí meu filho”, disse ela a Lula, “tu queria conhecer o ABC, tá ele aí”. Lula familiarizou-se com o ABC. Gostou do B, ficou nele, em São Bernardo. Aos poucos o ABC foi entrando nele e ele no ABC. Um dia, saiu do ABC e foi governar o nosso país sem livros e sem lápis. Só com um avião.
O abecê tornou-se uma palavra de ordem no clã dos Silva. De todos os galhos da família brotavam recomendações à mãe do Lula: “a senhora tem que conhecer o abc”, “não pode morrer sem conhecer o abc”, “o abc é muito importante na educação e no futuro dos filhos”.
Um dia, chegou a Caetés (PE) um caminhoneiro pau-de-arara, convidando o povo castigado pela seca a ir para o sul e conhecer o ABC paulista, o mais completo alfabeto cheio de oportunidades para violeiros e trovadores desempregados. Para lá foi o clã dos Silva. A mãe, cansada de tanto ouvir recomendações sobre a importância do abc, juntou os filhos que andavam por perto, amarrou uma trouxa de roupa, comprou um pacote de biscoito-maria e trepou no caminhão.
Três dias depois, moídos da viagem, com os olhos vermelhos de poeira e de sono, o pensamento ainda preso na roça seca, na galinha que botava na cesta da varanda, o vira-lata que ficou guardando a casa, o rinchar dos jegues soltos pelas ruas, dona Lindu viu, admirada, o famoso ABC.
Atravessaram São Paulo entre edifícios, que alguém disse: é uma selva de pedras, um formigueiro de gente como se fosse a festa de Caruaru. Desembarcaram em frente à prefeitura de São Bernardo do Campo.
“Aqui estamos em São Bernardo”, disse o motorista do pau-de-arara. “Ali atrás é Santo André e, mais na frente, São Caetano. Estamos no ABC. Agora é com vocês.”
Finalmente dona Lindu estava conhecendo o ABC. “Taí meu filho”, disse ela a Lula, “tu queria conhecer o ABC, tá ele aí”. Lula familiarizou-se com o ABC. Gostou do B, ficou nele, em São Bernardo. Aos poucos o ABC foi entrando nele e ele no ABC. Um dia, saiu do ABC e foi governar o nosso país sem livros e sem lápis. Só com um avião.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
OS POBRES DE LULA
É compreensível que os ocupantes do poder e possuidores da autoridade nacional sintam o dever de falar aos súditos e se atribuam o direito da incontestabilidade do que dizem. Ainda que soem estranhas as afirmações normalmente ditas em viagens internacionais, na capital da Suíça, da Rússia ou do Cazaquistão.
Em Genebra, o presidente Lula da Silva, com sua voz rouca e severa, afirmou diante de personalidades de terno e gravata e de cenho franzido que “não são os pobres e os imigrantes os responsáveis pela crise financeira mundial”. É uma declaração mais do que óbvia. Quem teria insinuado a Lula que os pobres são culpados de alguma coisa mais do que fazer filhos além da capacidade de alimentá-los? Quem lhe teria dito que é culpa dos pobres que perto deles não há boas escolas e as ruas em que vivem estão esburacadas e enlameadas? Que é culpa deles que suas casas não têm água encanada e cheiram a esgoto escorrendo pelas valetas? Que é culpa deles se moram nos confins das cidades e tomam dois a três ônibus ou caminham léguas para chegar ao trabalho? Que é culpa deles por estarem desempregados ou expulsos de suas terras, encarcerados em prisões degradantes ou ganham o pão cuidando de carros importados nos estacionamentos?
Quem disse a Lula que é culpa dos pobres e imigrantes que a corrupção mais odiosa e descarada se instalou em seu próprio partido, no Congresso Nacional, nas autarquias e ministérios? Que é culpa dos pobres que os senadores humilharam o Senado da República? Quem disse a Lula que o dinheiro do mensalão foi trazido por imigrantes em lombo de burro?
