Pedro de Montemor surpreendeu-me com uma carta escrita há uma semana.
“Tenho uma boa história. Creio que só poderia acontecer aqui. Tomei o ônibus que faz a linha do local onde me hospedo e o Quartier Latin. Sentei-me na única poltrona solitária perto da janela. Na parada seguinte, subiram duas senhoras completamente francesas. Num gesto espontâneo de cidadania, levantei-me e ofereci o lugar. Um delas agradeceu sem sorrir e sentou. Era mais jovem do que eu e ainda bonita.
Logo depois, vagou um assento. Fui ocupá-lo ao lado de um senhor que, levantando-se, me facilitou o acesso. Era dez anos mais velho do que eu, cabelos alvíssimos, a boca repuxada para o lado direito. Mancava de uma perna. Olhou-me, procurou identificar minha origem e para confirmar suas apostas, perguntou-me:
− De que país vem o senhor?
Ocorreu-me de forma fulminante uma resposta singular.
− Sou cidadão do planeta Terra.
Ele se assustou, enrugou a fronte e eu continuei:
− Qualquer pedaço do planeta Terra me dá a sensação de liberdade, de curiosidade e, em todo o caso, o desconhecido é o mesmo, as agruras e os amores são os mesmos. As árvores e as águas em qualquer parte da Terra são minhas amigas e com elas me demoro em longas conversas.
Disse-lhe tudo isso em francês e ele tolerou educadamente as agressões que cometi contra sua língua. Olhou-me com um olhar de 85 anos e esperou que lhe dissesse enfim o nome de um país. Em vez disso:
− Tenho quatrocentos anos de história italiana e mais de 70 em países da América do Sul.
− Que faz em Paris?, perguntou-me, cansado de minha filosofia.
− Vim descansar das agruras e dos amores que atropelam o ser humano em qualquer país. É mais fácil suportar a Terra do que um país.
Não acha você?
Lembranças planetárias.”
COMENTÁRIOS SEMANAIS SOBRE MEIO AMBIENTE, POLÍTICA, LITERATURA E OUTRAS SUTILEZAS DO COTIDIANO.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
O ESPELHO
As vitrinas são do tempo em que não havia internet. Ao longo das calçadas das ruas de Paris, elas desfilam incansavelmente todas as modas, da cabeça aos pés. Muitas mulheres usam a vitrina para arrumar o vestido, pentear o cabelo, competindo com manequins de caras surpresas e outros sorridentes. Proprietários atentos colocaram um verdadeiro espelho, grande, generoso, gentil para essas funções secundárias. Os virtuais clientes passam pelo espelho e, se ouvem um bom conselho, olham a vitrina e entram.
A senhora que ia à minha frente passava dos 70 anos, pequena, magra, guardava sua antiga e conformada feiúra. Caminhava de vagar, sapato raso e uma pasta de couro na mão. Parou diante do espelho. Eu vi seu rosto lá dentro e o espelho não lhe fez nenhuma concessão. Vi seu olhar de desgosto e decepção. Ouvi o que ela disse, resumindo sua conformação mortal:
− C’est ça!
E o disse a si mesma como se estivesse convencendo alguém sobre uma verdade inquestionável. Continuou sua caminhada, indiferente às vitrinas que a convidavam a entrar. Ela seguia remoendo a tese filosófica que o espelho lhe havia exposto com a frieza de Aristóteles e de Cícero sobre o tempo que passa e a arte de envelhecer. O tempo não tem culpa quando o espelho nos diz que os anos passaram e nos levaram consigo.
A senhora que ia à minha frente passava dos 70 anos, pequena, magra, guardava sua antiga e conformada feiúra. Caminhava de vagar, sapato raso e uma pasta de couro na mão. Parou diante do espelho. Eu vi seu rosto lá dentro e o espelho não lhe fez nenhuma concessão. Vi seu olhar de desgosto e decepção. Ouvi o que ela disse, resumindo sua conformação mortal:
− C’est ça!
