É desalentador ler no CB: "Rocha que atrapalhava obras vai pelos ares". Trata-se de um monumento natural de milhões de anos para o qual não há olhos, só há engenheiros e dinamites. A quem fez mal essa rocha hoje estraçalhada? Trezentos metros cúbicos de rocha voaram pelos ares. Podiam ter desviado a pedra e sobre ela erguer um belvedere e construir um ponto de descanso. Os cinquenta mil carros que passam diariamente por ali nada perderiam em fazer uma pequena curva e respeitar a beleza natural, a força firme da natureza. Como são idiotas os engenheiros, como são tapados os adoradores do carro, como são cegos os filhos do homem.
Sou filho da natureza, nasci em seu ventre, por isso a compreendo, a defendo e a amo.
Até quando os insensatos abusarão de nossa paciência.
COMENTÁRIOS SEMANAIS SOBRE MEIO AMBIENTE, POLÍTICA, LITERATURA E OUTRAS SUTILEZAS DO COTIDIANO.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E NOVELAS
A administração pública tem algo em comum com a técnica de elaboração de novelas. Precedidas por anúncios convincentes e frases de efeito publicitário, algumas cenas da novela em projeto são exibidas em forma relâmpago para apresentar os atores e atrizes que, no curso dos capítulos, se beijarão, trairão ou odiarão.
No dia fixado, o início da novela é feito com grande encenação e nem sempre gera interesse imediato ou compulsa a expectativa do telespectador. No dia seguinte, o IBOPE oferece ao autor da novela os índices de audiência e as primeiras impressões que indicam o rumo das expectativas de milhões de assistentes. Depois da primeira semana, as duplas já estabelecidas se veem cercadas por jovens sedutoras ou são vítimas de maldades imprevistas que imitam a vida real. O Ibope recolhe diariamente as opiniões e as tendências do telespectador para orientar o rumo dos comportamentos dos atores e a cabeça do autor da novela.
Quem casa com quem, quem se vinga de quem, quem sai de cena ou morre, quem é premiado com a bela esquecida e sofrida, quem rouba a quem, quem deve ser mau ou bom do princípio ao fim. As tendências tomam o lugar do plano original e difuso que o autor concebeu. Mas o autor sabe que o sucesso da novela depende do assistente que está ali todos os dias para cobrar o que ele deseja ver e desfrutar do desfecho a que está preparado.
Os administradores públicos, legisladores e funcionários imitam, na prática das decisões, o autor de novela. Precisam de bons pontos do Ibope e têm que acompanhar as tendências dos cidadãos, mesmo que estes exijam o abate de centenas de árvores para dar passagem ao carro sedutor. Os planos de governo não se guiam por eixos essenciais, mas por tendências que se tornam necessidades imediatas dos expectadores de sua atuação.
Esse método de projetar está expresso em artigo publicado no CB – O futuro de Brasília – pelo engenheiro eletricista José Roberto Arruda, atual governador do DF: “Depois da aprovação do Pdot, o desafio é criar os eixos de crescimento da cidade, onde o adensamento urbano é desejável. Enquanto trabalhávamos pela aprovação do Pdot, estávamos numa outra frente e, com financiamentos e assessoria do BID, preparando os projetos de engenharia para a definição e construção desses eixos. Eles são, basicamente, três, definidos por sistemas viários...”.
Educação, meio ambiente saudável, transporte simples e inteligente para a trama das relações humanas ainda não inspiram as tendências do cidadão e ainda não figuram como necessidades essenciais à vida e à convivência pacífica e criativa entre as pessoas. Por isso, não são prioridades de governos. São apenas figurantes transitórios. As novelas acabam e, as administrações, também.
No dia fixado, o início da novela é feito com grande encenação e nem sempre gera interesse imediato ou compulsa a expectativa do telespectador. No dia seguinte, o IBOPE oferece ao autor da novela os índices de audiência e as primeiras impressões que indicam o rumo das expectativas de milhões de assistentes. Depois da primeira semana, as duplas já estabelecidas se veem cercadas por jovens sedutoras ou são vítimas de maldades imprevistas que imitam a vida real. O Ibope recolhe diariamente as opiniões e as tendências do telespectador para orientar o rumo dos comportamentos dos atores e a cabeça do autor da novela.