Quem disse a Lula que é culpa dos pobres e imigrantes a vasta derrubada da floresta amazônica, o lucro exorbitante e escandaloso dos bancos públicos e privados? É culpa dos pobres que o farto consumo de drogas da classe alta, comandado por mãos invisíveis, alimenta a guerra do tráfico no Rio de Janeiro e Nova Iorque?
Lula conhece bem as palavras e as frases de efeito. Sabe que são essas expressões que os ricos e os pobres querem e gostam de ouvir. É preciso que a maior autoridade de um país diga essas obviedades para agradar a uns e a outros e para que nada mude. Foi dito e está dito. Hospedado em hotéis dos mais caros de Genebra, é preciso inocentar os pobres e os imigrantes que não têm 400 dólares para pagar uma diária com café da manhã.
Lula tomará seu próprio avião para descer em Moscou e no Cazaquistão, onde falará em nome dos pobres e dos imigrantes do Brazilstão. Ao fim e ao cabo, é bom ser lembrado, de tempos em tempos, que as crises econômicas e financeiras, as crises morais e éticas, as crises de esquizofrenia política não devem ser jogadas nas costas dos pobres e dos imigrantes que não tem bilhões para perder na mão dos agiotas das bolsas de valores.
Em Genebra, o presidente Lula da Silva, com sua voz rouca e severa, afirmou diante de personalidades de terno e gravata e de cenho franzido que “não são os pobres e os imigrantes os responsáveis pela crise financeira mundial”. É uma declaração mais do que óbvia. Quem teria insinuado a Lula que os pobres são culpados de alguma coisa mais do que fazer filhos além da capacidade de alimentá-los? Quem lhe teria dito que é culpa dos pobres que perto deles não há boas escolas e as ruas em que vivem estão esburacadas e enlameadas? Que é culpa deles que suas casas não têm água encanada e cheiram a esgoto escorrendo pelas valetas? Que é culpa deles se moram nos confins das cidades e tomam dois a três ônibus ou caminham léguas para chegar ao trabalho? Que é culpa deles por estarem desempregados ou expulsos de suas terras, encarcerados em prisões degradantes ou ganham o pão cuidando de carros importados nos estacionamentos?
Quem disse a Lula que é culpa dos pobres e imigrantes que a corrupção mais odiosa e descarada se instalou em seu próprio partido, no Congresso Nacional, nas autarquias e ministérios? Que é culpa dos pobres que os senadores humilharam o Senado da República? Quem disse a Lula que o dinheiro do mensalão foi trazido por imigrantes em lombo de burro?
Quem disse a Lula que é culpa dos pobres e imigrantes a vasta derrubada da floresta amazônica, o lucro exorbitante e escandaloso dos bancos públicos e privados? É culpa dos pobres que o farto consumo de drogas da classe alta, comandado por mãos invisíveis, alimenta a guerra do tráfico no Rio de Janeiro e Nova Iorque?
Lula conhece bem as palavras e as frases de efeito. Sabe que são essas expressões que os ricos e os pobres querem e gostam de ouvir. É preciso que a maior autoridade de um país diga essas obviedades para agradar a uns e a outros e para que nada mude. Foi dito e está dito. Hospedado em hotéis dos mais caros de Genebra, é preciso inocentar os pobres e os imigrantes que não têm 400 dólares para pagar uma diária com café da manhã.
Lula tomará seu próprio avião para descer em Moscou e no Cazaquistão, onde falará em nome dos pobres e dos imigrantes do Brazilstão. Ao fim e ao cabo, é bom ser lembrado, de tempos em tempos, que as crises econômicas e financeiras, as crises morais e éticas, as crises de esquizofrenia política não devem ser jogadas nas costas dos pobres e dos imigrantes que não tem bilhões para perder na mão dos agiotas das bolsas de valores.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
UM MAIS UM
As operações aritméticas simples deram lugar às mais complexas. E realizá-las se consegue só com a ajuda de máquinas muito mais velozes do que o exercício cerebral.
Pouco valor se dá ao algarismo 1 e, mais um, parece quase nada, embora seja o dobro. Um real é pouco. Dois compram um jornal. Um jornal diário representa centenas de litros de água. Um litro de água custa, no mercado, R$ 1,40. Um jornal tem portanto um custo de quase R$ 500 e um preço fictício de 1+1.