E o disse a si mesma como se estivesse convencendo alguém sobre uma verdade inquestionável. Continuou sua caminhada, indiferente às vitrinas que a convidavam a entrar. Ela seguia remoendo a tese filosófica que o espelho lhe havia exposto com a frieza de Aristóteles e de Cícero sobre o tempo que passa e a arte de envelhecer. O tempo não tem culpa quando o espelho nos diz que os anos passaram e nos levaram consigo.
domingo, 20 de setembro de 2009
FELICIDADE PRIMITIVA
O noticiário da última sexta-feira (18.09.09) foi regado com estatísticas e alimentado com números e porcentagens. Mais crianças na escola – aprendendo menos, segundo outros dados oficiais. Mais computadores, mais celulares, geladeiras, sofás novos na sala, TV’s espalhadas pela casa. Mais empregos com carteira assinada – sem mencionar as demissões constantes em setores importantes agravadas pela dificuldade de utilizar conhecimentos estocados em profissionais acima de 50 anos.
A felicidade primitiva de sair da caverna, escapar de dentes ferozes, esconder-se em choupanas de pedra e sobreviver à inclemência do clima, está sendo recuperada. É uma caminhada humana que iniciou há 10 milhões de anos. Como imaginar, no estágio tecnológico atual, que essa felicidade primitiva não tivesse continuidade?
Todos os números anunciados garantem que essa felicidade primitiva de conquistar, adquirir, sobreviver e orgulhar-se da própria sobrevivência são alentadores e enchem de glória os homens que detêm o poder e se atribuem o mérito das vitórias.
O país foi reduzido politicamente à felicidade primitiva. A estatística faz médias e equilibra os números. Mostra que a felicidade primitiva tem graus, diferenças e desigualdades. Uns são mais felizes que outros nesse patamar primitivo. Minha diarista limpa cinco apartamentos na semana, além de lavar, passar e cozinhar. Conseguiu, com seu trabalho, meu dinheiro e o dos outros quatro, levantar casa em terreno de invasão, que ela denomina barraco. Nele há sofá, TV, som, geladeira, máquina de lavar, freezer. Leva celular na bolsa. Passa quatro horas no trânsito. Levanta às cinco da manhã. Trabalha oito horas diárias. Sua felicidade primitiva está garantida. Orgulha-se de sua força de vontade, habilidade e vitórias sociais. Angustia-se com seus quinze quilos acima do peso ideal. Tem quarenta anos. É praticamente analfabeta. Mal escreve seu nome. Erra na palavra escrita e falada. Não lerá um livro até o fim de seus dias, nem jornal, nem revista, nem irá a teatro ou concerto no Teatro Nacional. Capta notícias pela metade. Acredita nos apresentadores de TV. Tem fé em Deus. Espera três meses para uma consulta de emergência num hospital público. Usa seus conhecimentos práticos, assessorada por detergentes da última propaganda, desinfetantes, bombril e muita água. Sua melhor virtude política é a capacidade de se indignar contra as decisões do governo, mas acaba votando nas promessas que não serão cumpridas. Estimo que haja 150 milhões de brasileiros na mesma situação de minha diarista. O governo do país prefere um povo com tecnologia avançada e mentalidade atrasada.
As autoridades do país mostraram-se contentes, gratificadas e vencedoras com os números, os percentuais e as médias elaboradas pelo sistema estatístico. Uma delas é 1,8 filhos por casal.
Os números atestam, o país vai bem. A empregada doméstica, num curso de alfabetização, entrevistada por um canal de TV tem razão e se alinha com o Presidente da República.
− Por que, perguntou, estudar matemática para limpar a casa de madame e cozinhar o feijão?
A felicidade primitiva do brasileiro está garantida e comprovada por percentuais estatísticos.
A felicidade primitiva de sair da caverna, escapar de dentes ferozes, esconder-se em choupanas de pedra e sobreviver à inclemência do clima, está sendo recuperada. É uma caminhada humana que iniciou há 10 milhões de anos. Como imaginar, no estágio tecnológico atual, que essa felicidade primitiva não tivesse continuidade?
Todos os números anunciados garantem que essa felicidade primitiva de conquistar, adquirir, sobreviver e orgulhar-se da própria sobrevivência são alentadores e enchem de glória os homens que detêm o poder e se atribuem o mérito das vitórias.
