sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

INUNDAÇÕES

Em Santa Catarina, a massa de água das chuvas moveu montanhas, derreteu o solo e arrastou árvores e terra sobre o Vale do Rio Itajaí, arrasando casas, levando pontes e soterrando mais de uma centena de pessoas.
É sempre tempo para aprender as lições físicas da natureza. Há milhões de anos, os lampejos da inteligência do homem indicavam as cavernas como refúgio seguro para fugir de animais famintos e abrigar-se da chuva, dos ventos e dos raios.
Afoito, ousado, nosso antepassado ganhou algumas batalhas, medindo forças com os ventos e tempestades. Usou os elementos da Terra para sobreviver sobre ela. Pedras grossas contra ventos fortes. Madeiras resistentes contra as chuvas torrenciais. Diques e canais para proteger suas plantações. Usava os benefícios da lei física para defender-se da explosão espontânea de seu funcionamento. Compreendeu que elas funcionam de maneira categórica e indiscutível dentro de seu sistema. Prevenido, à medida que distinguia as estações do ano e as surpresas que as caracterizam, buscou no alto um lugar para construir sua casa.
A Torre de Babel é uma parábola que lembra a aventura, a ousadia, a ambição e a afoiteza da inteligência do homem na tentativa de dominar a natureza e controlar as leis físicas.
A inteligência do homem evolui. É tempo de compreender e aceitar uma nova realidade tão antiga quanto o universo. Fazemos parte dele como os ventos, a luz, a chuva, os raios, as plantas, os animais. Podemos usar das riquezas que nosso planeta nos oferece. Mas há um preço a pagar quando não sabemos o que fazer com elas.
Nossa imprudência, nossas certezas, nosso modo de ocupar os espaços necessários à vida, nossa avidez e necessidades naturais ou provocadas podem custar caro. A vida é o maior custo.
As leis físicas são as forças superiores reais. Elas não conhecem nossos mitos, nossas crenças, nossa fé no poder da técnica. Técnica e prudência. Menos técnica e mais prudência podem diminuir os perigos de perder a vida e a dos que amamos.
Choramos por todos que pereceram: pessoas, árvores, animais. É uma oportunidade a mais que a natureza nos dá para aprender.

07/12/2008

ESTATÍSTICA E O DESCONHECIDO

O desconhecido é desagregado em termos quantitativos com os quais se arma uma equação da qual resulta o conhecido
Dizem-nos que neste ano morrerão 100 mil mulheres, vitimadas pelo câncer de mama, 4,7% a mais do que no ano passado. Nada se pode fazer. A estatística determinou. Ela pensou por nós e nós aceitamos e nos dobramos à força dessa profecia.
No ano que vem, todos os cálculos estatísticos manipulados pelos especialistas profetizarão o crescimento do PIB em 4,8% ou qualquer outro número. Pode-se aplaudir de antemão os êxitos do futuro e comemorar com um almoço de confraternização antecipado.
Não interessa, no momento, o que isso significa nem nos é dado penetrar nesse mistério. Esse mito estatístico alimenta o pensamento do economista e dos analistas que só aparecem depois do leite derramado para explicar a fragilidade do vidro.
O ritual do mito é a repetição sucessiva. Ela confere valor aos atos, às expectativas, à consolidação da credulidade. Não importa que o resultado não seja o anunciado. A fé no percentual equivale à da pessoa que suplica o milagre. Se não o obtiver, as razões são extraídas de um poder superior que sabe o que é bom e o que não é para o crédulo.
Os jornalistas e economistas são sacerdotes do novo mito estatístico. Eles falam do desconhecido e nós acreditamos ou fingimos crer que eles o conhecem. Conhecemos assim o desconhecido por antecipação. Ele nos é revelado pela força da matemática e aceitamos que os fatos se produzem fatalmente.
Os fatos exteriores nos embalam e vamos com eles. Acha-se natural que as ruas de Brasília se entupam com milhares de carros. Outros milhares virão anunciados por um percentual. E virão. Os mortos e atropelados pelos condutores de carros se transformam ou se encarnam num percentual que ainda não aconteceu, mas vai acontecer.
Sabemos, por antecipação, que em futuro imediato as nascentes dos rios secarão para deixar lugar à construção de milhares de casas. Que as avenidas e viadutos destruirão a harmonia da natureza do cerrado. Que as árvores serão sacrificadas e recortadas para a circulação de máquinas que emitem veneno e causam doenças à população. Nada a fazer. O desconhecido foi anunciado e existe logo ali na frente.
A estatística existe e o percentual é sua voz profética.