A análise matemática se complica quando se adiciona 2 ao dois. Um casal que procria dois filhos produz um crescimento exponencial. Duas vezes dois. Dois pratos transformam-se em quatro. E, assim, vão se multiplicando as demandas. Mais duas camas, mais duas camisas, mais 400 litros de água por dia. Geralmente, mais um carro, mais uma vaga no estacionamento, mais 40 litros de combustível por semana. Mais dois lugares na creche e na escola. Mais duas baterias de vacinas na fila do hospital.
Um milhão de carros mais um parece nada. Já 250 carros matriculados por dia, no DF, são simples unidades que se adicionam às pessoas, aos litros de gasolina, pneus, toneladas de CO2, acidentes, ambulâncias, polícias, enterros e incontáveis sofrimentos.
A construção de mais um setor, o Setor Noroeste, implica a destruição de 820 hectares de massa verde calculada em 50 toneladas por hectare, contendo 70% de água. Isto é, estamos permitindo a devastação de 35 mil litros de água por hectare, guardados nas folhas, nos troncos e raízes, num total de 28 milhões de litros por dia.
Esses milhões de litros são a soma de um mais um, de unidades desprezadas pelos planejadores, engenheiros, arquitetos e administradores. Essas árvores e plantas, essa águas desprezadas são irrecuperáveis.
Chega-se à conclusão de que a inteligência do ser humano é pouco usada para observar, analisar, compreender, planejar e executar ações em benefício do sistema universal e natural ao qual pertence. Estamos diante de um ecocídio anunciado, tão certo quanto 1+1 e 2+2.
Pouco valor se dá ao algarismo 1 e, mais um, parece quase nada, embora seja o dobro. Um real é pouco. Dois compram um jornal. Um jornal diário representa centenas de litros de água. Um litro de água custa, no mercado, R$ 1,40. Um jornal tem portanto um custo de quase R$ 500 e um preço fictício de 1+1.
A análise matemática se complica quando se adiciona 2 ao dois. Um casal que procria dois filhos produz um crescimento exponencial. Duas vezes dois. Dois pratos transformam-se em quatro. E, assim, vão se multiplicando as demandas. Mais duas camas, mais duas camisas, mais 400 litros de água por dia. Geralmente, mais um carro, mais uma vaga no estacionamento, mais 40 litros de combustível por semana. Mais dois lugares na creche e na escola. Mais duas baterias de vacinas na fila do hospital.
Um milhão de carros mais um parece nada. Já 250 carros matriculados por dia, no DF, são simples unidades que se adicionam às pessoas, aos litros de gasolina, pneus, toneladas de CO2, acidentes, ambulâncias, polícias, enterros e incontáveis sofrimentos.
A construção de mais um setor, o Setor Noroeste, implica a destruição de 820 hectares de massa verde calculada em 50 toneladas por hectare, contendo 70% de água. Isto é, estamos permitindo a devastação de 35 mil litros de água por hectare, guardados nas folhas, nos troncos e raízes, num total de 28 milhões de litros por dia.
Esses milhões de litros são a soma de um mais um, de unidades desprezadas pelos planejadores, engenheiros, arquitetos e administradores. Essas árvores e plantas, essa águas desprezadas são irrecuperáveis.
Chega-se à conclusão de que a inteligência do ser humano é pouco usada para observar, analisar, compreender, planejar e executar ações em benefício do sistema universal e natural ao qual pertence. Estamos diante de um ecocídio anunciado, tão certo quanto 1+1 e 2+2.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Bilhete ao Governador 6
Custo da destruição.
Governador, soube que é bom matemático e que seus financistas não o enganam nas contas. Tenho andado por essas vias e viadutos que estão sendo alargados para melhorar o fluxo de carros. Cada árvore que tomba são centenas de litros de água que evaporam sem retorno. Cada metro de asfalto é um tapa na face da terra. Cada real que o senhor investe para destruir o cerrado precisará de 2 para recuperar. Serão muitos milhões que o senhor terá que reservar para restaurar o que sobrou do desastre em saúde, em acidentes, em saneamento ambiental.
