Nos anos 70, eu era empregado do extinto Banco Nacional de Crédito Cooperativo e ocupava uma das coordenadorias do primeiro escalão. Recém-chegado a Brasília, não tinha alternativa para me dirigir ao trabalho a não ser o automóvel. Minhas economias iniciais, depois de três anos de bolsista, deram para a compra de um fusquinha 1.300 em doze prestações.
Meus colegas de primeiro escalão ajustaram o carro ao cargo. Um deles, fascinado pelos monstruosos computadores da época, pensava entender do complexo campo dos sistemas. Era um medíocre contador, mas tinha pose de cientista. Adquiriu um Alfa Romeu e era respeitado pelo carro não pelo cargo. Havia poucos automóveis circulando por Brasília, na época, e o carro do ano tentava e dominava meus colegas. Meu fusquinha era um gigante. Fui com ele a Florianópolis, às águas termais de Minas Gerais, a Penedo, a Natal, atravessando a Bahia e meio Nordeste.
As décadas passaram. O carro se popularizou. A população de Brasília aumentou exageradamente. As vias se multiplicaram. Vieram os viadutos, as invasões, os condomínios, as pontes do Lago Paranoá. Um carro para cinco habitantes, depois para três, para dois. Com 500 mil carros o DF entrou para a história dos acidentes de trânsito, engarrafamentos, falta de estacionamentos. Um presidente reedita o fusca. Todo mundo têm carro. Zelador de bloco, marceneiro, pintor, vigia, gari, barbeiro. Mais de um milhão neste ano.
O carro zero recebeu tratamento diferenciado com créditos a perder de vista, 60, 70, 80 prestações. Realizado o sonho do carro próprio. Todo mundo quer estar no engarrafamento diário. O brasiliense entrou na cultura das retenções de 30, 50 quilômetros.
Mas o brasiliense é criativo. Já que todo mundo tem carro é preciso distinguir carro de automóvel. Não é a mesma coisa. Aquele Alfa Romeu que se distinguia na década de 70, agora se chama Toiota, Citroën, Renault, Honda, Yundai, com seus apelidos distintíssimos: Corolla, Pajero, Picasso, Celta. Não basta ter carro só para diferenciar-se da massa que enfrenta ônibus e metrô. É preciso entrar num engarrafamento com um veículo de 300 mil reais, ar condicionado e música estéreo para valorizar as vias duplicadas e os viadutos alargados.
Os tempos mudaram. É preciso adaptar-se a eles, ao carro de alta tecnologia e ao ritmo andante ma non troppo da ópera ensandecida da tragédia do trânsito.
COMENTÁRIOS SEMANAIS SOBRE MEIO AMBIENTE, POLÍTICA, LITERATURA E OUTRAS SUTILEZAS DO COTIDIANO.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
DIÁLOGO DAS PLANTAS
Costumo caminhar pelos campos de meu Sítio.
Para compreender a vida, olho, toco folhas e troncos, admiro e ouço as plantas e as flores pequeninas.
O bem-te-vi sentou num murundu e me desafiou. A corruíra rastejou entre samambaias secas e a lagartixa correu ligeira. O sol dominava sozinho e iluminava cajuís, muricis e mangabeiras, Brilhava nas folhas hirsutas do chapéu-de-couro. Apoiei-me no bastão e parei junto a um faveiro.
Envolto no silêncio espesso do cerrado, percebi, a poucos passos, uma flor vermelha, redonda, ereta, com majestade simples de rainha. Ouvi cochichos a sotto voce, como fazem os namorados no teatro, escutando Liszt ou Villa Lobos. Era Caliandra que segredava à Florzinha-azul-do-cerrado histórias de outros tempos. Agucei o ouvido e fingi olhar para longe, no horizonte, na direção do Gama.
− Quem me trouxe para cá foi o vento, dizia Caliandra. Onde minha bisavó morava, houve uma guerra. Um grande fogo devorou árvores grandes e pequenas. Máquinas barulhentas, caminhões e muitos soldados entraram em nossas casas e enterraram milhões de plantas vivas.
− Eles não gostavam de plantas, flores e nascentes de água, perguntou Canela-de-ema, roxa de pavor.
− Parece que não, disse Caliandra, baixando a voz. Na frente das casas e nas janelas, puseram miosótis, azáleas, buganvílias e cambarás. Dizem que a natureza está globalizada e que nós somos menos competitivas.
Ouvi claramente ruídos de protesto de lobeiras mostrando suas flores azuis, de quaresmeiras com flores roxas e do alvo lírio-do-cerrado, prestes a chorar de tristeza.
− Essa gente que nos expulsou de nosso chão prefere os senhores eucaliptos aos pequizeiros e aroeiras, disse Caliandra com gesto de desprezo.