COMPRAR, COMPRAR

Uma economia se constrói com poupança e não com cartão de crédito e endividamento sistemático.
Estimular a compra compulsiva comprova uma aliança indecente com o desperdício, com o lucro dos bancos e das mega empresas, com a exploração do vazio humano e da irracionalidade. Comprar para salvar a economia, para garantir altos índices estatísticos e de aprovação popular é um crime contra o bom senso.
O Presidente da República aposta todas as fichas no espetáculo do crescimento para se redimir de seu passado de esquerda e da vergonha de ter sido oposição ao que hoje faz. Entrega-se de alma e corpo à obsessão de ser o único infenso e ileso de todas as falcatruas da vizinhança do poder.
Está convencido de que, para dar comida aos milhões de pobres do país, é necessário estimular os ricos a ganhar mais dinheiro. Estratégia que, segundo suas declarações, terá dois resultados imediatos: - aumenta-se o número de empregos cujo salário vai para o consumo compulsivo; − recolhem-se mais impostos para engordar as receitas e continuar a festa do gasto público ineficiente. Mas é festa. Toda festa supõe um gasto ineficiente. Consome-se, fala-se, ri-se, alegram-se os convivas, ficam os copos vazios e os pratos limpos. A cobertura do bolo para o encerramento da festa é feita com números estatísticos dogmáticos, indiscutíveis, conclusivos.
Ninguém ousa opor-se a eles, pois têm valor e força do mito. Pertencem à religião do consumo, do prazer de possuir e usufruir. Pouco se diz sobre o objetivo último e a conseqüência nefasta do investimento que supostamente gera crescimento. Nenhuma empresa é instituída para criar postos de trabalho. O empresário investe para ter o máximo de lucro possível segundo as circunstancias e facilidades que encontra ou exige. Incluem-se favores fiscais, perdão de dívidas, créditos fáceis, sonegação de impostos.
O primeiro corte de gastos, em circunstancias econômicas ou políticas adversas, é no departamento de pessoal. Ter mais empregados significa diminuir os lucros. Produzir mais com menos trabalhadores, eis a questão.
A ordem do Presidente de comprar, comprar para salvar a economia e estufar o crescimento é um contra-senso. Pretende-se evitar o desemprego pela via do consumo a qualquer preço. Não é demais repetir que a economia doméstica ou a nacional se fortalecem com poupança e não com gastança. A obsessão do crescimento desconsidera a fonte de todas as riquezas: os bens na natureza. As grandes populações, como a brasileira, demandam intensa exploração das riquezas naturais desde a água até o minério de ferro. O Distrito Federal é uma das vítimas dessa ânsia de ocupar os espaços das árvores, das nascentes e dos animais.
População e natureza são dois componentes que escapam ao raciocínio da economia atual e de cujas conseqüências a crise mundial está alertando. Um paradigma econômico diferente há de nascer. Não é possível que um país novo como o Brasil se deixe arrastar pelos equívocos ambientais da Europa do século XIX ou da China atual. Menos consumo e mais poupança. Racionalidade no uso das riquezas naturais, aproximação dos governos e da população ao convívio mais intenso com as possibilidades e oportunidades simples e duradouras – também ditas sustentáveis − serão decisões que o tempo e as crises nos obrigarão a tomar.
O mundo já é pequeno para tanta gente. A ordem de consumir, comprar, endividar-se revela desprezo pela natureza, ignorância ou má fé.
Presidente Lula, pare de mandar o povo gastar.