Não há outras atividades que se prestem para gerar empregos sem maltratar a natureza? Há tantas ações a serem realizadas nas cidades satélites, como melhorar as escolas, limpar ruas, plantar árvores, formar parques e jardins, abrir campos de esporte. São empregos mais baratos para o erário público, mais dinheiro para os empregados, menos lucro para intermediários e muito menos corrupção.
Governador, soube que é bom matemático e que seus financistas não o enganam nas contas. Tenho andado por essas vias e viadutos que estão sendo alargados para melhorar o fluxo de carros. Cada árvore que tomba são centenas de litros de água que evaporam sem retorno. Cada metro de asfalto é um tapa na face da terra. Cada real que o senhor investe para destruir o cerrado precisará de 2 para recuperar. Serão muitos milhões que o senhor terá que reservar para restaurar o que sobrou do desastre em saúde, em acidentes, em saneamento ambiental.
Não há outras atividades que se prestem para gerar empregos sem maltratar a natureza? Há tantas ações a serem realizadas nas cidades satélites, como melhorar as escolas, limpar ruas, plantar árvores, formar parques e jardins, abrir campos de esporte. São empregos mais baratos para o erário público, mais dinheiro para os empregados, menos lucro para intermediários e muito menos corrupção.
domingo, 14 de junho de 2009
RIDÍCULO E ENFADONHO
Como cidadão, tentei seguir, impressionar-me, comover-me, indignar-me com as notícias do dia-a-dia. A corrupção na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, nas empresas públicas e privadas, em qualquer estamento da república, nas igrejas e na polícia produz explicações, justificativas dos implicados que só ganham em ridículo dos comentaristas políticos da TV Globo ou cientistas professores de universidades. Propiciar viagens a parentes e amigos com dinheiro público não constrange representantes da direita nem da esquerda e muito menos o presidente da república.
Economistas renomados, sábios, experientes, com anos de ministério nas costas, tentam desvendar os mistérios da “crise mundial” com rodeios e dezenas de “veja bem”, com expressões fortes e novas “economia robusta”, “recessão técnica” e amenizar os sofrimentos do combalido PIB e diagnosticar-lhe uma sobrevida.
Na primeira hora do dia, nas notícias do almoço e nas repetidas estatísticas da noite tem-se uma indigestão, seguida de congestão, provocada pela voz e pelas afirmações de Sarney, Ramiro Jucá, Lula da Silva, Sardenberger ou Cristiana Lobo. Tudo soa ridículo, artificial e enfadonho como a limpeza semanal da diarista. Ela precisa limpar, passar e cozinhar, receber a diária e voltar para casa. Todos e sempre os mesmos têm que fazer, dizer, explicar, justificar. Cumprem o dever de iludir e voltam para casa.
Amanhã retornarão e nós estaremos lá para ouvi-los e rir do ridículo. O inexplicável foi devidamente explicado. O insolúvel foi temporariamente solucionado. O irrealizável foi prometido.
Até o sinistro voo 447 se tornou enfadonho, com tantas informações inúteis, num jogo competitivo de equipes treinadas e eficientes em retirar corpos e destroços do mar imenso. Oficiais sérios não se furtam de responder questões supostamente pertinentes de repórteres com as prudentes palavras “não temos essa informação”.
Estamos todos convidados, premidos, convocados a apreciar a velocidade e o espetáculo do crescimento cuja força abaterá qualquer crise que ouse frear as ambições do poder. Somos convulsionados num fanatismo tão religioso e fundamentalista do crescimento a qualquer preço que tudo parece concorrer para cairmos no abismo sem dor, anestesiados pelo milagre poderoso de nossos governantes.
Estamos sendo levados para o desastre ecológico em ritmo de festa, num desfile carnavalesco, extasiados pelas fantasias, alegorias, sons de tambores e músicas que se desfazem em cinzas no dia seguinte.