O país foi reduzido politicamente à felicidade primitiva. A estatística faz médias e equilibra os números. Mostra que a felicidade primitiva tem graus, diferenças e desigualdades. Uns são mais felizes que outros nesse patamar primitivo. Minha diarista limpa cinco apartamentos na semana, além de lavar, passar e cozinhar. Conseguiu, com seu trabalho, meu dinheiro e o dos outros quatro, levantar casa em terreno de invasão, que ela denomina barraco. Nele há sofá, TV, som, geladeira, máquina de lavar, freezer. Leva celular na bolsa. Passa quatro horas no trânsito. Levanta às cinco da manhã. Trabalha oito horas diárias. Sua felicidade primitiva está garantida. Orgulha-se de sua força de vontade, habilidade e vitórias sociais. Angustia-se com seus quinze quilos acima do peso ideal. Tem quarenta anos. É praticamente analfabeta. Mal escreve seu nome. Erra na palavra escrita e falada. Não lerá um livro até o fim de seus dias, nem jornal, nem revista, nem irá a teatro ou concerto no Teatro Nacional. Capta notícias pela metade. Acredita nos apresentadores de TV. Tem fé em Deus. Espera três meses para uma consulta de emergência num hospital público. Usa seus conhecimentos práticos, assessorada por detergentes da última propaganda, desinfetantes, bombril e muita água. Sua melhor virtude política é a capacidade de se indignar contra as decisões do governo, mas acaba votando nas promessas que não serão cumpridas. Estimo que haja 150 milhões de brasileiros na mesma situação de minha diarista. O governo do país prefere um povo com tecnologia avançada e mentalidade atrasada.
As autoridades do país mostraram-se contentes, gratificadas e vencedoras com os números, os percentuais e as médias elaboradas pelo sistema estatístico. Uma delas é 1,8 filhos por casal.
Os números atestam, o país vai bem. A empregada doméstica, num curso de alfabetização, entrevistada por um canal de TV tem razão e se alinha com o Presidente da República.
− Por que, perguntou, estudar matemática para limpar a casa de madame e cozinhar o feijão?
A felicidade primitiva do brasileiro está garantida e comprovada por percentuais estatísticos.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
CIDADE-PARQUE ou PARQUE DA CIDADE
A rainha Maria de Médicis comprou o Palácio de Luxemburgo, em Paris, e as terras circunvizinhas ocupadas por monges e agricultores, no início do século XVII. Guardando a tradição da família florentina, em 1612, convocou naturalistas e arquitetos com o fim de proteger essa vasta área quase selvagem em ambiente de repouso, silêncio e meditação, hoje, conhecido como Jardim de Luxemburgo. Árvores centenárias testemunham a passagem do tempo e sobrevivem às gerações que descansaram à sua sombra.
Lá, como aqui, o olho grande dos construtores não resistiu ao ímpeto de derrubar árvores e pôr em seu lugar edifícios gigantescos como sinal de dominação da natureza. Diante da saga arrasadora de engenheiros e inversionistas da construção, em 1859, uma lei conservacionista refreou o fio do machado e delimitou definitivamente a atual área de 25 hectares para descanso dos parisienses.
Conheço o Jardim de Luxemburgo desde 1967. Mais de quarenta anos e nada mudou no projeto original de ser um ambiente de beleza, arte e grandeza natural. A ninguém se lhe ocorre, hoje, transformá-lo num parque de exposição ou num atalho de circulação de veículos para cortar caminho entre o local de trabalho e a residência do cidadão na era do automóvel. O Jardim não foi invadido com rodas gigantes, play-grounds, bares de música barulhenta ou restaurantes com estacionamentos privativos. Em espaços bem limitados estão quadras de uso infantil, canchas de bocha para idosos ou de esportes leves. A maior parte do Jardim é cortada de alamedas, cadeiras e bancos, um lago repousante, esculturas de escritores, artistas, pensadores, representações da vida cotidiana, de mitos e da história cultural e política da França. Um quiosque para o chá ou o vinho e um discreto restaurante protegido por imensas árvores atraem os frequentadores para o refrigério das tardes quentes ou o aquecimento nos dias de inverno.