FALÊNCIA MÚLTIPLA

O planeta rola sem parar pelo espaço. Os anos passam, as estações mudam, os dias voam levando as horas de roldão. Marcam-se fatos, anotam-se repetições, examinam-se causas, tiram-se conclusões.
Sabe-se com relativa certeza, se não matemática, que alguns fenômenos da natureza vão se repetir. Pode-se prever quando, como, onde e até com qual intensidade.
Mas, na prática, esses conhecimentos não tornam as pessoas mais prudentes e mais conscientes. Os fenômenos naturais são conhecidos. Com esse conhecimento os cientistas não só os descrevem como avançam previsões de comportamento de leis físicas ligadas ao movimento dos astros, direção dos ventos, períodos de chuvas e secas.
Riscos e desastres têm ocorrido anualmente com intensidade crescente e em locais identificados. Há regiões que são naturalmente afetadas por ventos e chuvas intensas.
As pessoas, pela experiência acumulada de milhões de anos, desde o Dilúvio, não deveriam ocupar certas áreas. Os agrupamentos urbanos, coletivamente, esqueceram ou desprezaram essas singelas noções de segurança e proteção. Os indígenas, observadores da natuteza, constroem suas tabas em locais seguros, longe de inundações e protegidas do vento por cortinas de mato a seu redor.
A organização do Estado que, se presume, detém todas essas informações e pode usar todos os conhecimentos disponíveis em benefício dos cidadãos, está falhando escandalosamente. Há leis e organismos para controlar, orientar, fiscalizar, coibir e sancionar a multiplicidade dos atos do cidadão. As decisões pessoais, com raríssimas exceções, têm que se ajustar e obedecer a alguma lei aprovada e obter a autorização de algum órgão publico para conviver na comunidade.
Observe-se o funcionamento da saúde pública, da segurança, da educação, do trânsito urbano e viário, do comércio, da limpeza da cidade, da ocupação do solo, da proteção ambiental. Os comportamentos do cidadão afrontam a inteligência e desprezam os conhecimentos acumulados. É uma luta permanente para contornar as leis e adaptá-las ao individual contra o coletivo e a racionalidade.
Na hora do desastre, seja a inundação de uma cidade, seja o engarrafamento das ruas por milhares de carros individuais apela-se para o coletivo e para a solidariedade. Nesse momento, a sociedade civil tem peso maior que o do Estado. É o resultado da falência múltipla dos órgãos vitais do Estado, das comunidades, da organização social, dos cidadãos.
Diante da falência múltipla os remédios são impotentes, os conhecimentos, inúteis. O doente sobrevive e respira por aparelhos. A máquina substitui a alma.
A história da humanidade registra cemitérios que guardam escombros de civilizações que nos precederam.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

ÁGUAS TOTAIS

A água é um bem pessoal e deve ser olhada e respeitada como parte da vida de cada um. A gota de suor tem que ser reposta com uma gota de água. Uma garrafa, um plástico, um toco de cigarro, um escarro, o lixo da casa jogados no chão são ataques à própria vida individual. Somam-se à poluição que produzimos com o uso abusivo do carro particular, com as queimadas que destroem as florestas.

