quinta-feira, 17 de novembro de 2011

CAPTAÇÃO DE ÁGUAS PLUVIAIS

O Planalto Central é um divisor de águas. Não é um pântano. As nascentes daqui levam águas para o Norte, Nordeste e Sul. Há cinquenta anos, com o povoamento do Planalto Central, um duro golpe foi desferido contra os mananciais e as nascentes de “águas cristalinas” como as definiram os exploradores da Missão Cruls.
“Em pouco tempo, na opinião do Prof. Henrique Chaves (UnB), os mananciais de água que servem à população de Brasília poderão estar esgotados.” A situação para o brasiliense já chegou ao ponto crítico. Segundo recomendação da ONU, quando a disponibilidade de água bruta é de 1.750 metros cúbicos por habitante/ano a realidade hídrica já pode ser considerada preocupante. A disponibilidade de água na capital do país é de 500 metros cúbicos habitante/ano. Menos de um terço do que é recomendado. (Correio Braziliense, 29.10.2011). Além do superpovoamento da área em relação à capacidade de suporte hídrico, a grande plantação de eucaliptos para produção de celulose e a agricultura irrigada de soja e de milho para exportação, nas áreas circunvizinhas, tornam ainda mais crítica a disponibilidade de água no DF.
A ineficiente fiscalização dos órgãos ambientais e a ênfase dada ao crescimento da produção de commodities, em detrimento dos cuidados exigidos pela natureza frágil do cerrado, aceleram o processo de extinção de olhos d’água e a poluição de mananciais, rios e lagos. O que pode minorar essa situação crítica é a captação das águas da chuva. Com essa finalidade construo em meu Sítio das Neves, Área de Proteção Permanente, desde 1996, pequenas barragens de pedra ou barragens-castor. Mais de uma centena de barragens captam e detêm milhões de litros de água durante o período chuvoso entre os meses de setembro e maio. (Continua na próxima entrega)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

ESTÁBULOS DO REI ÁUGIAS

Os ministérios do governo, encarregados de administrar a coisa pública, traduzida por execução de atividades e obras por meio de aplicação de grandes somas de dinheiro se parecem com os Estábulos do Rei Áugias. A imundície e o insuportável odor resultante da corrupção da moral e da ética profissional vêm se acumulando incolumemente durante dezenas de anos. O esterco produzido pela digestão de polpudos orçamentos parece desafiar as forças e as energias de presidentes, de tribunais e da polícia.
A imundície e o insuportável odor estão exigindo a presença de um Hércules. Infelizmente, o Planalto Central não dispõe de um rio suficientemente caudaloso a ser desviado para dentro dos 36 ministérios. Por cúmulo do azar, as águas do Lago Paranoá, além de minguadas, estão igualmente contaminadas por dejetos sólidos e líquidos dos administradores do Distrito Federal que, nos últimos 15 anos, não consegue se livrar do fedor das cloacas legislativas, executivas, judiciárias e partidárias.
O fedor é insuportável. Haja Hércules e rios para limpar tanto esterco.