Quem casa com quem, quem se vinga de quem, quem sai de cena ou morre, quem é premiado com a bela esquecida e sofrida, quem rouba a quem, quem deve ser mau ou bom do princípio ao fim. As tendências tomam o lugar do plano original e difuso que o autor concebeu. Mas o autor sabe que o sucesso da novela depende do assistente que está ali todos os dias para cobrar o que ele deseja ver e desfrutar do desfecho a que está preparado.
Os administradores públicos, legisladores e funcionários imitam, na prática das decisões, o autor de novela. Precisam de bons pontos do Ibope e têm que acompanhar as tendências dos cidadãos, mesmo que estes exijam o abate de centenas de árvores para dar passagem ao carro sedutor. Os planos de governo não se guiam por eixos essenciais, mas por tendências que se tornam necessidades imediatas dos expectadores de sua atuação.
Esse método de projetar está expresso em artigo publicado no CB – O futuro de Brasília – pelo engenheiro eletricista José Roberto Arruda, atual governador do DF: “Depois da aprovação do Pdot, o desafio é criar os eixos de crescimento da cidade, onde o adensamento urbano é desejável. Enquanto trabalhávamos pela aprovação do Pdot, estávamos numa outra frente e, com financiamentos e assessoria do BID, preparando os projetos de engenharia para a definição e construção desses eixos. Eles são, basicamente, três, definidos por sistemas viários...”.
Educação, meio ambiente saudável, transporte simples e inteligente para a trama das relações humanas ainda não inspiram as tendências do cidadão e ainda não figuram como necessidades essenciais à vida e à convivência pacífica e criativa entre as pessoas. Por isso, não são prioridades de governos. São apenas figurantes transitórios. As novelas acabam e, as administrações, também.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
VIOLÊNCIA E NATUREZA
Penso que uma das causas de atos de agressão, formação de quadrilhas e gangues, chacinas ou sequestros cada dia mais intensos, ainda é pouco estudada. As pessoas se afastaram da natureza a ponto de considerá-la quase inimiga de seus interesses econômicos e ambições políticas.
Desde o primeiro dia de vida, as crianças são segregadas do berço da natureza, esterilizadas em ambientes virtuais e ali aprendem a competir na guerra da ocupação dos espaços. Em casa, é a cama, o lugar no sofá, na mesa, é o programa de TV ou DVD, é a música preferida. Na escola, é a carteira, a mochila de grife, o tênis, o livro, o caderno, a prova, a nota. Os bichos, as plantas, as flores são seres exóticos. Pertencem ao reino animal ou vegetal, são perigosos, peçonhentos, venenosos, asquerosos. Tudo é exótico. A gente não se mistura com eles.
A pessoa − o homem − é superior a tudo isso. É o que se ensina e é o que se aprende. Não se misturam, com exceção de gatos e cachorros. A maior concessão é levar a criançada ao zoológico, visitar os presos em jaulas e atirar pipocas ou bananas aos chimpanzés. São exterioridades da educação para garantir a soberania das pessoas sobre o mundo das coisas com reflexo sobre o dos seres humanos divididos em classes sociais. Dá-se comida ao macaco enjaulado com a mesma comoção que se dá um pão ao pobre de alguma favela esquecida.
As escolas são fortalezas amuralhadas, estéreis, protegidas contra a maldade humana, a “violência” e o ataque de drogas, sem um pequeno bosque ou jardim para respirar oxigênio e sentir a firmeza das plantas.
As mortes, quase 800, no Estado do Pará, são decididas por inimigos da natureza, desmatadores profissionais das florestas amazônicas. Desprezam a natureza e a utilizam como escrava de seus interesses econômicos, por isso a vida humana do vizinho não tem valor moral. Tudo tem que passar pelo fio do machado, da motosserra e pelo furo da bala.
Quem despreza a natureza, a avacalha com fogo e lixo com a brutalidade do senhor prepotente, não é estimulado a respeitar o próximo. Ele, com seu carro potente, se tem por dono do pedaço.
As escolas e o local de trabalho devem fazer parte do universo natural e integrar-se nele como parte dele. Habitamos um planeta que faz parte de um complexo e pouco conhecido sistema de interdependência regido por leis imutáveis. Viver perto da natureza é uma das condições de compreendê-la para compreender o funcionamento da alma humana. Respeitar a natureza, plantas, flores, pássaros, bichos de toda espécie, proteger as nascentes de água é o caminho mais plano para a convivência das pessoas.