É um espaço amplo, com muitos bancos para sentar, pensar e conversar, à beira de um lago. Aberto, acolhedor, generoso, tão grande quanto os desejos e as aspirações do espírito e as sublimes provocações da inteligência do ser humano. Um parque é para estar, passear entre árvores e canteiros de flores para conhecê-las, amá-las e respeitá-las.
Conservar a história urbanística e paisagística de uma cidade é não ter medo de multiplicar espaços amplos, tranquilos, silenciosos onde repousem à noite os sonhos e os amores vividos durante o dia.
É tranqüilizador constatar que ninguém se atreve, contra a história e a consciência cultural dos cidadãos, mudar a destinação do Jardim de Luxemburgo, amputá-lo, introduzir funções outras que não sejam as do repouso artístico e, muito menos, decidir pelo adensamento da construção depredadora.
Conservar é manter as conquistas de nossos antepassados e melhorá-las sem deformá-las. O Parque da Cidade de Brasília poderia se espelhar no Jardim de Luxemburgo e transformá-lo num jardim para pessoas, sem a presença do automóvel.
Lá, como aqui, o olho grande dos construtores não resistiu ao ímpeto de derrubar árvores e pôr em seu lugar edifícios gigantescos como sinal de dominação da natureza. Diante da saga arrasadora de engenheiros e inversionistas da construção, em 1859, uma lei conservacionista refreou o fio do machado e delimitou definitivamente a atual área de 25 hectares para descanso dos parisienses.
Conheço o Jardim de Luxemburgo desde 1967. Mais de quarenta anos e nada mudou no projeto original de ser um ambiente de beleza, arte e grandeza natural. A ninguém se lhe ocorre, hoje, transformá-lo num parque de exposição ou num atalho de circulação de veículos para cortar caminho entre o local de trabalho e a residência do cidadão na era do automóvel. O Jardim não foi invadido com rodas gigantes, play-grounds, bares de música barulhenta ou restaurantes com estacionamentos privativos. Em espaços bem limitados estão quadras de uso infantil, canchas de bocha para idosos ou de esportes leves. A maior parte do Jardim é cortada de alamedas, cadeiras e bancos, um lago repousante, esculturas de escritores, artistas, pensadores, representações da vida cotidiana, de mitos e da história cultural e política da França. Um quiosque para o chá ou o vinho e um discreto restaurante protegido por imensas árvores atraem os frequentadores para o refrigério das tardes quentes ou o aquecimento nos dias de inverno.
É um espaço amplo, com muitos bancos para sentar, pensar e conversar, à beira de um lago. Aberto, acolhedor, generoso, tão grande quanto os desejos e as aspirações do espírito e as sublimes provocações da inteligência do ser humano. Um parque é para estar, passear entre árvores e canteiros de flores para conhecê-las, amá-las e respeitá-las.
Conservar a história urbanística e paisagística de uma cidade é não ter medo de multiplicar espaços amplos, tranquilos, silenciosos onde repousem à noite os sonhos e os amores vividos durante o dia.
É tranqüilizador constatar que ninguém se atreve, contra a história e a consciência cultural dos cidadãos, mudar a destinação do Jardim de Luxemburgo, amputá-lo, introduzir funções outras que não sejam as do repouso artístico e, muito menos, decidir pelo adensamento da construção depredadora.
Conservar é manter as conquistas de nossos antepassados e melhorá-las sem deformá-las. O Parque da Cidade de Brasília poderia se espelhar no Jardim de Luxemburgo e transformá-lo num jardim para pessoas, sem a presença do automóvel.
domingo, 23 de agosto de 2009
MOVIMENTO MARINA SILVA
O movimento Marina Silva Presidente é uma janela da qual se pode olhar o Brasil com nova esperança, tão vasta e resistente quanto a Amazônia. A hora é esta de expressar a inconformidade e sonhar com mais igualdade.