domingo, 6 de novembro de 2011

O SILÊNCIO DE UM HOMEM ENTRE RUÍDOS

João Carlos Taveira*
           O escritor Eugênio Giovenardi milita no verso e na prosa com a desenvoltura de quem sabe o caminho das pedras, em sua caminhada pelo mundo e pelos insondáveis mistérios da metafísica. Mas o seu forte, pelo visto, é o gênero em que melhor se acomoda dentro da linguagem: o romance de ficção, no qual já publicou cinco títulos dos onze que constam de sua bibliografia.  
Seu novo trabalho nesse campo saiu em meados de 2011, e se intitula Silêncio. É um romance que, pela proposta de conceitos e desmembramentos de significados, pode ser perfeitamente incluído naquela lista de obras ousadas e bem-sucedidas, embora não muito fáceis de assimilação. O volume, de 198 páginas, em formato 14X21, traz capa de Thiago Sarandy e editoração eletrônica de Cláudia Gomes, com acabamento bem cuidado da Thesaurus, e está disponível nas boas casas do ramo e também pela internet no site da editora.
Todo autor almeja escrever um livro perfeito, mas poucos o conseguem. A tarefa é árdua e espinhosa, por iniciar-se além do mundo real e materializar-se no plano consciente e palpável da natureza humana. Mas Eugênio Giovenardi, neste caso, busca alcançar a proeza do intento com bons resultados. Embora não tenha conseguido de todo livrar-se de referências autobiográficas, contidas, aliás, em seus romances anteriores, neste livro da maturidade o autor de As pedras de Roma se enveredou pelas florestas obscuras do inconsciente e trouxe à luz a história de seres díspares criados à nossa imagem e semelhança; portanto, personagens de carne e osso — em toda a sua extensão física e psicológica. Com exceção de Lídice, que surge como um anjo e, como tal, desaparece, para ao fim e ao cabo da narrativa juntar-se ao protagonista, mas que em momento algum se entrega ao jogo ou controle de seu criador.
A ação se passa em Brasília e arredores, em cenários físicos e extrafísicos, em que Pedro de Montemor é personagem principal e narrador. E ele, com frases curtas e domínio vocabular, descreve na primeira pessoa a sua experiência vivida e, até certo ponto, compartilhada, em flashes ou lampejos de consciência. São angústias e desassossegos a incomodar a visão de um ser atormentado pelas conquistas do progresso em contraste com os recuos de gestão numa administração arcaica, cada vez mais inapta e incompetente. E isso se dá no coração de uma das mais modernas cidades do mundo, ao lado, naturalmente, da insistência de tenebrosos fantasmas a perseguir o trajeto de quem já caminha meio de lado, devido ao peso excessivo de um viver entre as lembranças do passado e as incertezas do futuro. E mais: Pedro de Montemor busca nos mistérios da própria vida uma certeza para seus questionamentos e, como faz com os personagens do romance, nos instiga a acreditar num mundo paralelo situado bem na rota de suas descrenças ou perquirições. Ao contrário de Hamlet, para ele, o silêncio é o limite.
Na construção do romance, segundo palavras do próprio autor, combinam-se episódios verídicos e ficcionais. Ao redor deles, o silêncio fala de maneira intemporal. “O cérebro, envolto pelo silêncio interior e exterior, fabrica associações intermináveis, superpostas e contrastantes de fatos, palavras, gestos, atos e pensamentos, expectativas e desejos produzidos no passado, memorizados no presente e lançados ao futuro.” O silêncio é desordenado. As vozes interiores se atropelam e nem sempre respeitam a ordem e a sequência de sua origem. “A liberdade do silêncio libera o inconsciente e exacerba o consciente.” Toda essa história pessoal é personificada e projetada nos indivíduos e grupos que intermitentemente formam os laços da convivência social.
Eugênio Giovenardi, além de escritor, é também sociólogo, e sabe que a vida se situa mais dentro da visão de um Guimarães Rosa que da de um Paulo Coelho. E que os perigos são numerosos, principalmente para aqueles que trazem, desde sempre, as marcas de uma formação baseada nos princípios da fraternidade entre os homens, da liberdade inalienável do indivíduo, da igualdade de todos os seres humanos e — mais forte que tudo — do respeito a todos os seres vivos deste planeta. E isso parece bastante, mesmo quando colocado de maneira não muito marcada nos entremeios de uma narrativa ficcional pouco linear. De forma insistente e quase obsessiva, o silêncio — que para Montemor é um fim em si mesmo — atravessa as páginas do livro, sem deixar vestígios.

Brasília, 31 de outubro de 2011.