Desde o primeiro dia de vida, as crianças são segregadas do berço da natureza, esterilizadas em ambientes virtuais e ali aprendem a competir na guerra da ocupação dos espaços. Em casa, é a cama, o lugar no sofá, na mesa, é o programa de TV ou DVD, é a música preferida. Na escola, é a carteira, a mochila de grife, o tênis, o livro, o caderno, a prova, a nota. Os bichos, as plantas, as flores são seres exóticos. Pertencem ao reino animal ou vegetal, são perigosos, peçonhentos, venenosos, asquerosos. Tudo é exótico. A gente não se mistura com eles.
A pessoa − o homem − é superior a tudo isso. É o que se ensina e é o que se aprende. Não se misturam, com exceção de gatos e cachorros. A maior concessão é levar a criançada ao zoológico, visitar os presos em jaulas e atirar pipocas ou bananas aos chimpanzés. São exterioridades da educação para garantir a soberania das pessoas sobre o mundo das coisas com reflexo sobre o dos seres humanos divididos em classes sociais. Dá-se comida ao macaco enjaulado com a mesma comoção que se dá um pão ao pobre de alguma favela esquecida.
As escolas são fortalezas amuralhadas, estéreis, protegidas contra a maldade humana, a “violência” e o ataque de drogas, sem um pequeno bosque ou jardim para respirar oxigênio e sentir a firmeza das plantas.
As mortes, quase 800, no Estado do Pará, são decididas por inimigos da natureza, desmatadores profissionais das florestas amazônicas. Desprezam a natureza e a utilizam como escrava de seus interesses econômicos, por isso a vida humana do vizinho não tem valor moral. Tudo tem que passar pelo fio do machado, da motosserra e pelo furo da bala.
Quem despreza a natureza, a avacalha com fogo e lixo com a brutalidade do senhor prepotente, não é estimulado a respeitar o próximo. Ele, com seu carro potente, se tem por dono do pedaço.
As escolas e o local de trabalho devem fazer parte do universo natural e integrar-se nele como parte dele. Habitamos um planeta que faz parte de um complexo e pouco conhecido sistema de interdependência regido por leis imutáveis. Viver perto da natureza é uma das condições de compreendê-la para compreender o funcionamento da alma humana. Respeitar a natureza, plantas, flores, pássaros, bichos de toda espécie, proteger as nascentes de água é o caminho mais plano para a convivência das pessoas.
UM MORTO APENAS
A festa do quadragésimo nono aniversário de Brasília reuniu, segundo cálculos oficiais, 1,3 milhão de participantes. No meio de tanta alegria, estimulada por vários gêneros de música e teatro ao ar livre, o excesso de bebida entre os jovens provocou brigas, esfaqueamentos e uma morte.
Um morto apenas é estatisticamente invisível na multidão. Mas logo aparecem os pais, quatro irmãos, duas dezenas de primos, mais de meia dúzia de tios e tias, quatro avós, com sorte oito bisavós e uma boa porção de tios avós, sem contar os segundos e terceiros primos com as respectivas namoradas. Em pouco, um morto se torna uma multidão.
Levaram o rapaz de 17 anos ao hospital ou pronto-socorro, onde os médicos de plantão e enfermeiras constataram sua morte. O jornalista, ao lado do cinegrafista, diz aos milhões de espectadores que o moço não resistiu aos ferimentos.
O morto obriga a pensar no caixão, no velório, nas flores, no padre, no pastor, no túmulo. A policia já está investigando o caso. Três suspeitos foram presos. A delegacia não tem vagas. O juiz concede hábeas corpus aos executores. Só faltam os coveiros para as últimas diligências do enterro.
Um só morto parece pouco no meio de 1,3 milhão de brasilienses em festa, mas ele arrasta para a cova mais de uma centena de auxiliares que tornam possível o sepultamento. Durante alguns dias, os amigos da escola ou do bar, vão lembrá-lo. Na missa de sétimo dia, as últimas lágrimas. Em casa, o porta-retrato o imortaliza.