A água constitui uma das características que diferenciam nosso planeta de outros. Nenhum tipo de vida é possível sem água.
Duas concepções opostas conflitam-se. De um lado, os que consideram a água um bem econômico a ser vendido e comprado com objetivo de lucro. De outro, os que acreditam que a água é um bem a ser preservado para estar disponível às pessoas e à natureza.
Grandes empresas que engarrafam águas vêm secando os aqüíferos locais, poluindo o meio ambiente e cobrando milhares de vezes mais do que se fosse colhida das bicas ou fontes públicas.
Respostas para preservar a água: reaproveitamento das águas; agricultura sustentável em vez de agricultura industrial; reforma maciça nas infra-estruturas; preservação e recuperação de sistemas hídricos destruídos; leis severas contra a poluição; limitação do crescimento industrial; tecnologias adequadas a cada lugar; fim das grandes represas; limitação rigorosa de exploração dos aqüíferos; controle demográfico mais eficaz..
Em 2004, a Turquia e Israel se preparavam para assinar um acordo singular. Israel forneceria armas à Turquia em troca de água doce transportada em navios-tanque. 50 milhões de metros cúbicos por ano em troca de tanques de guerra israelenses.
A falta de água torna a vida impossível em vários locais do mundo e provoca migração de populações inteiras.
Cada dia mais pessoas precisam de água e a necessidade cresce com o aumento do padrão de vida. Recebem água limpa e a devolvem suja. A indústria que era a pior poluidora melhorou em diversos países. Mas a agricultura não melhorou. Grande parte do esgoto das cidades vai para os cursos de água ou lagos.
Um metro cúbico de água contaminada deteriora mais de 10 metros cúbicos de água pura. Nosso hábito de nos desfazer de refugos desperdiça o equivalente a duas vezes a vazão anual do rio Amazonas.
Pessoas de diversos continentes estão condenadas à água suja para suas necessidades diárias de limpar, cozinhar e beber. As doenças disseminadas pelas águas provocam entre 5 e 10 milhões de mortes no mundo por ano, segundo relatório das Nações Unidas.
O maior volume de água consumido vai para a agricultura. Foi por causa da irrigação que o mar de Aral, na Ásia Central, morreu. Do Distrito Federal dezenas de córregos e centenas de nascentes secaram pela descontrolada ocupação de áreas de preservação de mananciais e pela agricultura extensiva.
Na Ásia Ocidental, nações brigam pelas águas dos rios Yamak, Eufrates e Tigre. México e Estados Unidos discutem sobre os rios Colorado e Grande. O Egito, a Etiópia e o Sudão querem mais água do Nilo.
Fabricantes de refrigerantes e aviários em escala industrial roubam fontes de água de fazendeiros e agricultores. É comum dar uma resposta fácil ao sistema de distribuição da água: deixar o mercado resolver. As multinacionais se ofereceram de bom grado a retirar dos governos a aborrecida tarefa de administrar a riqueza hídrica de seus países. Se o acesso à água é um direito proclamado pela ONU, em 1977, ele não será, necessariamente, atendido pelas leis do mercado.
O futuro terá mais a ver com a captação de água em pequena escala, irrigação por gotejamento, técnicas inteligentes de preservação de nascentes e uso moderado. Ninguém deseja apenas consumir água. O que se quer é produzir alimentos, fabricar bens dos quais as pessoas precisam para viver confortavelmente.
Peter Glick, engenheiro norte-americano, pioneiro de tecnologias leves, diz:
“O caminho leve para as águas se esforça em melhorar a produtividade do uso da água em vez de buscar permanentemente fontes para novos suprimentos.”
O abastecimento de água está piorando, não melhorando. E continuará a piorar até que alguma atitude efetiva de amplitude mundial seja tomada.
Por volta de 2050, estima-se que 4 bilhões de pessoas estarão vivendo em países com carência crônica de água. A falta de água é a principal barreira ao desenvolvimento, motivo importante para que os pobres do mundo continuem pobres.
Mais de dois terços do consumo de água são utilizados em lavouras e para animais e a maior parte é usada para irrigação em regiões áridas ou semi-áridas. A indústria é o segundo maior usuário. Em poucos países a indústria usa mais água do que a agricultura, como Estados Unidos, Alemanha e Holanda, grandes responsáveis pela poluição ambiental.
A maior parte de nossas águas vem de aqüíferos, imensas reservas subterrâneas. Mas os aqüíferos se renovam com grande lentidão, através das águas da chuva. Extraímos deles quantidades muito maiores do que o volume da renovação natural. O nível dos lençóis freáticos vai baixando e os poços vêm secando. Preservar os aqüíferos é um ato de bom senso. No afã de dominar a natureza o homem interrompe o curso natural da água que é o de abastecer, rios, lagos e zonas úmidas do planeta. Embora a água subterrânea seja um recurso-chave em muitos países, está sendo usada mais depressa do que consegue se recompor.
O segredo de nossa sobrevivência é que parte da água que evapora dos oceanos cai na terra, alimenta rios, molha o solo e refaz os aqüíferos.


VAI FALTAR ÁGUA
O planeta dispõe sempre de 1,386 bilhão de km3 de água, aproximadamente. 97,5% dessa água é salgada.
Dos 2,5% de água doce, mais de dois terços estão indisponíveis ao ser humano. Estão nas geleiras, neves, gelos, e subsolos congelados. As águas de superfície – rios, lagos, zonas úmidas, no solo, na umidade do ar, em plantas e animais − constituem um volume minúsculo. O restante está armazenado em aqüíferos, águas profundas.
MAIS GENTE, MENOS ÁGUA
Mais de um terço da população mundial não dispõe de água, e a situação está se agravando.
DEMANDA CRESCENTE
Todos os anos, mais água doce é consumida na agricultura, na indústria, nas casas.
ROUBO AO BANCO
Mais de um quarto dos habitantes da Terra depende das águas subterrâneas para obter água potável, mas a reposição das reservas está sendo menos rápida do que seu consumo.
ÁGUA EM CASA
Apenas 10% de toda água consumida é para uso doméstico; mas essa quantidade varia muito entre os países.
ÁGUA PARA ALIMENTOS
Quase 70% de toda água doce consumida vai para a agricultura. Mesmo assim, milhões de pessoas continuam desnutridas.
IRRIGAÇÃO
As terras irrigadas costumam ser mais produtivas do que as não irrigadas, mas a irrigação malfeita pode resultar em solo encharcado ou estéril.
POLUIÇÃO AGRÍCOLA
A agricultura em escala industrial e o uso de produtos químicos para aumentar a produção estão aumentando os problemas para os suprimentos mundiais de água.
ÁGUA PARA A INDÚSTRIA
Os países com industrialização recente precisarão de uma quantidade maior de água nos próximos 25 anos – e, sem o controle adequado, poluirão ainda mais suas fontes hídricas.