O poder autoritário estabeleceu a verdade linear, a interpretação única: existem pobres no Brasil e há que atendê-los sem abrir caminho para que saiam da pobreza social, moral e mental. Os capachos da estatística oficial enfeitam com números o bolo da festa e anunciam que tantos por cento deixaram os subterrâneos e romperam a linha da pobreza ou da miséria e entraram com o celular e a geladeira para o clube consumista dos centros comerciais da classe A. Tática de fortalecer o grande capital da indústria, do comércio, dos bancos.
Essa linguagem codificada de percentuais satisfaz os de cima e os de baixo. O axioma é simples: pertencer à classe consumidora é ter dignidade, cidadania e identidade, não importa o grau de ignorância, subserviência e conformação. E, assim, o pragmatismo da corrupção se instalou no poder.
O trabalho produtivo que dá à pessoa o sentido vital da criatividade, do pensamento e da crítica se submete ao consumo passivo, estimulado por um subsídio grátis. Esse subsídio não é um veneno social a ser eliminado e, sim, a ser reorientado para curar, pela via do trabalho produtivo, a desigualdade de oportunidades. É o trabalho criativo que estimula e incita as pessoas a vencerem a ignorância e a pensarem a própria existência.
Com Lula,
nos fartamos de ver a árvore,
com Marina Silva,
começaremos a olhar para a floresta.
Induz-me a participar do MMS o fato de ser ele conduzido com espírito livre, acima de partidos políticos, sem eliminá-los, fortalecendo as instituições necessárias.
Animam-me duas razões filosóficas e políticas para agregar-me ao Movimento: reorientar o sentido existencial do consumo de bens vitais, como alimentação saudável e educação, e estimular a produção nesse rumo; incentivar os investimentos públicos e privados da produção agrícola, industrial e tecnológica, induzindo de forma educativa a aproximação dos cidadãos à natureza da qual os seres vivos fazem parte.
O poder autoritário estabeleceu a verdade linear, a interpretação única: existem pobres no Brasil e há que atendê-los sem abrir caminho para que saiam da pobreza social, moral e mental. Os capachos da estatística oficial enfeitam com números o bolo da festa e anunciam que tantos por cento deixaram os subterrâneos e romperam a linha da pobreza ou da miséria e entraram com o celular e a geladeira para o clube consumista dos centros comerciais da classe A. Tática de fortalecer o grande capital da indústria, do comércio, dos bancos.
Essa linguagem codificada de percentuais satisfaz os de cima e os de baixo. O axioma é simples: pertencer à classe consumidora é ter dignidade, cidadania e identidade, não importa o grau de ignorância, subserviência e conformação. E, assim, o pragmatismo da corrupção se instalou no poder.
O trabalho produtivo que dá à pessoa o sentido vital da criatividade, do pensamento e da crítica se submete ao consumo passivo, estimulado por um subsídio grátis. Esse subsídio não é um veneno social a ser eliminado e, sim, a ser reorientado para curar, pela via do trabalho produtivo, a desigualdade de oportunidades. É o trabalho criativo que estimula e incita as pessoas a vencerem a ignorância e a pensarem a própria existência.
Com Lula,
nos fartamos de ver a árvore,
com Marina Silva,
começaremos a olhar para a floresta.
Induz-me a participar do MMS o fato de ser ele conduzido com espírito livre, acima de partidos políticos, sem eliminá-los, fortalecendo as instituições necessárias.
Animam-me duas razões filosóficas e políticas para agregar-me ao Movimento: reorientar o sentido existencial do consumo de bens vitais, como alimentação saudável e educação, e estimular a produção nesse rumo; incentivar os investimentos públicos e privados da produção agrícola, industrial e tecnológica, induzindo de forma educativa a aproximação dos cidadãos à natureza da qual os seres vivos fazem parte.
EDUCAR PARA PRODUZIR
A miséria, a pobreza e a fome que não permitem à pessoa dedicar-se a outra atividade que não seja procurar comida é uma situação que, aos sensíveis comove e indigna. Aos brutos, endurece.
Dar de comer a quem tem fome é o primeiro passo. Os passos seguintes têm que ser dados logo para que os famintos tenham oportunidade de produzir, ou comprar com seu trabalho, a comida. Essa iniciativa não se consegue sem um melhor conhecimento da própria capacidade adquirido por meio da educação.
