sexta-feira, 20 de março de 2026

NÓS E ELES – SOMOS CONTEMPORÂNEOS INTEMPORAIS

 

NÓS E ELES – SOMOS CONTEMPORÂNEOS INTEMPORAIS

                       Tópico de meu próximo livro, previsto para junho, 28.

 Nós, humanos, 8,5 bilhões, eles, não humanos, 80 bilhões, todos consumimos bens gratuitos do planeta Terra.

Toda vez que se fala de crise climática, a conversa gira em torno de números alarmantes, seguidos de um percentual. Milhares de hectares ou quilômetros desmatados e queimados, toneladas de carbono, tantos graus de aquecimento, local e global, cidades arrasadas, mortes prematuras. Propõem-se metas numéricas de emissões de carbono. Enumeram-se as fontes renováveis de energia. Tudo isso é dito e escrito para os sapiens que leem e ouvem as ameaças e resultados dos incontroláveis fenômenos físicos – tempestades, raios, tornados, furacões ou guerras fratricidas – como se afetassem exclusivamente a espécie humana.

As informações e os riscos são reais e diariamente relatados. A quem esses dados preocupantes são dirigidos e sobre quem desabam os efeitos desses fenômenos físicos? Telhados voam. Casas, estradas, pontes, cidades destruídas, árvores centenárias arrancadas, sistemas elétricos interrompidos, aeroportos fechados e muitas mortes humanas lamentadas, entre os 8,5 bilhões de habitantes nos quatro cantos do planeta.  Mas há outras mortes soterradas por esses fenômenos que ficam sem menção. Os esquecidos dos terremotos, maremotos, incêndios naturais, ou provocados pelas guerras entre humanos, são milhares de vidas não humanas eliminadas da biodiversidade. Poucos perguntam: ¨e os não humanos, animais e vegetais? Como são lembrados eles nos destroços de um furacão? Para que ou a quem servem os humanos? Para que ou a quem servem os não humanos? ¨

A teia da vida engloba todos os seres vivos. A biodiversidade é o mais fascinante milagre da natureza e constitui a mais preciosa riqueza do planeta. Na tragédia ecológica recente, no RGS, dezenas de aviários e pocilgas, além de currais foram levados pelo vento e pelas águas das inundações e com eles milhares de vidas domesticadas. Mas nada se mencionou sobre milhares ou milhões de animais terrestres desprevenidos que vivem em sistemas de produção de alimentos nas áreas atingidas, no centro desses setores que mais emitem gases de efeito estufa e em áreas densamente urbanizadas. Os dados são da Food and Agriculture Organization (FAO) da ONU, 2025. E quase nenhuma política climática considera o bem-estar desses bilhões de seres que compõem a biodiversidade global.

Todo mundo sabe que a pecuária industrial é uma grande fonte de emissões. No Brasil, ¾ (três quartos) de todas as emissões vêm do sistema alimentar. Governos criam acordos. Empresas anunciam metas. Mas os animais são tratados como números. Como "unidades emissoras". Como parte de uma equação de carbono, não como seres vivos.

Poucos ainda perguntam: "Em que condições esses entes vegetais ou animais vivem? A escala atual do uso do solo, para produzir alimentos ou cobri-lo com o manto impermeável da urbanização, será compatível com o planeta que se pretende salvar?¨ Enquanto essas perguntas não forem respondidas, o sistema segue inalterado. O aparecimento de vírus e bactérias parece indicar o desequilíbrio das interações e interdependências no conjunto das manifestações de sobrevivência e reprodução da complexa biodiversidade. O equilíbrio ou desequilíbrio das interações entre os seres da biodiversidade têm a ver com o uso inadequado do solo para produção de alimentos, do subsolo para exploração de minerais, da urbanização intensa e desertificadora que altera cursos de água e expulsa populações nativas dos ecossistemas milenares. Em consequência, afetam-se a direção dos ventos e a qualidade do ar. Desequilibram-se as temperaturas e os fenômenos físicos incontroláveis se produzem com mais irregularidade e intensidade.

Produzir e consumir, a relação entre esses dois atos se dá entre a procura instintiva e impulsiva do ser vivo para sobreviver e se reproduzir. A oferta disponível e gratuita da natureza se apresenta em diversificadas formas para humanos e não humanos. A oferta de bens produzidos por técnicas e tecnologias originadas da ação inventiva da espécie sapiente é também compartilhada por humanos e não humanos.

Captura ou coleta constituem a primeira relação natural de subsistência. A segunda é induzida pela oferta artificialmente criada, não gratuita, para satisfazer desejos provocados, aliados culturalmente às necessidades de sobrevivência. A oferta produzida pela intervenção humana está relacionada com a substituição de vegetação nativa por espécies modificadas, desflorestação, uso intensivo de água, criação e abate de animais domesticados. As vítimas da oferta de proteínas de origem animal ou vegetal são milhares de espécies arbóreas, lenhosas e gramíneas protetoras do solo ou milhões de espécies animais, ocultas ou desconhecidas e as destinadas ao abate.

A relação produção/consumo, especificamente de seres humanos, tende a se intensificar com o aumento regional ou global da população humana, hábitos e costumes culturais dos diferentes povos e das condições climáticas variantes do planeta Terra. O consumo direto de alimentos per capita, calculado em um kg diário, em 1970, era de 3.7 bilhões de quilos/dia. Aplicando o mesmo critério, o consumo de alimentos, em 2026, é de 8,5 bilhões de quilogramas/dia.        

Segundo informações da FAO (Food and Arigricultural Organization) estima-se uma população de seres consumidores não humanos em mais de 80 bilhões que se alimentam da diversificada oferta disponível da natureza. Ao grito do diretor da ONU, Antonio Guterres, decretando a ¨falência hídrica do planeta¨, há que se temer a não menos verdadeira ¨falência do solo e do subsolo¨, agressiva e intensamente utilizados pelos processos de exploração agrícola e mineral e da urbanização devastadora para sustentar a espécie sapiens em detrimento da biodiversidade.

Os que herdarão os débitos e pagarão as dívidas geradas por nosso uso imprudente da riqueza natural do  planeta ainda não nasceram.



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