− O pior é o fogo, disse Baru. Todo ano é a mesma tortura. Cada pessoa que passa me faz tremer de medo. Quando as labaredas arrancam gritos das mangabeiras, dos bacuparis, das taquaras, me desespero sem poder correr daqui.
− Eles prendem fogo em nossa casa com todos nós lá dentro, completou Corticeira, mostrando as cicatrizes do incêndio do ano anterior.
Ao perceber minha presença, as plantas calaram. Andei devagar. Acariciei as folhas do catolé. Abracei a copaíba. Havia sorrisos por toda a parte. O bem-te-vi me desafiou de novo. Afastei-me de seu território.
Compreendi que o Sítio não é meu. É deles.
Para compreender a vida, olho, toco folhas e troncos, admiro e ouço as plantas e as flores pequeninas.
O bem-te-vi sentou num murundu e me desafiou. A corruíra rastejou entre samambaias secas e a lagartixa correu ligeira. O sol dominava sozinho e iluminava cajuís, muricis e mangabeiras, Brilhava nas folhas hirsutas do chapéu-de-couro. Apoiei-me no bastão e parei junto a um faveiro.
Envolto no silêncio espesso do cerrado, percebi, a poucos passos, uma flor vermelha, redonda, ereta, com majestade simples de rainha. Ouvi cochichos a sotto voce, como fazem os namorados no teatro, escutando Liszt ou Villa Lobos. Era Caliandra que segredava à Florzinha-azul-do-cerrado histórias de outros tempos. Agucei o ouvido e fingi olhar para longe, no horizonte, na direção do Gama.
− Quem me trouxe para cá foi o vento, dizia Caliandra. Onde minha bisavó morava, houve uma guerra. Um grande fogo devorou árvores grandes e pequenas. Máquinas barulhentas, caminhões e muitos soldados entraram em nossas casas e enterraram milhões de plantas vivas.
− Eles não gostavam de plantas, flores e nascentes de água, perguntou Canela-de-ema, roxa de pavor.
− Parece que não, disse Caliandra, baixando a voz. Na frente das casas e nas janelas, puseram miosótis, azáleas, buganvílias e cambarás. Dizem que a natureza está globalizada e que nós somos menos competitivas.
Ouvi claramente ruídos de protesto de lobeiras mostrando suas flores azuis, de quaresmeiras com flores roxas e do alvo lírio-do-cerrado, prestes a chorar de tristeza.
− Essa gente que nos expulsou de nosso chão prefere os senhores eucaliptos aos pequizeiros e aroeiras, disse Caliandra com gesto de desprezo.
− O pior é o fogo, disse Baru. Todo ano é a mesma tortura. Cada pessoa que passa me faz tremer de medo. Quando as labaredas arrancam gritos das mangabeiras, dos bacuparis, das taquaras, me desespero sem poder correr daqui.
− Eles prendem fogo em nossa casa com todos nós lá dentro, completou Corticeira, mostrando as cicatrizes do incêndio do ano anterior.
Ao perceber minha presença, as plantas calaram. Andei devagar. Acariciei as folhas do catolé. Abracei a copaíba. Havia sorrisos por toda a parte. O bem-te-vi me desafiou de novo. Afastei-me de seu território.
Compreendi que o Sítio não é meu. É deles.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Bilhete ao Governador 5
Escolas-parques
Governador, visitei algumas escolas públicas no Núcleo Bandeirante, no Engenho das Lajes e escolas privadas, ao longo da L-2. Fiquei deprimido com a ignorância ecológica e ambiental da Secretaria de Educação e dos donos de colégios. Aquilo lá dentro é um deserto ambiental esterilizado, uma prisão disfarçada de escola. A gente sabe que é uma escola porque do lado de fora há um grande letreiro. Nas novas escolas que o senhor vai construir, antes de pôr os fundamentos e de levantar paredes, contrate um paisagista para transformar o terreno num pequeno bosque e no meio dele ponha a escola. Será uma escola no parque, com ar puro, sombra, pássaros, borboletas, lagartixas, ipês floridos banhados com um chafariz. As crianças brincarão de pique-esconde no meio das árvores.
Governador, visitei algumas escolas públicas no Núcleo Bandeirante, no Engenho das Lajes e escolas privadas, ao longo da L-2. Fiquei deprimido com a ignorância ecológica e ambiental da Secretaria de Educação e dos donos de colégios. Aquilo lá dentro é um deserto ambiental esterilizado, uma prisão disfarçada de escola. A gente sabe que é uma escola porque do lado de fora há um grande letreiro. Nas novas escolas que o senhor vai construir, antes de pôr os fundamentos e de levantar paredes, contrate um paisagista para transformar o terreno num pequeno bosque e no meio dele ponha a escola. Será uma escola no parque, com ar puro, sombra, pássaros, borboletas, lagartixas, ipês floridos banhados com um chafariz. As crianças brincarão de pique-esconde no meio das árvores.