Não é apenas incentivando o consumo por meio de um subsídio que se constroi uma sociedade, mesmo dando a alguns milhões um prato diário de comida. É preciso introduzir o conceito de produção engenhosa e o engenho se aperfeiçoa na escola eficiente. O consumo melhora, aumenta, se excita e as indústrias decrescem. O subsídio que se dá ao consumidor repercute nas grandes distribuidoras e bancos que dominam a economia e impõem seus estoques aos incautos. Cria-se a dívida numa ponta e o lucro na outra.
Um olhar crítico e analítico desses programas de incentivo ao consumo, tanto para combater a fome, quanto para comprar automóvel ou geladeira, esbarra num processo seletivo de necessidades.
O Bolsa Família alcança 13 milhões de famílias – 65 milhões de cidadãos. Quantos desses brasileiros passam fome? Ninguém sabe. O critério simplista é o salário reconhecido em carteira de trabalho, confrontado com o número de filhos. A astúcia do brasileiro prevaleceu. Encheu-se a Arca de Noé com toda sorte de espécimes: do faminto ao empresário, vereador, prefeito, professor e outros. Quem não acata esse sistema de publicidade política em nome dos que têm fome, é imbecil e ignorante. Quem o aceita também o é.
O que falta é capacidade local e regional para enfrentar a pobreza, a miséria e a fome. Eis o espaço mole sobre o qual o governo central autoritário se deleita, pinta e borda com o dinheiro público.
Construir, desenterrar, aprimorar capacidades locais participativas e solidárias para vencer os desafios da convivência igualitária de uma sociedade deve constituir o primeiro passo.
A sociedade brasileira se acostumou a aceitar que tudo se decida na esfera maior do poder e gasta o tempo na mesa do bar para contestar, sem êxito, a ditadura administrativa, econômica e política.
Dar de comer a quem tem fome é o primeiro passo. Os passos seguintes têm que ser dados logo para que os famintos tenham oportunidade de produzir, ou comprar com seu trabalho, a comida. Essa iniciativa não se consegue sem um melhor conhecimento da própria capacidade adquirido por meio da educação.
Não é apenas incentivando o consumo por meio de um subsídio que se constroi uma sociedade, mesmo dando a alguns milhões um prato diário de comida. É preciso introduzir o conceito de produção engenhosa e o engenho se aperfeiçoa na escola eficiente. O consumo melhora, aumenta, se excita e as indústrias decrescem. O subsídio que se dá ao consumidor repercute nas grandes distribuidoras e bancos que dominam a economia e impõem seus estoques aos incautos. Cria-se a dívida numa ponta e o lucro na outra.
Um olhar crítico e analítico desses programas de incentivo ao consumo, tanto para combater a fome, quanto para comprar automóvel ou geladeira, esbarra num processo seletivo de necessidades.
O Bolsa Família alcança 13 milhões de famílias – 65 milhões de cidadãos. Quantos desses brasileiros passam fome? Ninguém sabe. O critério simplista é o salário reconhecido em carteira de trabalho, confrontado com o número de filhos. A astúcia do brasileiro prevaleceu. Encheu-se a Arca de Noé com toda sorte de espécimes: do faminto ao empresário, vereador, prefeito, professor e outros. Quem não acata esse sistema de publicidade política em nome dos que têm fome, é imbecil e ignorante. Quem o aceita também o é.
O que falta é capacidade local e regional para enfrentar a pobreza, a miséria e a fome. Eis o espaço mole sobre o qual o governo central autoritário se deleita, pinta e borda com o dinheiro público.
Construir, desenterrar, aprimorar capacidades locais participativas e solidárias para vencer os desafios da convivência igualitária de uma sociedade deve constituir o primeiro passo.