Um morto apenas é estatisticamente invisível na multidão. Mas logo aparecem os pais, quatro irmãos, duas dezenas de primos, mais de meia dúzia de tios e tias, quatro avós, com sorte oito bisavós e uma boa porção de tios avós, sem contar os segundos e terceiros primos com as respectivas namoradas. Em pouco, um morto se torna uma multidão.
Levaram o rapaz de 17 anos ao hospital ou pronto-socorro, onde os médicos de plantão e enfermeiras constataram sua morte. O jornalista, ao lado do cinegrafista, diz aos milhões de espectadores que o moço não resistiu aos ferimentos.
O morto obriga a pensar no caixão, no velório, nas flores, no padre, no pastor, no túmulo. A policia já está investigando o caso. Três suspeitos foram presos. A delegacia não tem vagas. O juiz concede hábeas corpus aos executores. Só faltam os coveiros para as últimas diligências do enterro.
Um só morto parece pouco no meio de 1,3 milhão de brasilienses em festa, mas ele arrasta para a cova mais de uma centena de auxiliares que tornam possível o sepultamento. Durante alguns dias, os amigos da escola ou do bar, vão lembrá-lo. Na missa de sétimo dia, as últimas lágrimas. Em casa, o porta-retrato o imortaliza.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
SOCIÓLOGO AMBIENTALISTA
Ouvindo-me falar sobre cuidados com a natureza, proteção de plantas e águas do Cerrado, o jornalista perguntou se eu era biólogo.
Não sou, mas estudo os seres vivos e a variada forma de relacionamentos entre eles. Analiso a influência do verde, da água, dos bichos nos comportamentos das pessoas como indivíduos e como grupos organizados, famílias isoladas no campo, agrupamentos urbanos, pequenas e grandes cidades. Constato a luta das pessoas pelo espaço físico, a reação provocada pelos fenômenos naturais, sua compreensão e o seguimento das leis físicas, a confiança, o temor, o contentamento proporcionado pelo desfrute de uma boa colheita, o desânimo diante dos infortúnios imprevistos e imprevisíveis de uma seca avassaladora ou de inundações periódicas.
Pensei e atuei como sociólogo ao longo de quarenta anos, exercendo atividades profissionais perto das pessoas e das formas de sua organização. Conheci o mundo. Aprendi outros idiomas para ouvir, ler e falar com outras culturas.
Em Galápagos, no meio do Oceano Pacífico, entre lobos marinhos e focas, caimães e fragatas, fui sequestrado pela natureza. Ela me levou além de mim mesmo, me transportou para fora do imediato e mostrou-me um universo sem tempo. Fundiu o passado e o futuro num presente que inicia a cada instante, interminavelmente.
Mudei o paradigma de observação do universo. Saltei dos comportamentos irrequietos das pessoas ao ser imperturbável da natureza. A grandeza da pessoa está na compreensão simples de que ele faz parte do universo e que a paz intelectual nasce do respeito com que pisa o chão.
A cada ser foi dado um espaço a ser ocupado e preservado. O confronto entre o homem e a natureza se produz nas circunstâncias em que, para sobreviver, precisa destruir parte da vida que pulsa a seu redor. Árvores transformam-se em casas ou simplesmente queimam ao ar livre para dar lugar às plantações. Pródiga, a natureza responde à ação do homem e lhe dá, na medida do possível, o alimento que o sustenta. Mas a natureza também se exaure. Os desertos aparecem, entre outras causas, pela ocupação pouco inteligente da terra disponível. O corte indiscriminado dos bosques e a maneira incorreta de produzir alimentos devastam imensas regiões. Desaparecem milhares de espécies, secam nascentes de água e rios.
A harmonia assegurada em Galápagos e a convivência das espécies nesse refúgio do Pacífico constituem lição e exemplo à humanidade. Ocupar o espaço e protegê-lo me pareceu uma verdade substancial tão desprezada pela espécie humana.
Transformar o espaço em ambiente de vida, de trabalho e de paz interior seria, desde então, minha tarefa cotidiana. Para alertar a espécie humana em sua fúria incontrolável de apossar-se das riquezas naturais, devotei-me a conhecer, observar, ouvir e falar com plantas, pássaros e bichos e a preservar nascentes de água, fonte suprema da vida.