Economistas renomados, sábios, experientes, com anos de ministério nas costas, tentam desvendar os mistérios da “crise mundial” com rodeios e dezenas de “veja bem”, com expressões fortes e novas “economia robusta”, “recessão técnica” e amenizar os sofrimentos do combalido PIB e diagnosticar-lhe uma sobrevida.
Na primeira hora do dia, nas notícias do almoço e nas repetidas estatísticas da noite tem-se uma indigestão, seguida de congestão, provocada pela voz e pelas afirmações de Sarney, Ramiro Jucá, Lula da Silva, Sardenberger ou Cristiana Lobo. Tudo soa ridículo, artificial e enfadonho como a limpeza semanal da diarista. Ela precisa limpar, passar e cozinhar, receber a diária e voltar para casa. Todos e sempre os mesmos têm que fazer, dizer, explicar, justificar. Cumprem o dever de iludir e voltam para casa.
Amanhã retornarão e nós estaremos lá para ouvi-los e rir do ridículo. O inexplicável foi devidamente explicado. O insolúvel foi temporariamente solucionado. O irrealizável foi prometido.
Até o sinistro voo 447 se tornou enfadonho, com tantas informações inúteis, num jogo competitivo de equipes treinadas e eficientes em retirar corpos e destroços do mar imenso. Oficiais sérios não se furtam de responder questões supostamente pertinentes de repórteres com as prudentes palavras “não temos essa informação”.
Estamos todos convidados, premidos, convocados a apreciar a velocidade e o espetáculo do crescimento cuja força abaterá qualquer crise que ouse frear as ambições do poder. Somos convulsionados num fanatismo tão religioso e fundamentalista do crescimento a qualquer preço que tudo parece concorrer para cairmos no abismo sem dor, anestesiados pelo milagre poderoso de nossos governantes.
Estamos sendo levados para o desastre ecológico em ritmo de festa, num desfile carnavalesco, extasiados pelas fantasias, alegorias, sons de tambores e músicas que se desfazem em cinzas no dia seguinte.
QUANDO EU VOLTAR
Homenagem ao editor Rovilio Costa (+13.06.2009)
Quando eu voltar ao ventre da terra de onde surgi, não se aflijam. Volto ao lugar onde a felicidade é silenciosa e todas as criaturas são acolhedoras.
Lentamente me consumirei no húmus gordo e fértil, me incorporarei aos vivos anônimos do universo. Escorrerei sobre os calhaus e penetrarei nas rachaduras das rochas. Alcançarei as águas subterrâneas, as reservas de vida do planeta.
Ressurgirei nas folhagens das árvores, alimentarei as raízes dos craveiros e das roseiras. Estarei na força dos jatobás e dos angicos, na doçura da mangaba, do baru e nas cores da caliandra.
Os pássaros me levarão pelos ares e viverei a festa internacional de todos os sons noturnos e das sinfonias siderais e marítimas.
Vou sem desaparecer. Estarei escondido e vigilante por trás dos galhos, troncos e ramadas.
Olhem para qualquer lugar, a qualquer momento e me verão em todas as formas do universo.
Vocês me verão e eu os verei com a lucidez da imortalidade e com a clareza da eternidade.
Quando eu voltar ao ventre da terra de onde surgi, não se aflijam. Volto ao lugar onde a felicidade é silenciosa e todas as criaturas são acolhedoras.
Lentamente me consumirei no húmus gordo e fértil, me incorporarei aos vivos anônimos do universo. Escorrerei sobre os calhaus e penetrarei nas rachaduras das rochas. Alcançarei as águas subterrâneas, as reservas de vida do planeta.
Ressurgirei nas folhagens das árvores, alimentarei as raízes dos craveiros e das roseiras. Estarei na força dos jatobás e dos angicos, na doçura da mangaba, do baru e nas cores da caliandra.
Os pássaros me levarão pelos ares e viverei a festa internacional de todos os sons noturnos e das sinfonias siderais e marítimas.
Vou sem desaparecer. Estarei escondido e vigilante por trás dos galhos, troncos e ramadas.
Olhem para qualquer lugar, a qualquer momento e me verão em todas as formas do universo.
Vocês me verão e eu os verei com a lucidez da imortalidade e com a clareza da eternidade.
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