Bilhete ao Governador 4
Trânsito estrangulado
Governador, fiquei estarrecido ao ler entrevista de seu secretario de Transportes. Ele disse que “o sistema viário está estrangulado. Essa é a realidade. Não adianta hipocrisia”. Os viadutos e as duplicações de avenidas estrangularam o trânsito. Numa ocasião, no Instituto Histórico e Geográfico do DF, o seu secretário de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, ao responder indagações sobre o setor Noroeste, disse que foram previstas duas entradas de automóveis nas quadras porque usar o carro individual faz parte da cultura do brasiliense. O senhor é inteligente e preparado, Governador. Ajude seu secretario a distinguir entre cultura e mau costume. Se o senhor for na onda desses secretários, os tiros de sua administração sairão pela culatra, que não é o mesmo que cultura.
Governador, fiquei estarrecido ao ler entrevista de seu secretario de Transportes. Ele disse que “o sistema viário está estrangulado. Essa é a realidade. Não adianta hipocrisia”. Os viadutos e as duplicações de avenidas estrangularam o trânsito. Numa ocasião, no Instituto Histórico e Geográfico do DF, o seu secretário de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, ao responder indagações sobre o setor Noroeste, disse que foram previstas duas entradas de automóveis nas quadras porque usar o carro individual faz parte da cultura do brasiliense. O senhor é inteligente e preparado, Governador. Ajude seu secretario a distinguir entre cultura e mau costume. Se o senhor for na onda desses secretários, os tiros de sua administração sairão pela culatra, que não é o mesmo que cultura.
domingo, 17 de maio de 2009
BILHETES AO GOVERNADOR
Bilhete 3, Poços profundos.
Governador, o senhor deve saber que o no Lago Sul e Lago Norte, como nos condomínios urbanos e rurais, há empresas irresponsáveis que vendem a perfuração de poços chamados artesianos. O esgotamento dos aquíferos afeta os manaciais, os córregos e o Lago Paranoá. O que fazem a Caesb e o Ibram? Visitem as empresas e peçam a planilha de abertura de poços. Há informações que existem mais de 10 mil do DF. Feche os poços ou cobre caro pela água que é de todos, pessoas, plantas e bichos.
Governador, o senhor deve saber que o no Lago Sul e Lago Norte, como nos condomínios urbanos e rurais, há empresas irresponsáveis que vendem a perfuração de poços chamados artesianos. O esgotamento dos aquíferos afeta os manaciais, os córregos e o Lago Paranoá. O que fazem a Caesb e o Ibram? Visitem as empresas e peçam a planilha de abertura de poços. Há informações que existem mais de 10 mil do DF. Feche os poços ou cobre caro pela água que é de todos, pessoas, plantas e bichos.
BILHETES AO GOVERNADOR
Bilhete 2. Metrô e carro
Governador, o senhor está ampliando as linhas do metrô com bastante publicidade e poucos trens. Mas é uma obra importante. É para o povão. Para os ricos e amantes do automóvel se investem recursos demasiados. Se o mais rápido e ecológico é o metrô, por que tantos viadutos e pistas que estimulam o uso do carro e aumentam o aquecimento da cidade? É esse o compromisso com o futuro?
Governador, o senhor está ampliando as linhas do metrô com bastante publicidade e poucos trens. Mas é uma obra importante. É para o povão. Para os ricos e amantes do automóvel se investem recursos demasiados. Se o mais rápido e ecológico é o metrô, por que tantos viadutos e pistas que estimulam o uso do carro e aumentam o aquecimento da cidade? É esse o compromisso com o futuro?
BILHETES AO GOVERNADOR
Em preparação à festa dos 50 anos de Brasília, escrevo estes bilhetes ao senhor Governador.
Bilhete 1. Viadutos e vias
Senhor Governador, o que está sendo realizado e a forma como se abrem novas pistas e se multiplicam viadutos na continuação do Eixão – EPGU e EPAR − constituem um crime ecológico licitado. Quem deve ser preso? O Governador, o DER-DF, os empreiteiros ou as máquinas? O senhor contou quantas árvores forma assassinadas?
Bilhete 1. Viadutos e vias
Senhor Governador, o que está sendo realizado e a forma como se abrem novas pistas e se multiplicam viadutos na continuação do Eixão – EPGU e EPAR − constituem um crime ecológico licitado. Quem deve ser preso? O Governador, o DER-DF, os empreiteiros ou as máquinas? O senhor contou quantas árvores forma assassinadas?
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