NÓS E ELES – SOMOS
CONTEMPORÂNEOS INTEMPORAIS
Tópico
de meu próximo livro, previsto para junho, 28.
Toda vez que se fala de
crise climática, a conversa gira em torno de números alarmantes, seguidos de um
percentual. Milhares de hectares ou quilômetros desmatados e queimados, toneladas
de carbono, tantos graus de aquecimento, local e global, cidades arrasadas,
mortes prematuras. Propõem-se metas numéricas de emissões de carbono. Enumeram-se
as fontes renováveis de energia. Tudo isso é dito e escrito para os sapiens
que leem e ouvem as ameaças e resultados dos incontroláveis fenômenos físicos –
tempestades, raios, tornados, furacões ou guerras fratricidas – como se afetassem
exclusivamente a espécie humana.
As informações e os
riscos são reais e diariamente relatados. A quem esses dados preocupantes são
dirigidos e sobre quem desabam os efeitos desses fenômenos físicos? Telhados
voam. Casas, estradas, pontes, cidades destruídas, árvores centenárias
arrancadas, sistemas elétricos interrompidos, aeroportos fechados e muitas
mortes humanas lamentadas, entre os 8,5 bilhões de habitantes nos quatro cantos
do planeta. Mas há outras mortes soterradas
por esses fenômenos que ficam sem menção. Os esquecidos dos terremotos,
maremotos, incêndios naturais, ou provocados pelas guerras entre humanos, são
milhares de vidas não humanas eliminadas da biodiversidade. Poucos perguntam: ¨e
os não humanos, animais e vegetais? Como são lembrados eles nos destroços de um
furacão? Para que ou a quem servem os humanos? Para que ou a quem servem os não
humanos? ¨
A teia da vida engloba
todos os seres vivos. A biodiversidade é o mais fascinante milagre da natureza
e constitui a mais preciosa riqueza do planeta. Na tragédia ecológica recente,
no RGS, dezenas de aviários e pocilgas, além de currais foram levados pelo
vento e pelas águas das inundações e com eles milhares de vidas domesticadas. Mas
nada se mencionou sobre milhares ou milhões de animais terrestres desprevenidos
que vivem em sistemas de produção de alimentos nas áreas atingidas, no centro desses
setores que mais emitem gases de efeito estufa e em áreas densamente
urbanizadas. Os dados são da Food and Agriculture Organization
(FAO) da ONU, 2025. E quase nenhuma política climática considera o
bem-estar desses bilhões de seres que compõem a biodiversidade global.
Todo mundo sabe que a
pecuária industrial é uma grande fonte de emissões. No Brasil, ¾ (três
quartos) de todas as emissões vêm do sistema alimentar. Governos criam
acordos. Empresas anunciam metas. Mas os animais são tratados como
números. Como "unidades emissoras". Como parte de uma equação de
carbono, não como seres vivos.
Poucos ainda perguntam:
"Em que condições esses entes vegetais ou animais vivem? A escala atual do
uso do solo, para produzir alimentos ou cobri-lo com o manto impermeável da
urbanização, será compatível com o planeta que se pretende salvar?¨ Enquanto
essas perguntas não forem respondidas, o sistema segue inalterado. O
aparecimento de vírus e bactérias parece indicar o desequilíbrio das interações
e interdependências no conjunto das manifestações de sobrevivência e reprodução
da complexa biodiversidade. O equilíbrio ou desequilíbrio das interações entre
os seres da biodiversidade têm a ver com o uso inadequado do solo para produção
de alimentos, do subsolo para exploração de minerais, da urbanização intensa e
desertificadora que altera cursos de água e expulsa populações nativas dos
ecossistemas milenares. Em consequência, afetam-se a direção dos ventos e a
qualidade do ar. Desequilibram-se as temperaturas e os fenômenos físicos incontroláveis
se produzem com mais irregularidade e intensidade.
Produzir e consumir, a
relação entre esses dois atos se dá entre a procura instintiva e impulsiva do
ser vivo para sobreviver e se reproduzir. A oferta disponível e gratuita da
natureza se apresenta em diversificadas formas para humanos e não humanos. A
oferta de bens produzidos por técnicas e tecnologias originadas da ação
inventiva da espécie sapiente é também compartilhada por humanos e não humanos.
Captura ou coleta
constituem a primeira relação natural de subsistência. A segunda é induzida pela
oferta artificialmente criada, não gratuita, para satisfazer desejos provocados,
aliados culturalmente às necessidades de sobrevivência. A oferta produzida pela
intervenção humana está relacionada com a substituição de vegetação nativa por
espécies modificadas, desflorestação, uso intensivo de água, criação e abate de
animais domesticados. As vítimas da oferta de proteínas de origem animal ou
vegetal são milhares de espécies arbóreas, lenhosas e gramíneas protetoras do
solo ou milhões de espécies animais, ocultas ou desconhecidas e as destinadas
ao abate.
A relação produção/consumo,
especificamente de seres humanos, tende a se intensificar com o aumento
regional ou global da população humana, hábitos e costumes culturais dos diferentes
povos e das condições climáticas variantes do planeta Terra. O consumo direto
de alimentos per capita, calculado em um kg diário, em 1970, era de 3.7 bilhões
de quilos/dia. Aplicando o mesmo critério, o consumo de alimentos, em 2026, é
de 8,5 bilhões de quilogramas/dia.
Segundo informações da FAO
(Food and Arigricultural Organization) estima-se uma população de seres consumidores
não humanos em mais de 80 bilhões que se alimentam da diversificada oferta disponível
da natureza. Ao grito do diretor da ONU, Antonio Guterres, decretando a
¨falência hídrica do planeta¨, há que se temer a não menos verdadeira ¨falência
do solo e do subsolo¨, agressiva e intensamente utilizados pelos processos de exploração
agrícola e mineral e da urbanização devastadora para sustentar a espécie sapiens
em detrimento da biodiversidade.
Os que herdarão os débitos
e pagarão as dívidas geradas por nosso uso imprudente da riqueza natural
do planeta ainda não nasceram.
Nenhum comentário:
Postar um comentário