____________________________________________________________

*João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, e tem vários livros publicados.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

7 BI OU SETE BI


Sete bilhões são um bocado de números. Os estatísticos deitaram e rolaram com percentuais, colunas, curvas, queijos, pirâmides e círculos para demonstrar a grandeza dos algarismos. Um percentual de bilhão, por pequeno que seja produz um montão de gente, de animais e de coisas. Os corruptos que se prezam como administradores da coisa pública sabem disso. Por isso, dependendo da cifra, se contentam com meio por cento. Em se tratando de bilhões ou trilhões, a farra está garantida.
Voltando aos bilhões, revistas e jornais nos impressionaram com o jogo dos números. O nosso planeta, dizem, tem 13,4 bilhões de hectares disponíveis para produzir alimentos e água necessária. Cada habitante terráqueo precisa de 2,7 hectares (20.700 m2) para obter a satisfação de todas as suas necessidades. (Atenção brasilienses! No Distrito Federal, só temos pouco mais de um quinto de hectare, 223m2, para cada habitante. De onde vem nossa comida e tudo o mais?) Os americanos consomem nove hectares. Exagero que não resolve a crise econômica e financeira que atravessam.
Voltando à galera mundial, 7 bilhões de pessoas precisam de 19 bilhões de hectares, quase o dobro do que o planeta dispõe. A população continua crescendo. Nos países ricos e nos países pobres, quem, quantos, em que classe de cidadãos existem o desejo, a vontade e a decisão de ceder alguns hectares para cobrir o déficit? A solução apontada por estudiosos, especialistas e planejadores do futuro é a redução do consumo em um terço do que atualmente se desfruta. Há poucas evidências de que nas próximas décadas o consumo diminua. Não vamos pedir isso à turma do Bolsa Família.
A avalanche de carros e aviões parece apontar para outra direção. A continuar no ritmo atual de consumo, o colapso será inevitável no final deste século, quando a população chegará, segundo estimativas, a 10 bilhões de bocas. Toda a esperança é posta no gênio anônimo e desconhecido (macho ou fêmea) chamado senhor 7bi ou senhora Sete Bi.

POPULAÇÃO E FOME



O anúncio da chegada do bebê 7bi foi feito em tom de comemoração. Possibilidade de que tenha nascido um novo gênio capaz de solucionar definitivamente problemas e dificuldades que a população mundial terá pela frente. No dia 6 de outubro de 1999, a estatística da ONU contabilizava uma população de 6 bilhões. À época, o mesmo organismo, por meio da FAO, lamentava que cerca de um bilhão padecia de fome aguda, isto é, não tinha o que comer. Quantos milhões morreram de fome de 1999 a 2011? Hoje, a mesma FAO afirma que mais de um bilhão de famintos esperam por uma vaga nos cemitérios. Onde estão os argumentos otimistas que acenam com mais cérebros para resolver nossos problemas? Onde está a mencionada tecnologia de produção agrícola para provocar um crescimento geométrico de alimentos acessíveis às populações em países que não conseguem oferecer sequer a quantidade suficiente de produtos? Há regiões, no Brasil, em que agricultores não produzem para a própria sobrevivência. Tecnologia, terra, água, crédito ainda se comportam como inimigos da agricultura por causa da insuperável incapacidade política e econômica de decidir, planejar e executar.
Se morrem 2 pessoas a cada segundo e nascem 5 no mesmo período de tempo, caso da Ásia e África, qual é a proporção simétrica de produção de alimentos? Não é só de comida que vive uma pessoa. Moradia, escola, hospitais, transporte, estradas, meios de comunicação, teatros, museus fazem parte da vida moderna.
Os meios de comunicação transmitiram afirmações insensatas provando que o planeta Terra pode abrigar 20 bilhões de pessoas. Certamente, essas personalidades não creem que a maioria da população mundial possa desfrutar dos produtos materiais e culturais na mesma proporção de canadenses ou noruegueses e de boa parte da elite brasileira.
A miopia de quem goza de bem estar intocável não abarca as distintas populações do planeta. Não somos apenas nós, hominídeos, os únicos 7 bilhões de habitantes da Terra. Há outros bilhões de animais domésticos para os quais se destina grande parte da produção de alimentos e cujas proteínas não alcançam os famintos. Há bilhões de animais silvestres e marítimos que habitam florestas necessárias e mares gratuitos que precisam de espaço para o cumprimento das leis da vida. Esses três gêneros de populações interdependentes dependem de água para sobreviver. Água e florestas são a origem da vida. Mais uma vez, o organismo internacional lamenta que mais de 2 bilhões de seres humanos não dispõem de água tratada ou potável. E para produzir mais alimentos, precisa-se de mais água.
Em nome da dignidade humana, para estabelecer um equilíbrio do crescimento demográfico, impõe-se medida racional muito mais efetiva do que uma projeção estatística preguiçosa para o ano 2100. A limitação do crescimento das populações do planeta se dá por fenômenos naturais e doenças como pestes, epidemias, AIDS, secas, inundações, tornados, tsunamis, terremotos, erupções vulcânicas. Mas talvez não seja razoável esperar por eles ou estimulá-los com falsas ideias de progresso, de crescimento econômico, desenvolvimento tecnológico, metropolização de cidades, desertificação gradativa de imensas regiões, devastação de florestas. Há outros meios sensatos e racionais.
O planejamento demográfico, estendido a todas as nações do mundo, em nome da sobrevivência de  das populações existentes no planeta, é medida necessária e salutar. Os efeitos não serão imediatos, pois há obstáculos culturais, tabus e conceitos religiosos a superar. Mas a reprodução vegetativa, ou crescimento zero da população, é desejável do ponto de vista humano e necessária para o equilíbrio ecológico e ambiental que assegure a biodiversidade bela e espetacular do planeta. Só temos um planeta disponível para ser desfrutado entre todos os seres vivos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