POLUIÇÃO INDUSTRIAL
Como os poluentes industriais pioram a qualidade da água no mundo todo, seus efeitos de longo prazo no meio ambiente e nos aqüíferos estão ficando cada vez mais evidentes.
ÁGUA PARA ENERGIA
A energia hidrelétrica, a mais importante fonte mundial de energia renovável, produz aproximadamente um quinto de eletricidade do planeta.
AS REPRESAS
No mundo todo, cerca de 45 mil grandes represas, ou barragens e açudes, afetam seis de cada dez rios importantes, o que já obrigou quase 80 milhões de pessoas a se mudarem.
ÁGUA E SAÚDE – ACESSO À ÁGUA
Mais de um bilhão de pessoas ainda não têm acesso fácil a uma fonte confiável de água.
SANEAMENTO
Um bom saneamento, fundamental na luta contra doenças, é o ponto de partida para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
ÁGUA SUJA MATA
Água suja é responsável por 1,7 milhão de mortes a cada ano. 90% são crianças, isto é, 4.200 por dia.
A água continua sendo um meio em que se desenvolvem as doenças mais mortíferas do mundo: malária, dengue hemorrágica, filaria linfática (elefantíase), esquistossomose, vírus do Nilo.
CONTAMINAÇÃO TRAIÇOEIRA
Quantidades microscópicas de produtos químicos (arsênico) na água potável podem se depositar no organismo e produzir efeitos devastadores na saúde.

REPENSAR A NATUREZA
DESVIO DE RIOS
Apenas alguns rios mais importantes do mundo correm livremente. A maioria foi aproveitada para fornecer energia e irrigação. Há os que estão sendo desviados de seu curso natural, ao longo de centenas de quilômetros, com sérios prejuízos para os seres humanos e o meio ambiente.
DRENAGEM
As zonas úmidas ajudam a manter saudáveis os recursos de água doce. No entanto, muitas vezes são consideradas como terras improdutivas que podem ser drenadas e aterradas para o assentamento de mais gente.
EXPLORAÇÃO DE AQÜÍFEROS
Os aqüíferos do mundo todo estão sendo explorados por sua preciosa riqueza. Apesar de imensos não são inesgotáveis, e há muitos anos o nível de suas águas vem baixando rapidamente.

EXPANSÃO DAS CIDADES
O rápido crescimento das cidades vem forçando cada vez mais a exploração dos recursos hídricos, já em seu limite máximo de consumo.
MEDIDAS DESESPERADAS
Às vezes, a transformação de água salgada em água doce ou o transporte de água doce até onde ela é necessária constituem as únicas opções para quem vive em locais com escassez desse recurso.
INUNDAÇÕES
A cada ano, as inundações acabam com milhares de vidas e prejudicam o dia-a-dia de outros milhões. Elas estão se tornando mais freqüentes.
SECAS
A vida e o sustento de 1 bilhão de pessoas – um sexto da população mundial − estão ameaçados pelas secas e pela desertificação. E as mudanças climáticas vêm piorando a situação.
CONFLITOS E NECESSIDADE DE COOPERAÇÃO.
O uso conjunto de reservas hídricas exige interação entre os paises interessados. Em alguns casos, a água consolida amizades, em outros, aumenta as divergências.
PONTOS DE PRESSÃO
A escassez de recursos hídricos está aumentando as tensões políticas entre paises e dentro deles, e entre as comunidades e os interesses comerciais. Israel e Palestina: 350 litros por pessoa/dia contra 71, respectivamente.
ARMA DE GUERRA
A destruição deliberada de represas e aquedutos, além da contaminação de água potável, são métodos utilizados tanto por governos como por terroristas contra os militares e a população civil. (Oregon, Arizona, nos EEUU; Colômbia, Angola, Nepal, Afeganistão....)