A sabedoria natural das plantas e animais se choca com a estupidez, a ignorância e certos interesses do ser humano. Ao me conciliar com a natureza, ganhei, de repente, milhões de amigos: plantas, insetos, pássaros, bichos do mato e algumas pessoas. Os que desrespeitam a natureza são esses poucos amigos pertencentes à espécie humana. Lixo e fogo, entre outros costumes, são atitudes primitivas de desrespeito à inocência da Terra. Os inimigos da natureza são, em consequência, inimigos de si mesmos e meus porque eu sou, como eles, parte dela.
É sempre bom lembrar, como integrantes da espécie humana, que não somos maioria no planeta Terra. Há outros bilhões de seres que têm o direito de ocupá-la. A vida é um bem de todos os seres vivos que nos rodeiam. Somos uma sociedade plural, interdependente. Ninguém é dono de ninguém, sábio grito da liberdade universal.
Não sou, mas estudo os seres vivos e a variada forma de relacionamentos entre eles. Analiso a influência do verde, da água, dos bichos nos comportamentos das pessoas como indivíduos e como grupos organizados, famílias isoladas no campo, agrupamentos urbanos, pequenas e grandes cidades. Constato a luta das pessoas pelo espaço físico, a reação provocada pelos fenômenos naturais, sua compreensão e o seguimento das leis físicas, a confiança, o temor, o contentamento proporcionado pelo desfrute de uma boa colheita, o desânimo diante dos infortúnios imprevistos e imprevisíveis de uma seca avassaladora ou de inundações periódicas.
Pensei e atuei como sociólogo ao longo de quarenta anos, exercendo atividades profissionais perto das pessoas e das formas de sua organização. Conheci o mundo. Aprendi outros idiomas para ouvir, ler e falar com outras culturas.
Em Galápagos, no meio do Oceano Pacífico, entre lobos marinhos e focas, caimães e fragatas, fui sequestrado pela natureza. Ela me levou além de mim mesmo, me transportou para fora do imediato e mostrou-me um universo sem tempo. Fundiu o passado e o futuro num presente que inicia a cada instante, interminavelmente.
Mudei o paradigma de observação do universo. Saltei dos comportamentos irrequietos das pessoas ao ser imperturbável da natureza. A grandeza da pessoa está na compreensão simples de que ele faz parte do universo e que a paz intelectual nasce do respeito com que pisa o chão.
A cada ser foi dado um espaço a ser ocupado e preservado. O confronto entre o homem e a natureza se produz nas circunstâncias em que, para sobreviver, precisa destruir parte da vida que pulsa a seu redor. Árvores transformam-se em casas ou simplesmente queimam ao ar livre para dar lugar às plantações. Pródiga, a natureza responde à ação do homem e lhe dá, na medida do possível, o alimento que o sustenta. Mas a natureza também se exaure. Os desertos aparecem, entre outras causas, pela ocupação pouco inteligente da terra disponível. O corte indiscriminado dos bosques e a maneira incorreta de produzir alimentos devastam imensas regiões. Desaparecem milhares de espécies, secam nascentes de água e rios.
A harmonia assegurada em Galápagos e a convivência das espécies nesse refúgio do Pacífico constituem lição e exemplo à humanidade. Ocupar o espaço e protegê-lo me pareceu uma verdade substancial tão desprezada pela espécie humana.
Transformar o espaço em ambiente de vida, de trabalho e de paz interior seria, desde então, minha tarefa cotidiana. Para alertar a espécie humana em sua fúria incontrolável de apossar-se das riquezas naturais, devotei-me a conhecer, observar, ouvir e falar com plantas, pássaros e bichos e a preservar nascentes de água, fonte suprema da vida.
A sabedoria natural das plantas e animais se choca com a estupidez, a ignorância e certos interesses do ser humano. Ao me conciliar com a natureza, ganhei, de repente, milhões de amigos: plantas, insetos, pássaros, bichos do mato e algumas pessoas. Os que desrespeitam a natureza são esses poucos amigos pertencentes à espécie humana. Lixo e fogo, entre outros costumes, são atitudes primitivas de desrespeito à inocência da Terra. Os inimigos da natureza são, em consequência, inimigos de si mesmos e meus porque eu sou, como eles, parte dela.