A sociedade brasileira se acostumou a aceitar que tudo se decida na esfera maior do poder e gasta o tempo na mesa do bar para contestar, sem êxito, a ditadura administrativa, econômica e política.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
O DITADOR DEMOCRÁTICO
Houve uma época em que dezenas de ditadores explícitos governavam pelo mundo afora. Os implícitos, na oposição, esperavam sua vez. Na América do Sul, os ditadores floresciam e abundavam. No Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, Peru, Bolívia, há bem pouco tempo, as ordens emanadas vinham dos quartéis, ditadas por generais e marechais. Usavam um partido político domesticado para ladrar aos intrusos e lamber as botas de quem lhe dava comida e coleira.
O mundo da política foi mudando. Ditadura fechada, ordens verticais, disciplina militar do marcha soldado não se entendem com evolução tecnológica, velocidade da informação, TV, telefone celular, correio eletrônico. A sociedade se encheu de hackers mercenários. Nem a União Soviética nem a China resistiram à investida do Sistema cuja arma atômica é o mercado. O mercado democrático. O mercado tecnológico, industrial, comercial, político, cultural suscitou dezenas de ditadores implícitos que lhe fazem as vontades, o aperfeiçoam e, em nome dele, ditam normas e princípios, e proferem ameaças protegidos pela única verdade que só eles compreendem e detêm. Só os imbecis e os ignorantes não a aceitam.
Cada ditador implícito usa a retórica que mais lhe convém, seja de direita ou de esquerda ou de centro sem alterar a coluna vertical do Sistema divino e religioso do mercado. Sua missão é estimular o crescimento econômico ao infinito, refletido nos números do PIB que a vestal estatística prepara nas noites de orgia matemática.
Para um ditador implícito não importa o número de partidos políticos. Ele tem a receita e a dose para dopá-los. Os favores do poder se fragmentam em nacos compartilhados com os bajuladores de plantão que se embriagam com as honrarias e os honorários e estão dispostos a perder a pele para salvar o ditador.
O ditador dita o que é bom para o pobre e para o rico. O ditador não vê, não ouve e não sabe o que se passa a seu redor. Ditador implícito não assume nenhuma responsabilidade, sequer das idiotices e imbecilidades que vomita ao público boquiaberto.
A pior das ditaduras é a democrática que sustenta um sistema invisível e é ratificada na urna eletrônica. Mas não tenha medo de ser feliz, caro cidadão. A esperança é uma das forças que impulsionam o ser humano a arriscar na bolada da sorte. Também chamada virtude cardeal e não desiste nunca.
O mundo da política foi mudando. Ditadura fechada, ordens verticais, disciplina militar do marcha soldado não se entendem com evolução tecnológica, velocidade da informação, TV, telefone celular, correio eletrônico. A sociedade se encheu de hackers mercenários. Nem a União Soviética nem a China resistiram à investida do Sistema cuja arma atômica é o mercado. O mercado democrático. O mercado tecnológico, industrial, comercial, político, cultural suscitou dezenas de ditadores implícitos que lhe fazem as vontades, o aperfeiçoam e, em nome dele, ditam normas e princípios, e proferem ameaças protegidos pela única verdade que só eles compreendem e detêm. Só os imbecis e os ignorantes não a aceitam.
Cada ditador implícito usa a retórica que mais lhe convém, seja de direita ou de esquerda ou de centro sem alterar a coluna vertical do Sistema divino e religioso do mercado. Sua missão é estimular o crescimento econômico ao infinito, refletido nos números do PIB que a vestal estatística prepara nas noites de orgia matemática.
Para um ditador implícito não importa o número de partidos políticos. Ele tem a receita e a dose para dopá-los. Os favores do poder se fragmentam em nacos compartilhados com os bajuladores de plantão que se embriagam com as honrarias e os honorários e estão dispostos a perder a pele para salvar o ditador.
O ditador dita o que é bom para o pobre e para o rico. O ditador não vê, não ouve e não sabe o que se passa a seu redor. Ditador implícito não assume nenhuma responsabilidade, sequer das idiotices e imbecilidades que vomita ao público boquiaberto.
A pior das ditaduras é a democrática que sustenta um sistema invisível e é ratificada na urna eletrônica. Mas não tenha medo de ser feliz, caro cidadão. A esperança é uma das forças que impulsionam o ser humano a arriscar na bolada da sorte. Também chamada virtude cardeal e não desiste nunca.
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