FUTURO
O COMÉRCIO DAS ÁGUAS
A água é um recurso natural básico, mas consegui-la para quem precisa dela é um problema para os governos. Contudo, para os empreendimentos comerciais, trata-se de uma oportunidade de negócio lucrativo.
PRESERVAÇÃO DO ESTOQUE
A água doce é um recurso cada vez mais escasso e valioso. Deveria ser usado da maneira mais eficiente possível. As pequenas águas vão acabando, Restam as grandes represas. As águas estão longe e cada vez mais caras.


PRIORIDADES
Os recursos hídricos têm de ser administrados de modo integrado, atendendo às necessidades sociais, econômicas e de saúde das pessoas, além de suprir o meio ambiente.
VISÃO DO FUTURO
O futuro das águas do mundo está na berlinda. Os possíveis cenários variam e dependem de políticas e ações locais, nacionais e internacionais. O melhor cenário é o que privilegia a produção de alimentos com uso racional da água, reduzindo o uso industrial e doméstico. Essa economia produz maior evaporação e melhora a renovação dos aqüíferos, com reflexos positivos sobre a natureza.

NO BRASIL
O Brasil possui entre 12% e 16% da água do planeta Terra, mas sua distribuição não é homogênea e está ameaçada por fatores socioeconômicos diversos. Mais da metade dos esgotos e águas contaminadas corre diretamente para os rios e lagos.
Área total: 8.574.761 km2
População: 190.000.000 hab
Vazão média: 182.633 m3/s
Note-se que a vazão é constante, enquanto a população cresce e as necessidades de água aumentam.


Eugênio Giovenardi
02/12/2008
Fonte: Atlas da Água, PUBLIFOLHA

sábado, 29 de novembro de 2008

SÓ RINDO

Chega de choro. Houve tempo em que se dizia “quem não chora, não mama”. Pensava-se que a choradeira era um dos bons caminhos para se conseguir a atenção do governo para as dificuldades dos que estavam mais longe do poder.
− Com o tempo, me disse Pedro de Montemor, cansei de chorar. Pus-me a rir. Rir de tudo, especialmente das piadas diárias que ouço pelo rádio e pela TV. Piadas sérias, ditas por celebridades financeiras, senadores, deputados e pela mais alta autoridade do país.
Montemor tem razão. É saudável rir e gargalhar. Quando ouço o ministro da fazenda, vestido a caráter, de olhar turvo, vaticinando o futuro de nossa economia robusta, tenho crises de riso.
Quando os comentaristas econômicos da Globo News afirmam que a bolha imobiliária já vinha de 2007 e estava na cara que ia explodir, só não sabiam onde e quando, morro de rir.
Quando leio que os deputados distritais do DF cortaram gastos de cafezinho para melhorar a segurança dos brasilienses, estalo numa sonora gargalhada. E, quando votaram um aumento da verba de gabinete, manchei a folha do jornal com uma cusparada que saiu com risada mefistofélica.
Quando ouvi o senhor Lula recomendar à população mais pobre que se endivide para comprar geladeiras, televisores e computadores para socorrer as indústrias, tive um acesso de riso incontido e quase perdi o fôlego. E ao anunciar mais alguns bilhões de reais na conta das montadoras e agências de automóveis para facilitar o financiamento do sonho do brasileiro não controlei os esfíncteres.
Quando li a notícia da concessão de milhares de hectares na Amazônia a interessados comprometidos com o meio ambiente para deter o desmatamento e reduzi-lo a zero, fui vítima de um ataque de incontinência urinária provocada pela explosão da gargalhada.
Onde, antes, encontrava motivos para me indignar, chorar e denunciar, agora me assalta incontrolável obrigação de rir.
Poderá alguém não chorar de tanto rir quando os governadores de Brasília afirmam que vão tornar inteligente o sistema de transporte, abrindo retornos, levantando viadutos, duplicando e triplicando avenidas?
Poderá alguém deixar de rir quando propõem levantar muretas ao longo os eixos para impedir que os pedestres não sejam massacrados pela fúria insana dos condutores?
Poderá um brasiliense conter a ironia do riso quando os administradores de Brasília prometem – de novo - humanizar as passagens subterrâneas que ligam as quadras 200 com as 100?
Telefonei a Pedro de Montemor para lhe contar que a área do Setor Noroeste será reservada para moradias da nova classe média e que a juíza Gildete Balieiro acusou os indígenas Fulniô, Kariri Xocó, Tapuaya e Tuxá de serem invasores de terras públicas.
Respondeu-me com uma retumbante gargalhada cujas ondas sonoras se prolongaram por alguns minutos.
− É para rir, meu caro amigo. A vocação de palhaço é para provocar um saudável riso.
Lembrei-me de uma saudação corrente na velha Roma, quando os adivinhos se encontravam após abrir as entranhas das aves para ler o futuro dos crédulos imbecis: Risum teneatis amici? − Vocês conseguem segurar o riso, amigos?
Eugênio Giovenardi
28/11/2008