É sempre bom lembrar, como integrantes da espécie humana, que não somos maioria no planeta Terra. Há outros bilhões de seres que têm o direito de ocupá-la. A vida é um bem de todos os seres vivos que nos rodeiam. Somos uma sociedade plural, interdependente. Ninguém é dono de ninguém, sábio grito da liberdade universal.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
VERDE, ÁGUA VIRTUAL
Brasília, em quase toda sua extensão de Projeto Piloto, é bem arborizada. Sem medo de ser chato, reafirmo que o inimigo declarado do verde é a obsessão do homem e dos administradores públicos pelo automóvel particular como principal meio de locomoção.
O Departamento de Parques e Jardins e seus auxiliares terceirizados, a par de bons cuidados no plantio de plantas usam, sem muito respeito, motosserras, facões, raçadeiras e foices. Cortar, desgalhar, abater são decisões tomadas com critérios primitivos.
Os encarregados dessas tarefas e, provavelmente, seus chefes não associam o verde à água. Água virtual. Num galho verde ou num tronco de meio-metro cúbico há uma quantidade razoável de água que ajuda a manter a umidade do ambiente. Eliminar árvores para dar espaço aos carros ou amputar parte delas é provocar o secamento do ar, o aumento do calor e o desconforto consequente.
Respirar o oxigênio sob as árvores durante meia-hora ao longo da jornada produz efeitos saudáveis ao organismo como comprovam pesquisas e estudos. (Veja-se o exemplo da pedagoga Gisele Schiavo, Cotia, São Paulo, que construiu uma escola em sua chácara.) O verde tranquiliza as crianças e os professores.
Algumas escolas que visitei no Núcleo Bandeirante (DF) e no Engenho das Lajes (DF) são verdadeiros bunkers cercados de muros e pátios cimentados para o recreio dos alunos. Deve haver, no DF, dezenas de escolas na mesma situação. Grandes edificações de colégios particulares, com estacionamentos para os carros individuais de professores e alunos trocaram as árvores, a água virtual, a umidade e o conforto pelo número de alunos com Ipod e MP4 no ouvido e celular na mão.
O Departamento de Parques e Jardins e seus auxiliares terceirizados, a par de bons cuidados no plantio de plantas usam, sem muito respeito, motosserras, facões, raçadeiras e foices. Cortar, desgalhar, abater são decisões tomadas com critérios primitivos.
Os encarregados dessas tarefas e, provavelmente, seus chefes não associam o verde à água. Água virtual. Num galho verde ou num tronco de meio-metro cúbico há uma quantidade razoável de água que ajuda a manter a umidade do ambiente. Eliminar árvores para dar espaço aos carros ou amputar parte delas é provocar o secamento do ar, o aumento do calor e o desconforto consequente.
Respirar o oxigênio sob as árvores durante meia-hora ao longo da jornada produz efeitos saudáveis ao organismo como comprovam pesquisas e estudos. (Veja-se o exemplo da pedagoga Gisele Schiavo, Cotia, São Paulo, que construiu uma escola em sua chácara.) O verde tranquiliza as crianças e os professores.
Algumas escolas que visitei no Núcleo Bandeirante (DF) e no Engenho das Lajes (DF) são verdadeiros bunkers cercados de muros e pátios cimentados para o recreio dos alunos. Deve haver, no DF, dezenas de escolas na mesma situação. Grandes edificações de colégios particulares, com estacionamentos para os carros individuais de professores e alunos trocaram as árvores, a água virtual, a umidade e o conforto pelo número de alunos com Ipod e MP4 no ouvido e celular na mão.
LIÇÕES DE UM PASSADO RECENTE
Cícero, no ano 55 antes de nossa era deu bons conselhos aos imperadores de Roma.
O orçamento deve se equilibrar,
O Tesouro deve ser reabastecido,
A dívida pública deve ser diminuída,
A arrogância dos funcionários públicos
Deve ser moderada e controlada
E a ajuda a outros países deve se eliminar
Para que Roma não vá à bancarrota.
A gente deve reaprender a trabalhar
Em lugar de viver à custa do Estado.
O orçamento deve se equilibrar,
O Tesouro deve ser reabastecido,
A dívida pública deve ser diminuída,
A arrogância dos funcionários públicos
Deve ser moderada e controlada
E a ajuda a outros países deve se eliminar
Para que Roma não vá à bancarrota.
A gente deve reaprender a trabalhar
Em lugar de viver à custa do Estado.
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