ESTÁDIOS EM ÃO

Não é novidade para ninguém que todos os estádios brasileiros destinados ao futebol terminam em ão, como brasileirão. Só escapa dessa terminação o Maracanã. O brasileiro tem mania de grandeza e com ele tudo é grandão, bonzão, paizão, goleirão, até chegar no golaço.
Por isso, o megalomaníaco ex-presidente Lula se comprometeu a oferecer o Brasilzão para cenário da Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas, de 2014 e 2016. Serão investidos, oficialmente, R$ 11,2 bilhões em estádios que terão uso por dez dias. Que fazer com todos esses estadiões ao terminarem os jogos? Diante da indecisão e da covardia de nossos dirigentes esportivos comandados pelo PCdoB, dou aqui minha modesta e gratuita contribuição para futuras decisões.
– Transformar alguns estádios em prisões, uma vez que faltam 200 mil vagas para os candidatos que desejam cumprir dez a quinze anos de cadeia. Um estádio para 45 mil espectadores, comporta 10 mil presos, com direito a campeonatos em rodadas permanentes, de dia e de noite. O esporte é um saudável exercício para a saúde corporal e mental. Sairão desses novos ergástulos grandes estrelas que nos darão canecos até 2050.
– Alguns estádios podem ser adaptados em Centros Integrados de Ensino Fundamental, onde milhares de crianças do Bolsa Família podem estudar gratuitamente durante oito horas diárias e muitos deles podem dormir no local sem precisar enfrentar caminhões paus-de-arara para ir à escola.
– No caso de Brasília, diante da anarquia em que se encontra a administração da saúde, sendo o governador um médico, egresso do PCdoB, o nosso Pelezão poderá, com alguns ajustes, se tornar um dos hospitais mais eficientes do Planalto Central. Terá capacidade para 75 mil consultas diárias, desde que os médicos se prontifiquem a treinar três vezes por semana.
Em todos eles há banheiros em profusão, água encanada e farta iluminação. Senhores governadores, deputados, senadores, cartolas da Confederação Brasileira de Futebol, mãos à obra. Não deixem os estádios ociosos depois que a copa acabar.

26.10.2011

AMEI, AMEI, AMEI


AMEI, AMEI, AMEI

Saí à noite para ver estrelas
Abracei plantas estupefatas
Absorvi o perfume de flores boquiabertas
Ouvi o cantar de pássaros livres. 

AMEI, AMEI, AMEI 

Espelhei-me nas águas das nascentes
Molhei os pés nas águas do riacho
Sentei sobre rochas milenares
Respirei os ventos invisíveis.

AMEI, AMEI, AMEI 

O planeta Terra rodando no espaço
As galáxias anunciando o infinito
O universo apontando o eterno
A vida saudando o destino imortal. 

AMEI, AMEI, AMEI  

O grito do desespero vencido
O sorriso de todas as faces
As lágrimas de todas as dores
As palavras de todos os seres.