terça-feira, 25 de novembro de 2008

CONSUMIR É VIVER

Telefonei a Pedro de Montemor. Ele publicou uma crônica sobre a obrigação civil de consumir. A desobediência será penalizada com um imposto do não-consumo.
A economia de qualquer país está condicionada, segundo as regras do capitalismo, ao intenso consumo de bens para estimular a produção agrícola e industrial.
Está implícito que o consumidor tem que arcar com o preço final da chamada cadeia produtiva para que se complete o circuito e o bem possa retornar ao mercado da esquina. É uma verdadeira cadeia com grades de proteção inabaláveis.
Há bens e bens. Os de sobrevivência são, de longe, os mais acessíveis e, muitos deles, podem ser colhidos gratuitamente em árvores, caçados nas florestas ou pescados nas águas. Parte dos bens de subsistência vem da agricultura tradicional e, a mais dispendiosa, da agricultura comercial.
Os bens de conforto ou supérfluos não absoluta, mas relativamente úteis ou até necessários, que facilitam a existência das pessoas, são os que, hoje, dominam a economia. Têm tal importância que os governos lhe dão prioridade sobre a educação e a saúde. A produção de automóveis é uma dessas que exigem todo o cuidado. Montadoras e bancos não podem falir. É um dos dogmas do moderno capitalismo.
Comentei com Montemor as declarações de Barack Obama e do senhor Lula. Ambos os presidentes não só estão preocupados com o futuro e o presente da indústria de automóveis, como se tornaram marqueteiros do setor. O senhor Lula incentivou o consumo desse bem com palavras paternais e uma expressão de advertência no rosto vermelho:
− Comprem, comprem, continuem comprando, se vocês pararem de comprar a indústria não produz e aí, sabe, vem o desemprego e, sem salário, ninguém mais compra.
− Lula tem pena dos industriais, disse Montemor, e apela para a solidariedade dos consumidores. Mas a maioria destes vai atrás de preços mais baixos da geladeira e do carro, numa atitude discriminatória.
− Eu fico triste com isso, respondi, Penso na alta tecnologia empregada na Ferrari, na Mac Laren e outras. O governo deveria estimular a compra dessas marcas com créditos especiais, favorecendo a nova classe média recém-tirada da letra D pelo IBGE.
− Seriam milhares de Ferrari e BMW pilotadas pelas amplas avenidas de Brasília por garis, diaristas, caixas de supermercados. Isso levaria os governantes a asfaltar as ruas de Santa Maria, Itapoã e Paranoá para receber esses novos hóspedes da cidade.
Os metalúrgicos dessas empresas, os pilotos da F1 e toda a escuderia que os pajeiam na hora da troca de pneus teriam garantidos seus empregos para alegria dos investidores.
Com uma indústria florescente de automóveis de primeira linha tecnológica, belos e velozes, faltaria ao senhor Lula, num rompante de improvisação, ordenar ao ministro da fazenda e ao da saúde que acabem com as filas dos hospitais. Os pacientes voltariam o quanto antes às agências de automóveis, aos supermercados e lojas de grife e, com créditos fartos disponíveis nos bancos, exerceriam sua liberdade e direito de consumir. Consumir e viver.
25/11/2008